Ao cruzar, em velocidade assombrosa, os campos ressequidos daquelas planícies, saltando entre os corpos contorcidos no chão e aqueles que em indizível ligeireza eram tragados pela terra, Shaka logo chegou ao alvo, mas antes que conseguisse avançar sobre ele percebeu a presença de um Espectro poderoso que tentou intercepta-lo na curta distância que agora o separava de Radamanthys. Era ele Valentine, fiel escudeiro do ex-general nazista.

O sumo sacerdote nem esperou pelo ataque. Não podia vê-lo, uma vez que este estava em sua forma de sombra, mas, sendo o único Seguidor de Seth a possuir o segredo supremo do Serpentis em seu nível máximo de aperfeiçoamento, salvo o próprio Seth, ativou um de seus dons, os Olhos da Serpente, então a figura nefasta de Valentine tornou-se tão clara para si como o saudoso alvorecer era em sua lembrança.

Os olhos negros de Shaka transfiguraram-se em olhos de víbora, e estes ao capturarem as retinas do Espectro o colocaram em transe imediato, paralisando todo seu corpo. O sumo sacerdote agora tinha total controle sobre o corpo e sobre a alma de Valentine, que permaneceu parado no mesmo lugar tal qual uma estátua de mármore, até ser ferozmente tragado por dezenas de serpentes que brotaram do solo feito tentáculos famintos, o levando consigo para as profundezas do escuro e do silêncio eterno da terra.

Alto e profundo foi o brado de agonia que o Espectro soltou do fundo da garganta, e esse ainda ecoava pelo ar quando Shaka seguiu seu curso saltando, agora, em fúria assassina para cima do líder dos Espectros das Sombras.

— Radamanthyyys!

O sumo sacerdote rosnou, os olhos ferais cravados no rosto estranhamente congelado do inimigo, as veias ardendo dentro de si como fogo vivo, as garras e os letais dentes pontudos prontos para retalhar.

Já tinha a vitória como certa. Mas, eis que, de repente, quando esticou os braços para cravar as garras na garganta de Radamanthys, surpreendentemente este foi mais ligeiro agarrando a sua.

— ARGH! — Shaka gritou, de espanto, surpresa, perplexidade.

Em um terror alucinado o sumo sacerdote sentiu as garras do Espectro das Sombras lhe rasgar a pele e seus dedos apertarem-se em torno de seu pescoço, depois foi ligeiramente erguido no ar e trazido para mais perto de seu algoz.

Foi nessa hora que a transformação se deu por completa.

Diante dos olhos atônitos de Shaka, o rosto de Radamanthys se transfigurou em uma horrenda figura demoníaca de caos e ódio primitivo. Sulcos elevaram-se de sua fronte e têmporas, os ossos da face e do crânio se sobressaltaram à pele que agora apresentava uma textura decrépita. Os dentes hediondos dobraram de tamanho, e os olhos... Esses Shaka conhecia bem. Tornaram-se negros como a noite mais escura.

A mudança, no entanto, não era apenas física. O sumo sacerdote podia sentir no corpo, totalmente paralisado, e na alma, completamente em agonia, a Presença poderosíssima e opressora exalada por ele.

— C-Como... pode... ser! — sussurrou Shaka ao agarrar com ambas as mãos o pulso forte daquela criatura que o esganava com ira sanguinária.

Radamanthys então soltou uma gargalhada.

— Finalmente! — rosnou trincando os dentes enquanto encarava o rosto imerso em choque e agonia do sumo sacerdote — A última peça que faltava! O último degrau a ser galgado na minha ascensão à Glória absoluta. Shaka! Finalmente você é meu!

O líder dos Seguidores de Seth de súbito sentiu que a vitória lhe escapava pelos dedos feito areia, na mesma hora em que os fechava para tentar agarra-la. Mas, ele era duro. Não se entregaria facilmente.

— Argh... Eu vou... te matar... Radamanthys!

— Pobre tolo. — retrucou o Espectro e em seguida fechou os olhos. Aos poucos as extremidades de seus dedos foram se tingindo de negro — Achou que vindo até mim com uma tropa insignificante formada por meia dúzia dos seus Seguidores, igualmente tolos, e um Nut fantasiado de Faraó iria me derrotar? Você é patético, sumo sacerdote.

— Tolo é você se pensa que pode me... — Shaka interrompeu-se na mesma hora em que tentou se teleportar para longe do Espectro e percebeu que não conseguia.

Radamanthys então soltou outra risada vitoriosa.

Ele agora controlava totalmente a sombra de Shaka e o impedia de se teleportar.

Novamente surpreso Shaka tentou outras vezes o teleporte, mas era nítida a superioridade do Espectro perante si. Inclusive, era de seu conhecimento que Radamanthys, um vampiro ainda jovem e inexperiente, pudesse manipular as sombras de objetos inanimados, mas nunca a sombra de outras criaturas, principalmente de vampiros poderosos como ele. Aquele era o dom de Hades.

— Você... matou... Hades! Desgraçado!... — disse o Setita num fio de voz, estupefato, enquanto cravava as garras no pulso do ex-general numa tentativa vã de se libertar — Mesmo assim... Argh!... Apenas o poder e as gerações de Hades... não seriam o suficiente para... Aahh... te deixar mais poderoso que eu.

— Oh, sim! Tem toda razão, sumo sacerdote de Seth! Apenas Hades não me bastaria para chegar até você... Por isso eu fui além!

Shaka estreitou os olhos, confuso. Seu corpo tremia, os músculos enrijecidos lhe faziam experimentar uma dor cruciante, e o coração era tomado por um profundo assombro.

— Eu teria o maior prazer em lhe narrar com detalhes e minúcias todos os passos que me trouxeram até aqui e me puseram vitorioso diante de você e de seu clã neste campo de batalha, mas eu lhe serei breve para não prolongar sua agonia, mesmo essa sendo tão deliciosa de se apreciar. Mas também... também porque me trouxe um Nut e anseio fervorosamente por me banquetear com seu sangue. — disse debochado — Eu sou um cientista, sumo sacerdote Shaka, e, como bem sabe, o que não se conquista por meios naturais se conquista pela Ciência! Foi assim nos laboratório nazistas. Produzimos milhares de espécimes com sangue genuinamente alemão... Infelizmente o gado não estava preparado para aceitar sua posição inferior a nós, imortais, e eu não pude concluir minha experiência. Mas, agora não! Ah! Agora não! Agora somos numerosos, e agora também temos as alianças perfeitas! Os Assamitas me assegurarão poder e domínio sobre os imortais, e você me garantirá o domínio sobre os humanos. Através do seu sangue eu dominarei o Serpentis, e com ele o dom da Dominação, então todas as nações, o mundo inteiro, se curvará diante das minhas vontades!

— Você é... louco! — Shaka grunhiu.

— Por séculos Hades inoculou sangue Nut junto ao sangue de outros clãs primitivos poderosos, como os Pietones, os Assamitas, Nosferatus, entre tantos outros, na busca por uma fórmula para a regressão das gerações de forma artificial. Infelizmente as experiências não tiveram o sucesso inicial que esperávamos, foi preciso repeti-las incansáveis vezes usando outras fórmulas e, devido a esse fato, o clã Nut acabou sendo extinto completamente. Já não existiam muitos exemplares, como bem sabe. Não importava o que tentássemos, as cobaias sempre sucumbiam ao poder ancestral do sangue Nut, mesmo quando misturado ao sangue dos outros clãs. Hades então decidiu encerrar as pesquisas, mas eu não podia simplesmente jogar fora séculos de empenho dos nossos cientistas, não acha? Eu decidi eu mesmo retomar os estudos sozinho e descobri uma nova fórmula. Só que eu dispunha de uma única amostra... E, é óbvio que não a entregaria a Hades podendo testá-la em mim mesmo.

Shaka arregalou os olhos, incrédulo. Gemeu de dor ao sentir o Espectro manipular sua sombra a ponto de lhe fazer sentir os ossos trincarem devido à pressão exercida contra seu corpo.

— Eu guardei a amostra a sete chaves. — continuou Radamanthys — Então dei início ao meu plano. Para injetar a amostra em mim mesmo eu precisava regredir algumas gerações, ou certamente sucumbiria ao poder do sangue Nut contido nela. Foi então que escolhi você, um dos vampiros mais poderosos do Novo Mundo, cuja geração é uma das menores. Com seu poder eu poderia resistir ao processo de transformação provocada pelo sangue Nut... Mas, toda maldita vez que chegava perto você me escapava pelos dedos feito a serpente escorregadia que é... As tantas tentativas que empreendi em captura-lo e consumi-lo, Shaka, provocaram o banimento dos Espectros das Sombras do Conselho Vampírico e iniciaram essa guerra. Eu não podia esperar mais. Sendo assim, consumi Hades, regredi algumas gerações, fiquei mais poderoso e então injetei a amostra em mim mesmo... E, cá estamos, meu caro! Como pode ver, eu não sucumbi! Minha aposta foi ousada, porém certa como sua queda será hoje, Shaka dos Seguidores de Seth.

O sumo sacerdote sibilou ferozmente feito fera, alto, ameaçador. Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Ainda assombrado por aquelas palavras, soltando um grito de ódio puro tentou se libertar de Radamanthys usando outro de seus dons, a Pele de Víbora.

Imediatamente a pele de seus braços, mãos, pescoço e rosto transfiguraram-se em um couro mosqueado e escamoso, tornando-se mais flexível e resistente aos danos causados pelas garras do Espectro, porém este já esperava por aquilo.

— Não adianta lutar, Shaka! — bradou Radamanthys imprimindo mais força à mão que esganava o sumo sacerdote e aumentando sua Presença vampírica — Eu venci! Sua existência termina aqui pelas minhas mãos! E enquanto eu consumo seu sangue quero que veja seus Seguidores de Seth, e também seu bibelô ancestral, sucumbirem feito moscas bem diante dos seus olhos, esmagados pelas minhas tropas!

Pairando sobre Shaka como uma nuvem nefasta, os olhos inteiramente negros e a bocarra salivante a exibir um sorriso de vitória, Radamanthys soltou seu pescoço apenas para que ele pudesse apoiar os pés no chão, em seguida o agarrou novamente, agora pelos cabelos da nuca, e girou seu corpo de modo que ficasse de frente para o campo de batalha.

— VEJA, SHAKA! — vociferou o Espectro em júbilo — Contemple a sua derrota e a extinção do seu clã! — gargalhou enlouquecido.

Agora, de frente para o campo, e ainda empenhado bravamente em se libertar do domínio do poderoso líder Espectro, Shaka corria seus olhos negros de íris douradas por todo aquele cenário hediondo. Seus Seguidores avançavam contra os inimigos bravamente, e liderados por Mu eles resistiam e atacavam ferozmente, tornando o embate até aquele ponto de certo modo equilibrado, até Radamanthys dar seu xeque-mate!

Reunindo toda a essência de seu recém-adquirido poder o ex-general ergueu ao ar a mão que tinha livre, já que com a outra mantinha Shaka sob seu domínio, então de seus longos dedos negros centenas de filamentos escuros se projetaram ricocheteando o ar para em seguida tombarem ao solo e correr feito vermes famintos rente a terra até tocarem cada pé dos soldados Assamitas e Espectros que lutavam naquele campo. Ao fazê-lo, uma sombra amaldiçoada era projetada ao lado, idêntica ao seu dono, porém detentora de vontade própria, e assim Radamanthys duplicava seu contingente criando um exército inteiro de sombras nefastas sedentas por sangue e destruição que agora também partiam para cima dos Setitas como bestas vorazes.

Diante dos olhos incrédulos e atônitos do sumo sacerdote, o exército dos Seguidores de Seth de repente parecia ser engolido pelas sombras. Era como se o escuro manto da noite se desprendesse do firmamento e deitasse sobre suas Serpentes.

O campo de batalha agora jazia num escuro de morte. Para cada Setita que lutava sozinho havia quatro inimigos, sendo Assamita ou Espectro, mais suas sombras, que juntos dilaceravam a carne, partiam ossos e assombravam o espírito com uma facilidade ridícula, já que o poder de Radamanthys impunha às sombras determinação e força em dobro.

Os Seguidores de Seth estavam em clara desvantagem, e Shaka assistia a tudo sem nada poder fazer, com o rosto transfigurado em medo e angustia. Tinham sido pegos desprevenidos e na ânsia do desespero se dispersavam feito brasa ao vento, tornando-se presas ainda mais fáceis.

Tudo aquilo acontecia tão rápido quanto um raio que corta o céu em noite de tempestade, mas aos olhos do sumo sacerdote aquele fracasso e aquele suplício tinham a lentidão de um pesadelo.

Um a um via seu clã ser dizimado facilmente, ainda que resistissem bravamente. Viu também seus leais e amados felinos, Seth e Kali, que por séculos foram seus guardiões zelosos, sucumbirem em meio às sombras famintas, decapitados enquanto lutavam em seu nome defendendo sua causa.

Contudo, foi quando viu mais ao sul os cabelos cor de lavanda de Mu a se destacaram na escuridão que seu coração mirrado mergulhou ainda mais nas trevas nefastas do desespero. O Nut estava praticamente soterrado por um número incontável de imortais e sombras nefastas que se acotovelavam para lhe golpear.

No campo de batalha, lutando para proteger seu clã e também para se manter de pé embaixo daquele bolo de almas sedentas que se chocavam contra seu corpo rasgando sua carne, fosse com garras, lâminas, dentes, ou o que mais pudessem usar para lhe causar danos, Mu era o único ali para quem a fúria do inimigo era dobrada, já que ele era o principal alvo, e todos podiam perceber sua poderosa Presença.

Shaka podia sentir através do elo que partilhavam que seu amado Nut era o único a não ter a mente dominada pelo medo. Diferente de todo soldado Setita naquele campo Mu não sentia medo, mas sim ódio. Muito ódio.

Mesmo no auge de sua fúria, e usando o máximo de seu poder, o Nut também acompanhava, impotente, os membros de seu clã de Seguidores sendo dizimados um após o outro.

Sem nada poder fazer para impedir viu quando as cabeças dos felinos Seth e Kali foram erguidas ao ar como troféus pelas mãos de Assamitas, e seu ódio cresceu ainda mais. Com um rugido estrondoso ainda tentou saltar até os assassinos dos animais, mas a cada Espectro ou Assamita que derrubava uma sombra surgia em seu lugar, ainda mais violenta e poderosa, e já avançava sedenta sobre si.

Mu já tinha o corpo praticamente todo rasgado, as feridas hediondas não cicatrizavam mais com a mesma ligeireza de antes, uma vez que as lâminas Assamitas já haviam envenenado demasiadamente seu sangue. Podia ser um Nut ancestral, poderoso, um deus para os Seguidores de Seth, mas a verdade é que era apenas um vampiro, o mais poderoso do Mundo Novo, detentor de segredos ancestrais e dons ocultos, mas ainda sim, apenas um vampiro.

Sem conseguir sair de onde estava, Mu se via engolido por uma horda de sombras, e a fúria da luta crescia a cada segundo.

Distante metros dali, ao sentir a aflição do companheiro através do elo sanguíneo, num esforço tremendo e desesperado Shaka concentrou seu poder e fez surgir um nevoeiro negro em torno de Mu no campo de batalha, espantando as sombras e soldados na intenção de teleportá-lo dali para longe através do dom da Convocação, mas Radamanthys rapidamente interrompeu sua ação.

O líder Espectro já esperava que o sumo sacerdote fosse tentar proteger o Nut, então, num movimento tão rápido quando um piscar de olhos sacou de sua cintura uma adaga de prata envenenada e a cravou nas costas de Shaka atravessando o coração com a lâmina num golpe preciso e cruel. Só assim poderia impedi-lo de usar os dons do Serpentis.

— Aaaaaaaaaaarghh! — Shaka gritou cerrando os olhos, e na mesma hora toda dor que sua Forma de Serpente suprimia veio à tona quando sua pele reassumiu a aparência humana habitual.

Na mesma hora, no campo de batalha, Mu também cerrava os olhos com força.

Seus joelhos fraquejaram e ele se deixou ir ao chão, prostrado. Sendo golpeado nas costas e cabeça, espalmou ambas as mãos na terra emporcalhada sufocado por uma dor excruciante que lhe tomava o peito. A mesma que Shaka sentia.

Então, pela primeira vez naquela noite, Seth sentiu medo.

Apertando seus dedos contra o solo úmido de sangue e vísceras, sentiu todos os músculos de seu corpo se contraírem subitamente, o impossibilitando de se mover.

— S-Shaka... — sussurrou aflito.

Sabia que o sumo sacerdote tinha sido ferido gravemente. Podia sentir sua dor e agonia em cada fibra de seu ser, por isso, elevando sua Presença a um nível extraordinário, Mu tentou levantar-se na intenção de saltar para fora daquele apinhado de demônios sedentos que lhe golpeavam sem misericórdia e correr até seu sumo sacerdote, mas a cada passo que tentava dar a horda de sombras e vampiros facilmente o derrubava novamente, e mais uma vez era engolido pelas sombras.

— Shakaaa!

Rosnava em desespero enquanto se atirava contra os inimigos, cego de ódio, insano de medo, pois sabendo o que acontecia ao companheiro temia não conseguir sair dali a tempo de chegar até ele.

Numa tentativa desesperada de avançar usou o teleporte, mas conseguiu saltar apenas alguns metros à frente, uma vez que já havia perdido quantidade significativa de seu sangue na batalha, portanto seus poderes rapidamente limitavam-se, e quando achou que finalmente conseguiria encontrar Shaka em meio aquela escuridão total, o Quietus, dom Assamita, confundia sua orientação novamente o tornado presa fácil, e em segundos era mais uma vez soterrado por uma horda de imortais e sombras nefastas.

Longe alguns metros dali, pelo elo sanguíneo Shaka também podia sentir todo o torpor angustiante que tomava Mu por completo, e a tristeza e o desespero desabaram sobre si diante do sentimento de impotência.

Aquela seria uma derrota sem precedentes, para ele, para o Conselho, para o futuro da sociedade vampírica e principalmente para Seth, o deus da guerra, e ele se culpava por tudo aquilo.

Teria subestimado tanto o inimigo a ponto de entregar Mu e seu clã de bandeja a ele?

Súbito, sentiu quando Radamanthys ainda segurando com força absurda em seus cabelos girou seu corpo até ficarem de frente um para o outro, cara a cara, olhos nos olhos.

— Aceite sua derrota, sumo sacerdote. — disse o Espectro com imponência e um sorriso sádico vitorioso.

— N-Não... AAARGH! — gritou quando um tentáculo de sombra enrolou-se no cabo da adaga a empurrando ainda mais para dentro de seu corpo.

— Seu clã será extinto. — disse Radamanthys — E também o seu Nut. Depois de beber você irei consumir a sua relíquia ancestral gota a gota. Sei que minhas sombras não são capazes de extermina-lo. Ele se regenera muito rápido, mas, o seu sangue, Shaka, irá regredir as minhas gerações até quase o nível de um primordial, e então ele estará fraco, ferido e sozinho. Uma presa perfeita! — disse com ganância na voz.

— Não... Desgraçado... você vai... morrer... — Shaka rosnou trincando os dentes.

— Ah, sumo sacerdote... Nem na iminência da morte abre mão desse seu orgulho. — debochou o Espectro — Não. Você é quem irá morrer, Shaka.

Fechando os dedos com ainda mais força nos cabelos loiros do Setita, Radamanthys puxou sua cabeça para trás num golpe seco e violento, então sem esperar mais abriu a boca medonha e cravou todos os dentes na garganta de Shaka, que soltou um rugido rouco de ódio e desespero.

Imediatamente ao ter a boca preenchida pelo sangue ancestral do sumo sacerdote o líder Espectro foi tomado por um frenesi extasiante, um tipo de transe arrebatador, que crescia em proporções inimagináveis ao passo que o líquido escarlate descia por sua garganta. Sentia como se estivesse sorvendo em essência milênios de conhecimento, segredos ancestrais e um poder que jamais pudera imaginar.

Imediatamente, também, no campo de batalha Mu mergulhava em uma espécie de transe, porém bem diferente daquele experimentado por Radamanthys.

No lugar do êxtase a agonia e o terror gritavam em uma só voz terrível na mente do Nut.

Mu sentia toda a dor e desespero de Shaka, ciente de que o sumo sacerdote aos poucos estava morrendo diante de seus olhos e que nada que tentasse fazer para chegar até ele surtiria efeito. Rosnava alucinado enquanto era soterrado pelo exército inimigo, ferido pelas centenas de lâminas envenenadas, dentes e garras que transpassavam e rasgavam sua carne, cego, surdo e desorientado pelo Quietus.

Porém, não havia ali lâmina, bala, dentes ou garras que pudessem lhe infringir dor maior que a dor que Radamanthys lhe provocava ao lhe tirar Shaka.

Foi exatamente nesse ponto, quando o ódio pelo líder Espectro se tornou maior que a desesperança, que um novo grito ecoou dentro da mente do Nut.

Não podia permitir que Shaka morresse.

Nunca foi capaz de se perdoar por não ter lutado pela família no passado, mesmo não tendo culpa de sua aniquilação, mas agora podia lutar. Agora tinha a chance de salvar um ente querido, seu companheiro... Mas, o preço era alto!

Contudo, Mu estava disposto a pagá-lo. Não permitiria que o passado se repetisse, mesmo que para isso precisasse sacrificar a si mesmo e ao seu futuro ao lado do sumo sacerdote.

— Meu... pai... Rá... Minha mãe... Aset... me... perdoem... — em egípcio antigo sussurrou para si mesmo, até porque em meio ao som caótico dos gritos inflamados da guerra e do entrechoque das armas ninguém ali seria capaz de ouvi-lo a não ser ele mesmo e, quem sabe, seus ancestrais —... Eu... não posso deixar... que... ele morra.

O desespero, aliado à determinação em salvar aquele que mais amava, levaram Mu a tomar uma decisão tão difícil quanto perigosa.

Aquela era de fato a maior de todas as loucuras, porém a única saída que encontrara para dar cabo de vez com aquela batalha estúpida e salvar seu amado.

Com o rosto ferido colado ao solo imundo, Mu fechou os olhos e apoiou ambas as mãos neste. Vísceras, sangue e terra engoliram seus dedos trêmulos, até que munido de uma força descomunal ele se apoiou nos braços e com um solavanco ergueu o tronco esticando o pescoço e levantando a cabeça para o ar. No movimento dezenas de sombras e soldados foram lançados para longe, e quando outras dezenas já se preparavam para saltar sobre ele novamente eis que todos naquele campo de batalha, sem exceção alguma, foram tomados por uma paralisia súbita, então, atônitos viram Mu abrir a boca e tal qual uma fera primitiva urrou para a noite.

O som que saiu da garganta do Nut era medonho e fez tremer até a mais ínfima criatura, viva ou morta, e este se propagou em ondas poderosíssimas que em segundos varreram tudo que havia à sua volta lançando para longe de si sombras, inimigos e também aliados.

Elevando sua Presença ao nível máximo, Mu usou todo seu sangue para conjurar um poder ancestral que de tão terrível era temido até pelos vampiros mais poderosos, os primordiais.

A Dominação da Carne!

No campo de batalha os exércitos Espectro, Assamita e também os Seguidores de Seth divisavam paralisados a visão do terror, a personificação do horror primitivo, imersos em um silêncio de morte.

Diante de olhos assombrados que tinham acabado de perder toda e qualquer esperança, a figura conhecida de Mu sofria uma espécie de metamorfose.

O silêncio que se fazia ali agora tornava possível ouvir o trincar dos ossos do Nut por debaixo dos músculos que pareciam também se estirar de forma surpreendente, ambos dobrando de tamanho.

Em meio a gritos horripilantes Mu se contorcia curvado com as mãos apoiadas na terra e a cabeça baixa. A noite era demasiada escura, mas mesmo assim era possível ver através de um fino véu de luar quando da pele muita alva, maculada por sangue, feridas e sujidades diversas, pelos negros com um brilho arroxeado cresceram cobrindo quase toda a extensão de seu corpo.

A coluna vertebral, os membros superiores, inferiores e as clavículas dobraram de tamanho e ganharam a estrutura de uma fera selvagem, com os braços e mãos bem maiores em cujos dedos cresciam garras escuras enormes e em forma de arco que pareciam feitas de metal chumbado. Os pés também ostentavam garras hediondas, menores.

No entanto, a maior e mais significativa transfiguração se dava na cabeça e no rosto do Nut. Aos poucos o pescoço e maxilares se alongavam e o que antes apresentava feições humanas agora adquiria as estruturas de um animal, com focinho reto e muito alongado, dentes enormes pontiagudos, orelhas grandes e quadradas que apontavam para o céu e uma espécie de crina curta em tom lavanda que descia pela nuca até parte das omoplatas proeminentes.

Nos olhos negros as íris arredondadas deram lugar a duas finas linhas verticais de um tom escarlate vivo, e seu olhar ganhara um ar tão demoníaco que gelava a alma de quem os divisasse.

Quando Mu desapareceu completamente engolido pela fera que tinha acabado de se tornar, essa se colocou de pé, ainda que sua nova estrutura corporal lhe obrigasse naturalmente a ficar ligeiramente curvada, olhou para o céu escuro com poucas estrelas e abrindo a bocarra horrenda soltou um rosnado grotesco.

Mu havia se tornado Seth. O Caos.