Notas iniciais
novo cap, desculpem a demora!

A Ninfa da Cascata


Capítulo 3 – Filha dos Lobos

O rapaz rapidamente soltou a pobre e assustada rapariga de cabelos longos. Esta assim que se viu solta do agarro do jovem, saiu debaixo dele e fugiu para trás de uma das árvores…Sulfus nada fez para a apanhar desta vez, simplesmente ficou ali ainda chocado com a informação que tinha recebido alguns segundos atrás…

Ela era muda! Ela não conseguia falar! Obviamente ele não tinha nada contra isso, por que razão teria? O que o estava a perturbar naquele momento era ele mesmo, ele e as suas acções para com a rapariga nos últimos minutos! Tinha-lhe jurado por tudo o que era mais sagrado que não lhe queria nem lhe ia fazer mal e no entanto tinha-a prendido, tinha-a assustado, tinha gritado com ela mas acima de tudo tinha-a obrigado a responder às suas perguntas quando a pobre rapariga não o podia fazer!

Sentia-se mal…muito mal…mal e envergonhado…simplesmente queria descobrir quem ela era e tinha acabado por agir como um maluco! Agora sim compreendia por que razão aquela rapariga tinha medo dele…

Suspirou e levantou-se da relva, olhou para a árvore onde à pouco ela se tinha escondido…tinha de fazer alguma coisa para compensa-la, por alguma razão ele não queria que ela tivesse medo dele. Caminhou até ao lado contrário da árvore e deu de caras com a figura encolhida da pobre rapariga. Estava encostada ao tronco da árvore com os joelhos juntos ao peito e os seus braços em roda dos mesmos, ficou tenso…não só por ver aquela figura encolhida mas também por ver o corpo da rapariga a tremer, apesar de não ouvir nenhum soluçar, ele sabia que ela estava a chorar…tinha-a assustado bastante desta vez…

Sulfus sentiu-se mal de novo, tinha de lhe pedir desculpas pelos seus actos mas tinha de faze-lo de forma a não assusta-la ainda mais…agachou-se e sentou-se de joelhos frente à rapariga. “Olha…” começou ele, mordendo o lábio levemente…moveu a sua mão na direcção do braço e tocou-o levemente com a ponta dos seus dedos, ela rapidamente ergueu a cabeça revelando o seu rosto coberto de lágrimas, assustada tentou encostar-se ainda mais ao tronco da árvore “Não, não, tem…tem calma por favor! Eu juro que não te vou fazer mal, só queria pedir-te desculpas pelo que fiz à pouco, não era minha intenção assustar-te, eu só queria saber quem eras”

De certa forma a rapariga pareceu acalmar-se ao ouvir aquelas palavras e isso fez com que Sulfus suspirasse de alívio, prontos já tinha conseguido pedir-lhe desculpas…e agora? Lembrou-se então de uma pergunta que lhe queria fazer “Hum…posso…posso fazer-te uma pergunta…?” ela olhou para ele com um olhar curioso “Foste…foste tu quem me salvou ontem? De…tu sabes…de morrer afogado? No rio…”

Pouco a pouco viu a rapariga assentir “Então…porque é que fugistes de mim quando te chamei…?” ela meteu um dedo sobre os seus lábios vermelhos e tinha um olhar pensativo no rosto, isto quase fez Sulfus rir mas ele conteve-se pois sabia que ela estava a tentar arranjar maneira de comunicar com ele visto que não podia usar palavras. De repente a rapariga apontou para ele…bem, não propriamente para ele, foi mais para os seus olhos, o rapaz ficou confuso

“Uh…a minha cara…?” perguntou “Assustaste-te com a minha cara?” a rapariga abanou a cabeça e voltou a mexer o dedo na direcção do seu rosto, Sulfus continuava sem perceber o que é que ela queria dizer com aquilo, ela inclinou-se para a frente e aproximou mais o dedo de um dos seus olhos, estes por instinto fecharam-se e o rapaz chegou-se para trás para evitar que ela lhe metesse o dedo em cheio no olho. Depois de recuperar do susto, o rapaz de cabelos negros começou a perceber a mensagem “Tiveste medo dos meus olhos?” ela assentiu e ele ergueu um sobrancelha, ainda mais confuso…por que razão ela tinha medo dos seus olhos? Que mal tinham eles?

“Continuo sem perceber…tens medo dos meus olhos? O que é que eles têm de errado?” a rapariga colocou as suas mãos em volta dos seus braços e olhou para baixo, o rapaz continuava sem entender o que ela queria dizer com aquilo…

‘Esta miúda é muito estranha…mas por que razão sinto esta necessidade de comunicar com ela…? Por que razão…não quero desistir…?’ pensou ele…não sabia…suspirou…era difícil comunicar com ela por apenas gestos, a maior parte dos gestos que ela fazia para ele eram indecifráveis…como é que era suposto ele comunicar com ela se não percebia o que ela queria dizer…? A não ser…

“Ei miúda, sabes escrever?” a jovem inclinou a cabeça para o lado com um olhar curioso enquanto o via a tirar a pequena mochila que trazia às costas, começou a mexer no que tinha lá dentro até que retirou um pequeno bloco e um lápis, ela continuou a olhar para ele curiosa enquanto o via a rabiscar qualquer coisa nas folhas daquele bloco, alguns segundos depois ele mostrou-lhe o que tinha feito…”Sabes fazer algo assim?” estava qualquer coisa ali escrita…ela voltou a inclinar a cabeça para o lado e após alguns momentos de silêncio olhou para ele com o mesmo olhar, desviando os seus olhos azuis celestes das folhas

Ele suspirou e gatinhou até sentar-se ao lado dela, entregou-lhe o lápis e o bloco “Tenta escrever qualquer coisa aí” no entanto a rapariga ficou a olhar para os dois objectos nas suas mãos, olhou para o lápis e tocou várias vezes na ponta deste, depois mexeu nas folhas brancas do bloco vezes sem conta, Sulfus ergueu uma sobrancelha ao ver isto…ela parecia um bebé, uma criança a brincar com aquilo…era como se…ela estava a agir como se…

“Nunca viste algo assim…?” murmurou ele, ela ouviu-o e tirou a sua atenção dos objectos e depois abanou a cabeça, ele achou isto muito estranho…a rapariga devia ter mais ou menos a sua idade! Como era possível que ela nunca ter visto ou sequer saber o que era um bloco e um lápis? “Nunca viste algo assim também?” disse ele pegando na mochila que tinha no colo, ela olhou para aquilo por uns momentos e depois voltou a abanar a cabeça, isto chocou Sulfus…não podia ser…”Queres dizer que…nunca estivestes em lugar algum…para além da floresta? Nunca viste a vila, nem as outras pessoas?” de novo ela abanou a cabeça

“M-Mas como?!” não acreditava que algo assim fosse possível…como é que uma rapariga tão jovem como ela nunca viu mais nada nem ninguém na sua inteira vida para além das árvores da floresta…será que ela sempre viveu aqui…? Talvez mas…desde quando? Seria possível sobreviver na floresta sozinha…? O rapaz estava tão confuso que deixou cair o seu corpo para trás pesadamente sobre a relva verde, suspirou e fechou os olhos ainda tentando interiorizar aquela recente informação…tinha descoberto várias coisas a respeito daquela rapariga em tão poucas horas…descobrira que ela era muda, descobrira que ela não sabia escrever, descobrira que ela não sabia nada sobre o mundo moderno e principalmente descobrira que ela nunca fora para além da floresta…

De repente ouviu um som oco, como quem se também tivesse deitado no chão pesadamente como ele tinha feito ainda há pouco, olhou para o seu lado e viu a rapariga deitada na MESMA posição que ele, viu ela a virar a cabeça na sua direcção.

Ele ergueu uma sobrancelha…ela fez o mesmo

Piscou os olhos…ela fez o mesmo

Ok…isto estava ficar estranho…levantou-se e voltou a sentar-se…e ela voltou a fazer o mesmo que ele

Ok era oficial…ou ela estava a gozar com ele ou estava a tentar aprender alguma coisa…

Ele meteu-se de joelhos e aproximou-se dela, ela repetiu o mesmo gesto e quando deram por isso os seus rostos estavam perto um do outro, o rapaz ficou um pouco embaraçado por tal proximidade…estava prestes a afastar-se dela quando de repente ouviu algo que provinha por detrás de si…

Um rosnar…

Vários rosnar…nada amigáveis…sobressaltado ao ouvir isto, o rapaz de cabelos espetados virou-se lentamente e os seus olhos de cor âmbar arregalaram-se em choque, surpresa e medo ao aperceber-se o que estava atrás de si…

Eram nada mais…nada menos do que…

Uma alcateia de lobos…

Lobos de pêlo cinzento e olhos profundo azuis, dentes bem afiados assim bem como as suas garras, o seu pêlo estava eriçado…eram pelo menos uns seis lobos, sem contar com as pequenas crias que se escondiam atrás dos mais velhos…e eles pareciam bastante irritados…

Sulfus devagar levantou-se, tentando não fazer nenhum movimento brusco que irritasse ainda mais os lobos, nunca se tinha deparado antes com um lobo, muito menos com uma alcateia, mas sabia perfeitamente que eram criaturas selvagens e bastante perigosas que te podiam rasgar a garganta em segundos…ou pelo menos era isso que contavam…

O lobo que se encontrava frente à alcateia rosnou de novo…devia ser o macho alfa…o rosnar foi tão forte que a pele de Sulfus virou completamente pele de galinha, tentou não se mexer, aliás ele nem se conseguia mexer, estava completamente paralisado, ele nunca na vida tinha tido tanto medo!

Quando ele menos esperou, o alfa saltou-lhe para cima, ambos caíram ao chão com o lobo enorme em cima do rapaz, este mal teve tempo de se proteger do ataque! Mas tinha conseguido colocar os braços à frente do corpo, bloqueando assim parte do ataque, apesar disso as garras do lobo tinham-se espetado na sua pele. O lobo abriu a sua enorme boca, mostrando os seus grandes dentes afiados, Sulfus arregalou os olhos assustado.

Deu por si a pensar se teria sido melhor ter morrido ontem afogado ou se seria melhor morrer às garras de um lobo feroz e da sua alcateia…chegou à conclusão que nenhuma das opções era a melhor! Ele não queria morrer! Não ainda, não agora! Deus tinha-lhe dado uma segunda oportunidade de viver no dia anterior ao enviar aquela rapariga para o salvar mas agora já estava frente a frente com um novo perigo que o podia despedaçar em segundos!

De repente, e quando ele menos esperava, a rapariga de cabelos loiros empurrou o lobo para longe de si, o lobo não parecia ter exercido força nenhuma para contrariar o movimento da rapariga. Sulfus tentou sentar-se mas mal podia mexer os braços, estavam completamente arranhados! No entanto não foi isto que lhe tomou a atenção naquele momento…o que lhe atirou a atenção foi a rapariga que se encontrava frente a ele com um olhar determinado nos seus olhos celestiais, ela olhava para o lobo zangada e este parecia ter deixado de rosnar apesar do seu pêlo continuar eriçado…

Viu-a a abanar a sua cabeça algumas vezes, depois os seus olhos tornaram-se mais dóceis e ela agachou-se, colocando-se agora de joelhos frente ao lobo. O movimento que ela fez a seguir surpreendeu Sulfus por completo! Ela estendeu os seus braços na direcção do enorme lobo e as suas mãos tocaram no pêlo felpudo e cinzento do animal, viu-a a acariciar o pêlo e depois a criatura a aproximar-se dela e a lamber-lhe o rosto com a sua enorme língua, ela colocou um sorriso no rosto e se não fosse por ela não ter voz, Sulfus jurava que ela se estava a rir naquele preciso momento…

“Mas como…” murmurou o rapaz ainda incrédulo…os outros lobos rapidamente se juntaram ao macho alfa e a rapariga abraçou-os a todos, feliz, acariciando-lhes o pêlo enquanto eles lhe lambiam o rosto…ele ainda não conseguia acreditar…eles estavam a trata-la como se ela fosse um deles…como se fizesse parte da matilha…era como se…como se…

Como se ela fosse filha deles…

Então a rapariga soltou os animais e voltou-se para ele, aproximou-se dele e tomou-lhe as mãos. Ajudou-o a levantar-se da relva e levou-o até ao lago de onde a cascata desaguava, obrigou-o a sentar-se e tomou-lhe os braços feridos

Sulfus suspirou “A minha mãe vai matar-me quando eu voltar para casa neste estado, nunca mais me vai deixar sair sozinho!” reclamou ele, a rapariga sorriu e então arrancou um bocado do seu vestido branco, molhou-o na água fresca do lago e depois enrugou-o um pouco, o rapaz olhou para ela confuso…então ela enrolou o pedaço do vestido molhado sobre os seus arranhões. Ao início Sulfus fechou os olhos pois tinham sentido um ardor quando a água tocara nas feridas mas passado alguns segundos…já não sentia nada…não sentia ardor, já não sentia dor…a rapariga retirou o pedaço de tecido dos seus braços e dizer que Sulfus estava chocado com o que viu a seguir era pouco!

As suas feridas tinham desaparecido como por magia!! Desapareceram mesmo, sem deixar rasto, não havia cicatrizes, não havia sangue, nada! Como é que isto era possível?! O rapaz de cabelos negros, ainda chocado, olhou para a rapariga…

“Como é que tu…” a rapariga sorriu-lhe docilmente e depois apontou para a água “A água…a água curou-me…?” a rapariga assentiu “Como…” murmurou ainda sem acreditar que as suas feridas tinham desaparecido sem deixar rasto…era possível que aquela água fosse mágica…? Não…magia não existia certo…? Ah ele já não sabia no que acreditar! Passaram alguns minutos e o silêncio reinava aquele lugar, os lobos haviam assentado na relva, as crias brincavam umas com as outras sob o olhar atento dos seus progenitores.

Então ela puxou-lhe a camisola um pouco para lhe chamar a atenção, ele olhou para ela, percebendo a mensagem “Sim?” ela voltou a apontar para a água e então para tudo o que os rodeava e depois levou o dedo indicador até aos seus lábios, ele piscou os olhos tentando perceber a mensagem que ela lhe estava a querer transmitir…olhou para a água, para o lugar onde estavam e então para ela de novo, recordando então o que tinha acontecido à pouco tempo…”Queres…aliás não queres que eu diga a ninguém sobre este sítio? Sobre esta água?” ela assentiu várias vezes seguida

Sulfus sorriu e assentiu “Ok, eu prometo. Juro!” e então entrelaçou um dos seus dedos mindinhos com o dela, ela olhou para ele curiosa e confusa ao mesmo tempo, ele sorriu-lhe “Isto é a nossa maneira de selar uma promessa. Eu prometo não dizer a ninguém sobre este lugar e também que venho aqui visitar-te sempre que possa. É uma promessa” voltou a sorrir-lhe e ela retribuiu o sorriso antes de lhe saltar para cima e abraçá-lo, derrubando-o para a relva

Sulfus riu-se "Sabes uma coisa? Eu não quero chamar-te para sempre 'miuda' por isso...acho que te vou dar um nome" a rapariga olhou para ele curiosa, que nome é que ele lhe daria? "Hum...vejamos..." olhou em volta, tentando ter alguma inspiração para lhe dar um nome, por alguma razão não lhe queria dar um nome vulgar..queria que fosse algo de especial..."Já sei! Acho que te vou chamar Ninfa...o que achas?" perguntou ele, ela deu-lhe uma resposta ao sorrir e abraçá-lo de novo

TBC…

Notas finais
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