A Nevasca
10 Capítulo 10
– O que aconteceu aqui?
Fui até o quarto da minha mãe, acendi o interruptor e olhei séria para ela com os braços cruzados. Ela estava com os olhos semiabertos e toda coberta.
– O que você pensa que está fazendo?! São... – Ela olhou para o relógio tictac que eles tinham na parede. – São 2h09min, garota.
– O que é aquilo no meu quarto? O que aconteceu?
– Amber. – Fitou-me. – A Amber, filha.
– O que tem a Amber? – Não dei chances para ela me responder. – Olha mãe, você sabe muito bem que...
– A Amber veio nos visitar e está dormindo no quarto dos hospedes. – Ela obstruiu o que eu estava falando. – Deve ter ido ao seu quarto e...
– Ah mãe! Que droga!
Amber era a filha da minha prima irresponsável. Ela engravidou com 16 anos, e desde então deixou a Amber de galho em galho por aí. Posso dizer que ela é uma criança insuportável, mas tem seus momentos de silêncio e até de ser uma menina decente.
– Meu quarto está completamente de pernas para o ar e eu, com certeza, terei que arrumar sozinha.
– Sinto muito, amor. – Ela falou rindo e se aconchegando mais uma vez entre aqueles lençóis, cobertores e um cheiro familiar que me fazia certa falta. – Amber está dormindo desde as 21h00, não seria justo e nada certo acordá-la para ir arrumar seu quarto, Brooke.
– Não mãe! – Eu falei em meio a gestos, caras e bocas. – Não é justo comigo! Mas eu entendo essas babaquices todas.
Fui em direção à porta e minha mãe chamou-me.
– Oi?
– Você vai à funerária com seu pai? – Uma expressão de lembranças e tristeza devastou seu rosto.
– Vou...
Subi em sua cama, pedindo-lhe desculpas por ter sido tão “aborrescente”, o que me fazia ter raiva de mim mesma. Aborrescente é um termo bem inexistente e da minha faixa etária. Não gosto de ser chamada, e principalmente de me sentir assim.
– Broo, você não tem que me pedir desculpas, porque eu entendo que criança não é mesmo fácil, e em especial a Amber. – Acariciou meus cabelos e me fez fechar os olhos e lembrar-me de Aidan e de ter-lhe deixado um pouco confuso em meio a tudo isso.
– Ai mãe, — Abracei-a. – deixei Aidan um tanto confuso.
– Ele entende que é um momento difícil para nós. – Ela acariciou novamente meus cabelos do jeito que eu sempre amava que ela fazia. – Mas agora é tarde, você precisa mesmo ir dormir, e eu também porque amanhã logo cedo terei que levar a Amber no dentista, um saco.
– É verdade. – Levantei depois de beijar sua testa e sussurrar um “boa-noite” e desliguei a luz para ela.
Escutei uns gemidos e alguém falando sem ser correspondido.
CAPÍTULO SEIS
A neve. Neve caía suavemente do céu, como se dançasse com o vento. Era coisa para me fazer feliz naquele momento intensamente cruciante. Sim, muita neve, um manto branco que provocava a doce ilusão de um cobertor de lã quente. Esse frio é coisa pra me aquecer a alma.
Desde que o médico da minha avó nos disse que ela teria pouco tempo, tentamos aproveitar cada instante, porque é só assim para nós lembrarmos que ela era idosa e precisava de uma atenção especial para não entrar na depressão naquela fase. A questão é que eu já estava ciente do que iria acontecer, sem mais nem menos. A morte estava para aproximar-se de nós e levar alguém importante para bem longe.
Desci para ver o que estava acontecendo, mesmo que eu soubesse que era meu pai falando consigo mesmo eu, de fato, não poderia deixá-lo sem dormir.
– Pai... Sinto muito, mas você não pode ficar sem dormir. – Puxei-o pela mão para ele levantar e facilitar meu plano de empurrá-lo devagar até sua cama.
– Você tem razão! – Ele falou quase dormindo. – Eu necessito de ir dormir para não acordar tarde, não é?
Eu senti que ele já não estava mais são àquela hora. Deveria de ter bebido aquela garrafa de vinho toda que estava em cima da mesa, ao lado de uma pequena pilha de papel higiênico, porque aqui em casa lencinho de papel é algo de luxo, e também desnecessário.
– Exatamente, pai. – Ele soltou minha mão e foi cambaleando até a escada, e eu não esperei muito para ir ajuda-lo.
...
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