A Negociada
4 Capítulo 3 - Família perfeita
Notas iniciais
Traga-o de volta, não o tire de mim! Porque você não sabe o quanto ele é importante para mim ─ Love of my life, Queen

Meu olhar não se foca claramente em nada após uma noite inteira praticamente sem sono, mas minha mente alerta luta contra o cansaço do corpo, impedindo que eu adormeça. Meu braço está dormente há minutos sob o peso do corpo de Allen, mas não tenho coragem de me mover, correndo o risco de desperta-lo do leve descanso que finalmente alcançou. Ele tem a cabeça apoiada em meu obro, e respira inquietamente enquanto aperta os braços envoltos na minha cintura, me deixando praticamente sem fôlego. Seu cabelo cor de avelã roça em meu queixo, seus fios curtos e ondulados causando cócegas.
Tento me mexer o mais suavemente possível, apenas para fazê-lo mudar de posição. Então, movo meu braço dormente que apoia seu tronco para cima lentamente, mas o pequeno gesto é suficiente para despertá-lo.
Primeiro ele estremece, e suspira assustado, até que seus olhos encontram os meus e ele parece se situar. Ele rola para o outro lado da cama, e tenho de segurar um suspiro de alívio quando o sangue volta a circular pelo meu corpo normalmente.
─ Desculpe, não queria te acordar. ─ minha voz sai num sussurro rouco e cansado.
Allen tem o rosto voltado em minha direção, e encara, com os olhos avermelhados e levemente inchados de cansaço e de choro, a enorme janela de vidro atrás de mim.
─ Amanheceu. ─ sua voz soa tão exausta quanto a minha ─ Ficamos aqui a noite inteira.
Balanço a cabeça em concordância sem muito ânimo. Movo os dedos das mãos lentamente, instigando meu corpo a reagir, mas meus músculos reclamam, e eu volto a ficar esparramada, imóvel, na cama. Sinto uma umidade estranha no meu vestido, e quando dou uma olhada, vejo uma marca de saliva deixada por Allen.
─ Foi mal por isso aí. ─ ele se desculpa. Balanço a cabeça num sinal de “tudo bem”. Ele suspira, massageando lentamente o próprio pescoço. ─ Talvez devêssemos sair daqui.
Encaro seu rosto, e ele tem uma expressão tão neutra quanto quando estava dormindo. Tenho certeza que estou exibindo uma careta sofrida agora.
─ Só mais cinco minutos. ─ praticamente gemo.
Allen suspira e começa a se levantar devagar da cama, primeiro se sentando aos meus pés, e depois vindo até a mesa de cabeceira ao meu lado para pegar sua camisa social negra e o paletó ainda do funeral. Assisto a todos os movimentos buscando algum ânimo, e tento apelar ao meu senso de dever, mas tudo que quero é permanecer encolhida sob as cobertas da enorme e macia cama dos aposentos do rei.
Enfim, meu estômago ronca ferozmente, então empurro os lençóis e levanto num salto. Ignoro a tontura que acompanha o movimento e me ponho a ajudar Allen a abotoar a camisa. É engraçado perceber que seu queixo fica na altura da minha testa.
─ A rainha deve estar furiosa conosco. ─ ele sussurra, com certo temor. ─ Bem, ou talvez esteja ocupada demais para se lembrar de nós, como de costume.
Rio com desdém antes mesmo de processar uma possível outra reação.
─ Você, sem a atenção dela?! Nunca. Estou surpresa que ela não esteja aqui para lhe arrancar da cama pessoalmente e lhe fazer um grande e desagradável discurso sobre responsabilidades.
Neste exato momento, como se estivesse ouvindo atrás da porta e esperando o momento perfeito para uma grande entrada, ela, a rainha adorada de Illéa, entra no cômodo.
Acompanhada por sua horda habitual de empregados, assistentes e guardas, ostentando um vestido dramático de veludo negro que lhe tocam os tornozelos e a faz parecer mais poderosa e intocável do que realmente é, ela parece por um momento surpresa em nos ver.
─ Ah, então estão aqui. ─ seu tom denota desinteresse.
─ Bom dia pra você também mãe. ─ Allen respira fundo ao responder.
─ Devo avisar que serei complacente e ignorarei o comportamento completamente inadequado demonstrado pelos dois, em compreensão ao decorrer dos últimos fatos, é claro. ─ ela diz mais para os empregados que para nós.
─ Que nobreza. ─ me pego rangendo os dentes e cerrando os punhos menos discretamente do que gostaria.
─ Allen, ─ ela desconsidera minha presença ─ devo recomendar que vá imediatamente para seu quarto e se prepare. As pressões recairão fortemente sobre você hoje, meu querido. Temos de nos pronunciar sobre a tentativa de ataque e começar os planos para sua coroação imediatamente.
Sem nenhuma palavra ele concorda num leve gesto com a cabeça, e me encara, hesitante por um momento.
─ Vai ficar tudo bem. Você é mais forte do que pensa. ─ tento passar a maior confiança que consigo por minhas palavras. Allen tem uma sombra de um sorriso no rosto, e se vai.
Os servos consideram o ato como sinal para entrar no aposento e começam seus típicos afazeres: duas moças arrumam a cama, outra se encarrega de abrir as cortinas, e a fiel assistente da rainha que eu carinhosamente apelidei de “Cão”, começa a dar ordens para as camareiras.
De repente o cômodo parece estar cheio demais, barulhento demais, vivo demais; todo o sentimento aconchegante e mórbido da noite anterior desaparecendo sob a eficiência dos servos do palácio. Começo a me arrastar em direção ao corredor, mas a rainha me impede de continuar quando passo ao seu lado.
─ Esteja ciente: não vou permitir que suas atitudes inconsequentes e egoístas continuem a influenciar seu irmão. ─ ela sibila para mim, seus dedos firmes envolvidos em meu braço esquerdo, me obrigando a encarar seu rosto pálido e seus olhos escuros brilhantes, sem uma única sombra de piedade.
─ Sim, mamãe, eu estou bem, não se preocupe comigo. ─ cuspo as palavras tentando manter um tom baixo que não chame indevida atenção para nós.
─ Não seja infantil! Poupe-me do seu discurso mesquinho Ruth, e comece a agir como a princesa que o país precisa que seja. Nada de continuar desperdiçando seu precioso tempo com prazeres desnecessários.
─ Diga-me, ─ meus olhos ardem, mas tomo uma profunda respiração e me recuso derramar qualquer lágrima ─ em algum momento você pensou que eu poderia precisar da minha mãe durante o inferno das ultimas horas?
─ E você em algum momento levou em consideração que eu tive um país para governar e dois funerais para preparar em apenas 12 horas? ─ seu aperto se torna mais forte. Ela parece mais dura que nunca, e suas palavras machucam mais que sua agressividade física.
─ Papai teria escolhido a família primeiro. ─ minha garganta se fecha num nó.
Deixo o cômodo antes de uma resposta, mas alguma o tremor das minhas pernas me para, e eu fico ali, do lado de fora da porta, quase escondida.
─ Está bem majestade? ─ ouço Cão chamar, quase num tom humano.
─ Sim, em ordem. ─ ela bufa, e quase posso ver as mãos nas têmporas ─ Estou acostumada, esses dois são cumplices desde que colocaram os olhos um no outro pela primeira vez.
Um impulso corre em minhas veias, e por um momento quase perco a classe e volto ao quarto berrando tudo o que gostaria, toda minha frustração. Mas meu bom senso me impede, usando como argumento a desculpa de que, se eu me prestar a esse papel, serei a maior prejudicada, e estarei manchando a falsa imagem de família perfeita que nós nos esforçamos tanto para passar.
Lutando contra o tremor insistente nas pernas, caminho devagar até meu quarto, sentindo o macio impecável do carpete, deixando que meu corpo me guie através do corredor luxuoso, com todas os tons pastéis e móveis caros. Alguns servos passam apressados por mim, todos me olhando com pena, e balançando as cabeças de forma gentil enquanto correm para dar conta dos afazeres enfadonhos do dia.
Minha aparência deve ser mesmo digna de pena. Mas, na verdade, não me incomoda ser vista assim, meu interior está machucado demais para que eu ligue para o exterior. Os olhares, esses me desconsertam, sempre cheios de compaixão, de pessoas que pensam saber como me sinto. Eles não fazem a menor ideia.
∞∞∞
─ A pior parte é perceber que há milhões de coisas que eu gostaria de ter dito a ele. ─ falo para meu reflexo cansado, encarando o tom escuro das olheiras sob meus olhos castanhos, me sentindo num momento de epifania ─ Todos os momentos que nunca compartilharemos. Sabe, ele nunca vai me levar no altar, ou conhecer os meus filhos, ou brincar com eles. Isso é o que mais dói em mim, perceber que, não importa o quanto eu deseje, jamais o verei de novo.
─ Eu sei minha princesa. ─ Maisie gentilmente começa a passar a escova de cabelo pelos meus fios escuros, ainda molhados do longo banho ─ Mas não pode se isolar em sua tristeza, todo o país sofre. Sei que parece ruim quando digo, mas precisa parar de pensar em tudo isso, e agir. Seu irmão ganhou uma grande responsabilidade sem estar pronto, e você realmente poderia ajudá-lo.
─ Acha mesmo que eu posso ser útil para alguém em frangalhos como estou agora Maisie? ─ me viro, encarando seus olhos negros como carvão ─ Quase fui morta ontem. Eu sabia que havia pessoas que não eram apoiadoras do governo de Illea. Mas daí a atacar minha família e todas aquelas pessoas no funeral do meu pai?! Isso é ódio puro, é crueldade... É mais do que posso nomear.
─ Rue, ficar trancada aqui não resolverá absolutamente nada. Você vai sair imediatamente deste quarto enquanto eu trago um pouco de luz para cá, e irá tomar um belo café da manhã. Depois, vai para o escritório do seu irmão, ajudar nos preparativos para a coroação! Ninguém será capaz de organizar uma festa melhor para ele do que você.
─ Ás vezes acho que você esquece quem eu sou. ─ sorrio, balançando a cabeça lentamente, tomando impulso para sair do banco de minha penteadeira.
─ Eu nunca esqueço, porque está escrito “autoridade” em seus olhos. ─ ela me pega gentilmente pelos ombros e me guia para fora ─ Mas eu faço o que faço porque provavelmente sou a pessoa que melhor lhe conhece no mundo, e, portanto sei o que lhe faz bem. Tenha um bom dia.
Ela tranca a porta atrás de si, e eu fico meio boquiaberta no corredor, parecendo uma tola.
─ Bom dia alteza. ─ um guarda enorme de cabelos e olhos escuros me cumprimenta, fazendo uma reverencia muito natural e elegante ─ Devo me apresentar, sou o guarda Davis, e serei seu novo guarda-costas.
─ Guarda... ─ é como se um buraco se abrisse em meu estômago ─ North está morto?
─ Oh não milady, eu não tenho acesso a essa informação! ─ ele parece assustado, arrependido por sua escolha de palavras ─ Apenas fui mandado para substituí-lo, apenas cumpro ordens.
O alívio que me toma é tão grande que quase cambaleio para trás. O pior não aconteceu. Mas se tivesse acontecido eu sequer saberia, porque estava imersa em autopiedade.
─ Estou sendo tão egoísta! ─ massageio minhas têmporas, sentindo a culpa martelar minha cabeça.
─ Perdão alteza? ─ Davis parece confuso.
─ Desculpe-me Davis, você me parece um homem de honra, mas sinto que não durará nesse cargo. ─ caminho corredor abaixo até as escadas, tendo em mente o alojamento dos guardas, sentindo o estômago roncar. Existem coisas mais urgentes que o café da manhã.
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