A Máscara de Hannya
1 O espírito da ponte vermelha
Hannya
O vento cortante da noite carregava o cheiro da chuva distante e das lanternas queimando óleo velho. Sob a luz pálida da lua, a ponte vermelha parecia um portal entre mundos, estendendo-se sobre as águas escuras como se flutuasse sobre um abismo sem fim.
Eu a observava do alto de uma árvore retorcida, imóvel, como uma sombra espreitando um segredo. A madeira da ponte estava úmida, rachada pelo tempo, e em seu centro, uma névoa densa se acumulava—um sinal claro de que algo inumano residia ali.
A missão era simples. Um lorde local me contratara para eliminar um yōkai que aterrorizava os viajantes ao cair da noite. Rumores diziam que o espírito era de uma mulher que fora afogada ali há anos, presa à ponte como um eco de sua própria morte. Alguns afirmavam que ela chamava por seu amante perdido. Outros diziam que não havia lamento em sua voz, apenas um sussurro que gelava os ossos.
O pagamento não me interessava. O que me mantinha ali era o trabalho. A promessa de um confronto, de um propósito momentâneo. Algo que me distraísse do sussurro constante dentro da minha própria máscara.
Eu desci da árvore em um salto silencioso, meus pés pousando suavemente sobre a terra úmida. O ar ao redor da ponte estava pesado, como se o próprio espaço fosse distorcido. Ela estava perto.
A escuridão sussurrou. E eu ouvi.
"Ele está vindo."
Não eram palavras faladas, mas sim uma presença deslizando pelo vento, algo que apenas os que vivem à beira do mundo dos mortos podem perceber.
A névoa na ponte se agitou. E então, ela apareceu.
A névoa se adensou, serpenteando pela ponte como dedos espectrais. No centro, ela tomou forma—um vulto feminino de cabelos longos e desgrenhados, que flutuavam como se estivessem submersos. Seu rosto era um borrão pálido, exceto pelos olhos... olhos vazios, profundos como o fundo de um lago onde ninguém jamais encontrou o corpo.
Ela me viu e sorriu. O som veio antes do ataque—um lamento distorcido, um ruído entre o choro e o riso. O ar se partiu com um estalo gélido quando ela investiu contra mim, à velocidade de um relâmpago. Se eu fosse um guerreiro comum, já estaria morto, mas eu não sou comum.
Desviei no último instante, girando o corpo com a fluidez de quem já fez isso milhares de vezes. Minha lâmina deslizou do coldre como um reflexo prateado da lua. A mulher espectral tentou se dissolver no ar, mas minha espada já estava em movimento.
Um golpe.
O fio da lâmina cortou através da névoa como se perfurasse carne. O yōkai estremeceu, sua forma piscando entre a existência e o nada. Ela tentou recuar, mas o ferimento espiritual queimava como fogo em seu ectoplasma.
Eu já sabia o que viria a seguir.
"Por favor..."
A voz dela veio como um eco distante, menos um pedido de misericórdia e mais uma confissão de algo que já havia sido decidido há muito tempo. Eu não hesitei. Com um segundo golpe, sua presença se fragmentou como vidro quebrado.
O silêncio tomou a ponte, a névoa se dispersou lentamente, como se a própria noite soltasse um suspiro. O trabalho estava feito.
Mas algo estava errado, permaneci imóvel, meus sentidos atentos. A energia do espírito desaparecera rápido demais. Um yōkai normal leva um tempo para se dissipar por completo, seu lamento se desfazendo aos poucos. Mas essa... foi sugada. Como se algo já estivesse à espreita, esperando para devorá-la.
E então eu vi, na madeira gasta da ponte, marcas haviam sido gravadas à faca—círculos e símbolos antigos, alguns eu reconhecia dos meus tempos de caçador. Magia ritualística. Mas o que me fez parar foi um detalhe específico.
O símbolo de três garras cruzadas da seita Norai.
A ponta dos meus dedos deslizavam sobre os entalhes da madeira úmida da ponte, sentindo a aspereza dos cortes recentes. Alguém havia marcado esses símbolos com pressa, mas precisão—ritualistas experientes. Eles estiveram aqui, talvez ainda estivessem perto.
Meus olhos percorreram a escuridão ao redor. A floresta do outro lado da ponte era densa, as árvores projetavam sombras longas sob a luz pálida da lua. O vento carregava o cheiro da madeira molhada e o murmúrio distante do rio correndo logo abaixo e então, senti uma presença firme, silenciosa, mas ali.
Meu olhar se ergueu e a vi, ela estava do outro lado da ponte, metade do corpo oculto pela penumbra das árvores, mas o brilho do luar revelou sua figura com nitidez.
Pele clara, olhos afiados como lâminas e um cabelo escuro e longo, amarrado no alto da cabeça com uma fita vermelha. Uma tanto pendia de seu quadril esquerdo, a bainha simples, mas bem cuidada. Nas costas, uma naginata descansava diagonalmente presa a um suporte de couro, a lâmina curva escondida dentro da proteção de madeira.
Suas vestes não eram as de uma aldeã. Ela vestia um keikogi negro, ajustado ao corpo para permitir liberdade de movimento, e hakama da mesma cor, marcada por poeira e desgaste, sugerindo que não era uma simples viajante. As tiras de seus calçados, waraji, estavam cobertas por resquícios de lama seca, como se tivesse cruzado trilhas antes de chegar ali.
Ela não se movia. Não era o olhar de alguém assustado, mas de alguém que analisava—a postura rígida, as mãos soltas ao lado do corpo, mas próximas o suficiente para alcançar as armas se necessário.
Mantive minha posição e soltei uma respiração curta.
— Se for uma alma perdida, sugiro que vá para outro lugar. Já tive trabalho suficiente por uma noite.
Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, os olhos passando rapidamente da minha lâmina para os símbolos no chão.
— Isso não foi obra sua. — A voz dela era firme, sem hesitação. — Você não é o responsável por esse selo.
Meu aperto na tsurugi se firmou levemente. Ela sabia o que estava olhando.
— E se eu fosse? — provoquei.
— Então, teria muito o que explicar.
Ela finalmente deu alguns passos para a luz, deixando-me vê-la por completo. Seu rosto era marcado por determinação, sem o menor traço de medo ou insegurança.
Meus olhos caíram brevemente sobre sua naginata, uma arma que poucos escolhiam carregar. A maioria dos caçadores preferia lâminas menores e discretas—ela, por outro lado, portava algo projetado para luta de alcance, controle de área e combate contra múltiplos oponentes.
Isso dizia muito sobre ela. Meu instinto me dizia que alguém como ela não aparecia em um lugar assim por acaso e eu não acreditava em coincidências.
— Você limpou a ponte — ela falou, finalmente, os olhos se movendo da minha lâmina para os símbolos gravados na madeira.
A voz era firme, sem hesitação. Nenhuma aldeã falaria assim.
— Não precisava de muito esforço — respondi.
— Então por que ainda está aqui?
Observei-a por um momento. Não era apenas curiosidade. Ela queria saber o que eu sabia.
— O espírito não estava ali por acaso — continuei. — Ele foi preso.
— Sim — ela respondeu. — E você sabe por quem.
A resposta dela foi rápida demais. Ela já tinha conhecimento daquilo.
Desviei o olhar para os entalhes no chão.
— Seita Norai.
— Sim.
— Você os persegue?
Ela não respondeu imediatamente. Mas seus olhos brilharam sob a luz da lua.
— Eu os caço.
Dessa vez, fui eu quem permaneceu em silêncio. Ela não mentia, era visível no jeito que falava, a maior parte das pessoas se encolhia ao ouvir o nome de Norai. Ela não.
— Por quê?
A pergunta a fez hesitar por um instante.
— Porque alguém tem que fazer isso.
Se era um desvio ou a verdade, eu não sabia. Mas havia algo mais por trás daquela resposta.
O vento soprou pela ponte, carregando um cheiro antigo de madeira molhada e sangue seco. O ritual falhou, mas o que quer que Norai estivesse fazendo ali ainda não estava claro.
— O que pretende fazer agora?
— Descobrir por que estavam aqui.
Meus olhos voltaram para ela. Fizemos a mesma pergunta. Tivemos a mesma resposta.
Ela percebeu isso também. E sorriu de lado.
— Então, parece que temos o mesmo objetivo.
Não era um convite. Nem uma ameaça. Apenas um fato.
Fiquei em silêncio por um momento. O caminho óbvio seria seguir sozinho, como sempre fiz. Eu não confiava nela. E ela não confiava em mim.
Mas Norai estava se movimentando e um erro custaria mais do que apenas uma vida.
— Você sabe onde eles estão? — perguntei.
— Sei onde podem estar.
— Então guie o caminho.
Kagome inclinou levemente a cabeça, surpresa pela aceitação imediata. Mas não discutiu.
— Então estamos em um acordo?
— Não confunda necessidade com aliança.
Ela riu pelo nariz.
— O mesmo vale para você.
Eu não respondi. Apenas dei o primeiro passo para fora da ponte, e ela veio logo atrás.
A caçada havia começado.
Ela deu um passo à frente, finalmente cruzando a ponte. O som leve das sandálias contra a madeira úmida quebrou o silêncio tenso que se formava entre nós. O cheiro de sangue e enxofre ainda pairava no ar, resquícios do espírito recém-destruído.
Mas quando Kagome se aproximou, sua expressão se alterou levemente. Os olhos estreitaram como se algo a incomodasse.
— Você cheira a morte.
O comentário dela ficou no ar por um momento. Não era uma acusação. Nem um insulto. Apenas uma constatação fria e objetiva.
Eu já tinha ouvido muitos chamarem minha presença de desagradável—como se minha existência por si só fosse um presságio ruim—mas essa foi a primeira vez que alguém tentou nomear isso.
Não respondi. Apenas me afastei.
O que quer que ela tivesse visto, sentido ou concluído, não era problema meu.
Meus pés tocaram o solo firme da margem, e continuei andando sem olhar para trás. Se ela quisesse seguir minha trilha, que tentasse. Se quisesse se manter no próprio caminho, melhor para ela.
Mas conforme meus passos ecoavam pelo terreno úmido, um incômodo surgiu em algum lugar dentro de mim.
Não pela seita Norai. Não pelos símbolos na ponte. Por ela.
Algo na forma como me olhou. Como se me enxergasse mais do que eu gostaria.
Como se visse algo que eu mesmo tentava ignorar.
A máscara pesou um pouco mais sobre minha pele.
Eu apertei os punhos, ignorando a sensação. Ignorei tudo.
Apenas continuei andando.
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