A Nevasca
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os telhados das casas aqui em Chicago estavam completamente cobertos por neve, as ruas eram irreconhecíveis. Meus pais e meus vizinhos estavam na frente de casa tentando abrir passagem para os automóveis onde antes ficava o asfalto. Eu até iria ajudá-los se não estivesse tão frio. Em toda a minha vida não havia visto um inverno com tantas nevascas, com tantas chuvas e tão frio. Parecia que aquilo jamais acabaria, e isso era agoniante.
Só tínhamos aquecedor na sala, no meu quarto e no dos meus pais, então ir para partes da casa sem ele, era sempre uma batalha a ser vencida. Fui até a cozinha para comer alguma coisa, aquele instante, que mais parecia uma eternidade, foi o mais gelado da minha vida. Abri a geladeira rapidamente para não ter que sofrer lentamente aquela massa de ar frio que viria a minha direção. Mesmo assim, os meus gemidos e tremores aumentaram. Naquele momento deu um extremo desejo de estar nas praias do Brasil. Hoje de manhã teria passado nos noticiários o clima quente e contagiante que estava havendo por lá. Eu os invejava, mesmo sabendo que também não estava fácil.
Olhei para o interior da geladeira e me deparei com o almoço de ontem. Digamos que não é a especialidade de minha mãe fazer comida e, muito menos de meu pai. Mas naquele dia ela decidiu fazer um almoço especial pelo fato de eu ter sido contratada em meu primeiro emprego. Meus pais são bastante tradicionais, tirando a parte que não tem todo dia aquele banquete maravilhoso que geralmente as famílias tradicionais têm em sua mesa.
Peguei os potes com arroz, purê de abóbora e uma carne na qual a aparência estava meio estranha, mas certamente não era a que comemos ontem porque eu já sabia que aquela havia acabado de tão boa que teria ficado. Abri o micro-ondas e requentei um minuto a comida. Coloquei a ponta do meu dedo indicador no arroz para ver como estava a temperatura; estava frio. Não iria aguentar fazer todo aquele processo novamente, então, deixei como estava porque dava para comer daquele jeito mesmo.
Fui comendo andando com o prato na mão esquerda e a colher na mão direita. Mal olhava para onde estava indo, mas sabia o caminho até o meu quarto, e é para lá que eu ia. De repente me esbarro em um garoto alto, magro e confesso que era extremamente bonito. Não era sempre que eu me deparava com um garoto assim. Meu prato acabou caindo e a pequena quantidade de arroz que eu havia pegado se espalhou pelo chão, eu via grãos de arroz por todo lado, até mesmo nos lugares mais estranhos. O purê já nem parecia bem um purê, e a carne, bem... A carne eu nem havia pegado do pote pela aparência e dureza que me assustaram.
O garoto regalou seus olhos e colocou suas duas mãos na cabeça. Suas pupilas dilataram incrivelmente rápido, eu fiquei muito envergonhada, quem faz comida requentada às 17h00min? Retiro quando disse que meus pais eram tradicionais, pelo amor de Deus, a casa estava uma bagunça, olhei para a janela perto da porta de entrada e vi uma maçã pela metade se decompondo. Claro que com a expressão que eu fiz ele olhou rapidamente para trás e viu a maçã, a maçã podre que deveria estar ali há dias e ninguém havia reparado. O que ele pensa que somos? Acumuladores?
Sem falar que eu estava com um moletom extragrande que era de meu pai, minhas meias eram do pato Donald, minhas luvas eram amarelas neon e, o pior eram minhas pantufas enormes, Rosa-Pink. Dava pra me reconhecer de um quilômetro de distância. Ele estava todo combinado, dava pra ver de longe suas roupas brancas de marca. Seu cabelo era mais bem cuidado e hidratado que o meu.
Gaguejando questionei-o:
– Que... Quem é você?
Ele me respondeu:
– Eu moro logo no final da rua. Estou ajudando a limpar a passagem para os automóveis. Seu pai pediu para eu vir aqui pegar uma pá, mas já que te encontrei pensei em te perguntar onde eu encontro está pá, você sabe?
Ele falou “já que te encontrei” de uma forma agradável, AGRADÁVEL.
Demorei um pouco para entender o que ele tinha dito. Respondi-o:
– Tudo bem, peraí.
Fui até o depósito e peguei a maldita pá.
– Tome! – Empurrei a pá em cima dele e ele acabou indo para trás.
– Ah, é... Obrigado! Não queria derrubar sua comida, desculpa aí.
Olhei para ele, uma mecha dos meus cabelos havia caído, coloquei-a novamente no lugar com a mão esquerda rapidamente.
– Tudo bem, eu não estava com muita fome, pode ficar tranquilo.
Ele sorriu. Cara, que sorriso lindo, posso acabar correndo o risco em dizer que é o mais lindo do mundo.
Quando ele saiu, encostei-me à parede ao lado da geladeira e sentei (sempre quis ter feito aquilo, como nos filmes de romance). Olhei ao meu redor e tentei ver se não havia ninguém vendo aquele meu momento constrangedor. Não havia ninguém. Suspirei bem fundo, eu até já tinha esquecido que a comida ainda estava espalhada no chão e que eu teria de limpá-lo.
Fui até o meu quarto, fechei a porta bem devagar, suspirei fundo novamente e me joguei na cama com os braços e pernas abertos, sorri sem mostrar os dentes com os olhos fechados. De repente começou a tocar meu celular, o toque me incomodou um pouco, acho melhor mudar. Atendo-o:
– Alô?
– Oi filha, olhe da sua janela pra cá.
Desci da cama, coloquei minhas pantufas uma a uma, e fui andando até minha janela que dava de frente para a rua onde eles estavam limpando, minha mãe começou a acenar loucamente com as duas mãos e logo em seguida chamou meu pai para dar um “oi” para mim. Meu pai pegou o celular da mão de minha mãe e gritou:
– HEY BROOKE!
Quase fiquei surda com o grito que ele deu.
– Ai pai, pra que fazer isso?! Quer me deixar surda?!
– Só para te acordar porque temos um compromisso esta noite.
– Como assim? Que compromisso? Nós não tínhamos marcado para ir ao mercado comprar marshmallow e chocolate pra assar na lareira?
– Vamos ir jantar na casa dos novos vizinhos, vai ser até melhor do que assar marshmallows.
– Ah, eu não acredito, passa o celular pra mamãe.
– Querida, tente se animar para sairmos, vai ser bom. Você vai conhecer gente nova, vai até fazer amigos, confie em mim.
Minha mãe desligou antes de eu poder dizer alguma coisa. Veio em minha mente que aquele cara provavelmente estaria lá, acabei lembrando que não tinha nada para vestir e aquilo me deixou um pouco deprimida. Não sou do tipo de que se preocuparia com uma roupa, ou com um jantar, mas cá entre nós esse era O Jantar. Não seria legal vestir os meus tipos de roupas, mas, não tenho outras.
Percebi que meus pais haviam chegado. Levei minha mão fechada até a boca e fui deslizando até meu queixo, estava meio preocupada com toda aquela situação.
Fui até meu guarda roupas e comecei a procurar algo que me encaixasse naquela noite extremamente fria. Se ao menos estivesse no verão, eu poderia usar um vestido, mas agora eu vou ter que usar vários casacos e várias outras roupas em cima uma das outras.
Achei um vestido azul marinho de um tecido especificamente grosso que não me deixaria com muito frio. Infelizmente ele era colado em cima e em baixo ia alargando até os meus joelhos. Tinha mangas compridas e uma aparência legal, mas para uma garota de dezesseis anos ele parecia ousado. A segunda etapa era achar uma meia-calça que combinasse com o vestido. Achei uma que fazia aquele estilo rasgado e bem despojado, uma das poucas coisas que eu tenho e que ainda estão na moda. Restava agora achar o meu casaco preto, eu sabia que ele estava em algum lugar em meio aquela bagunça.
Minha mãe apareceu na porta e disse:
– Filha, seu pai está quase pronto, acho melhor você se apressar um pouco.
– Eu já estaria pronta se eu tivesse roupas legais.
– E esse vestido aí em cima da cama? Ele é tão boni...
Interrompi-a:
– Ele é bonito, mas... Não parece ousado pra mim?
– Filha, ele não é nada ousado. Tenho certeza que ficará lindo se você se apressar.
– É fácil dizer quando você já está pronta.
– Querida, em quanto você falava já poderia ter posto a roupa. Você consegue pequena Broo!
Ela me olhou, deu um sorriso e piscou.
Suspirei fundo. Peguei minhas roupas e levei até o banheiro, tranquei a porta, olhei para o espelho, coloquei minhas duas mãos apoiadas no mármore. Suspirei fundo novamente. Entrei no Box, tomei meu banho e coloquei a roupa. Olhei-me novamente no espelho e falei sussurrando:
– Não ficou tão mal.
Abri a maleta de maquiagens da minha mãe que estava em um armário ao redor do espelho. Eu não era de usar maquiagem, mas essa era uma ocasião especial. Nas ocasiões especiais eu uso maquiagem.
Peguei um rímel, abri-o e vi que ele estava completamente seco. Coloquei um pouco de água dentro, acho que se minha mãe soubesse do que eu fiz me proibiria de usar novamente. Passei em meus cílios que ficaram mais alongados. Não ficaram especialmente como eles põem nas propagandas, ficaram diferentes da naturalidade deles. Pensei em colocar uma sombra azul-claro, mas sabia que iria ficar toda borrada porque não sei passar adequadamente, então decidi não colocar. Faltava-me um batom. Pensei em pôr um batom cor-de-rosa, mas cor-de-rosa não combina definitivamente comigo. Procurei na maleta outros batons que me interessassem, achei apenas um gloss transparente que na embalagem dizia: “Gloss sabor morango para você arrasar os garotos”, confesso que aquilo me desanimou profundamente.
Saí do banheiro e fui até meu quarto pegar uma bolsa para levar meu celular e o Gloss sabor morango para eu arrasar os garotos.
Minha mãe me chamou lá de baixo, fui descendo rapidamente para meu pai não ficar furioso em atrasar no primeiro jantar que iríamos com os vizinhos.
Quando ela me viu abriu a boca em formato de “O” e disse:
– Uau, pequena Broo!
Olhei para ela e revirei meus olhos, arrumei minha bolsa em meu ombro porque ela estava caindo.
Entramos no carro, perguntei ao meu pai aonde iríamos jantar, ele olhou no retrovisor para mim e disse ajustando-o:
– Vamos à casa dos Johnson.
– Quem são os Johnson?
– Acho que você não os conhece, são os novos vizinhos.
Fiquei meio decepcionada com aquela resposta, mas nem falei nada sobre.
Como o jantar seria entre vizinhos, logo chegamos à casa que pretendíamos. Não sabia mesmo quem era a família Johnson, nunca havia ouvido falar sobre eles, mas sabia que aquele garoto estaria lá. Aquilo me deixava profundamente envergonhada.
Quando saí do carro olhei para a casa, ela era branca com os telhados cinza de dois andares e a metade da metade de um. Exteriormente me parecia bem agradável, nunca havia visto aquela casa porque ela ficava no fim da rua, e eu nunca tinha ido até lá.
Meu pai tocou a campainha. Tomara que ele não estivesse chegado ainda. Eu poderia me enfiar em um canto e só sair de lá quando ele fosse embora. Certo, isso nunca iria acontecer.
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