Hannya

A vila estava mergulhada no silêncio pesado que sempre vem depois do medo.

O ataque dos espíritos havia cessado, mas a névoa ainda persistia em alguns pontos, rastejando entre as casas como um rastro do que aconteceu. O cheiro de enxofre e podridão impregnava o ar, misturando-se com o da madeira queimada de lanternas destruídas. Os aldeões, ainda escondidos em suas casas, não ousavam sair. Não porque achassem que o perigo havia passado, mas porque temiam o que restava ali.

O cabo da minha tsurugi ainda estava quente em minha mão. O sangue espiritual evapora lentamente da lâmina, desaparecendo em pequenas espirais de fumaça. Não houve vitória naquela luta, apenas sobrevivência.

Ao meu lado, Kagome se movia com cautela entre os destroços, seus olhos afiados analisando os detalhes que os aldeões prefeririam não ver.

Foi apenas então que reparei nela de verdade.

Na batalha, não havia espaço para distrações, para detalhes irrelevantes. Mas agora, enquanto ela se ajoelhava entre as sombras dissipadas dos espíritos destruídos, a figura dela se tornou mais nítida para mim.

Seus trajes eram escuros, mas não completamente negros. Um tom profundo de azul envolvia o keikogi ajustado ao corpo, as mangas presas por tiras para não atrapalharem os movimentos. Sobre ele, um haori curto da mesma cor, preso na cintura por uma faixa de tecido vermelho, ligeiramente desgastada, marcada pelo tempo. As dobras do hakama seguiam os contornos de suas pernas, a bainha manchada de poeira e sangue ressecado. A naginata ainda descansava contra seu ombro, a lâmina úmida refletindo as chamas trêmulas das lanternas ainda acesas.

O que chamava atenção, no entanto, não eram as vestes ou as armas, mas o rosto.

As feições eram definidas, afiadas de forma precisa, mas sem perder uma certa suavidade. O traço que mais se destacava era a boca—não porque sorrisse, mas justamente porque não o fazia. Os lábios tinham um formato calculadamente neutro, como se guardassem palavras que nunca seriam ditas. Havia algo deliberado na maneira como ela segurava sua expressão, como se não quisesse revelar mais do que o necessário.

Os olhos eram escuros, profundos, e agora que a batalha havia cessado, pareciam mais distantes, como se vissem algo além do que estava diante deles.

Foi só então que percebi o que ela fazia.

Kagome se ajoelhou no chão manchado pela batalha, as mãos tocando suavemente a terra onde os espíritos haviam sido destruídos. Ela fechou os olhos, os lábios se movendo em um sussurro que eu não conseguia ouvir.

Ela estava prestando homenagem.

Não apenas aos aldeões que sobreviveram, mas aos próprios espíritos que havíamos destruído.

Não havia sentimentalismo em seu gesto, nenhuma tristeza desnecessária. Apenas respeito.

Permaneci onde estava, observando-a em silêncio. Isso não era algo que eu fazia.

Para mim, matar um espírito era simplesmente parte do trabalho. Não me interessava quem eles foram ou que tipo de tragédia os havia prendido a este mundo. Mas Kagome… para ela, isso ainda significava algo.

O vento soprou, levando consigo as últimas cinzas da batalha.

Ela abriu os olhos, exalando lentamente antes de se levantar. Foi apenas então que voltou a ser apenas uma caçadora outra vez.

Ajoelhar-se diante da morte não a fazia mais fraca. Mas eu não conseguia decidir se isso a tornava mais forte.

Então, sem mais palavras, ela se virou e caminhou até os selos no chão.

O chão ainda estava úmido da batalha, as marcas de pegadas misturadas às cinzas dos espíritos dissolvidos na terra. Kagome estudava os símbolos gravados no solo com olhos atentos, a expressão neutra, mas o olhar afiado, absorvendo cada detalhe.

Aproximei-me sem pressa, os passos silenciosos entre os destroços. Eu já sabia o que veria antes mesmo de olhar.

Os símbolos estavam espalhados em um padrão circular, interligados por linhas precisas, desenhadas com um tipo de pigmento escuro. Me agachei ao lado de um dos entalhes mais profundos, passando os dedos sobre o traço firme e preciso. Não eram inscrições comuns.

Reconhecia aquilo.

Um antigo ritual de sacrifício.

A seita Norai costumava usar esse tipo de padrão para invocações mais avançadas. O círculo central era o ponto de ancoragem para a energia espiritual, onde a vítima costumava ser posicionada. Os símbolos ao redor serviam para aprisionar a força invocada, um controle parcial sobre aquilo que era trazido à existência. A precisão dos traços indicava que o ritual não era trabalho de um amador.

— Isso não foi apenas um ataque. — Minha voz saiu baixa, mas definitiva.

Kagome ergueu os olhos para mim.

— Você reconhece o padrão.

— Sim.

— E o que significa?

Deslizei a mão sobre um dos traços centrais, sentindo a leve pulsação da energia que ainda restava ali.

— Significa que alguém aqui deveria morrer.

O vento frio soprou pelas vielas da vila, levantando poeira e fuligem. Kagome franziu o cenho.

— Eles estavam tentando sacrificar alguém?

— Ou já sacrificaram. — Me levantei, os olhos percorrendo a vila em busca de qualquer outro sinal. — Esses círculos não servem apenas para invocar espíritos. Eles servem para oferecer algo em troca.

Kagome não hesitou antes de perguntar:

— E o que foi oferecido?

Dei um passo para trás, observando os selos de um ângulo maior. A forma como estavam posicionados, o fluxo de energia que circulava entre eles…

— Ainda não sei. Mas seja o que for, Norai não pretendia parar por aqui.

Os aldeões tinham sido alvos, mas eles eram apenas danos colaterais. O verdadeiro objetivo do ritual ainda estava oculto, e eu não gostava de não ter todas as respostas.

A seita havia deixado sua assinatura naquela vila. Agora, era apenas uma questão de tempo até encontrarmos o responsável.

O silêncio pesado da vila foi interrompido pelo som de passos firmes se aproximando. Pelo ritmo e pela falta de hesitação, já sabia que não era um aldeão comum.

Levantei os olhos dos símbolos no chão e vi um homem robusto, de feições endurecidas pelo tempo, vestindo um quimono de algodão grosso sobre uma armadura de couro simples. A faixa vermelha presa à cintura denunciava sua posição—o chefe da vila.

Seu olhar rígido percorreu o estrago ao redor antes de se fixar em nós. Havia raiva ali, mas, acima de tudo, medo.

— Já tivemos o bastante de vocês por aqui — sua voz saiu dura, carregada de frustração contida.

Kagome ergueu lentamente os olhos, analisando o homem sem pressa.

— "Vocês"?

O chefe da vila estreitou os olhos.

— Caçadores. Estranhos que aparecem em tempos de desgraça e trazem ainda mais com vocês.

Minha mão continuou relaxada sobre o cabo da tsurugi, mas meus sentidos se mantiveram atentos. Esse não era um homem grato por termos lutado. Era um homem que queria que nunca tivéssemos aparecido.

— Os espíritos não vieram por nossa causa — Kagome respondeu, seu tom neutro, mas afiado. — Foram invocados.

— E quem vai convencer os aldeões disso? — O homem gesticulou para as casas ao redor, algumas com as portas entreabertas, onde olhos espiavam a conversa. — Eles só veem um vilarejo que nunca teve esse tipo de ataque antes… e agora, de repente, surge um caçador mascarado e uma mulher armada.

O vento carregou um silêncio incômodo. Não importava o que dizíamos—ele já havia decidido que éramos o problema.

— Nós eliminamos a ameaça — falei, sem rodeios.

— Ameaça? — Ele riu pelo nariz, sem humor. — E se voltarem? Se sua presença trouxer ainda mais dessas maldições?

Kagome cruzou os braços.

— Se voltarem, vocês não terão ninguém para protegê-los.

A mandíbula dele enrijeceu.

— Então lidaremos com isso sozinhos. Como sempre fizemos.

Isso não era verdade. Se sempre tivessem lidado sozinhos, não estariam enterrando corpos ao amanhecer.

Eu dei um passo adiante, parando ao lado de Kagome.

— Nós já terminamos aqui.

A resposta pareceu surpreendê-lo por um instante. Talvez esperasse resistência, algum tipo de insistência. Mas eu não insistia em ajudar quem não queria ser ajudado.

O chefe da vila olhou para Kagome, avaliando se isso era um blefe. Não era.

Ele bufou.

— Vocês partem ao amanhecer. Não quero mais estranhos nesta vila quando o sol nascer.

Ele virou-se sem esperar resposta e desapareceu pela viela de onde veio.

O silêncio voltou.

— Tão rápido para jogar fora a única coisa que os manteve vivos esta noite — Kagome murmurou.

— As pessoas temem mais o que não entendem do que aquilo que pode matá-las — respondi.

— E o que elas pensam que você é?

Não respondi imediatamente.

— Um problema.

Ela soltou um riso seco.

— Pelo menos nisso concordamos.

Não havia motivo para ficar ali mais tempo. Se Norai estava agindo na vila, as respostas estavam além dela.

O chefe da vila desapareceu pela viela, mas seu cheiro de medo permaneceu no ar.

Não era o mesmo medo que vi nos aldeões, aquele terror irracional que os mantinha escondidos atrás das portas e janelas entreabertas. O dele era diferente. Controlado. Direcionado.

Minha mente repassou o que ele disse. Tão rápido para nos expulsar. Tão rápido para nos culpar pelo que aconteceu. Sem questionar, sem hesitação.

Kagome cruzou os braços ao meu lado.

— Ele é um idiota.

— Talvez.

— "Talvez"? Ele prefere jogar a culpa em nós a lidar com o verdadeiro problema.

— Ou talvez ele já saiba qual é o verdadeiro problema.

Ela estreitou os olhos.

— O que quer dizer?

Me abaixei ao lado do símbolo gravado no chão, deslizando os dedos por um dos traços mais profundos. O ritual foi feito com precisão. Alguém que sabia exatamente o que estava fazendo, sem hesitação.

Levantei-me novamente, observando a direção em que o chefe da vila desapareceu.

— Ele não parecia surpreso.

— Pelo ataque?

— Pelo ritual.

Kagome franziu o cenho.

— Você acha que ele está envolvido?

— Não acho nada. Ainda. — Cruzei os braços. — Mas ele estava pronto para nos culpar, antes mesmo de saber o que realmente aconteceu. Como se precisasse que partíssemos rápido.

O silêncio pairou entre nós.

O chefe da vila queria que fôssemos embora antes do amanhecer. E isso significava que alguma coisa precisava permanecer oculta antes que a luz do sol tocasse a vila.

Kagome soltou um suspiro, passando a mão pela lateral do rosto.

— Então, vamos seguir o rastro dele?

— Não agora.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Então quando?

Mantive meus olhos fixos na direção em que ele partiu.

— Quando ele achar que já nos livrou do caminho.

Se eu estivesse certo, ele nos queria longe porque havia algo que não podíamos ver.

A pousada ficava no final da vila, um prédio de madeira simples, de dois andares, com lanternas a óleo iluminando a entrada. O cheiro de arroz recém-cozido e chá amargo pairava no ar, misturando-se com a umidade da noite. Um lugar que deveria trazer descanso, mas que agora parecia apenas um abrigo temporário para aqueles que não eram bem-vindos ali.

A dona da pousada nos recebeu com desconfiança. Os olhos pequenos e enrugados nos analisaram como se medisse o peso do problema que representamos. Mas, no fim, o dinheiro falou mais alto.

— Não queremos mais problemas — murmurou ao nos entregar as chaves.

— Nem nós — respondi, pegando a chave sem me importar com a dureza na voz dela.

Subimos as escadas de madeira que rangiam sob nossos pés. O segundo andar era simples, um corredor estreito que levava a poucos quartos. Kagome caminhava ao meu lado, os passos firmes, mas sem urgência.

— Eles estão mais preocupados conosco do que com os espíritos. — Ela passou os dedos pelo pequeno talismã de proteção pendurado na parede ao lado da porta do quarto. — Devem ter pedido ajuda aos deuses antes de dormir.

— O problema é que os deuses não respondem tão rápido quanto os mortos.

Ela não riu, mas havia algo parecido com um sorriso cansado em sua expressão. Se fosse outro momento, talvez eu tivesse parado para analisar aquilo. Mas o peso do dia estava sobre nós, e as perguntas ainda eram muitas.

Dentro do quarto, deixei minha tsurugi ao alcance da mão e me sentei no tatame, ajustando a máscara levemente. A madeira do chão guardava o cheiro de incenso e óleo de lamparina, uma tentativa inútil de afastar o que se aproximava.

Kagome sentou-se do outro lado do quarto, desfazendo os nós da faixa vermelha que prendia seu haori.

— Acha que ele está envolvido?

— O chefe da vila? — Inclinei a cabeça para ela. — Ainda não sei.

— Mas suspeita.

— Suspeito de qualquer um que tente nos expulsar antes do amanhecer.

Ela cruzou os braços. Por um instante, seu olhar encontrou o meu, e algo ali parecia analisar mais do que apenas minhas palavras.

— Você sempre dorme de máscara?

— Eu nunca durmo de verdade.

Dessa vez, ela não respondeu. Apenas desviou os olhos e pegou um cantil de chá frio.

O silêncio caiu sobre o quarto. O tipo de silêncio carregado de coisas que ainda não foram ditas.

Me deitei sobre o futon, sem relaxar completamente. O teto de madeira escura acima de mim parecia distante, e por um instante, tudo o que restava era a respiração lenta da mulher no outro lado do quarto e o som da minha própria.

A vila estava mergulhada na escuridão absoluta quando a hospedaria foi tomada pelo cheiro da morte.

Eu não estava dormindo. Nunca durmo profundamente. O silêncio da noite sempre me alerta mais do que qualquer ruído. Mas dessa vez, não foi o silêncio que me acordou.

Foi o peso na atmosfera. Uma presença antiga, carregada de ódio e vingança.

Meus olhos se abriram antes mesmo do primeiro som. A escuridão do quarto era densa, apenas um fio de luz da lanterna do lado de fora passava pelas frestas da janela de madeira. Mas eu já sabia que não estava mais sozinho ali.

Um som rasgou o ar.

Arranhões, unhas afiadas riscando madeira com força suficiente para afundar no material.

O cheiro veio logo depois. Não era apenas de podridão, mas de algo muito pior. Carne apodrecida e fogo antigo. Ódio e desespero misturados.

Onryō.

Um espírito vingativo. Mas não um comum.

Me levantei devagar, deslizando a mão até o cabo da tsurugi, sem fazer ruído. Os olhos invisíveis sob a máscara varreram o cômodo, e então, eu o vi.

Ele se contorcia no canto do quarto, pressionado contra as sombras da parede. Seu corpo era seco e retorcido, os membros alongados em posições que nenhum humano deveria assumir. O rosto, ou o que restava dele, era coberto por uma máscara rachada, os olhos ocos brilhando em um tom doentio.

Um Goryō.

Os espíritos dessa classe não surgiam sem motivo. Eram fantasmas de puro rancor, geralmente ligados a figuras importantes, como guerreiros ou nobres traídos em vida. Eles não apenas matavam, eles buscavam vingança.

A pergunta era: vingança contra quem?

Ele se moveu antes que eu pudesse concluir o pensamento.

O ar explodiu em um grito agudo e distorcido, como vidro sendo esmagado sob ferro. A temperatura despencou instantaneamente, e os tatames do quarto rangiam conforme a criatura se lançou contra mim.

Minha lâmina estava pronta antes mesmo de eu terminar de me mover.

O aço cortou o vazio, mas não encontrou carne. O Goryō desviou no último instante, seu corpo se distorcendo de maneira impossível, e então, ele atravessou as sombras e desapareceu.

Me virei imediatamente. Ele não fugiu.

Ele só tinha encontrado um alvo melhor.

O grito de Kagome veio do outro lado da parede.

Me movi antes mesmo de pensar, os pés deslizando pelo chão de madeira enquanto atravessava a porta sem hesitação.

No instante em que entrei no quarto ao lado, vi a criatura pairando sobre Kagome.

Ela já estava de pé, a naginata erguida para bloqueá-lo, mas os braços da criatura se estendiam em várias direções ao mesmo tempo, as unhas negras afiadas como lâminas tentando agarrá-la. Um golpe daquele tamanho poderia rasgar a carne em segundos.

Não hesitei.

Avancei em um movimento rápido, minha lâmina mirando direto no centro do peito do espírito. Se o Goryō queria vingança, eu seria seu novo alvo.

E dessa vez, ele não teria para onde fugir.

A lâmina da minha tsurugi cortou o ar, mas o Goryō torceu o corpo de maneira antinatural, escapando por um fio. Ele se moveu como uma sombra quebrada, os membros se esticando em direções impossíveis, e desapareceu em um borrão de névoa.

A energia do espírito se espalhou pelo cômodo, e então, o som de portas batendo ecoou pelo corredor da hospedaria. Ele não estava fugindo.

Ele queria mais vítimas.

Kagome já estava se movendo antes que eu pudesse falar. Ela passou por mim como um raio, sua naginata firme em mãos, avançando pelo corredor.

— Proteja os aldeões! — sua voz veio curta e afiada, como uma ordem.

Eu não respondi. Não porque obedecia ordens, mas porque já sabia o que precisava ser feito.

O Goryō emergiu novamente no hall da hospedaria. As portas de papel se romperam conforme sua forma espectral se contorcia, os dedos alongados avançando em direção aos aldeões que haviam saído de seus quartos para entender o tumulto.

Kagome deslizou à frente deles, os pés se firmando no chão. A lâmina da naginata traçou um arco preciso no ar, uma barreira entre os vivos e os mortos.

— Para trás! — sua voz ecoou, e os aldeões hesitaram antes de recuar, alguns tropeçando em desespero.

O espírito rugiu, sua forma oscilando como se tentasse decidir se valia a pena lutar ou recuar. Ele queria algo. Mas o quê?

Isso não importava. Eu acabaria com isso ali.

Me aproximei por trás do espírito, sentindo a pressão da máscara pesar contra minha pele. Ela reconhecia aquilo.

E queria mais.

O Goryō se virou para mim no exato momento em que minha mão apertou a tsurugi com mais força.

Um calor estranho se espalhou pela minha pele.

A máscara vibrou contra meu rosto, como se algo dentro dela acordasse.

O desejo de destruir, de rasgar, de consumir.

Minhas unhas arranharam o cabo da espada. A tentação veio como uma onda, um poder bruto se derramando pela minha espinha.

Se eu apenas cedesse um pouco…

O espírito hesitou. Ele sentiu.

Eu sorri por baixo da máscara. E então, ataquei.

A tsurugi cortou o ar como uma lâmina de escuridão, e o Goryō finalmente percebeu que não havia mais escapatória.

Minha lâmina cortou o ar, mas o Goryō torceu o corpo no último instante, escapando do golpe como se seu corpo fosse feito de sombras líquidas. O espírito se moveu ao redor da lâmina, esticando os braços alongados em minha direção. Saltei para trás, evitando o ataque, mas o frio cortante da energia espectral roçou minha pele.

Esse não era um yōkai comum. Meus cortes não o atingiam da mesma forma que atingiam outras criaturas. Sua existência era sustentada por algo além da força bruta, além do ódio que os mantinha vagando pelo mundo dos vivos. Ele estava amarrado a algo maior, a um propósito que não era apenas destruir.

Minhas mãos firmaram a tsurugi, e eu me posicionei novamente, os olhos avaliando os movimentos erráticos da criatura. Meus instintos gritavam que, mesmo com toda a minha habilidade, eu não poderia vencê-lo apenas com aço.

Kagome estava mantendo os aldeões protegidos, mas o Goryō não os queria. Ele queria algo mais. Ele queria sangue.

O espírito avançou novamente, seus membros se contorcendo como serpentes. Minha lâmina ergueu-se para interceptar o ataque, mas no momento do impacto, ele atravessou o aço como se fosse apenas névoa. O frio atravessou meu corpo, uma sensação cortante e pesada como se algo estivesse tentando puxar minha alma para fora da carne. Meus joelhos vacilaram por um instante, e naquele momento, eu soube.

Eu não podia vencê-lo assim.

Minha lâmina não o alcançava. Meus ataques não eram suficientes. A única forma de derrotá-lo era usando aquilo que eu evitava sempre que possível.

A máscara pulsou contra minha pele, quente e viva, como se sentisse minha hesitação. A tentação se espalhou pelos meus músculos, queimando lentamente sob a superfície, uma corrente de poder bruto esperando para ser liberada. A voz dela não era um som, mas um peso invisível dentro do meu crânio, um sussurro que não precisava de palavras.

"Você precisa de mais."

Meus dedos apertaram a lâmina, e por um instante, lutei contra isso. Mas então, o espírito atacou novamente, atravessando meu corpo com sua sombra gélida, e dessa vez, o frio não era apenas uma sensação—ele estava me levando.

Eu cedi.

O ar ao meu redor se tornou denso e escuro. A máscara queimou contra minha pele. O vazio se espalhou dentro de mim, e quando abri os olhos novamente, vi o espírito hesitar. Ele sentiu. Ele percebeu o erro. Pensou que estava lutando contra um homem. Mas naquele momento, eu já não era um homem.

A escuridão rastejou ao meu redor, se espalhando como um veneno invisível. A lâmina em minha mão estremeceu, e quando me movi, fui mais rápido do que jamais deveria ser. O Goryō tentou recuar, mas não havia mais tempo. Minha espada cortou seu corpo espectral, e pela primeira vez, ele sentiu a lâmina.

O espírito gritou, um som distorcido e quebrado, e sua forma se contorceu em um frenesi desesperado. A energia negra ao meu redor se prendeu nele, como correntes invisíveis que não o deixariam escapar. A sombra me obedeceu, não como uma ferramenta, mas como um predador faminto que se agarrava à presa. Eu não apenas destruí o Goryō. Eu o devorei.

A névoa se dissipou, e o espírito se desfez como poeira no vento. Mas algo estava errado. Meus músculos estavam tensos, minha respiração pesada, e a sombra ao meu redor se recusava a desaparecer. Meus dedos ainda seguravam a lâmina, mas agora tremiam. O calor da máscara queimava minha pele, e então, ouvi o sussurro dentro da minha mente novamente.

"Ainda não é o suficiente."

A voz não pedia, não ordenava. Apenas existia, como um peso inevitável. Eu sabia o que aconteceria se continuasse cedendo.

O som da lâmina caindo no chão ecoou pelo quarto. Minha respiração voltou ao normal, e o peso sobre meu corpo começou a recuar. Mas não completamente. Sempre que usava esse poder, ele levava algo comigo.

Então, ouvi a voz de Kagome.

— Hannya…

Levantei o olhar e a vi parada à porta, a naginata abaixada ao lado do corpo. Seus olhos estavam fixos em mim, mas não de surpresa. De receio.

Não era apenas choque. Era algo próximo do medo.

Meus olhos desceram para minhas próprias mãos. Ainda tremiam. A máscara havia tomado mais um pedaço de mim naquela noite. E eu sabia que não haveria como recuperá-lo.