A Noiva Da Madrugada

1 A Noiva da Madrugada


Certa noite, Paul saiu para trabalhar. Era um taxista de uma pequena cidadezinha do interior e seu turno era da madrugada. Ele dava voltas e voltas pelas avenidas buscando e entregando pessoas. Até que recebeu um telefonema indicando que precisaria ai até a rua da igreja local. Havia uma moça esperando por ele. Chegando lá, a senhorita que o esperava era belíssima. Tinha longos cabelos pretos lisos e lindos olhos castanhos. Usava um vestido simples branco e segurava um buquê de flores silvestres azuis desbotadas.

– Para onde moça? – Perguntou Paul.

– Siga aquele carro, por favor. – Respondeu a moça com uma voz baixa e apontou para um carro que ia um pouco mais a frente.

Dirigindo por meia hora, o carro finalmente parou em uma ruazinha deserta e sem muita iluminação. A moça agradeceu, deixou um punhado de moedas douradas no banco, saiu do taxi desaparecendo quase imediatamente.

No dia seguinte, o taxista manteve a mesma rotina, dirigiu pelas avenidas, buscou mais pessoas e recebeu novamente a ligação do mesmo número para que buscasse a moça na frente da igreja. Ela vestia exatamente a mesma roupa que usou na noite anterior. Só que dessa vez levava uma pequena caixa de veludo negra ao invés do buquê.

– Para onde moça? – Paul perguntou novamente.

– Siga aquele carro, por favor. – Ela repetiu do mesmo modo que na noite anterior.

O motorista achou muito estranha a situação, mas decidiu não questionar. Não era do tipo que gostava de fazer perguntas, este fora uma das coisas que aprendeu durante o tempo que trabalhou como taxista. Cada ação gera uma reação, e fazer uma pergunta gera uma resposta e nem sempre é o que quer ouvir.

Dessa vez, dirigiu para ainda mais longe, e o carro misterioso parou nas beiras de uma floresta, até que desapareceu em meio à neblina. A moça saiu do taxi, agradeceu mais uma vez e deixou o mesmo punhado de moedas douradas no banco de trás.

Um semana depois, na mesma rotina costumeira, o taxista saiu para trabalhar, e quando faltavam duas horas para o amanhecer, recebeu pela terceira vez a ligação para que buscasse a moça à frente da igreja. A senhorita estava usando um vestido um pouco mais longo e um pequeno véu branco que lhe cobria apenas o rosto. A lua cheia ainda brilhava no céu da noite, mas o vento trazia nuvens carregadas.

– Para onde moça?

Paul pensou que ela o faria seguir o mesmo carro, mas dessa vez o procurou e nada viu.

– Leve-me pela Estrada Velha, por favor.

A Estrada Velha era um antigo caminho, quase tão velho quanto a própria cidade. Uma as primeiras construções. Conforme ia adentrando a estrada, as árvores em volta pareciam curvar-se em direção ao chão, como garras tentando pegar os carros que passavam por ali, a densa copa impedia que a luz da lua iluminasse o caminho. O ar fora do carro era gelado e a névoa saía de dentro da floresta como se estivesse se arrastando.

– Sei que não é de minha conta, mas o que leva uma moça tão jovem para lugares tão hostis? – Paul perguntou, não queria admitir mas estava com medo. No tempo em que vivera na cidade, ouviu histórias sobre aquela velha estrada e as ilusões que provocava nos motoristas para que deixassem seus carros. A Estrada Velha levava para um bosque, Paul nunca sentira vontade de andar por lá e nenhum de seus clientes também não.

– Busco por alguém.

Dirigindo pelo resto do percurso, não conversaram mais e a moça estava com um sorriso estranho no rosto, do tipo que se sorri com os lábios, mas os olhos não emitem expressão de felicidade nenhuma. Ao longe, o taxista viu um farol de carro. O mesmo carro das duas noites anteriores. Uma neblina muito densa surgiu e Paul não pode ver mais nada, o carro ia se aproximando e ele ouvia o som de metais tilintando, batendo no asfalto. O som vinha das latinhas penduradas no para-choque traseiro do carro à frente. Uma garoa começou, e juntamente com a neblina, turvou sua visão. A única coisa que via era os faróis do carro à frente.

E então o carro desapareceu, saindo pelo lado esquerdo da estrada.

– Siga-o. – A moça pediu.

Paul já não via absolutamente nada. Não havia sinal dos faróis, só a garoa fina, som do próprio motor e escuridão, devido às copas das árvores que tampavam completamente a luz. As mãos de Paul escorregavam no volante, suas mãos suaram muito e só se deu conta quando uma gota gelada escorreu pela têmpora. Ele estava com medo. Subitamente, a moça pediu para que parasse e fez sinal para que o motorista descesse do carro também. Guiou-o para o meio da floresta, onde a estrada asfaltada foi substituída por um chão de terra batida. As árvores foram se reduzindo até que a vegetação ao redor tornou-se baixa. Chegaram a uma espécie de encosta, onde a vista era incrivelmente bela da aurora. O céu tingido de um azul anil, com nuances rosados. Na beira da estrada, a cerca que servia de referência para os veículos estava rompida.

Quando o Paul aproximou-se à beira do penhasco, olhou para baixo e notou no chão a 50m abaixo, os destroços de um carro simples e pouco enferrujado, que há poucos dias havia caído. Havia pedaços por todos os lados e pendurado em um arbusto de flores silvestres sem vida, o pedaço rasgado de um véu esvoaçava, um pouco mais ao longe, lembrou-se da névoa na estrada, que parecia se arrastar. De fato, uma mulher vestida de branco estava estendida, como a névoa, para fora do carro, imóvel.

Paul sentiu as vísceras se contorcerem dentro do tronco quando assimilou as coisas. E antes que proferisse uma só palavra, sentiu um beijo gelado e sem vida no rosto. A moça que trouxera até ali havia desaparecido. Uma sensação de medo e pânico tomou seu corpo quando ouviu a voz sussurrante e gélida da mulher dizer:

– Foi assim que eu morri.

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