A Noite dos Mil Sussurros

3 O Último Suspiro da Lua


A lua minguante pairava sobre Raven Hollow, pálida e cansada, como se também tivesse presenciado a batalha e agora se preparasse para descansar.

A cidade estava em silêncio. Não havia mais gritos, nem fogo, nem sombras caminhando entre os vivos. Apenas o som distante das árvores sendo tocadas pelo vento, e o cheiro de terra molhada — o cheiro do fim.


Entre os escombros da antiga igreja, Amélia Crowe despertou lentamente. A dor em seu corpo era quase insuportável; cada batida do coração parecia um trovão. A marca da meia-lua em sua mão ainda ardia, mas agora brilhava em tons escuros — um dourado misturado com cinzas.


Ao redor, os corpos dos inimigos haviam desaparecido. Só restavam rastros de fumaça e pó.

Mas nem todos que lutaram ao seu lado haviam sobrevivido.


A poucos metros, Elior — o lobisomem — estava de joelhos, ferido mortalmente. O peito dele sangrava, e o olhar, cansado, se voltava para o céu.

Amélia rastejou até ele, segurando sua mão coberta de garras.

— “Não... você vai ficar bem. Eu posso curar, eu posso...”


Ele sorriu, fraco.

— “Já lutei demais, pequena Crowe.” — A voz dele era rouca, quebrada. — “A lua cheia me amaldiçoou... e agora, sob a lua minguante, eu me liberto.”


Com o último suspiro, Elior se desfez em partículas de luz prateada, como poeira levada pelo vento.

Amélia sentiu as lágrimas caírem, o peito apertar, e a solidão crescer em meio ao silêncio da destruição.


Atrás dela, Selene Draviel encostava-se a uma coluna caída, o rosto pálido e o olhar perdido.

— “Vampiros não choram,” — murmurou, — “mas se pudessem, hoje seria o dia.”


Amélia a encarou.

— “Você também foi ferida?”


Selene olhou para o ferimento em seu abdômen, onde o fogo do véu havia tocado durante a explosão final.

— “O fogo que você liberou... queima o que é impuro. E eu... sou impura desde que me tornei o que sou.”


Ela tentou rir, mas o som se transformou em tosse.

— “Prometa-me uma coisa, herdeira. Proteja o Véu. Não deixe que a fome dos mortos volte a tocar este mundo.”


Antes que Amélia pudesse responder, Selene pousou a mão fria sobre o ombro da garota. Um brilho vermelho suave se espalhou, e o corpo da vampira se transformou em névoa — dissolvendo-se na noite como uma sombra que volta ao seu lugar de origem.


Agora, restavam apenas Amélia e a Morte.


A ceifadora caminhou lentamente até ela, a foice apoiada sobre o chão quebrado.

— “Toda vitória cobra seu preço.” — disse com calma. — “Você selou o portal, mas absorveu parte da essência de Samhain. Agora o equilíbrio depende de você.”


Amélia olhou para a marca que pulsava em sua mão.

— “O que eu sou agora? Uma bruxa? Um monstro? Ou algo entre os dois?”


A Morte a observou por um momento antes de responder:

— “Você é o que o mundo precisa que seja.”


Ela ergueu a foice, e por um instante, Amélia viu as almas libertas — centenas de espíritos flutuando sobre a cidade, finalmente em paz. Elior e Selene estavam entre eles, sorrindo em silêncio.


— “Eles estarão bem.” — disse a Morte. — “Mas você não poderá descansar. O Véu precisa de um guardião... e ele escolheu você.”


Amélia fechou os olhos, sentindo o peso de tudo que havia acontecido.

— “Então ficarei. Pelo que perdemos. Pelo que ainda pode ser salvo.”


A Morte assentiu.

— “Quando o Halloween voltar a respirar, eu também estarei lá. E você, bruxa do véu, decidirá se o mundo verá a luz... ou o fogo.”


E então ela desapareceu, como um sopro levado pelo vento.


Amélia ficou sozinha diante da lua, agora apenas um fio de prata no céu.

Em sua palma, o símbolo da meia-lua brilhou uma última vez, antes de se fundir à pele.


O amanhecer começou a surgir por trás das colinas, tingindo Raven Hollow de dourado e vermelho.

O pesadelo havia acabado.

Mas no fundo, Amélia sabia que o poder que agora carregava — o poder de Samhain — não dormiria para sempre.


Ela olhou para o horizonte e murmurou:

— “Que o próximo Halloween me encontre pronta.”


E quando o primeiro raio de sol tocou seu rosto, a bruxa caminhou de volta à cidade, entre cinzas, fantasmas e promessas.


Atrás dela, entre as sombras da floresta, uma lanterna reacendeu sozinha, balançando suavemente, como se alguém invisível a segurasse.

Uma risada distante ecoou, leve e cruel.


Jack O’Lantern sussurrou novamente:

— “Até o próximo suspiro da lua, pequena guardiã...”


Um ano havia se passado desde a Noite dos Mil Sussurros.

Raven Hollow agora parecia uma cidade comum — mas apenas à primeira vista. As ruas haviam sido reconstruídas, o antigo cemitério fora selado com sal e ferro, e as casas, antes queimadas, exibiam bandeiras e decorações que tentavam disfarçar a memória do horror.


Mas, sob a aparência de normalidade, o medo ainda dormia.


Amélia Crowe vivia reclusa no Solar dos Corvos, a antiga mansão de sua família. A vegetação crescera em torno das paredes de pedra, e as janelas estavam sempre cobertas por cortinas espessas. Ali dentro, ela estudava livros deixados por Morgana, tentando compreender a natureza do Fogo do Véu — o poder que agora habitava em seu sangue.


Nos primeiros meses após a batalha, o fogo havia permanecido calmo. Mas ultimamente, ela vinha sentindo pulsos de energia sombria — pequenas fagulhas negras que se acendiam sob sua pele sempre que a lua crescia.


> “O poder de Samhain nunca morre,”

— dizia uma das anotações de Morgana.

> “Ele apenas muda de guardião.”


Amélia parou de ler e olhou para a lareira apagada.

O reflexo nas chamas invisíveis mostrou algo que a fez gelar: seus olhos brilharam por um instante em laranja, a mesma cor do fogo de Jack O’Lantern.


Ela recuou, assustada.

— “Não... isso não pode estar acontecendo.”


Mas estava.


A marca da meia-lua começou a brilhar, e uma dor aguda percorreu seu braço. De repente, ela ouviu uma risada familiar — distante, ecoando entre os cômodos vazios.


— “Senti sua falta, pequena guardiã...”


A voz de Jack O’Lantern.


Amélia virou-se rapidamente, e a lareira se acendeu sozinha, revelando a silhueta dele refletida nas chamas — sem corpo físico, apenas uma presença ardente, como uma lembrança viva.


— “Você me destruiu, sim... mas também me acolheu.” — disse ele, com um tom quase afetivo. — “O poder que roubou é apenas parte de mim. E agora ele cresce dentro de você, queimando tudo o que ainda é humano.”


Amélia gritou, tentando conter a energia. As chamas se espalharam pela sala, moldando rostos que gritavam, memórias da noite passada — Elior, Selene, e até sua avó Morgana.


A voz de Morgana soou entre os ecos:

— “Amélia, o fogo queima, mas também protege. Não lute contra ele — controle-o!”


Ela caiu de joelhos, pressionando a mão no chão. A madeira sob seus dedos se incendiou, mas o fogo obedeceu, girando ao redor dela como uma serpente dourada e negra. O poder de Samhain e o Fogo do Véu estavam colidindo dentro de seu corpo, duelando por domínio.


No instante seguinte, as chamas se apagaram.

O silêncio voltou, mas o ar parecia pesado, vivo.


Amélia respirou com dificuldade e olhou para a lareira.

Jack havia desaparecido — mas seu sussurro permanecia no ar.


— “O Halloween está chegando... e o véu se enfraquece novamente. Você sabe o que precisa fazer.”


Ela sabia.

O ciclo estava se repetindo.


Determinada, Amélia pegou seu casaco e o antigo grimório Crowe, guardado sob sete fechos de prata. Ao abrir o livro, as páginas brilharam, revelando uma nova inscrição que antes não existia:


> “Quando a chama negra renascer, procure o Círculo das Cinzas — o local onde os mortos ainda esperam ser libertos.”


Ela sentiu o vento entrar pelas janelas, frio e carregado de vozes.

A lua crescente brilhava no céu como uma lâmina prateada.


Amélia segurou o grimório com firmeza.

— “Se o Halloween quer voltar... então vai me encontrar pronta.”


E com um passo decidido, saiu da mansão, o manto negro balançando atrás de si.

Ao longe, nas colinas de Raven Hollow, três lanternas se acenderam sozinhas, uma após a outra — como olhos observando seu caminho.


O Halloween estava despertando novamente.

E desta vez, a guardiã do Véu talvez não fosse apenas sua protetora...

mas também sua herdeira.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.