A Nevasca

12 Capítulo 11


Nós nos sentamos em uma mesinha mais aos fundos do Griftop’s, e o garçom já veio nos perguntar o que nós queríamos pedir.

– Bonjour, o que vocês vão pedir? – Ele tinha um sotaque bastante francês e facilmente dava para entender o seu inglês pouco fluente. – Os cardápios estão aqui. – Seguidamente ele pôs sobre nossa mesa os dois cardápios.

Grif realmente não era uma lanchonete como outra qualquer. O cheiro era similar à comida boa, os azulejos eram tão limpos que se olhássemos com atenção veríamos o nosso reflexo e as mesas não eram nem marcadas, nem manchadas e nem sujas, para falar a verdade elas estavam de acordo com o padrão de limpeza correta para aquele ambiente.

– Lembro-me bem de vir aqui nos domingos com meus pais porque era o único lugar que não fechava as portas naquele dia da semana e como não fazemos almoço sempre acabávamos aqui.

Aidan é muito bonito, tem cabelos castanhos claros e olhos com a mistura das cores verde e castanha, que é uma perfeita combinação. Seu estilo me faz lembrar um pouco os jogadores de futebol americano do colégio, mas sei que é covardia compará-lo àqueles babacas e também porque eles não seriam capazes de ter metade do cavalheirismo de Aidan. Eu poderia chegar aqui e contar pra vocês que eu estou apaixonada e que foi amor à primeira vista, mas isso é clichê até demais e também não é verdade. A verdade é que eu sinto que eu e Aidan podemos ter uma amizade incrível, completamente extraordinária.

– Lá no Brasil as lanchonetes são bem diferentes. – Ele admitiu.

– Como assim? – Eu fiquei espantada, realmente, sem o que pensar.

– Eu sou brasileiro, não dá para ver pelo meu péssimo inglês? – Ele sorriu e me fez derreter por dentro, não literalmente porque o frio fazia -5º e eu estava congelando de tão gelado e seco que estava a atmosfera. No mesmo instante ele chamou o garçom e fez seu pedido e posteriormente eu fiz o meu.

– Me conta como é o calor, as praias – Eu estava bem empolgada com a ideia dele ser brasileiro, sério!

– O calor é muito ruim, você parece estar morrendo todo o momento, mas na verdade é só a agonia dos raios solares batendo no seu rosto e do chão quente e aquele ar sufocante. – O garçom se aproximou e colocou as bebidas que tínhamos pedido. – As praias são maravilhosas, pelo menos nas que eu já fui, porque há várias que estão interditadas por causa da poluição. – Ele bebeu com ajuda de um canudo o suco de laranja que ele havia pedido.

– Aidan Johnson, obrigada por estragar todas as minhas expectativas. – Falei rindo.

– Brooke, qual é seu sobrenome? – Ele bebeu mais um gole. – Pergunto isso porque eu realmente não sei seu sobrenome e esse joguinho de falar o nome e sobrenome é muito bom. – Ele sorriu novamente, desgraçado.

– Brooke Fields. – Aproximei meu suco para perto de mim e bebi um gole. – Mas Aidan, eu realmente estou impressionada, você é do Brasil e eu de fato pensava que você era da América do Norte por causa do teu inglês fluente.

– Nasci no Brasil, mas vim pra cá com quatro anos, então tive muito tempo para me adaptar ao inglês.

Outro garçom se aproximou de nós.

– Queríamos dar um almoço romântico para um casal da lanchonete, e decidimos que os premiados seriam vocês. – O garçom era um pouco calvo, nem tanto como o Peter, mas era. Ele usava um uniforme típico de restaurantes e não de lanchonetes, o que fazia o Grif se tornar ainda mais especial.

– Houve um pequeno engan... – Olhei para Aidan que estava com um sorriso de orelha a orelha. – Ahn, nada não.

Muitas pessoas começaram a bater fotos, uns gritavam “é isso aí”, outros “ai, meu Deus, que romântico” e isso me irritava pra caramba. Garçons trouxeram vários pratos em cima da nossa mesa e logo em seguida me trouxeram um buquê de rosas enorme que eu mal conseguia segurar.

– Ai, meu Deus! Muito obrigada!

– Muito obrigado mesmo, cara!

– Em meio a tristezas também podemos ter alegrias. Você e tudo isso – Fiz um gesto abrangente — é a prova disso. – Falei segurando uma taça com água em direção a Aidan enquanto todos se distanciavam de nós.

– Brooke Fields, eu não serei responsável pelas minhas emoções se você continuar assim. – E ele colocou sua taça junto a minha. — Á você. – Deu um sorrisinho de canto e pegou de seu bolso seu celular que estava tocando. – Alô? Que? Mãe! Não tô acreditando nisso, como que... Você andou bebendo? Okay, eu estou indo pra aí. Droga!

– O que aconteceu? – Coloquei a taça de volta a mesa, e comecei a comer devagar.

– Eu tenho que ir. – Ele se levantou, parecia meio indeciso se ia, ou se ficava. – Brooke, não leva a mal. É que minha mãe...

– Aidan, o que aconteceu? – Falei insistente.

– Eu não tenho tempo pra... Você vem comigo? – Eu senti que ele estava nervoso.

– Claro! – Peguei minha bolsa e o buquê, deixei uma nota de cinquenta dólares em baixo da minha taça e escrevi com uma caneta que eu tinha dentro da bolsa em um papel-toalha: “Obrigada!”.

Quando entramos no carro, Aidan encostou-se ao volante. – Eu não acredito nisso, de novo, Brooke. Ela vai acabar se matando.

– Do que você está falando? Quem?

Ele engatou a marcha, e começou a dirigir, um pouco rápido, mas eu até entendia porque tinha algo importante lhe esperando em algum lugar que eu não sabia onde. Aidan ligou o rádio, estava tocando Wait de M83, eu adorava essa música, sempre que me sentia um pouco aborrecida ou deprimida eu a ouvia, ou se não, All a Want de Kodaline. Preferi não dizer nada para ele sobre a música, ou sobre o estado do carro dele.

Estacionou bem em frente da casa dele, bem mal estacionado, e saiu correndo para dentro, eu fui atrás. Aidan subiu as escadas ligeiramente, sempre olhando para trás para ver se eu estava lá. Entramos dentro do banheiro, a mãe de Aidan estava com uma taça de Champanhe cheia, e estava dentro de uma enorme banheira.

– Aidan, meu filho – Ela falou chorando e sorrindo. – Pensei que tinha se esquecido da velha aqui. – Estava completamente bêbada.

– Mãe, levanta daí. – A essa altura ele já estava todo molhado porque estava tentando tirá-la da banheira. – Brooke, me passa a toalha ali. – Peguei a toalha de cima da bancada e dei para ele. Coloquei minha mão atrás de suas costas, e disse para ele que já estava indo. Acho que ele não tinha escutado.

Saí de sua casa, e fui andando até a minha. A rua estava vazia, dava um pouco de receio de andar em cima da neve por medo de afundar, mas ainda assim era a única maneira de passar por ali até ir ao meio da rua onde passa os automóveis e que já não tinha mais tanta neve. Senti um floco de neve minúsculo cair em cima no meu nariz e aquilo fez meu corpo arrepiar. Em meio a todas essas coisas, eu me lembrei da minha avó e que provavelmente eles já deveriam ter ido ao velório. Ai, meu Deus! Cliquei em uma tecla do meu celular, eram 13h14min. Droga!