A Nova Casa
1 Único
Notas iniciais
1
A casa nova de fato só poderia ter sido escolhida por seu marido, Helena pensou enquanto estacionavam em frente ao imóvel. Era simples, pintada em cores neutras, com pedrinhas na entrada em vez de um jardim verde e com um portão de madeira nas mesmas cores monótonas da casa. Dois andares e muito mais espaço, porém, faziam a monotonia externa valer a pena. O lugar tinha sido colocado à venda por um preço obscenamente baixo, e Lucas não precisou de mais do que meia dúzia de palavras para convencê-la a se mudar. Depois que fora promovido em seu emprego, era só nisso que Lucas falava. Mudar de ares, sair do pequeno apartamento onde todos tinham que dividir o mesmo banheiro com uma só pia e espaço suficiente para só um ser humano adulto por vez.
Helena respirou fundo antes de abrir a porta, dando espaço para a filha também deixar o pequeno Ford Ka com apenas duas portas. Marina parecia relutante, mas era de se esperar que uma criança fosse ficar assim. Marina pensava que talvez agora ela pudesse adotar um cachorro, já que o espaço não seria mais um problema, pensava também na leve sensação de desconforto que sentia. Não desconforto físico, ela não precisa ir ao banheiro, nem estava cansada da viagem, já que o antigo apartamento em que viviam ficava há apenas vinte minutos dali. O mal estar vinha de um lugar onde os instintos ficavam, algo mais visceral que a menina com seus poucos nove anos não conseguiria descrever se precisasse. Mas Marina nem mesmo tentou descrever, não ousou dizer qualquer coisa em voz alta, tinha medo do que seus pais diriam ou, pior ainda, do que pensariam e não diriam a ela.
A menina achou a casa sem graça, de uma cor creme que era quase triste e sem nenhum vestígio de algo verde, nem mesmo uma pequena árvore. Claro que aquele quintal era melhor do que quintal nenhum, que era o que ela tinha antes, e, segundo ouvira os pais conversarem, agora ela teria um quarto grande e espaçoso. Queria estar mais animada, mostrar aos pais entusiasmo, mas era difícil com aquele mal estar vagando ao redor dela, se insinuando em sua mente antes de qualquer pensamento sobre a casa. Nove anos de vida não provinham ninguém com a capacidade de ignorar sentimentos como aquele, e afastá-los para cantos profundos da mente, como os adultos faziam tão bem. Mas Marina, que já tinha passado por mais coisas do que se espera que uma criança tenha passado, possuía seus métodos para lidar com desconfortos como o que a casa lhe transmitia, muitas vezes melhores e mais eficientes do que simplesmente ignorá-los.
Saíram do carro e passaram pelo portão de madeira. Lucas estava radiante, orgulhoso de si mesmo e da compra que fizera. Um roubo com certeza, uma oportunidade de uma vida. O lugar era perfeitamente adequado, grande e tão bem localizado quanto ela poderia querer. Estava há meros 25 minutos de seu trabalho, o centro da cidade ficava à distância de uma caminhada e estava numa rua sem nenhum prédio, apenas casas. Um luxo. Helena parecia satisfeita, Marina parecia um pouco nervosa. Esperava que a filha fosse ficar assim, mas quem sabe pudesse melhorar o seu humor mais tarde sugerindo que adotassem um filhote, já que agora tinham o espaço.
2
Marina foi a última a entrar, ficou parada em frente a porta aberta, observando a pequena sala, que era o primeiro cômodo visível da casa. De um de seus ombros pendia uma mochila roxa cheia de flores amarelas onde carregava alguns livros e seu bicho de pelúcia favorito, um pinguem que era quase do tamanho de seu braço.
A menina deu o primeiro passo para dentro da casa, ouvindo a madeira ranger sob seu peso. A casa era claramente antiga, como naquele programa que sua mãe assistira no TLC sobre casas dos anos 80. A madeira usada na maior parte da mobília, e no roda pé, era escura. Nas paredes uma tinta branca descascava em alguns pontos onde a umidade se acumulou. Logo ao lado da sala havia um corredor que levava até a cozinha, e logo ao lado dele estava a escada. Marina andou cautelosamente até a cozinha. A meio caminho do corredor havia uma porta que dava para uma espécie de depósito sob os degraus. Parecia uma casa antiga, cheirava a casa antiga, como se até mesmo o ar ali dentro estivesse suspenso em uma linha de tempo completamente diferente da de Marina.
—O lugar é ótimo. — Helena disse, passando uma de suas mãos pela bancada de mármore na cozinha — É tão grande.
— Duas vezes a metragem da nossa antiga cozinha, eu chequei. — Lucas emendou, parecendo muito satisfeito consigo mesmo.
O espaço era de fato muito maior do que o antigo cubículo onde a garota via seus pais conversarem toda manhã.
—Vamos ter que tirar esses eletrodomésticos e colocar os nossos, é claro. — Helena comentou, abrindo a geladeira amarelada, enferrujada nas bordas. Lá dentro as grades tinham sido retiradas e sobrara só um amplo espaço vazio.
O pai concordou. Dali alguns minutos o caminhão com os aparelhos, móveis e as caixas onde eles guardaram os demais pertences chegaria. Marina aproveitou o tempo para subir as escadas e conhecer seu novo quarto. A sua porta era a que ficava no fim do corredor. Muito parecido com o corredor lá embaixo, o do segundo andar contava com uma cômoda empoeirada onde um telefone de linha repousava. A madeira do assoalho continuava a protestar e a garota tinha certeza de que se ela resolvesse algum dia perambular pela casa a noite, acordaria seus pais.
A sensação de aflição se fortalecia a cada passo que Marina dava em direção a seu quarto. Ela tentava identificar a origem daquele sentimento, recordando algo que ouvira há muito. Se você achar a fonte dessa sensação, qual pensamento te levou até ela, pode tentar racionalizar, dizer a si mesma que não havia nada ali que pudesse causar o desconforto. Mas ela não conseguia pensar em um único motivo.
Estava cansada pela mudança?
Talvez, mas já estivera muito mais cansada, muito mais estressada, e não se sentira daquela forma.
Não gostara muito da casa nova?
Não, mas não era a estrutura física que a incomodava.
Abriu a porta de seu novo quarto. Era realmente muito maior que o antigo, tinha uma grande janela a direita, e uma outra porta que levava a um banheiro. Aquele fora um dos pontos que Helena ressaltou com demasiada alegria. “Cada quarto tem seu próprio banheiro, não é ótimo? Ninguém vai precisar esperar”, ela disse, com olhos brilhantes de animação. Toda manhã, no apartamento onde viviam, uma fila se formava em frente a porta do banheiro. O pai se barbeava, Marina tomava banho, Helena precisava usar o banheiro por essa ou aquela razão. Uma dança de entra e sai, onde, infelizmente, cada integrante da família se movia em um compasso diferente.
O que não seria mais um problema, a casa tinha dois banheiros e um lavabo (que Marina logo entendeu, significava “banheiro incompleto).
No cômodo havia um velho armário, uma cama de casal tamanho queen, e um tapete que cobria quase o assoalho inteiro. Estava tudo muito sujo e, por culpa do Sol que entrava sem impedimentos pela janela, era possível ver as partículas de sujeira voando pelo ar. Aquela casa era quase uma máquina do tempo.
Ainda parada na porta, Marina sentiu a ansiedade vindo em ondas cada vez maiores. Aquele maldito sentimento, agora causado pela aflição, era um velho conhecido seu, que ela gostaria de dizer que nunca mais a visitaria. Mas lá estava ele, acelerando seu pobre coração e fazendo tremer de leve suas mãozinhas. A garota parou e respirou fundo e soltou o ar vagarosamente. Fez isso um par de vezes e aflição esmagadora pareceu ceder por um momento, e então se desfez. Marina soltou um longo suspiro, finalmente decidindo entrar no quarto.
Uma buzina lá fora alertou a chegada do caminhão da mudança, Marina virou as costas para seu novo quarto, descendo as escadas dois degraus de cada vez.
3
No fim do dia, quando metade da mudança já tinha sido feita, e tanto Helena quanto Lucas e Marina estavam cansados de tirar objetos de caixas. A mulher decidiu que era hora de se sentar em frente a recém-instalada TV e assistir um filme. Os três se espremeram em um sofá de dois lugares, com um cobertor felpudo jogado sobre as pernas.
Os ratinhos da Cinderela cantavam e faziam um vestido enquanto Helena e Lucas deslizavam para um cochilo que só adultos de verdade conseguiam tirar, daqueles com direito a boca aberta, cabeça jogada para trás e um roncar bem leve e baixo. Marina foi deixada, ao menos em espírito, sozinha. A sensação de desconforto ainda não voltara, e a ansiedade parecia ter dado uma trégua. Ela tentou se concentrar no filme, que embora não fosse nem de longe seu favorito, era melhor do que qualquer outra coisa que estivesse passando.
Cena após cena, Marina começou a sentir seus olhos pesarem e o cansaço tanto físico quanto mental a abateram. Os quartos tinham sido limpos as camas instaladas, bem como os chuveiros em seu banheiro e no dos pais. Se desvencilhando de Helena e Lucas no sofá, Marina subiu as escadas com cuidado para não acordá-los, e seguiu para a cama. No dia seguinte ela teria que ir a escola, que felizmente continuava sendo a mesma de antes, só um pouco mais longe. Andou no corredor na ponta dos pés e entrou em seu quarto.
Da primeira vez que oficialmente entrara ali, há não mais do que cinco horas, estivera acompanhada pela mãe e o pai. Ambos carregavam seu colchão, e logo atrás deles vinha o pessoal com o esqueleto da cama e o armário de seu antigo quarto. Depois que terminaram de colocar os móveis em seus devidos lugares, a menina e os pais desceram para desempacotar as várias caixas com bibelôs, panelas, porta-retratos, livros e etc. Não voltara para o quarto até aquele momento.
Estava prestes a dar um primeiro passo relutante para dentro quando ouviu a madeira gemer lá embaixo, certa de que seus pais estavam subindo. Pé depois de pé, cada degrau rangeu e protestou e o som se aproximou, Marina estava pronta para virar-se e dar boa noite a seus pais, mas não viu nada. Quando o som alcançou o topo da escada, parou. Marina sentiu a pele gelar, e sem pensar duas vezes, jogou-se para dentro de seu quarto e fechou a porta.
Não era sua avó quem dizia que casas com madeira fazem barulhos assim? Ela nunca vivera em uma casa com assoalho de madeira, o chão do antigo apartamento era de piso e você poderia pular o quanto quisesse, mas não tiraria nem um minúsculo som da cerâmica. Seu coração voltou a acelerar, e mais uma vez Marina recorreu ao exercício de respiração. Respire fundo, segure, solte o ar devagar. Respire fundo, segure, solte o ar de vagar. Respire fundo….
Mais sons de rangido. Marina segurou a respiração por muito mais tempo, mas então ouviu a voz grogue de seus pais. Batidas a sua porta.
—Já foi dormir querida? — Helena perguntou enquanto abria a porta.
Marina tentou caminhar o mais casualmente possível em direção a cama.
—Estou indo agora. — Respondeu, subindo no colchão e jogando as cobertas sobre si.
—Boa noite meu anjo. — Helena se aproximou, puxou as cobertas mais para cima, quase tampando o rosto da filha, beijou sua testa, lhe entregou o pinguim e se foi. Logo depois Lucas apareceu, acendeu a luz de tomada ao lado da cama e se foi, apagando a lâmpada sobre a cama.
Marina ficou observando o teto, o sono que se acumulara tinha se esvaído. Ouviu quando os pais entraram em seu quarto, cada passo que davam criava uma sinfonia de rangidos. Mas assim que subiram na cama o silêncio foi quase total. Marina ficou esperando por um longo tempo que aquele silêncio fosse quebrado, mas nada se mexeu, e ela eventualmente caiu no sono.
4
Um dia ensolarado se insinuava pela janela do carro. Helena e Lucas pareciam muito felizes, rindo de algo que conversavam. Era um daqueles dias perfeitos, em que até o ar fica mais leve e a realidade parece algo tirado de um comercial de margarina. O carro rodava pela rodovia rumo a praia. Tio Marcelo e a tia Vitória vinham logo atrás com Diego e Murilo, seus filhos.
Marina estava tão feliz, batia os pezinhos nervosamente, queria chegar logo a praia. Mal podia esperar para montar castelinhos de areia, cavar buracos, encher seu baldinho, usar o rastelo. Seu pai falou em ensiná-la a nadar, mas a mãe protestara dizendo que ela era muito jovem ainda. Mas aquilo não importava, fosse como fosse, o dia seria ótimo, cheio de sol, picolés e a comida que fora empacotada. A garota estava radiante, olhando a paisagem, os carros que passavam como borrões.
Assim que chegaram a praia, Marina pareceu estasiada com a visão do longo tapete de areia, e a extensão infinita do mar azul. Helena era um pouco mais fina, usando um maiô fora de moda, e Lucas era mais encorpado e o cabelo no topo de sua cabeça não tinha começado a rarear ainda. A garota tinha perninhas mais curtas, quatro anos mais curtas para ser exata. Perninhas que se agitaram assim que entraram em contato com o chão. Helena pediu em sua voz aguda e doce que a filha esperasse, e Lucas começava a retirar a parafernália de dentro do porta-malas.
Tio Marcelo e tia Vitória pararam logo ao lado. Diego era um ano mais velho que Marina e parecia tão agitado quanto ela. Murilo já tinha 12 anos, e estava com uma cara emburrada de quem não queria ter vindo.
—Ele nunca quer largar o videogame. — Vitória disse a via de desculpa.
Apressaram-se em achar um bom lugar na praia que, com certeza encheria num dia daqueles.
Helena e Vitória estenderam suas toalhas e ficaram conversando viradas em direção as crianças que brincavam. Marcelo e Lucas foram em direção ao mar para nadar. Os irmãos tiveram aula de natação desde os onze anos, e era por isso que Lucas estava confiante de que poderia ensinar sua filha. Marina brincava com Diego, os dois cavavam buracos e jogavam a areia dentro de seus baldes, rindo e se divertindo, molhando a areia e a deixando de variadas formas. Murilo estava sentado na cadeira de praia com um livro em mãos, sumariamente ignorando tudo e todos ao seu redor.
Lucas saiu do mar e foi em direção a filha, pegando-a no colo e perguntou se ela gostaria de aprender a nadar. Marcelo fez o mesmo com Diego, mas ambas as mães pareceram contrariadas. “Tomem cuidado, por favor”, pediram as duas, enquanto viam seus maridos descerem de volta pra a água, carregando filhos risonhos e felizes.
A água estava uma delícia, fresquinha, as ondas vinham calmas, vez ou outra um pouco maiores, empurrando os pais e as crianças. Marina batia os pés e as mãos como Lucas instruía, ele a segurava a meio caminho da superfície da água.
Estava tudo perfeito.
E logo não estava mais.
Um segundo de distração, e tudo que Marina conseguia ver e sentir era a água ao seu redor, que ia crescendo e crescendo conforme a luz se tornava distante. Ela tentava bater as pernas, tentava seguir o que seu pai lhe dissera, mas era como se não conseguisse sair do lugar. Via sombras na superfície se moverem agitadas, e ouviu o som distante de algo mergulhando. Seu corpo pesava, engolira tanta água e seu nariz ardia. Estava tão frio, horrivelmente congelante e seu corpo dava espasmo e tremia. Nunca sentira nada como aquilo antes, o desespero cru da impotência. Sua consciência escorregou, assim como ela mesma, para as profundezas.
A garota acordou de uma só vez, sentando-se ereta na cama. Afastou as cobertas e viu, com alívio, que não molhara o colchão. Respirou fundo encarando seu quarto semi-iluminado pelo Sol. Ouviu o barulho dos passos na madeira e soube que seus pais já estavam acordados.
O pesadelo voltara, depois de um ano de paz, ele voltara. Marina começou a debater se deveria ou não contar isso aos seus pais.
5
Lucas não poderia ter dormido melhor. O cansaço da mudança adicionado a deliciosa sensação de que agora tudo estava finalmente se encaixando em cada pequeno eixo, o embalaram num sono tranquilo e restaurador.
Quando acordou, escolheu de seu novo armário, em seu novo quarto, uma de suas velhas camisetas de abotoar brancas, e uma de suas velhas calças jeans de lavagem clara.
Desceu as escadas ouvindo os rangidos da madeira, cogitando fazer algo que abafasse o som. De certa forma ele gostava dos barulhos que a escada fazia, o lembravam um pouco da infância passada na casa de seu avô, um casarão de madeira que rangia e chiava e parecia inspirar durante a noite e expirar pela manhã. Chegou até a cozinha onde colocou o café para fazer, e resolveu sair para achar uma padaria próxima.
Caminhou até o portão em longas passadas, movendo seu corpo altíssimo e magérrimo com uma graça que parecia sobrenatural. A alegria que sentia ia muito além das razões óbvias. Estava feliz também porque já fazia um tempo que Helena relaxara de seu antigo estado de constante tensão, e porque Marina havia muito não dava sinais de recaída. Queria acreditar que o incidente na praia não tinha acompanhado a família nessa nova fase. Não um novo capítulo, como gostavam de dizer, mas uma história completamente diferente.
Alcançou o portão e foi lá que notou a presença de outra pessoa. Muito mais baixo que Lucas, e exibindo uma barriga de cerveja considerável, um homem que caminhava em direção ao seu portão sorria.
—Então você é o novo vizinho. — Disse, estendendo a mão — Eu sou Vitor Fernandes.
—Lucas Oliveira. — Respondeu Lucas, devolvendo o aperto um pouco surpreso pela cordialidade.
— Vi quando o caminhão chegou ontem. Se precisar de ajuda com a mudança, é só me chamar. Moro logo ali. — Apontou para a pequena casa de madeira com um quintal também cheio de britas — Faz algum tempo que não vemos um rosto novo por aqui. — Mais uma vez Lucas se surpreendeu com a amabilidade, que considerava extinta em qualquer lugar que não fosse nos livros de época que as vezes Helena lia.
—Pode deixar, vou chamar sim, obrigada. — Disse, e pensou em parar por ai, mas de alguma forma, toda aquela hospitalidade o inspirou a ser também, um pouco mais extrovertido e falante — Sabe onde posso achar uma boa padaria por aqui? — Sorriu um sorriso de dentes um pouco tortos e amarelados pelo tempo em que fumou.
—Eu estava indo até a padaria agora mesmo, não consigo passar sem um pão caseiro pela manhã, e o que eu tenho acabou. Se quiser me acompanhar.
Lucas mal podia acreditar que fizera seu primeiro “amigo vizinho”. Caminhou com Vitor até uma pequena padaria de esquina, onde comprou bolo e pães. Se sentiu ainda mais orgulhoso por ter achado aquela casa.
6
Marina rolou na cama até que sua mãe bateu à porta. Parecia que horas haviam se passado desde que acordara, mas segundo o relógio, que marcava exatas sete horas, só estava acordada há dez minutos. Sua nuca ainda estava úmida de suor, e se ela se mantivesse bem parada, sentiria que as extremidades das mãos e pernas tremiam levemente. No andar de baixo seu pai anunciou que já estava indo trabalhar, ao que Helena respondeu com uma despedida rápida. A garota saltou para fora das cobertas, agradecida pelo ar frio que foi de encontro ao seu corpo. Desceu as escadas sem atinar para os arredores de sua nova casa, andou até a cozinha e sentou-se de fronte para o café da manhã que seu pai havia comprado.
—Você está bem? — Helena perguntou, entregando-lhe uma xícara. A mulher estava enrolada em um cardigã cinza que chegava até seus joelhos, e usava seus gigantescos óculos, que ela só colocava quando não estava disposta a usar suas lentes. A armação cobria suas sobrancelhas, a deixando com uma eterna expressão de espanto.
Marina apenas acenou que sim, servindo-se do café recém-passado, e cortando um pedaço de bolo.
—Depois vá tomar um banho rápido, vamos demorar mais a chegar no colégio hoje. — Sempre que o horário não permitia que Lucas a levasse de carro, era Helena com sua bicicleta, quem levava Marina.
Novamente Marina assentiu, não sentia vontade de falar, e a mãe pareceu perceber. Se aproximou da filha com uma xícara de café na mão e beijou-lhe o topo da cabeça, bagunçando o cabelo já desarrumado.
Assim que terminou seu pedaço de bolo e sua xícara de café, Marina subiu até seu quarto, que parecia anormalmente mais gelado do que antes. Foi em direção ao banheiro de ladrilhos azul-claro e cujo o chão fora decorado com um tapete felpudo cinza e redondo. Marina largou o pijama de qualquer jeito no chão e entrou no box rapidamente, querendo fugir do frio que a envolvia. Girou o registro de uma só vez, esperando para ajudar a temperatura da água. Afastou-se do primeiro jato que caiu, sentindo com a mão se a temperatura estava boa. Parecia que sim, quente ao ponto de escaldar era seu tipo de banho favorito. Esperou ainda mais alguns segundos antes de se colocar embaixo da água.
Encharcou os cabelos e estava prestes a alcançar o xampu, quando ouviu um som. A princípio baixo e discreto, que parecia vir diretamente do chuveiro. Um lamento, um cachorro chorando na distância. Marina estacou, seu braço ainda estendido em direção ao xampu.
Logo o som foi se tornando mais alto, ao lamento se juntaram gemidos, sons de sofrimento e dor de várias vozes. Pareciam vir do chuveiro, uma caixa de som do inferno. Humanos e animais, ópera dos horrores, choravam e se batiam e se afogavam no que parecia uma dor infinita. Se afogavam. E Marina não conseguia sair, estava presa as vozes, olhando fixa para os furinhos do chuveiro que despejavam sua água quente e todas aquelas vozes. Ela tentou fechar os olhos, mas não conseguiu, tentou tapar os ouvidos, mas seus braços não se mexiam. Sentia as lágrimas começarem a se misturarem as gotas de seu banho.
O som aumentava cada vez mais, um crescendo que tomava conta de todo o abafado ambiente. Aos sons de dor se somaram sons de engasgo, alguém engasgava e cuspia e engasgava novamente, e as outras vozes continuavam sua lástima. O pequeno espaço do box pareceu diminuir, e diminuir, conforme o calor e sons iam preenchendo o ambiente.
E então, como vieram, as vozes pareceram voltar para o chuveiro. E o silêncio foi de tão grande e aterrador que Marina conseguiu em fim se mexer, desligar a água que corria, e sair do boxe, caindo em seu tapete felpudo, soluçando um choro tão forte que não emitia som algum.
7
Depois de vinte minutos, Helena começou a ficar preocupada que Marina fosse se atrasar para o colégio. A mulher subiu os degraus, ouvindo a madeira cantas sob seus pés. Ela ia conversar com Lucas sobre fazer alguma coisa para abafar aquele som, era horrível.
Entrou no quarto da filha sem bater, certa de que a menina ainda estava embaixo do chuveiro gastando rios de água escaldante. Foi direto para a outra porta, onde deu três batidas decididas.
—Anda logo Marina, você vai chegar atrasada. — Disse em seu melhor tom de comando, que, se ela fosse sincera consigo mesma, saberia que não tinha efeito algum sobre a filha ou o marido.
Como não ouve resposta do outro lado, e, quando ela escutou bem, teve certeza de que o chuveiro estava desligado, Helena bateu mais três vezes, mais rapidamente. Novamente nenhuma resposta. Encostou seu ouvido sobre a madeira da porta, e para seu alarde ouviu pequenos soluços vindos do outro lado. Voltou a bater, agora em completo desespero, chamando pelo nome da filha, implorando para que ela abrisse. Estava quase a ponto de tentar derrubar a porta, o que esperava não ser difícil com aquela madeira antiga, Marina destrancou a trava.
Enrolada em sua toalha da Hello Kitty, a menina tremia dos pés a cabeça. Estava molhada, mas não o suficiente para ter acabado de sair do banho. Os olhos estavam vermelhos e inchados, mas ela não chorava, apenas convulsionava de tempos em tempos em soluços muito fortes. Helena tratou de envolvê-la em um abraço, secando com a ponta da toalha os braços e rosto da menina. Ainda sem fazer perguntas a levou até a cama, e fez com que ela se sentasse. Escolheu qualquer roupa do armário e vestiu a filha. Fez com que ela abraçasse seu pinguim. Só quando Marina parecia seca e confortável, agarrada com todas as forças a pelúcia, foi que ela se ajoelhou em frente a menina e perguntou:
—O que foi que aconteceu? — Marina encarava um mesmo ponto fixo no chão, e não parecia interessada em olhar para mãe, ou responder.
Ainda aterrorizada com o que acontecera, Marina não estava totalmente consciente da presença de Helena. Ouvira sua voz, mas parecera algo terrivelmente distante. Tudo que via a sua frente eram borrões, formas distorcidas pelas lágrimas que ela acumulara. Seu coração batia desgovernado, e a respiração ia e vinha rápida e insuficiente. Apesar de seca se sentia gelada, e o frio anormal de seu quarto em nada ajudava as ondas de calafrio que iam e vinham pelos seus braços e pernas.
Helena chamou pela filha três, quatro, cinco vezes. Marina estava catatônica. A mulher segurou o rosto da filha com a maior delicadeza que conseguiu, e a fez virar-se para ela. Não gostou nada do abismo que eram os olhos da filha no momento, olhos de vidro em um rosto de boneca.
—O que foi que aconteceu? — Perguntou mais uma vez, numa voz suave e reconfortante.
Pouco a pouco Marina foi se acalmando. Respirou fundo e soltou devagar um par de vezes, e finalmente olhou a mãe nos olhos. Não poderia inventar nenhuma história, não conseguiria, nem mesmo se quisesse, mentir. Então contou a verdade.
8
Helena precisava de um copo de vinho. Quando Marina terminou seu relato, tudo que a mulher queria era uma taça cheia de vinho suave, docinho e agradavelmente alcoólico.
Vozes chorando num chuveiro, ela dissera, pessoas sofrendo muito, e elas se engasgavam e choravam e suplicavam e gritavam de agonia.
Só uma tacinha e talvez ela se sentisse mais preparada para lidar com aquilo.
Tirou a ideia da cabeça e observou a filha que não parecia estar inventando nada daquilo, o que talvez só fizesse a situação algumas milhares de vezes pior. Helena quis acreditar que Marina estava totalmente curada do trauma de infância. Fazia bons dois anos que ela não demonstrava nenhuma aversão a água. Vinha tomando seus banhos normalmente, passava os dias chuvosos vendo TV ou desenhando, ou lendo como qualquer criança entediada num dia de chuva. Fora praias e piscinas (ou qualquer lugar com um acúmulo de água muito grande), a garota mostrava grandes sinais de melhora. Nada comparado aos primeiros anos após o trauma, onde até mesmo uma goteira era o suficiente para deixá-la a ponto de uma crise. E agora aquilo. Alucinações dentro do banheiro. Por um segundo Helena se perguntou se aquele não seria um evento completamente diferente. Se os anos de estresse por culpa da fobia tivessem culminado em alguma outra forma de distúrbio mental.
— Certo. — Ela consegui articular, pensando em qual seria a melhor maneira de prosseguir — Acho que você vai ficar em casa hoje. — Foi o que conseguiu dizer, subitamente se sentindo ainda mais cansada. A taça de vinho não deixava a sua mente.
—Não. — Marina disse rapidamente. — Eu quero ir. — Acrescentou. Queria ficar longe do banheiro, longe de seu quarto, longe daquela casa. A sensação ruim voltara e agora ela tinha uma razão, não era só uma impressão.
—Mas querida….– Helena começou.
—Por favor. — Os olhos de boneca ganharam vida outra vez, e suplicavam para serem atendidos.
Os ombros de Helena cederam, e ela apenas acenou que sim.
—Se arrume então. Você vai chegar atrasada e eu vou falar com a diretora, não posso simplesmente te largar lá assim.
Marina concordou e começou a se arrumar, a expectativa de passar algumas horas fora agiu como um potente motivador.
9
Marina conseguiu pegar a aula de matemática pela metade e Helena foi conduzida até a sala da diretora. Conhecia a mulher apenas das reuniões que frequentara, e nunca tinha de fato trocado palavra alguma com ela. Sentou-se de frente para Elisabete, cujo cabelo estava encaracolado em cachos perfeitos, e o rosto vincado em todos os lugares possíveis onde uma vida longa poderia tê-lo vincado. Beirava os 66 anos e tinha um sorriso amistoso em seu rosto quando recebeu aquela mãe, que parecia aflita.
Nos primeiros meses depois do acidente, Marina teve que seu ausentar do colégio, a diretora na época era uma mulher carrancuda e tão alta que parecia capaz de intimidar qualquer um apenas se aproximando. A situação de Marina foi explicada, e as medidas cabíveis na época foram tomadas. Mas conforme o tempo foi passando, Marina foi melhorando e a escola passou por mudanças de pessoal, Helena não tinha mais certeza de quem sabia do ocorrido ou não. Então ela se pôs a falar. Contou tudo desde do início na praia até o ocorrido daquela manhã.
Elisabete escutou tudo com calma, puxou um histórico de Marina no computador do colégio e confirmou a história da mãe. Elis tinha dois filhos, mas só podia imaginar o nervosismo e a preocupação que Helena sentia, nunca passara por nada assim em sua vida como mãe. Garantiu a Helena que colocaria uma das monitoras para acompanhar Marina, e, que se a situação exigisse, ela poderia estudar em casa. Pediu o novo endereço da família, para atualizar o cadastro de Marina, e Helena achou ter visto, apenas de relance, um brilho de surpresa passar pelos olhos de pálpebras caídas de Elisabete.
Quando deixou o colégio, puxou o celular e ligou para o Marido, não queria distraí-lo no meio do trabalho, mas sentiu que aquela situação configurava como uma emergência. Não deu todos os detalhes, esperaria para contar tudo quando estivessem só os dois, e ela tivesse tomado sua taça de vinho.
10
Assim que chegou em casa, Helena se sentiu mortalmente cansada. Foi até a cozinha, e pegou a garrafa de vinho que mantinha longe do alcance de Marina. Sentou-se no sofá e bebeu sua taça de recompensa, sentindo o calor descer por sua garganta e se alojar agradavelmente em seu estômago. Quando finalmente sentiu a cabeça um pouco mais leve, e a realidade um pouco mais fácil de se lidar, subiu os degraus até seu quarto, ligou a TV em qualquer canal, e resolveu que merecia um cochilo matinal. Nem parecia que estava acordada há apenas duas horas e meia, sua mente e corpo pareciam ter funcionado durante um dia inteiro. Dormiu embalada por um programa de variedades, os óculos escorregando para a cama. Não sonhou com nada, e o sono foi pesado.
Acordou sobressaltada, a cabeça pesava e sua boca estava terrivelmente seca. Sentou-se na beirada da cama, esfregando o rosto com as mãos. O mundo ao seu redor era uma mancha desforme. Procurou pelos óculos, mas não os encontrou ao seu redor. Poderia jurar que o estava usando antes de cair no sono. Tentou olhar ao redor, tateou o chão, mas não encontrou nada. Dando de ombros, achou que seria melhor pegar suas lentes. Levantou-se e começou a caminhar em direção ao banheiro, foi quando um vulto passou no corredor.
—Lucas! — Ela chamou, olhando para o vão da porta, mas não houve nenhuma resposta.
Com o coração acelerado ela foi até o banheiro. Abriu o pequeno armário, onde ela tinha deixado suas lentes na noite anterior, mas para sua surpresa, não as encontrou lá. Nada das lentes, nem da solução que ela usava para limpá-las. Era impossível, Helena tinha certeza que deixara a caixa com as lentes no armário, lembrava-se de tê-las tirado na noite anterior, guardado tudo e pego seus óculos no criado-mudo. Sabia que nem Lucas nem Marina as teriam tirado do lugar, eles nunca tocavam em suas lentes.
Helena se sentou no vaso, apoiando a cabeça nas mãos. Teria sido ela quem as movera do lugar? Será que na excitação da mudança e o cansaço a fizeram imaginar que tinha tirado as lentes. Pensou em olhar no andar de baixo, quem sabe não as tivesse deixado no lavabo.
Com todo cuidado ela saiu do quarto, desceu as escadas e foi até o pequeno banheiro. Antes que pudesse abrir a porta porém, Helena ouviu o som da madeira rangendo na escada. Virou-se na direção do som, o coração agora parecia pulsar dentro de sua cabeça. Não ousou perguntar se tinha alguém ali, apenas entrou no lavabo e trancou a porta.
Os sons na escada pararam, e foi a vez da madeira no corredor rilhar. Quem quer estivesse lá fora, caminhou a passos demorados, vindo em direção a porta do lavabo. Helena estava parada, imóvel a poucos centímetros da porta, as mãos postas sobre o peito, os olhos apertados tentando enxergar. As mãos geladas começavam a tremer e seus joelhos pareciam prestes a ceder sob seu peso. Quando os passos alcançaram a porta, pararam. Um único baque seco fez tremer a porta, levando a mulher a trepicar até cair sobre a parede atrás dela. Helena não gritou, mas sua boca estava aberta em uma expressão de terror.
A descarga de adrenalina do momento a fez agir. Quase arrancou a porta frágil do armário do lavabo. Lá dentro estavam não só as lentes e a solução limpante, mas também seus óculos. Naquele momento Helena nem considerou a impossibilidade da situação, apenas encaixou a armação em sua cabeça e se aproximou da porta, encostando seu ouvido sobre a madeira. Nada. O silêncio era de alguma forma, ainda pior.
Levou mais quinze minutos até que Helena realmente deixasse o lavabo. Saiu da casa e foi se sentar no meio-fio da calçada, esperando que a hora de ir buscar Marina chegasse. Só quando Lucas aparecesse entraria na casa de novo.
11
Lucas estava perplexo. Chegara em casa e não só encontrou a mulher e a filha sentadas no meio fio, como logo em seguida foi atingido por uma torrente de acontecimentos. Quanta desgraça poderia acontecer nas poucas horas em que ele saia para trabalhar? Muita, aparentemente. Ouviu sua mulher falar primeiro da filha, de como teriam que ligar para o psiquiatra mais uma vez, depois a mulher falou de um possível intruso na casa, disse que suas coisas tinham sido tiradas do lugar. Será que era tão difícil assim passar pelo menos uma semana de tranquilidade?
Procuraram pela casa toda, Marina em seu encalço, tão assustada quando Helena. Não encontraram ninguém.
Helena estava agarrada a filha na mesa da cozinha. Tinham pedido marmitas de um restaurante ali perto, e aguardavam em silêncio a chegada da comida. Lucas ainda digeria tudo que tinha ouvido, e não estava com muita fome. O homem olhava a mulher e a filha, Marina tinha o olhar perdido num horizonte invisível, já a tinha visto assim várias vezes, odiava quando a menina ficava assim. Helena estava quase alerta, os olhos bem abertos como se esperasse ser atacada a qualquer segundo. Pensou se não seria melhor chamar a polícia, mas desistiu da ideia, não tinha achado ninguém na casa, nada fora roubado.
Quando a comida chegou, comeram em silêncio. Cada pequeno som de estalo que a madeira fazia, era o suficiente para agitar tanto Helena quanto Marina. Lucas deixou metade da comida. A cada pequeno susto que as duas levavam, a comida ia ficando mais intragável. Assim que a hora dele voltar ao serviço chegou, Helena praticamente se agarrou ao braço do homem.
—Vai ficar tudo bem. — Falou com sua voz mais suave — Se acontecer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, basta me ligar e eu dou um jeito de vir até vocês, tudo bem?
Helena acenou que sim. Lucas deu um beijo na testa da mulher e depois outro na da filha. Parte dele se sentia aliviada por estar deixando a casa, sentimento que ele tentava censurar. Mas sua outra parte estava irrequieta, e queria poder permanecer ali. Não fosse a promoção recém adquirida, ele teria ligado para a empresa onde trabalhava e pedido a tarde de folga.
Deixou filha e esposa na sala, onde Helena disse que ficariam assistindo a um filme. A mulher queria marcar uma consulta com o psiquiatra, mas Lucas pensou se não seria melhor esperar mais alguns dias, ver se aquele caso não fora isolado. A contra gosto Helena aceitou, esperava que o marido estivesse certo.
12
Assim que deixou sua casa em direção ao carro, Lucas foi abordado por Vitor. O homem sorria abertamente, e foi quase reconfortante ver alguém que parecia não ter nenhuma preocupação.
—Boa tarde vizinho. — Disse, apoiando-se no cercado.
—Boa tarde. — Luca respondeu sem um terço do ânimo do outro.
—Está tudo bem? — Vitor perguntou enquanto Lucas passava pelo portão.
Lucas quis mentir, na verdade já estava prestes a dizer que sim, estava ótimo e tudo ia muito bem. Mas não conseguiu, como que impelido por uma força, viu-se contando a verdade.
— Não... — Começou, indo até o Ford Ka estacionando em frente a casa, em vez de entrar, apenas se apoiou na porta — Minha mulher e minha filha tiveram manhãs difíceis. — Confessou quase com constrangimento, como se fosse sua culpa, e apenas sua que Helena e Marina não estivessem bem no momento.
—O que aconteceu? — Vitor parecia tão genuinamente interessado, que Lucas quase começou a chorar. Mal notara a quantidade de tensão e estresse que acumulara em tão pouco tempo.
Olhando no relógio rapidamente, Lucas disse que estava quase atrasado para o trabalho, ao que Vitor assegurou que ficaria feliz em ouvi-lo mais tarde se ele quisesse. Talvez pudesse apresentar sua mulher para Lucas, e tomar algumas cervejas.
— Parece ótimo. — O homem respondeu, entrando no carro—Até mais tarde. — Despediu-se e foi para o trabalho.
13
Chegar em casa foi um alívio. Lucas passou o resto do expediente disperso, olhava o telefone a cada cinco minutos, temendo que Helena pudesse mandar alguma mensagem. Assim que passou pelo portão, tranquilizou-se ao ver a silhueta da esposa e da filha pela janela.
— Como foi a tarde? — Perguntou assim que se acomodaram ele e Helena na cozinha.
— Tranquila. — A mulher disse, tomando chá de uma caneca — Marina veio da escola mais calma, nós assistimos ao filme dos Três Mosqueteiros da Disney e ela quase dormiu no sofá. — Helena suspirou, os óculos se embaçaram na névoa do chá — Você realmente acha que é uma boa ideia esperar? Esse surto foi diferente Lucas, ela teve alucinações, ouviu vozes vindas de um chuveiro.
— Pode ser o estresse pela mudança. A casa é nova, o quarto é diferente. Quem sabe, quando ela se acostumar, isso passe. — Disse com uma confiança que não sentia. Se fosse sincero consigo mesmo, saberia que a sua recusa em voltar a visitar o Dr. Vieira era motivada pelo medo de sua fantasia de casa perfeita e família perfeita e feliz se desfazer. Esperava que a promoção, a mudança de ares, fosse de alguma maneira perpetuar aquela calma que a melhora de Marina trouxe, aquela normalidade tão agradável. Levar Marina ao psiquiatra seria quebrar a normalidade, levá-los de volta aquela época em que ele se sentira tão imensamente culpado.
Helena aquiesceu. Talvez o marido tivesse razão, talvez fosse melhor dar algum tempo para a filha se habituar a nova casa.
Lucas anunciou que daria um pulo no vizinho para conversar, que estaria a apenas um grito de distância, e se qualquer coisa acontecesse era exatamente isso, gritar, que ela deveria fazer. Helena concordou novamente, indo ficar na sala com a filha novamente.
O rapaz deixou sua casa e foi até seu vizinho. A casa de Vitor era de apenas um andar, e parecia muito bem cuidada. Apesar de não ter um jardim, na parte de trás da casa a senhora Marta, mulher de Vitor, arranjara uma série de vasos de plantas.
— Não vai poder conhecê-la hoje, infelizmente. — Vitor disse, enquanto os dois se sentavam na varanda, cada qual com uma cerveja na mão. Anoitecia e o céu límpido formava uma bela paisagem — Ela foi até a casa da irmã, parece que ela adoeceu.
—Espero que não seja nada grave. — Lucas comentou, tomando um gole direto do gargalo. Vitor garantiu que não era.
Seguiu-se o silêncio, e Lucas o entendeu como uma brecha para falar de seus problemas. E embora quisesse amenizar a história, contá-la sob uma luz que não o deixasse ruim, mais uma vez viu sua vontade ser contrariada. Contou sobre tudo, falou a verdade sem floreios. No fim, sentiu-se um pouco cansado, como se tivesse sido um esforço físico contar aquela história.
Vitor não deu sinais de que iria reprimi-lo, apenas acenou em sinal de compreensão.
—Você tem razão. — Ele disse — Deve ser só o estresse pela casa nova, ainda mais se ela tem histórico. Não me surpreenderia se isso passasse em uma semana.
Lucas ficou satisfeito com a aprovação de Vitor, sentiu-se mais seguro de suas próprias palavras. Quando voltou para casa naquela noite, encontrou Helena abraçada a filha. Acordou as duas, e a família foi dormir.
14
Marina ainda encarava uma vez mais a entrada de seu quarto. Sentia o peso dos olhos dos pais em suas costas. Sentia que os tinha preocupado o suficiente aquele dia e queria poder dizer boa noite e ir dormir, mas o que ela realmente queria era perguntar se poderia dormir com eles. Deu o primeiro passo para dentro do quarto, a atmosfera se fechou adensou ao seu redor, e ela quase recuou. Pé ante pé ela caminhou até a cama, a mãe logo veio em seu encalço, perguntar se estava tudo bem e desejar-lhe boa noite. Foi enrolada nos cobertores, beijada na testa, e então a luz foi apagada.
Que dia!
Encarando o teto ela ficou, lembrando tanto do que acontecera no banheiro, quanto repassando em sua cabeça o pouco da história do que acontecera com sua mãe, que ela ouviu enquanto os pais conversavam. Em cada canto mais escuro de seu quarto, ela imaginava uma figura oculta, observando, esperando o melhor momento para atacar.
Puxou a coberta até a altura dos olhos, tapando a visão do resto do quarto. A porta do banheiro estava fechada, tinha se recusado a tomar banho naquele dia. Helena protestou pouco, a filha notou que a mãe estava exausta, e acabou cedendo, o que era um dia sem tomar banho afinal?
Embaixo de suas cobertas, Marina ouvia seu coração bater acelerado em sua jugular. Era um sensação deveras desconfortável aquela, a de ouvir seu próprio coração bater. Como o tique taque de um relógio que você não pode (e nem quer) desligar. No escuro ela permaneceu, e contrariando todas os clichês, era do escuro que ela menos tinha medo. Água tinha sido seu problema, e tinha certeza que seus pais achavam que era disso que ela tinha medo agora. Claro que Marina ainda não gostava de praias nem de piscinas, mas essas eram coisas relativamente fáceis de se evitar. A água que vinha de chuveiros, torneiras, em toneis e coisas do tipo não mais faziam sua pele gelar, sua respiração sair do compasso, suas mão tremerem e sua tez suar um suor frio e incômodo. Ela não esperava que seus pais acreditassem nela, porém. Notara com o tempo que adultos normalmente faziam isso, tentavam achar explicações em coisas que eles já conheciam para se reconfortarem. “Não foi nada esse barulho, é só o cano da cozinha”, “Ah, essa tosse? É só um resfriadinho, não é nada”.
Não é nada.
Era muita coisa no caso de Marina. Vozes não simplesmente saiam de chuveiros, os lamentos pareciam ter vindo direto da linha do inferno. Só de lembrar daquelas vozes em agonia, a menina sentia a pulsação aumentar.
Olhou de lado para a porta do banheiro. Fechou os olhos com força tentando afastar as memórias. Começou a lembrar das histórias que a professora contava na aula, dos mundos fantásticos onde o bem sempre vencia e tudo e não existiam chuveiros maldosos que gemiam e gritavam para você.
15
Marina não notou que tinha caído no sono. Só quando acordou, confusa e um pouco zonza, foi que notou o motivo de seu despertar.
O chuveiro estava ligado.
A respiração outrora rápida, prendeu-se por um segundo em seus pulmões. Seus ouvidos se aprumaram e então não restou dúvidas. Vindo de seu banheiro o som de gotas caindo e alcançando o chão.
Ela não conseguiu se mexer, o pavor que a assaltara formou um peso de toneladas sobre seu corpo. Ouviu apenas, aturdida e já quase sem ar pela respiração que segurava. O que era aquilo? Se perguntou. Que era aquela coisa que parecia destinada a atormentá-la? Seria a mesma entidade que tirou as coisas de Helena do lugar?
Foi com muita força que Marina conseguiu se mexer, respirou fundo um par de vezes, e desceu da cama. O chão gelado ajudou a despertá-la um pouco mais. Acendeu a luz principal do quarto sem tirar os olhos da porta do banheiro. Só quando julgou haver luz o suficiente, foi que Marina caminhou em direção ao banheiro. O som que aumentava a deixava cada vez mais agitada, e quando encostou sua mão na maçaneta, achou que seu pobre coração explodiria.
Abriu a porta vagarosamente, e logo alcançou o interruptor. O cômodo banhou-se em luz e a garota olhou diretamente para o chuveiro, de onde a água caia, formando vapor por todo o lado. Esticando as mangas de seu pijama até o cotovelo, a garota caminhou pelo banheiro, seus pés tocaram o tapete felpudo e então o frio do piso gelado. Afastou a porta de plástico do boxe, se perguntando de onde vinha toda aquela coragem. Ou talvez, fosse o excesso de medo que a movesse e não a bravura, queria logo acabar com aquele som maldito, e então subir na cama de seus pais e se acomodar lá até o dia seguinte.
Levou a mão até o registro e o virou de uma só vez. Esperou ouvir os gemidos e lamentos, encolheu-se completamente, ombros quase tocando as orelhas, certa de que a cacofonia de dor e sofrimento sairia daqueles furinhos inofensivos do chuveiro, mas nada aconteceu. Ficou ali, a mão estendida por mais alguns segundos, vendo o vapor se dissipar. Chegou até a fechar os olhos.
Soltou um longo suspiro e deu meia volta, caminhou para fora do banheiro como que fora de seu eu físico. Queria ir para junto dos pais, mas não ousou fazer tal coisa. Deitou-se de novo em sua cama, puxou a coberta por sobre sua cabeça, só então começou a soluçar baixinho, as lágrimas salgadas rolando por sua bochecha.
16
No outro dia Marina achou que sua alma estava prestes a deixar o corpo. Nunca antes se sentira tão cansada depois de não dormir. Mas mesmo assim nada a impediria de ir até a escola.
No café a mãe a olhava com um misto de ternura e preocupação, tentando achar nas feições cansadas da filha qualquer indício de que deveria estrar em ação e conversar com a filha. Marina tentou agir com o máximo de naturalidade que seu estado a permitia, não queria ser privada de abençoadas horas em que ficaria longe daquela casa. A garota aceitou tomar um banho, mas o fez no banheiro dos pais. Durante os cinco minutos que se demorou, passou metade deles sentada no bacio ouvindo a água correr, esperando que algo anormal acontecesse.
Fizeram a viagem de bicicleta uma vez mais, e lá chegando Helena a encheu de perguntas. Se ela estava mesmo bem, se não tinha acontecido nada durante a noite, se ela se sentia confortável em ficar na escola. A mulher tinha um leve bafo de vinho, muleta na qual Marina sabia que a mãe havia se apoiado na época um pouco depois do acidente. A garota ficou preocupada, e achou que seria por bem avisar o pai mais tarde, para que eles pudessem conversar. Despediu-se de mãe e passou pelo portão.
A escola em que ela estudava era uma típica escola pública. Alguns prédios baixos enfileirados onde as salas ficavam, um ginásio na outra extremidade, um banheiro próximo as primeiras salas e um perto das últimas. Marina caminhou, puxando as alças de sua mochila até que esta estivesse completamente colada a suas costas, até a sala de número nove. Uma salinha sem sal, as paredes pintadas de um bege que começavam a mofar na parte de baixo, cheia de cartazes colados. Cadeiras rabiscadas e um quadro branco sujo da tinta dos canetões que já foram apagadas ali.
Marina se sentou perto de suas colegas, mas não compartilhou do bom humor matinal. Elas felizmente pareceram não notar.
A aula começou e a professora falou de divisões e multiplicações. Passou da matemática para a história, onde falou dos romanos. Marina prestava apenas uma percentagem de sua atenção. Seus olhos pesavam a cada palavra que a Sra. Roberta dizia, a mão que apoiava a cabeça ameaçava ceder. Quando sentiu que não aguentaria mais, e cochilaria ali mesmo, levantou a mão e pediu para ir ao banheiro. Queria lavar seu rosto. A monitora que estava sentada no fundo da sala se levantou e foi junto dela.
Foi para o banheiro no fim do pátio que estava vazio, a monitora esperou por ela do lado de fora. Andou até a pia outrora branca, e abriu a torneira e fechou as mãos em conchas. A água estava muito gelada e serviu como um despertador, alfinetando seu rosto.
Estava pronta para sair, quando ouviu um som baixo vindo de uma das cabines. Aquilo foi o que bastou para deixá-la alarmada. Virou-se para a porta, mas a viu fechada, coisa que não estava alguns segundos antes. Parecia um pesadelo, algo horrivelmente ensaiado para aterrorizá-la.
Aproximou-se da porta da cabine. O chuveiro que era usado pelos alunos depois da educação física estava ligado.
A garota não quis acreditar. Ela estava fora da casa, por que aquilo estava ali?
Estava prestes a abrir a cabine e gritar desaforos a o que quer que fosse que estava fazendo aquilo com ela. Porém um lamento estrondoso se fez ouvir, um urro de dor e agonia que lançou Marina tropeçando em seus próprios pés até atingir a parede. Dali se seguiram vários outros sons medonhos de dor. As torneiras começaram a vazar, os demais chuveiros se ligaram, as descargas funcionavam se parar e de debaixo das cabines ela conseguia ver a água sendo lançada para fora. O barulho da água misturado aos sons de aflição fizeram com que Marina colocasse as mãos apertadas nos ouvidos, e se agachasse. As lágrimas começaram a escorrer e ela soluçava com força.
Então uma luz brilhou, a porta foi aberta, a monitora queria saber por quê ela estava demorando tanto.
Marina olhou ao redor, estava tudo em ordem, nem um pingo de água descia das pias. Isso só fez com que Marina chorasse ainda mais.
17
Helena estava pronta para deixar a casa e ir de bicicleta até a biblioteca municipal, quando o telefone tocou. Queria poder dizer que teve alguma espécie de pressentimento, de que sabia de antemão que algo acontecera com sua filha, mas foi com um pouco de surpresa que ela foi informada de que Marina não estava se sentindo bem, e precisavam que ela viesse buscá-la.
Em sua bicicleta ela foi, pedalando tão rápido quanto suas pernas a permitiam. Passou por uma igreja com um arco-íris e onde se podia ler “Deus é Amor” em letras floreadas, passou pela padaria, por uma locadora de filmes decadente, por um bar. Não prestou atenção a nada disso, tudo e todos eram borrões.
Quando chegou a escola, encontrou a monitora no portão, a aguardando.
—A diretora que conversar com a senhora. — A jovem disse, tinha uma expressão preocupada — Marina está lá dentro com ela. — Informou rapidamente.
A mulher praticamente correu até a sala de Elisabete. Estava tão agitada, que em vez de bater ou tentar anunciar sua chegada, ela simplesmente entrou. Foi inundada com o alívio quando percebeu Marina sentada na cadeira giratória da diretora, indo de lá para cá enquanto Elisabete a observava e conversava com ela.
Assim que viu a mãe a garota pulou da cadeira e a abraço, quase desequilibrando Helena. Elisabete sorriu, pediu para a mulher se sentar. Virou-se e foi até a porta.
— Júlia, será que você pode levar Marina para caminhar um pouco. — Falou com a monitora. Júlia não tardou a pegar Marina pela mão e levar a menina dali, embora ela tenha protestado um pouco a princípio, não querendo deixar a mãe.
Quando ficaram sozinhas, Elisabete sentou-se em sua cadeira giratória e Helena numa das cadeiras do outro lado da mesa. A expectativa de Helena aumentava a cada segundo que a diretora apenas a observava sem dizer palavra.
A mulher mais velha respirou fundo e começou:
— Você sabia que eu cresci na mesma rua em que vocês moram agora. — Disse, e um pequeno brilho de nostalgia cruzou seus olhos — Era um lugar muito calmo, com meia dúzia de casas de madeira. — Helena acenou que sim, porque não sabia bem o que responder — A casa em que vocês vivem é a número nove não é? — Novamente Helena acenou, não entendia onde a mulher queria chegar com aquela conversa — Eu lembro do lugar, foi uma das primeiras casas a serem construídas, já estava lá quando minha família se mudou. — Naquele momento ela fez uma pausa, olhou Helena bem nos olhos, seu rosto enrugado adotou uma expressão grave, como se estivesse prestes a contar algum segredo horrível — Aquele lugar é ruim. — Elisabete disse apenas, seus olhos ainda presos aos da mulher mais jovem, esperando uma reação.
—Como? — Foi só o que Helena conseguiu dizer.
—Tem algo de errado naquela casa, é assombrada, amaldiçoada, como preferir. Algo terrível reside lá, e eu acho que está tentando assustar sua filha. — Falou com a seriedade e certeza de um médico que informa que é melhor corta os doces que seu filho come, ou ele pode ficar diabético.
Helena soltou uma risada de descrença, esperando a mulher declarar que tudo aquilo era uma piadinha de muito mal gosto. Mas Elisabete continuou a encará-la com uma expressão que era quase de piedade nos olhos.
— Isso é ridículo. — E começou a se levantar, mas Elisabete a deteve, estendendo sua mão cheia de pequenos pontos de sangue coagulado, e arroxeada, para agarrar a de Helena.
—Acredite em mim, aquele lugar é mau. Por favor, me ouça, nós podemos conversar mais, fora do colégio, eu posso contar tudo que eu sei. — Entregou um cartão branco simples com um número de telefone em letras grandes e pretas.
Helena guardou o cartão no bolso, disse que já estava de partida e se foi atrás de Marina.
18
Saíram do colégio andando, Helena não queria pedalar. Marina parecia bem mais calma, e contou a mãe com uma foz fraca e várias pausas o que tinha acontecido. A mãe ouviu com calma, não fez nenhuma interrupção e, no final da conversa, sentiu novamente que um gole de vinho cairia bem. Afastou aquela ideia para bem fundo em seu cérebro. Marina falava em chuveiros que gritam e choram de dor, de águas que inundam banheiro, ela tinha que estar apostos e alerta, não coberta pelo fino véu da embriaguez.
Pararam na praça no centro da cidade, onde Helena pediu que marina se sentasse em um banco. Tendo a filha em seu campo de visão, Helena se afastou e pegou o celular, dicando o número do marido.
—Oi. — Ela começou, calculando qual seria a forma mais tranquila de dar aquela informação — Eu fui chamada no colégio hoje, aconteceu de novo, Marina ouviu e viu coisas. — Falou com calma, e no fim foi recebida pelo silêncio do outro lado da linha.
Lucas tentava compreender a totalidade do que sua mulher lhe dizia. Cada palavra parecia fazer desmoronar um tijolo da parede de estabilidade que ele tanto se empenhara em erguer. Por um segundo ele desejou desligar o telefone na cara da mulher, e prosseguir com o seu trabalho como se nada tivesse acontecido.
—Nós precisamos conversar quando você chegar em casa. — A mulher continuou, observando Marina sentada no banco, parecendo distante e desanimada.
—Sim, nós precisamos. — Lucas concordou, sentindo um pouco de raiva da esposa por ousar apontar os problemas com os quais eles tinham que lidar — Assim que eu voltar para casa vamos sentar e conversar — Reafirmou.
—Eu vou passear um pouco com ela, ver se distraio Marina um pouco. Será que você pode comer por ai?
—Claro. — E Helena quase pode sentir o tom de descontentamento, magoada continuou.
—Então até depois.
—Até depois.
Desligaram. Marina olhou para a mãe e esboçou um tímido sorriso, Helena achou que começaria a chorar.
Caminharam pela cidade por um longo tempo. Conversaram sobre o colégio, sobre os livros que a mãe lia, e os livros que a menina lia. Almoçaram em uma pizzaria rodízio e comeram tanto quanto seus estômagos aguentaram. Depois tomaram sorvete em uma das sorveterias chiques da cidade.
Quando o horário de Lucas sair do trabalho se aproximou, mãe e filha subiram na bicicleta e foram para casa. Helena queria ter aquela conversa tanto quanto Lucas, mas era inevitável, Marina precisava deles, era hora de encarar as coisas, nem que isso significasse estourar a bolha de felicidade familiar que ele tinha soprado.
19
Lucas e Helena estavam sentados em lados opostos da mesa. Cada qual esperando que o outro começasse a falar. Marina estava no quarto deles, assistindo a TV e mexendo no notebook de Lucas. Conversariam com ela depois.
— Nós temos que ligar para o doutor Vieira. — Helena disse, ajeitando os óculos com o lado do dedão. Dr. Vieira foi o psiquiatra que acompanhou Marina logo depois do acidente, até a sua melhora — Ele precisa saber que isso está acontecendo.
Lucas balançou a cabeça afirmativamente, mas não disse nada. Estava ainda digerindo tudo que tinha ouvido sobre a filha. Era surreal e doloroso e ainda sim, agora ele sentia que era inevitável que algo fosse feito, teriam de reviver os momentos ruins, por Marina.
Decidiram que no dia seguinte marcariam uma consulta, e chamaram a menina. Explicaram para a filha o que tinham decidido. Marina tentou protestar, dizendo que não era preciso, era a casa que a estava amedrontando não a água, havia algo de errado na casa. Suas tentativas de explicar pareceram apenas agravar o problema. Helena deu por certo que Elisabete dissera algo a filha, enchera sua cabeça com histórias fantasiosas de fantasmas e coisas ruins naquela casa. A menina chorou, queria só não ter que passar a noite sozinha, não gostava do quarto novo, nem do banheiro novo, algo estava tentando assustá-la. Será que seus pais não conseguiam entender?
Saiu para o pátio, onde se sentou na pequena escada que levava até a porta de entrada. Abraçou os joelhos e pôs-se a observar o nada, desejando nada mais do que voltar para o pequeno apartamento sem quintal, onde ao menos os chuveiros se comportavam como chuveiros e ela não tinha que se sentir ameaçada todo o tempo.
Os pais não ousaram ir atrás dela, deixaram Marina ter seu momento. A observavam, porém, pela janela da sala. Era pior do que eles imaginavam, a menina estava mentalmente abalada, ouvindo vozes e acreditando em fantasmas.
Helena e Lucas trocaram olhares cansados, o sentimento de impotência da época em que Marina se acidentou voltou como os fantasmas que a filha temia. Receavam ter que pisar no consultório outra vez, seria de certa forma, um atestado de falha. Mas o fariam, pela filha eles o fariam.
20
Concordaram em deixar Marina dormir junto deles aquela noite. A filha se deitou entre os dois, aconchegada no travesseiro da mãe. Mais uma vez tinha se banhado no quarto dos pais sem grandes incidentes, deixando tanto Helena quanto Lucas intrigados, mas relativamente mais tranquilos. A menina ouvia o ressonar baixo da mãe, e o roncar menos discreto do pai. Pensava no Dr. Vieira, em como não tinha a menor vontade de voltar ao consultório.
Não que o médico fosse mau, na verdade Vieira era um homem gorducho de bigode enrolado nas pontas e óculos fundo de garrafa que a lembrava um personagem de seu desenho favorito. Ele era um psiquiatra infantil, e parecia sempre de muito bom humor e pronto para ouvir e ajudar. Ela não queria voltar porque sabia que não adiantaria de nada. Não era sua fobia, não se parecia em nada com ela. Aquilo que estava acontecendo, tinha começado na casa, era um mal que nascera ali, e agora tinha perseguido Marina até seu colégio.
A menina se virou, olhando o pai que dormia com a boca meio aberta e babava um pouco. Será que eles não conseguiam sentir aquela aura de perturbação que pairava pelo lugar, em cada madeira que rangia, em cada pequena partícula de pó. Marina se entristecia ante a cegueira dos pais. Mas é claro, eles eram adultos, e ela uma criança, qualquer coisa que dissesse, usariam a desculpa de que ela imaginara, ou que tivera um pesadelo, ou no caso dos pais, que seus problemas tinham retornado.
Virou-se mais uma vez, observando a mãe que dormia encolhida.
Suspirou. Fechou os olhos e tentou pensar na história do último livro que lera. Um livro sobre pássaros que viajavam pela Europa, e viviam uma aventura diferente em cada país. Pensou nas plumagens, nos bicos compridos, no céu azulado imenso a sua frente. Pensou em paisagens bonitas e antigas, no cheiro das florestas. E assim ela adormeceu, e Morfeu a presenteou com um sonho onde ela sobrevoava a cidade em que vivia.
O sonho porém, não durou muito.
21
Helena acordou precisando urgentemente ir ao banheiro. Pulou para fora da cama, dando uma rápida olhada para Marina e Lucas, que dormiam desajeitadamente, espalhados pelo colchão, o pinguim da menina caído entre os dois. Andou até seu banheiro na ponta dos pés. Aliviou-se e ficou ainda um tempo sentada no bacio, encarando o ladrilho. Levantou-se cambaleante e deitou-se uma vez mais ao lado da filha, fechando os olhos e tentando alcançar a terra dos sonhos.
Mas a tábua nas escadas rangeram.
Seus olhos se abriram completamente.
Um degrau, dois degraus. Alguém estava subindo a escada.
Rapidamente ela se ergueu e olhou a cama. Marina dormia tranquilamente, Lucas roncava, apagado para o mundo.
O ranger estava cada vez mais no topo, alcançando o fim da escada.
Paralisada em sua cama, Helena não foi capaz de emitir nenhum som, nem de se mover. Havia um intruso em sua casa.
Pensou em acordar Lucas, mas tudo que pode fazer foi continuar ouvindo. Os passos tomaram o corredor. A porta do quarto em que dormiam estava aberta apenas por uma brecha e quando o intruso se aproximou da entrada do cômodo, a mulher levou as mãos a boca, abafando uma exclamação de horror. O que passou por sua porta foi uma massa disforme, uma sombra densa que continuou se movendo até o quarto de Marina.
Como que prevendo a invasão de seu quarto, a menina acordou. Vendo a mãe angustiada, Marina quis perguntar o que estava acontecendo, mas Helena a impediu, levando uma de suas mãos para tapar a boca da filha.
Com olhos arregalados a menina encarou a mãe, que começava finalmente a se mover na cama. A mulher retirou sua mão da boca da filha, fazendo sinal para que ela permanecesse em silêncio. Helena levantou da cama e caminhou até a porta, tentando escutar qualquer outro movimento vindo do quarto da filha, mas o lugar se tornara silencioso, nem mesmo o som da madeira esfriando, nem um barulho lá fora, nada. A mulher se virou para chamar o marido, precisavam chamar a polícia. Começou a fechar a porta, mas um som, no meio daquele silêncio anormal, fez-se ouvir.
Para qualquer outro ouvido, aquele som pareceria absurdo naquela situação, quase surreal, mas ali, naquela casa, o som fez com que Helena se virasse para Marina.
O chuveiro estava ligado no quarto da filha. Marina também conseguia ouvir, e seu pequeno corpo começou a tremer, estava acontecendo de novo. O sono de Lucas parecia inalterado, ela ainda roncava baixo.
Mãe e filha se encararam, as duas pensavam a mesma coisa. Cogitavam se era uma boa ideia caminhar até o banheiro. Foi Helena quem tomou a decisão de ir, terminando de abrir a porta e caminhando até o fim do corredor. A porta do quarto de Marina estava escancarada, e era possível ver a porta do banheiro também aberta.
Marina alcançou a mãe antes dela entrar no quarto, agarrando-se ao seu braço, olhando na direção do banheiro, os olhos abertos como que aumentados por lentes. As duas entraram no quarto juntas.
Helena ligou o interruptor e encontrou o resto do quarto no lugar. Foi até o banheiro e antes mesmo de entrar, também ligou as luzes. Não havia nada, nem vestígio de que outro ser humano tivesse passado por ali. Tirando é claro o chuveiro ligado. Ele já começava a criar nuvens de vapor. A água estava escaldando.
“Pode ser só um problema no registro”. A mulher pensou, notando só agora em como sua garganta estava seca. “Os sons, eles foram só um pesadelo. Achei que fui no banheiro, achei que tinha alguém dentro de casa”. Mas ela sabia que era impossível. Estava acordada antes, estava acordada agora. Estava com muita cede.
Olhou para Marina, que cravava suas unhas em seu braço esquerdo.
E os sons começaram.
22
Pareciam vir direto dos furos do chuveiro, como numa caixa de som. Gritos e lamentos de dor, sons guturais de tortura. Helena nunca ouvira nada parecido em sua vida, mas imaginava que era como o inferno deveria soar.
Num movimento de puro pavor, a mulher desligou o registro, mas isso não fez com que o som se fosse. Pegou Marina no colo, já que a menina parecia grudada ao solo e incapaz de se mover.
Enquanto saiam do quarto, o som se tornou mais alto, e das paredes vinha o barulho dos canos batendo. O que quer que fosse as estava seguindo pelas tubulações da casa. Querendo enlouquecê-las.
Helena foi até o quarto e tentou acorda Lucas, que despertou surpreso, assustado com os olhares da mulher e da filha.
—O que foi que aconteceu? — Ele perguntou.
—Você não consegue ouvir? — Helena perguntou apavorada. Os óculos pendiam em seu nariz, mas ela não podia ajustá-los porque segurava Marina com ambas as mãos.
— Ouvir o que? — Lucas olhou ao redor do quarto — Alguém entrou na nossa casa?
—Não…. Sim. Eu não sei. Você não estava ouvindo esses gritos? — Ela perguntou alarmada. A filha se estendeu em seu colo, tentando alcançar o pinguim que jazia na cama junto do pai. Helena deixou que a filha o pegasse.
—Que gritos? Não tem ninguém gritando. — O homem parecia alarmado, Helena não estava falando coisa com coisa, não havia som algum, nem ali dentro nem lá fora.
A mulher pareceu confusa. Abraçou a filha com força, a menina agora se agarrava ao bicho de pelúcia como se ele fosse sua única âncora com o mundo real. Lágrimas escorriam pelo rostinho de sua filha, mas ela não soluçava nem emitia nenhum som.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu preciso sair dessa casa. — Foi só o que Helena disse. As paredes pareciam vergar-se ao som dos lamento, as batidas dos canos. Um pandemônio que a mulher não conseguiria aturar por nem mais um segundo.
Correu quarto afora com a filha. Lucas as seguiu alguns segundos depois.
— O que está acontecendo? — Ele perguntou, e havia agressividade em sua voz—Do que você está falando?
Sem responder, Helena continuou correndo, sendo perseguida a cada passo que ela dava por aquele coro dos horrores.
Os seus pés e os do marido rangiam na madeira, os canos pareciam vibrar nas paredes e as vozes estavam se tornando cada vez mais altas. Ela queria poder tapar os ouvidos, mas não poderia largar Marina. Ela por sua vez pesava cada vez mais, assustada demais para tentar ajudar sua mãe na tarefa de carregá-la.
Quando finalmente saiu da casa, indo para a calçada, colocou Marina no chão, que logo cedeu e teve que se sentar no meio-fio. Os sons seguiram pelos bueiros, saindo do lado da estrada, e Helena cogitou buscar sua bicicleta e sair com a filha cidade afora, tentando achar um local onde pudessem se proteger. Mas Lucas a agarrou pelo braço, parecia igualmente nervoso, preocupado e enraivecido.
—O que é que está acontecendo? — Perguntou entre dentes. A mulher quis recuar, os sons já eram suficientemente assustadores, ela não precisava de seu marido a aterrorizando ainda mais.
Helena não conseguia entender como Lucas não escutava. Estava surpresa pela rua estar tão calma, todos os vizinhos já deveriam ter aparecido se perguntando que barulheira era aquela. Mas então ela compreendeu, ela e a filha eram as únicas que conseguiam ouvir.
A mulher deu uma olhada em direção a filha, que deixara o pinguim no colo e tapava os ouvidos com as mãos.
Helena tentou contar o que aconteceu, mas era impossível, ela quase não conseguia ouvir o que dizia. Foi quando se encheu de uma fúria, frustrada por ter que passar por aquilo com a filha, com raiva por sentir vontade de beber, e irada com o marido que parecia livre da influência daquilo que atormentava a casa.
— Já chega! — Ela gritou em direção a casa, fazendo com que Lucas desse um salto. Helena começou a chorar violentamente, mas continuou gritando — Já chega! Cale a boca! Já chega!. — Tapou os ouvidos com as mãos, as lágrimas escorriam, Marina não estava diferente.
Gradativamente o som foi cessando, como se estivesse escorregando por um poço profundo.
Nas janelas Lucas viu luzes se acendendo, e rostos aparecendo por entre frestas de cortina. Ele não tinha ideia do que faria agora, só queria não ter que lidar com nada disso.
23
Lucas tomava o café sozinho. Ligou para o trabalho e disse que não estava se sentindo bem e teria que se ausentar. Marina e Helena tinham saído sem dizer para onde, e a ele restou permanecer em casa, tentando entender o que acontecera naquela madrugada.
Helena tinha contado o que aconteceu. Ou, pelo menos, o que ela acreditava que aconteceu.
As dez e meia ouviu batidas na porta. Não estava com vontade de falar com ninguém, mas não queria dar mais motivo para as pessoas ao redor de sua casa falarem. Elas já deveriam especular sobre o espetáculo que Helena deu.
Abriu a porta e encontrou o rosto sorridente de Vitor. O sorriso porém era quase amarelo, um pedido de desculpa antecipado. Lucas sabia porque o outro homem estava ali.
— Bom dia. — Vitor começou, esfregando uma das mãos na lateral da calça, parecia desconfortável — A sua mulher e filha estão? — Perguntou, tentando olhar para a casa além de Lucas.
—Não. — O homem respondeu apenas, indo para o lado, fazendo sinal para Vitor entrar.
Os dois caminharam até a cozinha, onde o mais velho se sentou e Lucas permaneceu de pé, encostado sobre o balcão.
—Sobre ontem….– Vitor começou, como se não soubesse como continuar essa frase.
Novamente Lucas se viu fazendo algo que não queria, falando toda a verdade como se não tivesse controle sobre suas vontades. Sentou-se na cadeira de frente para Vitor, e enquanto as palavras saíram, vieram também as lágrimas e os soluços. Todo estresse daquela noite e da última semana culminaram naquele momento, e em frente a um quase estranho ele se viu contando coisas que não gostaria de admitir nem para si mesmo.
Debruçado sobre a mesa ele chorou e falou por longos minutos em que Vitor o ouvia pacientemente. Quisera Lucas ter uma amizade assim na época do acidente, tudo teria sido melhor.
Helena perdera a cabeça, Marina também. Não parecia existir nada que ele pudesse fazer para melhorar a situação.
Quando terminou seu relato, levantou seus olhos para encarar Vitor, que acenou a cabeça um par de vezes antes de começar.
— Você tem que levá-las a um especialista, meu amigo. Não tem como essa casa ser assombrada, acredite em mim. — E deu uma risada leve, pousando a mão direita sobre a barriga saliente — Eu vi esse lugar ser construído e a família que morou aqui antes de vocês. Todos ótimas pessoas. Infelizmente acabaram falindo por culpa de um negócio mal sucedido, mas não creio que seja assim que entidades malignas se manifestem em lugares. — Outra risada — É o estresse, tenho certeza que só o estresse. Sua filha deve estar mal pela mudança e sua mulher está mal pela sua filha.
E quando Vitor disse aquilo, soou como verdade, de repente fazia muito sentido. Claro, era só uma questão de estresse. Ele não precisava se preocupar, não era culpa dele. Nada daquilo era culpa dele e tudo que precisavam fazer era marcar uma consulta no psiquiatra e tudo ficaria bem, porque ele diria que tudo aquilo era só o estresse.
Lucas sorriu para Vitor como um garotinho sorri para o pai. Quase agradeceu. Assim que Vitor foi embora, Lucas foi se sentar em frente ao sofá, esperar que sua mulher e filha voltassem.
24
Helena nem tentou voltar a dormir. Aninhou a filha em seu colo na sala, e ficou encarando um ponto fixo na parede, esperando que a qualquer segundo os sons fossem recomeçar.
Quando o dia raiou, pegou o cartão que Elisabete lhe dera, e ligou para mulher, perguntando se não poderiam se encontrar em um café antes do horário de aula. A diretora aceitou. Helena alcançou Marina e brevemente disse a Lucas que estava de saída. Não esperou para ouvir o marido argumentar.
De bicicleta foi até o centro da cidade, para um pequeno estabelecimento com fachada de madeira que parecia relativamente novo.
Elisabete já estava lá, copo de café nas mãos e um croissant num prato. Ela sorriu quando avistou a mãe e a filha, mas o sorriso logo morreu. Helena tinha a expressão de quem passara a noite em claro, aterrorizada e Marina ainda estava com o rosto inchado do choro.
—O que foi que aconteceu? — A diretora perguntou alarmada.
— Você estava certa. — Helena começou, sentando-se na cadeira e colocando a filha em seu colo— Aquela casa, tem algo de errado com ela. Nessa madrugada algo terrível aconteceu. — E a mulher contou tudo que ela e Marina ouviram e viram, com uma única pausa para pedir um chocolate quente para Marina e um café puro para Helena — Eu não entendo, o que é isso que está nos atormentando? — Perguntou por fim.
— Quando eu me mudei para cá, eu tinha só dez anos, o que quer dizer que já faz muito tempo. Eu morava duas casas para a esquerda e naquela época nós fazíamos qualquer coisa, eu e meus irmãos, menos ficar dentro das nossa casa. Nós brincávamos na rua, indo de um lado para o outro em bicicletas, nos escondendo no pique-esconde, correndo no pega-pega. Era normal que nós passássemos na frente da casa em que você vive agora. Sempre que eu chegava perto do lugar havia esse sentimento. — Ela fez um gesto com a mão, como se tentasse sentir um tecido — Era uma força opressora, algo tão mau que parecia poder alterar até a vibração do ar, torná-lo mais denso. — Elisabete fez uma pausa, parecia perturbada pela mera lembrança.
“Não sabíamos exatamente quem vivia ali. A casa era habitada sem dúvida, nós ouvíamos sons abafados vindos de lá, mas eu nunca vi ninguém entrar e sair. Meu pai certa vez teve que permanecer no trabalho até altas horas, e já passava das três da manhã quando ele voltou para casa. Ele diz ter visto uma pessoa caminhando pela lateral da casa, mas que logo a figura desapareceu na parte de trás do lugar.”
“Durante sete meses nós vivemos lá em uma confortável calmaria. Nada de acidentes na estrada. Nada de confusão entra os vizinhos. Então uma noite haviam vários carros da polícia parados em frente a casa. Descobrimos depois que o rapaz que vivia ali tinha assassinado duas pessoas naquele espaço de tempo. O nome dele era Maurício Rodrigues, e ele alegou que aquele foi o único jeito de aplacar os gritos vindos do chuveiro”.
Helena se sobressaltou a menção do chuveiro.
—Eu fiquei intrigada. Mesmo sendo só uma criança na época, eu sabia que aquele caso era maior do que todos os jornais mostravam. Eles falavam em doença mental, mas não pareciam sentir o quão ruim aquele de fato era. Com o passar dos meses a história foi morrendo, mas a casa ainda não tinha sido posta a venda. Oito anos se passaram antes que eu descobrisse qual era o problema daquela casa.
“Durante todo aquele tempo em que morei próxima a casa, só fez crescer meu medo e curiosidade. Eu não me atrevi nunca a entrar lá, mas fui atrás da história do local. O que existia ali antes, no lugar onde fica sua casa e a casa logo ao lado, era uma pequena prisão local. Quem era pego em flagrante supostamente acabava ali antes de ser levado para alguma penitenciária maior. Mas depois de vários prisioneiros morrerem ali dentro, começaram a questionar o delegado. Ele e alguns ajudantes torturavam os detentos, afogavam a cabeça deles em um tanque que ficava numa espécie de porão.”
“Quando isso veio a tona a cidade fechou a prisão, e acabou por demoli-la. Eu acredito que as vozes que se ouve pelo chuveiro sejam a desses homens que morreram ali.”
—Mas e a coisa que eu vi caminhando pelo corredor? — Helena perguntou, tomando um grande gole de café.
— Seja o que for vive lá por muito tempo. Tentou muita gente a fazer o mal, e conseguiu muitas das vezes. Se eu puder dar um palpite, deve ter se aproveitado da fraqueza e perversidade das pessoas da prisão. Não há registro de nenhum outro acontecimento antes disso. Chame do que quiser, demônio, entidade, aparição. Quer levar as pessoas a loucura, e então obrigá-las a fazer coisas horríveis.
— O que nós devemos fazer? — Helena perguntou, abaixando a xícara e olhando Elisabete nos olhos— Eu não faço ideia do que devemos fazer. Lucas não vai acreditar em nada disso, e o que quer que viva lá, não vai parar.
—Mudar talvez fosse ajudar, mas Marina foi atacada no banheiro da escola, então talvez já esteja atrelado a vocês de alguma maneira. Um exorcismo talvez, tentar purificar a casa.
—Um padre então? — Helena mal podia acreditar.
—Eu receio que sim. Vale a pena tentar. — A mulher finalizou, dando uma última mordida em seu croissant.
25
Helena e Marina chegaram em casa e encontraram Lucas jogado no sofá. O rosto relaxado do marido fez com que a fúria que Helena sentia dobrasse.
—Nós precisamos conversar. — A mulher começou, se sentando em uma das cadeiras próximas do sofá. Marina se sentou logo ao lado.
— Vocês só estão estressadas, meu amor. Nós vamos ao psiquiatra de Marina, e é isso que ele vai dizer.
—Não Lucas, nós não estamos estressadas. O que eu e Marina vimos, o que nós ouvimos, foi muito real. Existe algo horrível nessa casa, nós precisamos chamar alguém para expulsar isso.
— Você consegue ouvir a si mesma, Helena? “Algo horrível nessa casa”. — Ele repetiu enquanto se levantava — Não existe nada nessa casa além de madeira e concreto. O que você quer fazer. Hã? Chamar um padre? Alguém para jogar um incenso pela nossa casa e dizer que está tudo bem? É isso.
Helena o encarava, determinada a não se alterar com o marido. — Você não vê que sua filha e sua mulher estão sofrendo? Não estamos perdendo nossas cabeças. Não foram alucinações. Nós duas ouvimos e vimos as mesmas coisas ao mesmo tempo. É real Lucas, está nessa casa e quer nos deixar loucas.
— Helena! — Começou, se aproximando da mulher, as mãos agitadas ao lado do corpo— Gritos vindos de um chuveiro, sombras que andam por corredor, isso são coisas tiradas de filmes de terror, nada disso acontece na vida real, a não ser que a pessoa esteja alucinando.
—Eu sei que é difícil de acreditar, mas por favor, confie em mim, nós não estamos loucas.
Lucas e Helena se entreolharam por longos segundo– Eu não quero ouvir mais uma palavra sobre isso, amanhã eu vou ligar para o psiquiatra. — Disse, saindo porta afora.
26
Lucas foi para a casa de Vitor sem nem mesmo se dar conta. Queria poder conversar sobre o que aconteceu.
Parou em frente ao portão e começou a bater palmas, chamando o nome de Vitor, mas ninguém veio atender. Tentou uma segunda vez, foi quando uma voz chamou sua atenção.
—Tá tudo bem aí amigo? — Lucas olhou para trás e viu o vizinho da frente de Vitor escorado em sua sacada.
—Sim, tudo bem. — O homem respondeu apenas. Voltando-se novamente para a casa de Vitor, tornou a chamá-lo.
—Quem é que você está chamando? — O vizinho perguntou de novo, e quando Lucas virou para olhá-lo, ele parecia verdadeiramente intrigado.
— Como assim quem eu estou chamando? — Lucas já sentia a irritação crescer em seu cerne – Você não conhece o cara que mora na sua frente? — Perguntou. O vizinho parecia ainda mais confuso agora.
—Ninguém mora nessa casa há anos. — Ele disse, cenho franzido, ajeitando o casaco que usava.
Lucas estava pronto para mandá-lo a merda, mas se controlou e virou-se novamente para chamar Vitor.
Mas aquela não era mais a casa de seu amigo. Estruturalmente poderia ser igual, mas estava caindo aos pedaços e ervas daninhas cresciam e se embrenhavam pelas paredes, entrando pelas janelas quebradas. Lucas deu dois passos para trás.
— Você tá bem mesmo? — A voz do vizinho parecia abafada e distante. Um zumbindo começou a crescer em seu ouvido. O que é que estava acontecendo? O que era aquela casa aos pedaços? Como?
Lucas quase tropeçou na tentativa de se virar e voltar para casa. Escorou-se na cerca apodrecida da casa que ontem mesmo ele tinha visto inteira. A madeira estalou e quebrou sob seu peso. O homem jogou o pedaço que ficou em sua mão para longe, correndo de volta para sua casa.
27
Quando Lucas entrou na sala, ele era a própria visão da insanidade. As pupilas estavam muito dilatadas, o sangue parecia ter se esvaído de seu corpo, e ele adotara um tom quase cinzento. Helena o observou de cima abaixo, o homem tremia e agarrava uma mão a outra na tentativa de mantê-las estáveis.
— O que foi que aconteceu? — A mulher perguntou, agarrando-se a filha.
— A casa... — Ele começou, bem baixo e sem forças – A casa está velha, não é a mesma casa... — Balbuciou — A casa de Vitor, ela está caindo aos pedaços, como é possível? — Olhou Helena nos olhos. Seu marido estava em desespero, apavorado. A mulher foi até ele e o puxou pela mão até o sofá;
— Me explica o que foi que aconteceu. — Pediu em uma voz suave, a mesma que usou com Marina na primeira vez que o chuveiro a assustou.
— Eu fui falar com Vitor... — Disse, e Helena assentiu — Eu chamei por ele, mas ninguém veio atender. E então o vizinho da frente disse que não havia ninguém morando ali, e quando eu olhei a casa de novo... — Lucas soltou um grande soluço — A casa... Ela não era mais como antes, estava se desfazendo, velha, acabada. Como isso é possível Helena? Eu estou ficando doido também?
— Não meu amor, não está. — A mulher se abaixou ao lado dele, olhando-o fundo nos olhos — Nós precisamos achar alguém que vá nos ajudar, mas pra isso primeiro eu tenho que ligar para uma amiga. Você pode confiar em nós duas agora? — Perguntou, tirando uma mexa de cabelo do rosto do marido.
Lucas acenou que sim, e Helena pegou o telefone.
Marina se aproximou do pai e o abraço, tentando reconfortá-lo. Helena achou que tudo se resolveria agora, que só precisariam chamar alguém que purificasse a casa.
Mas aquilo que os atormentava não estava disposto a dar folga. Das paredes veio o som dos canos batendo, e de dentro deles as vozes cheias de dor. Marina agarrou-se ao pai ainda mais, e Lucas que agora parecia capaz de ouvir, encolheu-se no sofá olhando as paredes em total pavor.
Das escadas os sons da madeira rangendo, das paredes os sons infernais. Os três ficaram estáticos por longos segundos antes de começarem a correr para porta. Mas assim que chegaram até ela, Lucas disse.
— Precisamos pegar a chave do carro, dar o fora daqui.
E virou-se.
No fim do corredor uma sombra densa e altíssima os observava. Lucas soltou um grito, Helena agarrou-se ao braço do marido e a bexiga de Marina se esvaziou.
A sombra começou a se mover na direção deles, e a cada passo que ela dava os sons se tornavam mais opressores, mais altos.
Foi Helena quem os puxou para fora, abrindo a porta com um baque e correndo agarrada a Lucas e Marina para a calçada. Continuaram correndo pela rua, até o fim. Só quando já tinham corrido o suficiente para ficarem sem fôlego, foi que a mulher pescou o celular do bolso e buscou o número de Elisabete.
28
Elisabete foi encontrá-los de carro alguns minutos depois. Usava um roupão e parecia muito assustada. Pediu que a família entrasse no carro e arrancou de volta para sua casa. Não falaram durante a viagem, ainda estavam assustados demais para fazer qualquer comentário sobre o que acontecera.
A casa de Elisabete era um apartamento pequeno em uma rua sem saída. Um lugar calmo e absurdamente quieto, cheio de vasos de flores murchas na recepção. O apartamento da diretora era o de número 22, no segundo andar. Parecia uma loja de bugigangas, e para onde quer que se olhasse, era possível enxergar um bibelô. Gatos, vacas, panelas, livros. Estantes e mais estantes deles.
— Eu coleciono. — Ela disse apenas, indicando que eles deveriam se sentar. O sofá de dois lugares quase não foi suficiente para a família. Ficaram muito próximos, como que buscando conforto na presença uns dos outros.
— O que nós vamos fazer agora? — Helena perguntou.
— Acho que podemos ir até a igreja, e tentar falar com o padre Sérgio. — A diretora disse, se sentando na cadeira ao lado do sofá.
— Um padre? — Lucas perguntou incrédulo.
— Você tem uma ideia melhor? — Helena perguntou, e sem esperar uma responde emendou — Não custa tentar.
Lucas apenas acenou que sim. Naquele momento, desesperados, tentariam o que fosse preciso, recorreriam a qualquer religião, à ciência, desde que nunca mais tivesse que passar pelo que passaram.
— Se é isso que podemos fazer, então não vamos perder tempo. — O marido disse, se levantando.
— Marina precisa descansar, ela está assustada. Acho que depois de tudo isso nós podemos esperar mais algumas horas. — Helena disse, olhando a filha.
— Meu pinguim ficou na casa. — Ela disse. Sentia-se tão exausta pelos últimos acontecimentos, que já quase não sentia mais medo, todo o cansando suplantara qualquer outro sentimento.
— Nós vamos buscar depois. — Helena garantiu.
— Eu olho por ela, vocês podem ir falar com o padre. — Elisabete sugeriu, mas Helena ainda parecia incerta – Se qualquer problema — E ela pareceu aterrorizada com a simples ideia do problema que poderia aparecer — Eu ligo.
Os pais se entreolharam, e olharam Marina. A menina concordou com a cabeça.
— Eu vou ficar bem. — Disse apenas.
Lucas e Helena partiram para a matriz da cidade, esperando que aquela fosse a solução para seus problemas.
29
A igreja matriz era uma construção simples e bege, feita de concreto e estruturada na forma de uma cruz. Havia uma inscrição na entrada dizia que aquela igreja tinha sido erguida em 1918. Por dentro o lugar era pouco iluminado, a nave conduzia para um altar minimalista, com algumas figuras de santos com expressões de fascínio.
Helena e Lucas caminharam até o altar, onde um senhor baixinho e magricela arrumava cálices. A batina arrastava pelo chão, a barra já estava desgastada e um pouco suja de poeira e caia de maneira engraçada no porte esquálido do Padre Sérgio.
— Bom dia. — Helena começou, chamando a atenção do homem.
— Olá. — O padre disse se virando – Precisam de alguma coisa?
— Sim. — Lucas começou, mas não soube o que dizer além disso.
O padre pareceu esperar que eles elaborassem.
— Será que nós não podemos conversar em um outro lugar? — Helena perguntou.
O padre acenou que sim, e fez um gesto de mão indicando que o casal deveria segui-lo Andaram até um pequeno escritório abarrotado de livros amontoados em estantes feitas de uma madeira muito escura. — Em que posso ajudar? — Sério perguntou, sentando-se em uma poltrona e apontando para um sofá onde o casal se sentou.
— Eu me chamo Lucas, essa é minha esposa Helena. — Lucas começou E nós…. Nós achamos que a nossa casa pode estar abrigando uma entidade maligna.
— Um demônio. — Helena colocou sem eufemismos.
O padre pareceu surpreso por alguns segundos antes de perguntar:
— E o que faz vocês acharem isso?
O casal então explicou seu suplício. Desde a primeira vez em que Marina foi atormentada, até o que aconteceu recentemente. Helena tentou lembrar de cada detalhe de tudo que havia ouvido e visto, esperando apresentar a história de uma forma que não houvesse dúvidas de sua veracidade. Ao fim do relato, o padre balançou a cabeça em compreensão.
— Estão sendo oprimidos. — Ele disse, e o casal pareceu confuso — A entidade que divide a casa com vocês procurou pontos fracos para tentar oprimi-los. Com sua filha foi a água. Com você Helena foi a preocupação com sua filha. E Lucas, o mais cético dentre vocês três, ele tentou afastar, criando um motivo para que ele deixasse a casa. Parece claro que esse ser estava tentando enfraquecê-los como família para poder atacá-los e subjugá-los.
— O que nós podemos fazer? — Lucas perguntou, procurando pela mão de Helena que ele apertou.
— Nesse estágio podemos protegê-los por meio de uma purificação. Pelo que entendi, o que quer que estivesse na casa, agora está atrelado a vocês, esperando momentos de maior vulnerabilidade. Tragam Marina até aqui, quanto mais rápido realizarmos o ritual de purificação, menos riscos corremos da entidade tentar a possessão.
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Marina caiu no sono rápido. Estava exausta das noites mal dormidas, e de toda a tensão que sofrera nas últimas horas. Sem seu pinguim, ela se agarrava a outro travesseiro que Elisabete lhe dera. Tinha pesadelos desconexos com água, que a faziam remexer-se enquanto dormia, e soltar pequenos lamentos de medo, mas que não a despertavam. Ficou assim por toda a hora que seus pais dependeram para ir até o padre.
Elisabete passou todo aquele tempo em seu pequeno escritório.
A menina despertou ao som da chegada dos pais. E foi quando eles chegaram que o pandemônio começou. O chuveiro na casa de Elisabete ligou sozinho, assim como as torneiras por toda a casa. Helena e Lucas estacaram na salinha, olhando ao redor a água que corria até mesmo da bombona de água.
A mãe correu direto para o quarto onde tinha deixado sua filha adormecida. E lá a encontrou aos prantos, enrolada nas cobertas. Quase não conseguiram tirá-la de lá.
— Por que isso continua acontecendo mamãe? — Ela perguntava aos soluços – Por que?
Helena não sabia o que dizer, apenas a abraço e pegou no colo.
— Nós vamos resolver isso querida. Vamos resolver hoje. — Assegurou.
Elisabete estava na porta de seu escritório, olhando a água que escorria de suas torneiras, e ouvindo o barulho do chuveiro.
Os lamentos não tardaram a vir, tão altos, preenchendo todo o ambiente. Elisabete não os ouvia, apenas observava o casal e a menina tentando abafar algum som.
Os três correram para a porta. Com o canto dos olhos conseguiam ver a sombra se formando, indo atrás deles. Sem nem mesmo dirigir palavra para a diretora, deixaram o apartamento indo em direção a igreja. O céu já estava escuro, e a iluminação vinda dos postes não parecia suficiente para mantê-los seguros. Percorreram todo o caminho em um trote, ouvindo os gritos e sendo acompanhados pela coisa incorpórea.
Quando alcançaram a igreja, o padre os esperava na porta, fez sinal para que eles entrassem, e os três passaram pela entrada. A sombra recuou, e os sons se tornaram abafados. Quando o padre fechou a porta, eles quase se sentiram seguros.
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— Nós vamos ter que voltar para casa de vocês. Vou fazer o ritual em cada um, e então na casa. — O padre informou. Pegou as chaves de um chevrolet e conduziu a família até um pátio na parte de trás da igreja. Os três ficaram receosos de deixar o lugar, mas ante a promessa de dar um fim a tudo aquilo, eles continuaram.
A viagem de carro foi feita em um silêncio perturbador. A família parecia esperar um ataque a qualquer momento, e toda aquela tensão deixou até mesmo o padre, conhecido pela tranquilidade em situação de tensão, nervoso. Quando chegaram na casa, a atmosfera do lugar parecia carregada com um extra de horror. Marina sentiu o desconforto do primeiro dia se multiplicar por cem.
Entraram na casa e o caos não demorou a começar. Logo os sons e os vultos atormentavam a família. Padre Sérgio não demorou a agir, puxando Marina para ser a primeira a receber a purificação. Com as mão estendidas sobre a cabeça da menina, o padre começou a recitar palavras em latim que os outros três não compreendiam. O religioso falava cade vez mais rápido, agitando as palmas abertas, os olhos fechados e a expressão concentrada.
Ao redor, os gritos foram se tornando raivoso, e não gritos de dor. A casa pareceu expirar e expandir-se, como se estivesse prestes a explodir.
A sombra apareceu próximo ao padre, mas não parecia ser capaz de tocá-la. Não tinha poder sobre o homem que nunca vivera ali, e não sofrera sobre sua opressão. Tentou então atacar Marina. A menina soltou um longo grito de dor quando uma força acerto suas costas, fazendo com que ela fosse jogada para o chão. Sem se abalar o padre continuou, ajoelhando-se em frente a menina e mantendo as mãos sobre sua cabeça. Quando finalizou, fez o sinal da cruz na testa da menina, e Marina levantou-se de olhos arregalados. Ainda ouvia os sons, mas eles não pareciam mais alcançá-la por completo, como se ela estivesse dentro de uma redoma que abafasse o som.
Depressa o padre foi em direção a mãe. Mas antes que ele pudesse começar, Helena foi puxada para longe, arrastada pelo corredor e arremessada em direção a escada. Ela gritava e se contorcia, tentando se livrar do aperto invisível, mas era em vão.
O padre foi atrás dela, tentando agarrá-la para poder começar o rito. Mas quanto mais tempo eles passavam na casa, mais forte a criatura parecia se tornar.
Galgaram os degraus até o andar de cima, onde Helena foi arrastada até o quarto de Marina e a porta se fechou com um grande estrondo.
Os dois homens tentaram colocar a porta abaixo, mas foi em vão. Lá de dentro os urros da mulher foram se transformando em algo gutural e horrendo, uma voz que parecia vir de um lugar muito mais distante.
— Vamos purificar você primeiro então. — O padre disse, se virando para Lucas, estendendo as mãos sobre a cabeça do homem – A casa vem depois, comece a rezar pela sua mulher.
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Lucas sentiu como se todo o horror ao seu redor tivesse diminuído de volume. Não fosse a preocupação com Helena, ele talvez tivesse se sentido aliviado.
De dentro do quarto de Marina, os gritos e vozes deram lugar ao silêncio. E numa lufada de ar a porta se escancarou. Lá dentro estava Helena, mas apesar de ter sua aparência, não se parecia em mais nada com ela. Era como uma fantasia sendo usada por algo que não soubesse como ser humano. Os membros pendiam de maneira esquisita, bíceps erguidos em alinho com os ombros e os antebraços pendendo. Pernas dobradas na altura do joelho. Cabeça caída sobre o peito. Ela parecia com um fantoche antes do show.
Mas então ela ergueu o rosto. Sua face era uma máscara de ódio.
— Tragam-me dor. — Helena disse, mas não era sua voz – Tragam-me sofrimento. — Continuou, e falava enquanto maneava com a cabeça de uma maneira perturbadora, indo de lá para cá com o queixo — Tragam-me dor — Repetiu — Ou então a dor será dela. — Disse por fim.
O padre demorou alguns segundos contemplando aquela cena hedionda antes de começar o ritual de purificação da casa. Não haveria tempo para exorcismos, a situação pedia medidas imediatas.
A criatura não pareceu nada feliz com o que o padre fazia, e foi em sua direção, abrindo as mãos de Helena como garras. Lucas se interpôs, sendo atingido por uma força sobre-humana. Começou uma batalha desigual entre Lucas e o demônio. Ele apanhava e era jogado de lá para cá, mas sempre se levantava, movido por uma vontade que ia muito além de seu corpo.
O padre continuou seu trabalho. Seu coração, embora estivesse cheio de assombro, sentia também o peso de sua tarefa, e era isso que lhe conferia forças para continuar. Seu corpo se retesava a cada estrondo que significava Lucas sendo arremessado contra paredes. Tentou falar mais rápido, jogar a água benta com mais agilidade, queria dar logo um fim a tudo aquilo.
Lucas percebeu que quando atrelado ao corpo humano, o demônio não tinha os mesmos poderes. Mas essa também era a única maneira que ele tinha de chegar até o padre. Desde que o homem não deixasse a entidade se aproximar de Sérgio, ele seria capaz de terminar seu trabalho. Então ele continuou a guerrear, continuou a ser arremessado. Só conseguia pensar em Marina e em Helena, tudo que queria era que elas ficassem bem. O pensamento das duas lhe dava paz.
Sérgio continuou a falar em uma velocidade impressionante. Começava a descer as escadas enquanto espalhava a água abençoada por todos os cantos.
Marina no andar de baixo tapava os ouvidos para não ouvir a dor do pai, nem os estrondos de seu corpo contra a parede.
Era frenética a maneira como o padre estava abençoando a casa. E seu maior temor se tornou real quando os berros de Lucas se acabaram, e ele pode ouvir passos descendo as escadas.
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Faltava apenas um cômodo, e tudo estaria acabado. Ou assim Sérgio esperava. Dirigiu-se para a cozinha, o demônio em seu encalço. Acabou sendo atingido por um soco em suas costas que fez todo ar ser liberado de seus pulmões. Ele caiu com as mãos no chão, o frasco onde carregava a água benta saiu rolando, espalhando o líquido em uma linha úmida.
Helena caiu sobre ele, apertando suas mãos contra o chão, o mantendo preso.
— Pode desistir padre. — O demônio disse, e soltou uma gargalhada que fez um arrepio descer pela espinha de Sérgio.
O padre não respondeu, apenas continuou recitando as palavras do ritual. O demônio soltou um grito de ódio e ergueu Sérgio pelo colarinho da batina, o jogando em direção a pia. A quina do móvel atingiu o homem no estômago, e mais uma vez ele se viu sem ar. Mas mesmo sem fôlego ele continuou a dizer as palavras para completar a purificação.
As palavras saiam por um fio de voz. Ele se preparou para outro ataque. Estava quase acabando, quase. Mais duas repetições da mesma estrofe e seria um fim. O demônio o atacou, fechando a mão de Helena ao redor do pescoço de Sérgio, o erguendo e sufocando. Era quase impossível falar assim, toda vez que tentava puxar o ar sentia dores lancinante. A criatura sorria um sorriso cheio de malícia, gostando de ver o sofrimento, era disso que ele se alimentava, seu maior prazer. A dor, a agonia.
Num arrombo de força, como que movido por algo além dele, Sérgio puxou a maior quantidade de ar que conseguiu, e proferiu a última estrofe. A água benta já estava derramada, e a cozinha fora purificada.
O demônio pareceu confuso, mas logo estava transfigurado em raiva. Deu um último apertão no pescoço do padre, fazendo o osso hioide estalar e se partir. O padre caiu inerte no chão, assim como o corpo de Helena.
A sombra desapareceu pelas tábuas do chão da cozinha, levando consigo todos os sons, deixando a casa em silêncio.
34
Helena acordou com a voz de Marina chamando por Lucas. A primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi o corpo do padre. O grito ficou preso em sua garganta, e de repente ela se sentiu nauseada. Vomitou perto do corpo de Sérgio uma gosma roxo escuro que se espalhou pelo chão como piche. Tossiu e se levantou, saiu correndo em direção a sala.
Marina estava em posição fetal, o rosto molhado de lágrimas. Quando a mãe se aproximou, a menina recuou mais fundo no sofá.
— Sou eu. — Ela disse, estendendo uma das mãos — Sou eu meu amor. — Marina a olhou por um segundo e pegou a mão que a mulher lhe estendia. As duas se abraçaram – Onde está o seu pai. — Helena não lembrava de nada dos últimos minutos. Sua última lembrança foi de ser arrastada para o quarto de Marina.
A menina apontou para cima, e começou a soluçar. Helena ficou tonta de desespero. Pediu para a filha ficar no sofá e correu escada a cima para ver onde estava o marido. Encontrou Lucas caído ao pé da cômoda que ficava entre o quarto do casal e o de Marina. A cabeça sangrava, e ele estava desacordado. Se ajoelhou ao lado dele, tentando não tocá-lo com medo de agravar a situação.
— Lucas. — Ela chamou, a voz assim como seu corpo, tremia – Lucas por favor. — Helena começou a chorar. O marido não respondia — Lucas! — Ela gritou.
Os olhos do homem se abriram de leve.
— Acabou? — Ele perguntou apenas.
— Sim. — Helena confirmou – Eu vou chamar uma ambulância.
— Sim, faça isso. — Lucas disse e voltou a fechar os olhos.
Com pernas instáveis, Helena correu até o primeiro andar e agarrou o telefone, ligando para a emergência. Não fazia ideia do que diria para eles. Pensaria nisso quando visse seu marido melhor.
35
Quando o horror teve fim, a família resolveu renovar a casa por completo. As investigações sobre o caso já tinham sido encerradas, e eles, com ajuda de Elisabete formularam uma história convincente.
Um stalker que rondava a casa. Alguém de quem eles sentiam medo há muito tempo, mas nunca pensaram em denunciar, por receio de que não fossem ouvidos. Padre Sérgio? Virou amigo da família nos últimos tempos por intermédio de Elisabete. Estava lá para abençoar a casa, por isso a água benta. O pobre coitado morreu depois de brigar com o intruso, que também bateu em Lucas e quase o matou. Marina e Helena estavam escondidas no quarto quando tudo aconteceu.
Não havia como provar o contrário, e assim a polícia comprou tudo que eles disseram, e a família saiu ilesa disso também. Uma sorte que eles não estavam tentados a testar.
Resolveram pintar o imóvel, trocar a mobília e vender a antiga. Trocar os eletrodomésticos também, e foi com prazer que Marina jogou seu antigo chuveiro fora.
Colocaram grama no jardim e plantaram mudas de flores por todo um canteiro. O lugar parecia completamente diferente. Agora livre da influência perversa, a casa era só uma casa. Apenas concreto e madeira, e a família não poderia estar mais feliz.
Foram ao funeral do padre Sérgio, um herói aos seus olhos, alguém cujo nome sempre lembrariam, e Helena, agora certa de que havia uma entidade superior, esperava que ela tivesse reservado algo maravilhoso para Sérgio no pós-vida.
A família seguiu daquele dia em diante, como deveria ser de direito de qualquer família, de forma pacífica. A casa, depois de renovada, já não guardava qualquer lembrança do ocorrido, e tirando eles e Elisabete, ninguém nunca soube o que se passara naquela casa. Era isso que o demônio merecia acima de tudo, o esquecimento, esperavam que isso ajudasse a mantê-lo bem longe do mundo humano, onde ele não pudesse fazer com mais ninguém o que fizera com eles.
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