A Ninfa da Cascata
9 Confiança...
Notas iniciais
A Ninfa da Cascata
Capítulo 9 – Confiança…
Volta para a direita…volta para a esquerda…volta para a direita…volta para a esquerda…vira-se para cima e fita o tecto branco do seu quarto que nada de interessante tinha…suspirou pela milésima vez naquela noite…não conseguia dormir…aquele beijo não lhe saia da cabeça…o rosto curioso de Ninfa e o seu sorriso ao perguntar-lhe como se sentiam as princesas dos contos de fadas quando beijavam os seus príncipes encantados…
Colocou um braço sobre os seus olhos, tentando obstruir aquela imagem, aquele momento da sua mente…porque é que tinha feito aquilo? Porque é que a beijara? O que é que lhe passou pela cabeça para fazer tal…loucura…não a devia ter beijado…não porque tinha acabado à pouquíssimo tempo uma relação, nada disso, mas porque ainda não estava seguro quanto aos seus sentimentos por ela! Ao beijá-la não só se tinha confundido ainda mais como provavelmente tinha dado esperanças à rapariga…sim…ele já se tinha apercebido que Ninfa estava apaixonada por ele, ao longo do Verão e Outono a sua ligação com ela tornara-se cada vez mais forte, ela chegara a um ponto que confiava nele cegamente…e ele não queria que ela confiasse assim tanto nele…tinha medo…tinha medo de magoá-la…especialmente porque ao longo dos dias, semanas, meses que passaram juntos aos poucos apercebeu-se que Ninfa sentia algo mais do que amizade por ele…só que ela não sabia ainda expressá-lo…
Sentou-se na cama, retirando os lençóis e a colcha que o mantinham quente de cima de si…colocou uma mão sobre a sua cabeça e voltou a suspirar…não podia continuar assim…tinha de clarificar os seus sentimentos para com ela antes que a magoasse, era a coisa que menos queria neste momento, era magoá-la…
Levantou-se da cama e dirigiu-se ao piso de baixo para ir beber uma caneca de leite quente, normalmente ajudava-o a adormecer quando tinha insónias…apesar de pouco entrar na cozinha visto que tinham uma empregada que fazia tudo isso, Sulfus sabia perfeitamente onde se encontravam as coisas que necessitava. Depois de preparar o leite, sentou-se numa das cadeiras da pequena mesa que ali se encontrava. Fitou o relógio de parede…já passava da 1 da manhã e ele não pregara olho desde que se deitara…
Não era só o facto de não conseguir deixar de pensar no beijo que dera a Ninfa naquela tarde que o impedia de adormecer…mas sim uma coisa que ouvira pouco antes de se ir deitar…deviam ser 11.30 da noite quando passara pelo quarto dos pais, estes já se estavam a preparar para se deitar e tinham a porta semicerrada, portanto nem deram conta do filho estar ali naquele momento que aquelas palavras foram proferidas…
“Precisamos de ter cuidado com aquela rapariga…” ouviu o pai dizer
“Do que é que estás a falar, Edan?”
“Estou a falar daquela rapariga que o Sulfus trouxe cá para casa…” disse Edan “Não confio totalmente nela…”
“Edan por favor, foste tu próprio que disseste que seria uma boa ideia ela cá ficar, para a ajudarmos”
“Sim eu sei disso, mas não sabemos nada dela Seraph. Não sabemos quem é, de onde vem realmente”
“É uma rapariga que provavelmente foi abandonada na floresta, que não tem ninguém que a ajude”
“E como podes ter tanta certeza disso? Como sabes se não é tudo uma cilada? Ela até pode estar a fingir que não sabe falar! Diz-me Seraph como é possível uma rapariga sobreviver por si mesma numa floresta?”
“Edan por favor estás a ser muito injusto! Estás a julga-la sem teres argumentos, não tens motivos nenhuns para desconfiar dela! O teu filho confia nela, conhece-a já há meses, acho que ao desconfiares dela também estás a desconfiar do teu filho…agora se me fazes favor, vou tentar esquecer que alguma vez disseste isso…” ouviu a mãe a deitar-se na cama
“Isso não muda a minha opinião a respeito dela…”
Será que o seu pai tinha razão? Ninfa escondia alguma coisa? Será que lhe andara sempre a mentir? Seria verdade que afinal não era muda, que inventara tudo aquilo só para se aproximar dele, que tinha segundas intenções…? Abanou a cabeça…não…o que é que ele estava a pensar? Não podia desconfiar assim dela…não tinha razões para tal…ela nunca lhe dera razões para tal…
Subiu as escadas com intenções de voltar para o seu quarto mas uma vez mais não resistiu em ir ver como estava Ninfa, todas as noites o fazia…mas desta vez tinha mesmo de o fazer, tinha estado tão envergonhado de a ter beijado que tentou evitá-la ao máximo durante o resto do dia…nem mesmo ao jantar se tinham cruzado, ele sabia que provavelmente isso a magoaria mas não se sentia capaz de a encarar…
Abriu a porta do quarto da jovem lentamente, para não fazer muito barulho, era madrugada afinal de contas…entrou bem devagar e o mais silencioso possível e caminhou em bicos de pés na direcção da jovem que jazia na sua cama descansada. Tinha o rosto virado na direcção dele, estava sereno e calmo enquanto dormia tranquilamente, perdida no mundo dos sonhos…Sulfus agachou-se ficando frente a frente com o rosto dela, ficou ali a observá-la durante uns momentos…ergueu a mão e acariciou muito levemente o rosto dela…um sorriso apareceu nos lábios da jovem, como se aquela simples e pequena caricia dele tivesse chegado ao mundo dos sonhos onde ela estava perdida…
Suspirou e abanou a cabeça…”Nem consigo ponderar na hipótese de tu seres perigosa…és demasiado inocente para seres tal coisa…” levantou-se e saiu do quarto, dirigindo-se para o seu quarto…não tardou muito a finalmente conseguir adormecer…
~*.*~*.*~
Passaram poucos dias, Sulfus acabara por tornar a frequentar Ninfa, sabia que não podia continuar a evitá-la…no entanto a jovem nem parecia incomodada, nem se parecia recordar que ele a tinha beijado subitamente e fugido do quarto sem dizer mais nada senão desculpar-se pelo sucedido. O jovem achara isto estranho, ela estava sempre a sorrir quando estava ao pé dele, havia alturas em que se agarrava ao seu braço como às vezes as raparigas da sua idade faziam com os namorados. E o mais estranho para ele, era que ele próprio nem se importava com isso…
O Natal estava próximo, já se conseguia ver as pessoas nas suas últimas corridas às lojas para comprarem os últimos presentes, decorações e comida. No entanto para Sulfus era um dia diferente, um dia um pouco mais doloroso…sim, aquele dia assinalava nada mais do que o 11º aniversário do incidente que matou a família Eryn…para Sulfus era como se fosse uma rotina, todos os anos fazia o mesmo, ia comprar dois pequenos ramos de várias flores e depois dirigia-se ao cemitério, para as campas dos pais de Raf onde pousava um dos ramos. Logo dirigia-se a um sítio que tinha um significado especial para ele.
Neste momento encontrava-se na cidade com Ninfa, para ir comprar os dois ramos de flores “Fica aqui, eu volto já” disse o jovem à rapariga de cabelos loiros que assentiu com a cabeça, deixando-se ficar encostada à parede de uma ourivesaria que se encontrava mesmo ao lado da florista. Sulfus não demorou muito a voltar, tinha tomado apenas pelo menos uns 5 minutos, um dos ramos que trazia consigo era composto por rosas e túlipas vermelhas, o outro era mais pequeno e era composto apenas por rosas de três cores, vermelho, azul e branco.
A visita às campas dos pais da sua amiga não demorou mais do que uns pequenos minutos, nem dissera nenhuma palavra, simplesmente havia colocado o ramo de rosas sobre a campa da Sra. Eryn e as túlipas sobre a campa do Sr. Eryn, limpou a terra que cobria as pedras onde estavam as fotos e descrições dos dois. Depois saiu…ia para se dirigir ao tal local especial mas queria ir sozinho…e neste momento estava na companhia de Ninfa.
“Ninfa…” chamou ele, a jovem virou-se logo “Eu preciso de ir a um sítio…mas preciso de ir sozinho…ok? Talvez fosse melhor tu ires andando para casa, eu logo vou lá ter” Ninfa parecia um bocadinho confusa e de certa forma…triste? Por que razão ele não queria que ela fosse com ele? Mas acabou por assentir, virando-lhe as costas e começando a caminhar na direcção da casa. Sulfus suspirou antes de tomar um caminho diferente.
Depressa chegou ao cimo de um monte onde se encontrava uma árvore, que agora não tinha folhas mas que na altura da primavera desabrochavam flores de cerejeira. Era algo que ele e Raf adoravam ver acontecer, algo que nunca perdiam. O jovem tocou no tronco da árvore e acariciou a madeira fria. Um sorriso muito pequeno apareceu-lhe no rosto antes de se agachar e ficar frente a uma pequena pedra. Não era uma pedra igual aquelas que se encontravam no cemitério, era uma pedra que ele pouco tempo depois da morte dos Eryn tinha procurado para poder esculpir as palavras que nunca conseguira dizer a Raf, visto que o corpo da pequena nunca fora encontrado…na pedra encontravam-se as seguintes palavras:
Estarás sempre na minha memória
A pedra encontrava-se encostada a um pequeno monte de terra que ele tinha feito quando viera aquele lugar colocá-la…
Suspirou tristemente, colocando as rosas frente à pedra “Nem acredito que já passaram 11 anos…às vezes parece-me que era ainda ontem que brincávamos os dois nos jardins das nossas casas…ou que irritava-mos as nossas mães quando saltávamos nas camas mesmo quando elas nos diziam explicitamente para não o fazermos…” suspirou de novo antes de acariciar a pedra “Sinto a tua falta…” foi então que ouviu passos detrás dele, virou-se e deu de caras com Ninfa…um pequeno olhar zangado apareceu nos olhos âmbar do rapaz, tinha-lhe dito explicitamente para voltar para casa mas afinal de contas ela fora teimosa e seguira-o, o que é que ela não tinha entendido quando ele lhe disse que queria ir sozinho?
Levantou-se e caminhou até ela, fitou-a…a jovem parecia assustada com o olhar de raiva que estavam nos seus olhos âmbar…tinha feito asneira, apercebeu-se disso assim que ele se virara para ela e a fitara com aquele olhar que a assustava…olhou para baixo e estava a ponto de virar-lhe as costas quando ele lhe agarrou na mão e forçou-a a chegar-se ao pé dele, ambos olharam-se nos olhos mas não da maneira como se tinham olhado dias antes quando se beijaram…
“Não voltes a faze-lo…não me sigas quando te digo que quero estar sozinho…” murmurou ele ao seu ouvido, a rapariga ficou mais assustada e chocada com o tom de voz que ele usara com ela, nunca lhe havia falado daquela maneira…a jovem apenas assentiu, hesitando, como se tivesse medo que qualquer coisa que ela fizesse o pudesse enervar ainda mais….deixou-se arrastar quando ele desceu o monte, ainda agarrado à mão dela…
Seguiram o caminho em silêncio…não que ela pudesse dizer alguma coisa apesar de querer, queria-lhe pedir desculpa por tê-lo seguido…mas não podia…e mesmo que pudesse talvez não seria a melhor altura para o fazer…se calhar essas palavras só o irritaria ainda mais, por isso seguiu caminho, cabisbaixa…
Não tardaram a chegar a casa, no entanto quando entraram, depararam-se com algo que não estavam à espera de ver…os pais dele estavam na sala de estar a falar com dois guardas polícias, não conseguiam ouvir sobre o que estavam a conversar por isso aproximaram-se ainda mais, os quatro ao aperceberem-se que ambos tinham entrado em casa, viraram-se para eles, levantando-se dos seus lugares.
“Boa tarde…?” disse Sulfus, proferindo as palavras com certa hesitação e confusão, o que estavam os dois polícias ali a fazer em sua casa? Viu os dois polícias a encararem-se um ao outro antes de olharem para algo que um deles tinha na mão.
“Confirma-se que é ela?” perguntou um dos polícias ao outro, esse por sua vez ergueu a cabeça e assentiu
“Sim é ela” disse antes de ele e o parceiro se aproximarem dos dois jovens
“Desculpem?” disse Sulfus ainda sem entender a situação
“Nós viemos buscar essa jovem”
TBC…
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