Acordei, permanecendo de olhos fechados, depois de um pesadelo no qual eu não queria lembrar. Mariko estava me olhando enquanto cutucava minha bochecha, tentando me fazer abrir os olhos.

- Ei! Temos trabalho pra entregar!

Estávamos num quarto de hotel; era um passeio de campo financiado pela escola, e com isso teríamos que fazer um resumo sobre as aulas dadas pelos guias. Chato.
Logo observei um caderno nas mãos de Mariko, enquanto me levantava. Cocei a nuca e fui ao banheiro, iniciando a higiene matinal. Depois de tudo pronto, voltei ao quarto, já pronta para sair.

- Vamos?
- Sim, Azu-chan.

Peguei minha pasta com o trabalho pronto, destrancando a porta com as minhas digitais. Eu e Mariko andávamos pelo corredor, passando pelos outros quartos, à procura do elevador mais próximo. Nisso, outras garotas da nossa turma saíam de seus quartos e nos acompanhavam, todas com cadernos e pastas.
Sem devaneios, as garotas começaram a conversar e rir, enquanto esperávamos o elevador chegar. Assim que o mesmo chegou, todas entraram e começaram a falar de assuntos variados. Entrei na frente de Mariko, e notei que ela ficou na porta do elevador, olhando para fora.

- Mariko? Venha logo, a porta irá fechar.

A puxei levemente pelo braço, quando notei que a porta se fechou bruscamente contra o outro braço da minha amiga. Eram duas portas de aço que se fechavam uma contra a outra, e o braço da morena estava ali no meio. A porta de aço se chocou tão bruscamente contra o braço delicado de Mariko, que chegou a abrir um corte e romper seu seu osso em três partes.
A porta bateu e abriu, foi nessa hora que a jovem pôde retirar o braço dali.

- AAAAAAAAAAHHHHH!
- M-Mariko?! Droga! — meus olhos começaram a lacrimejar, dando início à uma série de lágrimas que escorriam por minhas bochechas. Além de mim, as outras garotas se agacharam em torno de Mariko, tentando acudí-la.
- I-Isso dói… Azu-chan… isso dói muito…

Eu chorava bastante enquanto abraçava a minha amiga, tentando não tocar em seu braço machucado. Até que… todas as meninas começaram a gritar.

- O elevador está descendo rápido demais!
- Nós vamos… Nós vamos morrer!

Apertei meu abraço em Mariko, que molhava minhas roupas com suas lágrimas quentes. Os gritos desesperados das garotas ecoavam simultâneamente em meus ouvidos…
… até que não ouvi mais nada.
Silêncio total. Senti gosto de sangue na boca. Não senti dores, apenas minha visão levemente desfocada enquanto fitava o teto amassado do elevador. Meu corpo estava jogado num dos cantos, com a cabeça virada para cima.

- Ahn… — soltei um gemido baixo, desencostando da parede de aço gelado e olhei em torno do meu campo de visão. Sangue, carne, ossos, papel manchado de sangue. O corpo de Mariko havia se dividido ao meio. Todas estavam mortas.

Com dificuldade, me arrastei até a porta do elevador, socando ali com a minha pouca força, na esperança de que alguém me ouvisse. Consegui ouvir sirenes do lado de fora, e pequenos rumores: “como você sobreviveu?”, assim que a porta fora aberta.
Aparentemente, desmaiei. Porém eu conseguia ouvir e pensar. Como eu sobrevivi? Por que eu não morri também? Eu não queria ter visto a pessoa mais especial da minha vida resumida à um insignificante pedaço de carne jogado num canto!
Porém… a pessoa mais especial da minha vida está comigo todo o tempo. Se não fosse por ela, eu não estaria contando essa história.
Se não fosse por ela…
… eu não teria sobrevivido.

Mariko apenas me emprestou sua vida.


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