Ângelo deu um longo bocejo. Carol ainda dormia ao seu lado, e já estava bem escuro lá fora. Checou o relógio.

– Carol. Carol, oito horas.

– Hã? Ah, sim... – disse ela, levantando-se e esfregando os olhos – Nossa, você pareceu minha mãe. Já ia procurar a farda do colégio.

– Sua aula era às seis!

– Meu Deus... mãe, é você?

Ângelo foi pro chuveiro enquanto Carol empacotava seu computador e enchia o prato de Ralf com ração e um pouco de graxa do bode guisado de mais cedo. O cachorro limpou tudo antes que Ângelo saísse do banheiro. Dizem que os cães se parecem com seus donos, e Carol riu quando o pensamento lhe veio à cabeça enquanto Ralf a observava pingando graxa de bode pelo focinho.

Saíram às oito e meia. Ralf os acompanhava alegremente, como estava acostumado a fazer.

– Sabe que ele não vai poder entrar, não é, anjo?

– É, ele fica lá fora. Carol, você dá aula amanhã cedo, não é?

– Sim. Por quê?

– Bem, acho que se a gente revezar no sono, tá tudo bem.

– Hmm... Pode ser. Mas desde quando você é tão preocupado com minha agenda?

– Digamos que eu quero que aquele mala do Luquinhas tenha todas as aulas de matemática às seis da manhã possíveis e pontuais.

– Por Deus, Ângelo, me diga que isso ainda não é sobre World of Warcraft.

– Dezesseis reais, Carol! Ele pagou dezesseis reais pra mudar o nome do meu orc!

– Foi mal, mas eu pagaria bem mais pra ver o grande orc guerreiro Angélica cantando aqueles trechos toda vez que usava um golpe. Nossa... o quão estranho é esse lugar?

Haviam chegado ao hotel, com sua irradiante aura espectral. Ângelo engoliu em seco enquanto caminhavam até o portão.

– Qualquer coisa, grite, tá? – disse Carol.

– Grite você. – respondeu Ângelo, falhando ao esconder a ansiedade.

Então um latido brusco de Ralf os interrompeu.

– Qual foi, amigão? – disse Ângelo.

Ralf emitia finos ganidos. Ângelo acocorou-se e pousou a mão na cabeça de seu companheiro.

– Que foi, Ralf? – olhou ao redor – Alguma formiga cabeçuda te pegou de novo?

Ralf parou de ganir. Mas quando Ângelo terminou de checar suas patas e voltou a caminhar até o portão com Carol, o cão latiu novamente e foi até a frente dos dois.

– Ralf, o que...

Então o cachorro começou a empurrá-los com a cabeça. Empurrá-los pra longe do portão. Ora empurrava Ângelo, ora Carol, ora olhava para os dois e gania novamente.

– Acho que ele não quer que a gente vá pra lá, anjo.

Ângelo agachou-se novamente para afagar o pescoço do cão.

– Ele andou fazendo isso desde que eu me afastei, não foi? Toda vez que eu venho pra cá e a gente sai pra algum lugar, ele começa a ganir.

– Ele tá mais... empenhado dessa vez, não é?

– É... mas relaxa, amigão, é só por essa noite.

Então entraram. Ralf latia e gania sem parar do outro lado do portão, indo de um lado para outro e erguendo-se em duas patas, apoiado na grade. Ângelo já estava acostumado com esse tipo de comportamento vindo do cachorro, mas sempre lhe doía deixar Ralf para trás enquanto ele ficava assim. Dessa vez ele realmente tentou empurrá-lo pra fora do hotel. Preferiu não pensar adiante para não piorar as coisas.

– Bem-vindos, senhor e senhorita. Desejam passar a noite?

Foi surreal. Se por fora o hotel já era excêntrico, por dentro não era diferente. Parecia uma casa do período colonial, mas num estilo diferente das que normalmente se vê pelo interior do nordeste. A começar pela lareira acesa. Acima dela, ao fundo do saguão, havia uma moldura exageradamente grande de quem Carol reconheceu como sendo de Tio Chico, o marido de Tália. À frente da lareira se estendia uma longa mesa retangular, forrada com tecido em babados, na qual os hóspedes jantavam sob o desconfortável olhar do cara da moldura. Vasos e móveis vitorianos faziam a maior parte da decoração e, por trás da escada que dava para o primeiro andar, meio oculta nas sombras, estava a estátua do que parecia ser uma noiva, branca como a neve. Todo esse relance somado ao tom britânico das boas vindas da bela e mórbida Tália Moore foi algo que Carol e Ângelo jamais iriam esquecer.

Notas finais
Este capítulo ainda está incompleto. Está bastante cansativo escrever essa história, então eu agradeceria um feedback da parte dos leitores. Incentivaria bastante meu trabalho. Obrigado a todos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.