A Nevasca
13 Capítulo 13
Droga! DROGA! Minha mãe tinha marcado comigo de que o velório começaria 12h45min e ela queria que eu fosse com ela.
– Mãe?!
– Oi, aqui é a Sarah, provavelmente eu não posso te atender no momento, mas deixe seu recado e eu retorno. – Eu estou, definitivamente, encrencada, mesmo que eu tenha dezesseis anos, e isso pareça muito, para os meus pais eu ainda tenha por volta dos doze anos, e eles ainda precisavam me proteger de tudo. Eu até entendo a preocupação deles, mas acho que já está na hora deles largarem um pouco dos meus pés.
– Mãe, sou eu. Houve uns problemas e eu acabei atrasando, mas eu já estou a caminho daí, juro.
Fui correndo para dentro de casa, deixei meu casaco em cima do sofá, e enquanto eu ia subindo a escada ia tirando meu All Star Chuck Taylors e minhas meias. Entrei no banho e tomei o mais rápido da minha vida inteira ainda mais que estava dando um frio danado. Coloquei um vestido preto que eu havia comprado para ir a uma festa que era de preto e branco do colégio e coloquei um casaco fino por cima. No meio do caminho peguei de novo meu tênis e os coloquei. Meu cabelo estava molhado e bagunçado, e eu não fiquei interessada em, puxa, dar uma escovada nele.
Quando abri a porta para sair de casa o vento me empurrou pra dentro e eu estava fazendo a maior força para sair pra fora daquela porta desgraçada. No momento que consegui me mover para fora lembrei que tinha me esquecido de pegar meu celular. Cá estava eu subindo de novo as escadas, pegando meu celular em cima da cama, e descendo quando me surpreendo com Aidan abrindo a porta depois de ter batido várias vezes.
– Aidan, – Falei surpresa – o que você está fazendo aqui?
– Eu vim te pedir desculpas por antes, e saber se você quer companhia para ir para o velório. – Ele encostou-se à porta com as mãos nos bolsos da calça social do terno preto que ele estava usando, completamente sexy me encarando. – Irei entender se você não quiser.
– Okay, mas temos que ir agora, tipo, agora mesmo. – Peguei o molho de chaves de cima da mesa de jantar e meu casaco ‘de sair de casa’ ao lado da porta. Aidan, mal se mexeu para me deixar passar e continuava a me encarar. – Aidan!
– Ah, desculpa.
Fomos ao velório, e nada de interessante aconteceu. Meu pai chorava como nunca, minha mãe ficava consolando ele, Aidan ficava com o braço ao redor de mim enquanto eu olhava aquela cena se repetir centenas de vezes naquele dia. Algumas pessoas vinham me dar seus sentimentos inúteis, e meu tio alcóolatra, pai da Vivian, estava bebendo e não parava de me mandar diretas sobre Aidan: “Tá de namoradinho novo?”, “Me apresenta o garanhão”, “Quando vocês vão casar?”. Até que eu o mandei calar a boca e ter respeito com a vovó e ele me olhou sério e saiu cambaleando para fora do ambiente. Já eram 16h38min.
– Aidan, não precisa ficar aqui se não quiser. – Ele ainda estava com o braço ao redor de mim, acho que ele era alguns centímetros mais alto que eu e quando olhei para ele tive que levantar um pouco minha cabeça.
– Não vou deixar você aqui. – Ele me olhou sorrindo – Não com esse seu tio aí. – Entrelaçamos nossas mãos em formato de uma toca de índio e ficamos nos olhando por algum tempo.
E depois dali, as horas passaram rápido. Quando vi, minha mãe estava me chamando pra irmos para o carro porque não iríamos ficar para o enterro. Fui até o caixão, dei uma última olhada em minha avó, passei a mão em seu vestido como ela desejaria que eu fizesse para arrumar quaisquer imperfeições.
– Eu te amo. – Peguei uma das flores ao seu redor e coloquei no meio de suas mãos.
– Broo, – Ouvi minha mãe me chamar – temos que ir. – Ela falou sussurrando.
Aidan foi comigo até o estacionamento e me abraçou, como se nos conhecêssemos há alguns anos. O abraço dele me transmitia segurança e afeto. – Eu vou pra casa.
– Ai, meu Deus, eu me esqueci de perguntar – Coloquei a mão na cabeça como sinal de esquecimento. – Como está sua mãe?
– Eu vou passar na sua casa antes das 19h, pode ser? – Odeio quando ele não responde as minhas perguntas.
– Tudo bem. – Ele beijou minha testa, e então eu entrei no carro dos meus pais.
Minha mãe estava dirigindo porque meu pai estava sem condições. Da igreja a nossa casa não soltamos um suspiro sequer. Quando saí do carro e entrei em casa mamãe já veio com os interrogatórios.
– Filha, como eu sei que você não vai querer ir à casa do seu tio Mark com a gente, pode ficar cuidando da Amber hoje à noite?
– MÃE! – Arregalei meus olhos. – Até que horas?
– Até amanhã de manhã, vamos dormir lá, você sabe que é longe. – Ela deu um sorrisinho. – Por favor, amor, você conhece seus parentes, sabe como vai estar o clima pesado, não quero passar isso pra Amber.
– Ai, – Suspirei – tudo bem, mãe.
– Convida aquele gatão pra vir aqui. – Ela piscou e bateu seu quadril com o meu.
– MÃE!
– Mas é verdade, ué, por que não? – Ela gritou subindo as escadas com Amber.
– Ele vai mesmo vir aqui. – Mamãe parou no meio da escada e olhou pra mim. – Ué, por que não?
– Ele vai mesmo vir aqui. – Mamãe parou no meio da escada e olhou pra mim. – Ué, por que não? – Ela pediu para que a Amber subisse e fosse tirando suas roupas para tomar um banho.
– É até bom para te fazer companhia, não gosto de te deixar sozinha. – Como eu disse, lá estava minha mãe com sua mania de proteção. Não que eu não goste de saber que alguém se importa com a minha segurança, mas chega uma hora em que você já tem vontade de explodir. Exatamente como o meu caso.
– Mãe, — Percebi que eu poderia formar uma discursão ligeiramente desnecessária. – eu sei que você me ama e quer meu bem, minha segurança... Eu também te amo, quero o melhor pra você. – Não sei o porquê, mas me deu vontade de chorar, e de repente senti uma lágrima caindo. – Esses dias não foram fáceis pra mim também, e eu vi todo o sofrimento estampado nas expressões do papai, eu entendo a dor dele. – Ela estava um pouco confusa, dava para ver, logo que viu as lágrimas escorrendo no meu rosto já veio com um lencinho secá-las. – Eu não aguentaria te perder.
– Não sei o porquê da sua preocupação, meu amor. – Ela olhou carinhosamente para os meus olhos, bem no fundo deles. – É claro... Meu bem, tudo isso é inevitável, todos vamos morrer. – Ela fez uma breve pausa. – Eu amo você, amo com todo o meu coração e as minhas forças, e acredite, – Ela começou a subir as escadas de novo – Eu nunca vou largar de te proteger, meu eterno bebê. – Falou sarcástica.
***
Passaram-se algumas horas e eu estava sentada ao lado da Amber comendo alguns salgadinhos caseiros que eram os únicos permitidos pela empresa Mãe Protetora onde a chefe era a mamãe. Amber não parava de se mexer, parecia que estava sentada em cima de um formigueiro, aquilo já estava irritando. Até que ela parou e soltou uns gases, olhou disfarçadamente para mim e relaxou como se estivesse com medo de que eu tivesse percebido aquilo.
Eu estava um pouco preocupada com a mãe do Aidan, ela estava mesmo transformada quando eu a vi hoje à tarde, devia ter bebido algumas garrafas daquele Champanhe, provavelmente muito caro. Foi aí que vi como Aidan se importou em ter que ajudá-la a pelo menos se levantar e por uma roupa. Ele estava apavorado, como se aquilo fosse rotina e ele nem se preocupava muito, mas eu me preocupei, eu vi no olhar dela um sofrimento prestes a acabar com um suicídio. Talvez Aidan ainda não tenha percebido que a possibilidade dela se matar estava bem a sua frente, ou talvez ele não queira aceitar. Achei estranho também que ele não quis falar muito comigo sobre isso e espero que possamos conversar hoje à noite.
“Ding dong” – Fez a campainha da minha casa.
– Já vai! – Dei um grito que mais parecia um zunido.
Eu havia colocado uma roupa confortável e por sorte, a melhor que eu tinha. Não sou daquelas que se importa com a aparência ou que sofre com isso, apesar de muitas imperfeições eu me considero bonita e não mudo minha opinião sobre isso, mas a minha roupa tem que estar no mínimo razoável para me encontrar com o Aidan mesmo eu reparando que ele não se importe muito com isso.
– Boa noite, Brooke Fields! – Ele me olhou de cima a baixo propositalmente e piscou pra mim fazendo um gesto de “O” com os dedos indicando um “ótimo”, e já foi entrando. – Espero que esteja preparada para uma noite de... – Ele olhou para a criatura bizarra olhando para ele toda babada.
– E esta é a Amber, Fields. Amber Fields. – Disse um pouco empolgada.
Ele trouxe várias sacolas com salgadinhos, refrigerantes e todas as besteiras possíveis.
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