A Ninfa da Cascata
7 Dura Verdade
Notas iniciais
A Ninfa da Cascata
Capítulo 7 – Dura verdade
Sulfus despertou na manhã seguinte, estava completamente aninhado no meio dos cobertores e lençóis da sua cama, estava tanto frio que nem lhe apetecia sair dali. Mas apesar do frio, o sol atravessava os pequenos buracos da persiana da sua janela, inundando o quarto com a luz da manhã, causando o despertar definitivo do rapaz. Olhou para o seu telemóvel com uma cara ainda bastante ensonada para ver que horas eram: 10:30.
Voltou a colocar o objecto sobre a mesa-de-cabeceira e deixou-se acomodar mais um pouco, afinal de contas era Sábado, queria ficar ali espaldeirado na cama, estava demasiado cansado. Estava prestes a deixar-se dormir de novo quando começou a ouvir risos do lado de fora, provindas do jardim.
Levado pela curiosidade, levantou-se da cama e arrastou-se até à janela, abriu as cortinas e a persiana da sua janela, espreitou então para fora e deparou-se com Elisabeth a tentar ensinar Ninfa a fazer bolas de neve e a atirá-las contra uma árvore, a sua irmãzinha ria-se pelo facto da rapariga de cabelos loiros ser um pouco desajeitada a fazê-lo. Algo que chamou a atenção do jovem adolescente foi que reparara que Ninfa já não estava a usar o vestido branco com que ele sempre a vira vestida, vestia umas calças de ganga justas, umas botas de neve castanhas e um casaco quente de cor roxo, não conseguia ver a camisola por causa do casaco. Mas reparava-se à distância que a rapariga não estava habituada aquelas roupas, pois tinha dificuldades em mexer-se mas Elisabeth ajudava-a sempre a levantar-se cada vez que ela se desequilibrava e caia, fazendo um enorme buraco na neve, mais um razão para a pequena rir-se tanto.
Decidido também a juntar-se à brincadeira das duas, Sulfus sorriu e voltou-se a enfiar para dentro do quarto. Mudou de roupa e saiu do quarto, dirigindo-se para o piso debaixo onde os seus pais se encontravam na sala de estar, sentados no sofá, Edan lia o jornal como de costume enquanto Seraph lia um dos seus livros de romances que tanto adorava.
“Bom dia” disse o rapaz, a atenção dos pais viraram-se logo para ele, a mãe sorriu-lhe
“Finalmente acordado” disse ela, a brincar pois sabia perfeitamente que o filho adorava dormir até bastante tarde, este percebendo o tom de brincadeira simplesmente revirou os olhos antes de se dirigir para a cozinha e pedir a Bianca que lhe fizesse algo rápido pois não tinha muito apetite. Após ter tomado o pequeno-almoço, decidiu então dirigir-se para o jardim da casa que agora estava coberto de neve, onde as duas raparigas estavam a brincar…ou tinham estado pois quando lá chegou não as viu. Achou estranho…não as tinha visto entrar em casa, onde estavam então?
Tudo o que sentiu a seguir foi algo a bater-lhe na parte detrás da cabeça, cobrindo os seus cabelos azuis rebeldes de neve, virou-se mas mal teve tempo de reagir pois não uma mas três bolas de neve atingiram-no em cheio na cara. Sacudiu a neve da cara e olhou para de onde estas tinham vindo, mas não estava lá ninguém, no entanto ele conseguia ouvir um riso muito baixo da irmã.
“Ai que engraçadinhas” disse ele enquanto tentava perceber onde é que elas estavam escondidas, caminhou silenciosamente pela neve, tentando não fazer muito ruido. Foi então que viu um bocado dos cabelos loiros de Ninfa escondidos atrás de um arbusto, revirou os olhos mas sorriu “Oh mas onde é que elas poderão estar” agachou-se e encheu os braços com neve e caminhou até onde elas estavam escondidas, deparou-se com elas as duas a rirem-se do que lhe tinham feito, no entanto não se aperceberam do “perigo” que estava mesmo por cima delas, só se aperceberam tarde demais quando Sulfus deixou cair o monte de neve em cima das duas, rindo-se ele desta vez.
“Ora tomem lá esta!” disse ele entre risos enquanto as duas raparigas saiam debaixo do monte de neve, sacudindo-se, Elisabeth fez beicinho enquanto se levantava e cruzou os braços, Sulfus continuou a rir e apertou-lhe o nariz levemente em jeito de brincadeira, esta começou logo a rir. O rapaz então ajudou Ninfa a levantar-se “Lizzie, o que achas de irmos mostrar a cidade à Ninfa?” perguntou ele então à irmãzinha.
“Sim, sim!” respondeu logo esta animada
“Vai avisar os pais, nós esperamos por ti no portão” a menina assentiu e saltitou alegremente para dentro de casa, Sulfus virou a sua atenção de novo para a rapariga loira que estava frente a si, sorriu-lhe “Dormiste bem?” perguntou, a rapariga assentiu e também lhe sorriu. Ela seguiu-lhe quando ele começou a caminhar na direcção do portão, acompanhando o seu passo.
“Sabes, há uma coisa que te quero perguntar, acerca do sítio onde vives com os lobos” disse o rapaz, atraindo a atenção da rapariga que olhou para ele de uma maneira como quem queria dizer para continuar “Ontem quando fui lá à tua procura…reparei numa coisa…o lago não estava congelado, aliás nada que se encontrava lá dentro estava coberto de neve, como é possível? Estamos em pleno inverno…”
A rapariga queria-lhe explicar mas o facto de não ter voz não lhe permitia que tal acontecesse…como é que lhe conseguiria explicar tal coisa? Era um pouco difícil fazê-lo com gestos…vendo a dificuldade da rapariga em explicar-lhe, o rapaz tentou ajudá-la ao tentar adivinhar
“Tem algo a ver com a água? A magia?” tentou ele, acabou por receber logo um aceno de cabeça, indicando que tinha acertado “Queres dizer que a magia da água para além de curar feridas, é também capaz de manter aquele lugar a salvo da mudança das estações?” de novo a rapariga assentiu, ele estava fascinado, nunca pensou que a magia existisse, muito menos que tivesse tamanho poder…no entanto ainda outra pergunta vagueou pela sua mente “Mas…diz-me, o que pode acontecer se aquela magia desaparecer? O lugar fica desprotegido e pode…morrer?” a rapariga colocou um olhar triste e assentiu levemente, baixando o olhar…
Sulfus agora entendia por que razão ela lhe tinha pedido segredo sobre aquele lugar…existia muitas pessoas malvadas e egoístas no mundo, se descobrissem tal riqueza e poder acabariam por destruir aquele lugar e usariam a magia para fins malvados “Bom, não te preocupes, no que depender de mim ninguém vai saber daquele lugar” ela sorriu-lhe em sinal de agradecimento. Não demorou muito até que Elisabeth os apanhasse. Por muito que amasse a sua irmã, havia um outro motivo pelo qual Sulfus também a trouxera consigo e Ninfa, sabia que se andasse sozinho pela cidade com a rapariga que os rumores e maldizeres sobre a sua família iam voltar, dizendo que ele andava com outra quando estava para casar com a única filha da família Rosso e por aí fora…
“Bom, deixa cá ver…por onde podemos começar…ah, estás a ver aquele sítio ali ao fundo?” disse Sulfus, indicando a construção enorme e pintada de várias cores que mais parecia um palácio “Aquela é a minha escola” Ninfa inclinou a cabeça um pouco em sinal de confusão “Uh bem…o que é que eu posso dizer…a escola é um sítio onde basicamente aprendes várias coisas, a escrever, a ler, a contar…e existem vários anos, podes considera-los como níveis, pode-se dizer que à medida que vais aprendendo, vais subindo de nível, percebes? Eu por exemplo, estou no último nível, quando acabar tenho de escolher algo que eu quero fazer no futuro, para poder entrar para uma escola mais avançada que esta. A Elisabeth no entanto, ainda só está no segundo ano.” A rapariga assentiu, parecendo ter entendido a explicação do rapaz.
A guia pela cidade continuou, obviamente e tal como já esperavam, as pessoas cochichavam coisas sobre quem era aquela rapariga, por que razão estava com o Sulfus, era alguma prima que estava de passagem, entre outras…Sulfus só esperava que nenhuma dessas coisas se tornasse num novo rumor que fosse parar aos jornais e revistas, seria mais uma dor de cabeça para a sua família. Mostraram a Ninfa as lojas de roupa, os restaurantes, o tipo de casas, muitas coisas, a rapariga parecia fascinada com tudo aquilo, nunca tinha visto tais coisas!
Mas foi então que…
“Sulfus?” disse de repente uma voz, o rapaz virou-se para trás e ficou surpreendido por ver quem era…e adivinharam, era nada mais, nada menos do que a própria Kabale! Esta mirava o namorado, a irmã deste e a rapariga de cabelos loiros que ela completamente desconhecia que era…
“K-Kabale….” Murmurou o rapaz de cabelos negros, apercebeu-se que ela estava a olhar para Ninfa…olhou para esta última e então de novo para a rapariga frente a si…suspirou…sabia que este momento mais tarde ou mais cedo ia chegar…mas tinha que tentar controlar as coisas…
“Quem é ela?” disse directamente, sem quaisquer tipo de rodeios, a rapariga de cabelos roxos, fulminava Ninfa com os seus olhos âmbar…quem era ela e por que razão estava tão perto do SEU namorado, do SEU noivo…? Não gostava nada disto, nem um bocadinho….
“Lizzie, consegues voltar para casa com a Ninfa, sozinha?” disse o rapaz, voltando-se para a sua irmã que, apesar de ter apenas 7 anos, apercebeu-se da situação rapidamente e tomando a mão de Ninfa na sua, disse à rapariga para irem andando e que Sulfus logo as apanharia, Ninfa ficou preocupada mas obedeceu e seguiu de volta para a casa dos Zolfanello com Elisabeth.
“Casa? Ela vive contigo?! Quem é ela Sulfus?! Andas-me a trair?!” gritou esta, vendo que as atenções estavam a começar a virar-se para eles os dois, Sulfus agiu depressa, agarrou na mão da rapariga e conduziu-a para uma zona mais isolada, o mais longe possível de locais públicos onde alguém pudesse ouvir a conversa.
“Ouve-me bem Kabale, não é o que tu estás a pensar!” exclamou ele
“Ai não é?! Então diz-me o que é! Essa miudinha vive CONTIGO e tu queres que eu pense o quê?!” continuou a exaltar-se a rapariga “Eu sabia que tu me andavas a esconder qualquer coisa e agora o que eu vi prova-me que estava certa! Não passas de um mulherengo traidor!”
“E o que é que tu viste exactamente, Kabale?! Diz-me! O que tu viste foi eu, a minha irmã a passearmos com uma rapariga pela cidade! Foi apenas isso! Viste-me a beijá-la? Não! Não porque eu não fiz nada disso! E queres assim tanto saber quem ela é, eu digo-te! É a rapariga a quem devo a minha vida! Se não fosse por ela, já cá não estaria! No dia em que eu caí ao rio, foi ELA quem me salvou, se não fosse ela, agora estaria morto, bem no fundo do rio!”
“E para isso era necessário ela ir viver contigo?!”
“Não fales do que não sabes! Ela está a viver comigo porque EU decidi ajudá-la, para que saibas ela não tem família, sempre viveu na floresta, não sabe nada sobre o nosso estilo de vida, eu decidi ajudá-la a conhecer melhor tudo isto como favor por ela me ter salvado a vida!”
“Então meteste uma selvagem em tua casa?!”
“CHEGA! Basta Kabale, estou farto! Estou farto de tudo isto! Estou farto das tuas cenas de ciúmes, estou farto que tu me controles a vida, com quem posso ou não falar, não tens qualquer direito sobre mim! Estou farto desta mentira, estou farto de fingir que ainda te amo quando não é verdade, estou farto de sorrir quando não tenho motivos para o fazer, estou farto de admitir que me quero casar contigo quando não é verdade!!!”
Apercebeu-se tarde demais de que tinha falado mais do que o que devia…não devia ter dito aquilo…pelo menos a parte de que já não a amava, não deixava de ser verdade o que ele tinha dito mas ela não era para saber…mas bem…não vale a pena chorar sob o leite derramado, agora teria de enfrentar as consequências…mas já não importava, estava farto de isto tudo…
“O q-qu-quê…?” gaguejou a jovem rapariga, chocada com aquilo que tinha acabado de ouvir…ele já não a amava? O casamento era tudo uma fachada? Não era verdade? Não era aquilo que ele queria? Não queria ter um futuro ao lado dela?
“Lamento mas é a verdade…e por favor não culpes a Ninfa por isto, por que a culpa não é dela…muito antes de a conhecer os meus sentimentos por ti morreram, já não sinto amor por ti, apenas amizade, só isso…lamento que tenhas descoberto isto desta maneira…e antes que perguntes porquê é que eu mantive esta fachada toda…foi pelo nome da minha família” e com estas palavras duras mas verdadeiras ditas, o rapaz virou as costas à sua…bem…ex-noiva, por assim dizer e começou a afastar-se dela
Mas ainda assim ouviu “Vais pagar-mas Sulfus Zolfanello!!!”
No entanto decidiu não levar aquelas palavras a sério.
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Sulfus entrou em casa, suspirou e massajou a testa…bela maneira de acabar a manhã…nada melhor do que espetar na cara da noiva que já não a amava e que a história do casamento era tudo uma fachada! E agora de certezinha absoluta que os Rosso iam publicar aquela história nos jornais e revistas…lindo…simplesmente lindo…mas agora já não havia nada a fazer…o que estava feito, feito estava…
Dirigiu-se para as escadas mas acabou por cruzar-se com o pai no corredor…”Sulfus, o que é que aconteceu? Por que é que a Elisabeth veio sozinha para casa?”
“Agora não, pai…” murmurou o jovem, não queria contar-lhe agora o que tinha acontecido…iria desapontá-lo…
“Não, meu menino, agora sim. Diz-me o que aconteceu” exigiu Edan
“Acabei tudo com a Kabale, ok?” disse ele num tom meio alto
“O quê? Mas por que é que fizeste isso? Vocês estavam para se casar!” exclamou o pai
“Já não vamos casar…”
“É por causa daquela rapariga não é? Sulfus tu-“
“Por amor de Deus! Já és a segunda pessoa que pensa que a culpa é da Ninfa! Raios, deixem-na em paz! Ela não tem culpa nenhuma! Eu já não amo a Kabale e não é por causa da Ninfa, eu já não a amava muito antes de conhecer a Ninfa! Por isso parem de a culpar!” e com isso dito, o rapaz subiu as escadas a correr, ignorando o chamamento do pai
Estava para entrar no quarto quando parou-se a si mesmo…virou-se para o quarto que era de Ninfa…provavelmente ela estaria ali. Virou costas à porta do seu quarto e dirigiu-se para aquela frente a si, deu dois toques antes de abri-la ligeiramente, Ninfa estava ali e levantou a cabeça quando sentiu os dois toques na porta, sorriu e levantou-se do chão, caminhando até ele. Ele entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
“Desculpa o que aconteceu há bocado…foi algo muito complicado” disse o rapaz, a rapariga sorriu-lhe e tomou-lhe as duas mãos puxando-o para o sítio onde ela estava sentado antes de ele entrar. Ambos sentaram-se sobre a carpete do quarto e Sulfus reparou que em cima deste estava um bloco com qualquer coisa lá feita, ao lado deste estava um lápis e um livro. Ele pegou no bloco e no livro…os seus olhos arregalaram-se e virou-se para Ninfa.
“Estavas a tentar escrever?” Ninfa mexeu no cabelo nervosamente antes de assentir, queria comunicar com ele para além dos gestos, havia coisas que gestos não podiam dizer, havia coisas que ela lhe queria dizer mas que não conseguia por não ter voz! Por isso decidiu que queria aprender a escrever, aprender uma nova maneira de comunicar com ele. Tal como ele tinha feito um esforço para compreender os gestos dela, ela também faria um esforço para conseguir escrever.
Sulfus sorriu-lhe “Bem, então eu ajudo-te mas vamos começar por uma coisa mais simples, está bem? Tentares copiar palavras muito compridas ainda é complicado para ti, por isso vamos começar por algo mais simples” ela assentiu. Sulfus e Ninfa passaram o resto daquele dia a dedicarem-se à aprendizagem da jovem a escrever, para começo não tinha sido mau, Sulfus tinha ajudado a jovem a escrever o abecedário várias vezes até estar com um formato correcto, não tinha sido fácil mas pouco a pouco, e graças à determinação de ambos, Ninfa foi capaz de começar a escrever as primeiras palavras. Os próximos dias seriam dedicados à parte mais difícil.
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Horas antes…
Kabale entrou de rompante na sua casa, lavada em lágrimas, zangada, tinha raiva, tinha raiva de tudo, raiva de Sulfus, raiva dos seus sentimentos por ele! Como é que ele tinha sido capaz de lhe fazer uma coisa destas?! Como é que ele tinha sido capaz de a usar para manter o nome da sua família?! Como é que ele tinha sido capaz de brincar, usar assim os seus sentimentos por ele?! Odiava-o com todas as suas forças neste momento!
“Odeio-o, odeio-o, odeio-o!!” gritou esta
“Kabale?” disse uma voz, vinda por detrás da jovem, esta virou-se para a pessoa, era nada mais nada menos do que o seu pai, Edwin Rosso. O único membro da família que lhe restava, a sua mãe tinha morrido há alguns anos quando ela ainda era muito pequena “O que se passa, meu tesouro?”
Sem sequer pensar, Kabale contou tudo o que se tinha acontecido, não omitindo um pormenor sequer…
TBC…
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