A Máscara
1 Introdução - Aprisionada.
Notas iniciais
Percorri cada centímetro do quarto. Não sei dizer quantas voltas dei ali, tão pouco quantas unhas roí.
Finalmente a porta se abriu.
Ele apareceu pondo fim a minha ansiedade. Estava bem trajado, como de costume e com o semblante fechado, o que também era comum. Sua beleza era uma mistura da insanidade de Bosch com a perfeição de Michelangelo.
Alto e alvo, com muito sangue a adornar os lábios. O pescoço delgado, os olhos lânguidos — tudo nele era harmônico e coerente, uma sinfonia para os olhos. Cílios longos e curvos circundavam orbes azuis-acinzentadas, caleidoscópicas.
Não existem palavras que possam descrevê-lo, não existe sinônimos que possam qualificá-lo, sua beleza assumira aspectos tão cheios de graça a ponto de tornarem-se dolorosos.
Antinatural. Divinal. Diabólico. Escultural.
Seu olhar era frio assim como sua postura, entretanto eu podia sentir sua curiosidade para saber o que eu tinha a dizer. Talvez minha atitude afetada e meus olhos vermelhos de chorar tenham despertado esse interesse de sua parte.
Havia treinado durante todo o dia o que diria a ele, mas nesse momento não me lembrava de nada do que havia ensaiado.
Deixei as palavras saírem de minha boca sem pensar em suas consequências:
— Estou farta. Ouviu bem? FARTA! Não quero ser seu novo brinquedinho. Vá aterrorizar sua avó! Não sei o que diabos quer comigo. Não sei se está me guardando para uma ocasião especial ou se vai me ofertar em sacrifício. Não faço a menor ideia do que vocês vampiros fazem. Só quero que saiba que eu não vou mais ficar aqui a sua disposição. Agora é a hora, Belphegor, me mate! Sugue a vida de minhas veias. Faça de mim sua refeição. Faça isso agora — meu tom de voz era estridente e embargado pelas emoções.
Não saber a hora de sua morte é mais desesperador do que a certeza de que vai morrer. Implorava para que ele me tirasse à vida, para que eu não tivesse mais que conviver com essa agonia.
— Faça agora o que tem que ser feito, se não o fizer, sorverá meu sangue frio por que eu mesma darei cabo de minha vida — tudo que disse foi entre lágrimas. Já fazia algum tempo que estava sob o poder de Belphegor, enclausurada sem saber ao certo em que lugar.
Alguns dos vampiros vinham me trazer as refeições. Tentaram me enganar de início, mas não foram capazes.
Eu não sabia o que estava fazendo ali, presumia que aguardando a minha morte e tinha que pôr um fim nisso.
Nessa manhã um vampiro chamado Conner veio me trazer o desjejum. Entre todos, esse era o que mais me inspirava simpatia. Abri-me com ele, chorei. Implorei que me dissesse o que estava acontecendo. Conner lamentou não poder contar, mas prometeu que falaria com Belphegor para que ele me acalmasse.
E aqui estava ele, parado em minha frente, com sua beleza que era uma afronta a todas as coisas naturais e com um olhar furioso.
Aproximou-se de mim, lentamente, com passos absolutamente controlados. Eu podia sentir que era uma calma estratégica, adquirida com o tempo. Provavelmente não estava acostumado a ser questionado. Quando estava próximo o bastante, me encarou com olhos severos, me hipnotizando com orbes vítreas, lupinas e letais.
Ele encheu os pulmões de ar, arfando de ódio, não mais preocupado em manter a aparência serena.
Colocou as mãos contra a parede fazendo de mim prisioneira entre seus braços. A respiração ofegante do vampiro fazia meu cabelo se agitar. Seu nariz estava a centímetros do meu. Não havia como desviar meus olhos do dele, por mais que eu quisesse isso.
Meu corpo me traiu, estremeci contra minha vontade. Muitas emoções me invadiram. Queria ser forte o bastante para empurrá-lo, ou ainda mais forte para puxá-lo junto a mim. Estava tão confusa!
A beleza desse monstro me confundia, deixava-me zonza e fora de mim.Estava à beira de um colapso nervoso.
Ele continuava a se aproximar. Seus lábios estavam próximos a minha orelha. Eu sentia o hálito gelado de Belphegor e meu corpo respondia com arrepios.
Fechei os olhos ao sentir os lábios macios e gentis do vampiro tocando minha orelha. Certamente eu morreria por asfixia, não posso dizer quanto tempo fiquei sem respirar.
Senti minhas pernas amolecerem, entretanto, fui sustentada por suas mãos firmes, que me agarraram pela cintura. Minha respiração se tornou instável.
Sussurrou em meu ouvido:
— Nóm querro seu sangue, Clarrice! — puxou-me contra ele. Meus seios estavam colados contra seu tórax firme.
Nossos narizes se tocaram. Automaticamente umedeci os lábios.
Seria beijada por uma criatura sobrenatural, descobriria o gosto da luxuria, do desejo e da morte da forma mais nociva e visceral existente. Eu temia tudo isso ao mesmo tempo em que me sentia inacreditavelmente atraída a esse lado negro.
O cheiro almiscarado do perfume de Belphegor me elevava, fazia com que eu espirasse profundamente, permitindo que o odor preenchesse meus pulmões.
Inebriada com a aproximação de nossos corpos, com sua beleza e com seu cheiro másculo, deslizei minha mão em sua nuca, puxando-o para mim. Ele me comprimiu ainda mais contra a parede, forçando-me a sentir a anatomia de seu corpo perfeito, rígido.
Vendo o efeito que causava em mim sorriu debochado. Isso desencorajou meu gesto e o soltei, envergonhada, derrotada.
Belphegor se afastou, ainda me segurando pela cintura. A distância entre nós era bem maior agora.
Sem fazer esforço algum me atirou na cama.
O impacto da queda fez o móvel gemer. Algumas mechas do meu cabelo cobriram meu rosto.
Estava crente de que ele se juntaria a mim. Não posso explicar, mas ao mesmo tempo em que o desejava, me sentia aterrorizada.
Enquanto ajeitava meu cabelo e tentava afastar a confusão em minha mente, vi Belphegor caminhar em direção a porta. Ele não se deitaria aqui? Não continuaria com seu joguinho de sedução para me humilhar, para me arrazar?
O vampiro precisava me esclarecer algumas coisas. Gritei, deixando evidente meu desespero:
— ENTÃO O QUE QUER DE MIM, SE NÃO É O MEU SANGUE QUE DESEJA ? — ele virou-se para me encarar, com a elegância de um modelo na passarela. Seus cabelos dourados, estrategicamente arrumados, brilharam sob a luz artificial do quarto.
Seus olhos cintilavam com um brilho incandescente. Não pude decifrar a origem dessa luz.
Ele respondeu, depois de me olhar de uma forma indecifrável:
— Contente-se com essa resposta: Ninguém irrá te ferrir. Está mais prrotegida aqui do que em qualquer outro lugar do mundo. Aceite seu destino. Nóm pode mudarr o fato de estar prresa, no entanto, se deprrimir é uma opçóm. Só o farrá se quiser.
Me deu as costas e tocou na maçaneta da porta. Eu não podia deixá-lo partir sem que me desse às respostas que eu buscava. Esperei duas semanas para reencontrá-lo. Não sabia quando o veria novamente. Estava decidida a encontrar a verdade, e só o que consegui foi que ele debochasse de mim e jogasse seu charme barato a fim de me seduzir.
Gritei mais uma vez, fazendo-o interromper sua ação:
— ESTÁ APAIXONADO POR MIM?
O som da gargalhada do vampiro preencheu o quarto. Minhas bochechas arderam e eu sabia que estavam avermelhadas. Ressenti-me com seu deboche. Ele voltou a me encarar. Sua fisionomia era de espanto:
— Anda assistindo muitos filmes, Clarrice? Vampirros sóm incapazes de amar. Nóm sou uma excessóm. Nóm sinto as coisas que você e sua raça inferrior sentem. Poupe-me de seus ataques de histerria e suas teorrias infundadas. Au revoir!
Partiu, me deixando pior do que quando havia me encontrado.
Meu corpo se recuperava dos efeitos de tê-lo tão próximo. Nada poderia ser mais sensual e perturbador do que ser assediada por um vampiro, isso eu descobri. As partes de meu corpo que haviam sido tocadas por ele formigavam de um jeito que me aborrecia.
Minha confusão se transformava em revolta, não era justo ser usada dessa maneira. Atirei uma almofada contra porta e uma lágrima escorreu em minha face. Queria muito ir para casa.
Nesse exato momento, Conner entrou no quarto.
Assim como os outros vampiros sua beleza era fora do habitual.
Tinha a altura de Belphegor, suponho. A claridade de sua pele assemelhava-se a dele. Trajava-se com uma elegância sutil e premeditada.
Seus cabelos negros e olhos da mesma cor contrastavam com sua claridade empalidecida, conferindo a ele uma beleza audaciosa.
Comparado a Bel, Conn tinha as feições mais suaves. Seus olhos assustavam, não há como negar, mas suas expressões cordiais amenizavam esse fato. No entanto, nesse momento era visível que estava frustrado. Olhou-me de forma atípica.
Sem me dirigir à palavra, sentou-se na poltrona ao lado da minha cama, retirou um livro gasto do bolso e passou a ler, ignorando minha presença.
Tive que quebrar o silêncio. Surpreendi-me com o tom rouco em minha voz modificada pelo choro:
— Obrigada por ter dado meu recado a ele — esperei em vão por uma resposta. — Você não me parece contente, posso ajudar? — insisti.
Conner me olhou por cima do livro, vi um brilho corrosivo em seu olhar.
— Eu quem devo agradecê-la — respondeu-me irônico. — Fui rebaixado de segurança de porta para babá. Que ideia brilhante falar em suicido a ele! — ironizou.
Levei um momento para compreender.
Belphegor ordenou que Conner me observasse pessoalmente para que eu não cometesse suicídio.
Um sorriso brincou em meus lábios. Isso seria preocupação? Zelo? Quanta bobagem!
Como comentado anteriormente, de todos os vampiros que conheci Conn era o mais agradável. Realmente gostei de saber que teria companhia daqui por diante.
Ele pareceu não notar meu contentamento, pois demonstrava mais interesse no livro do que em mim.
Eu precisava conversar, me distrair. Não me importei em ser inconveniente por importuná-lo:
— Você faz tudo o que Belphegor manda? Por que faz isso?
Conner fechou o livro. Percebi pelos seus gestos que o deixei desconfortável. Ofendeu-se com minha pergunta. Notei que os vampiros se assemelham a homens comuns, não gostavam de sentirem-se diminuídos.
— Ele é meu Senhor, Clarice. Levo muitas vantagens em ser seu “aliado” — enfatizou bem essa palavra.
— O que quer dizer com isso? — prossegui com meu interrogatório. Precisava extrair todas as informações que pudesse. Manter Conner falando era minha melhor chance de que isso acontecesse.
— Quero dizer que essa aliança é vantajosa para ambas às partes — explicou, escolhendo bem as palavras.
— Por que Belphegor é tão ocupado? Uma criatura eterna não deveria estar sempre tão atarefada, afinal terá todo o tempo do mundo para o que precisar. Ele me parece sempre muito...agitado — torci para que me respondesse e que deixasse que as perguntas prosseguissem.
Conner olhou em meus olhos com desconfiança. Ele sabia onde eu queria chegar. Demorou um instante, entretanto, a resposta veio:
— Ele é de fato muito ocupado. Exerce um cargo de autoridade em seu Distrito e na Camarilla. Por isso está sempre agitado. Bel tem muitas responsabilidades.
— O que exatamente ele faz? — sentei-me mais próxima a Conner, sem ocultar minha curiosidade.
Ele não respondeu. Inclinando-se em minha direção lançou-me outra pergunta: — Posso saber o porquê de tanta curiosidade, criança?
— Quero conhecer melhor meu algoz — afirmei.
Conner sorriu com minha resposta. Será que eu me acostumaria com tanta beleza algum dia?
Respondeu-me:
— Belphegor desempenha um papel importante entre os da minha classe. Ele protege uma coisa fundamental para nós: “A máscara”. Vou te dizer o que é: Só há duas coisas que são importantes para um vampiro, ele mesmo e a máscara. Não queremos que a sua espécie saiba da nossa. É uma estratégia de predadores. Os leões não desejam que os cordeiros saibam de sua presença. A Camarilla é uma seita que reúne aqueles que anseiam proteger a máscara. Ela é nosso disfarce. É o que nos faz passar por um mortal — concluiu.
Estava fascinada com esse assunto, no entanto ainda não era claro o suficiente. Voltei a questioná-lo:
— Por que a máscara precisa de proteção?
— Existem muitos anarquistas que não se preocupam com a máscara. Falo sobre humanos e vampiros. Existem pessoas que nos caçam, algumas extremamente perigosas. Há também vampiros que não tem limites. Não se importam com as consequências de seus atos. Assim como vocês, precisamos de leis e indivíduos que façam essas leis serem respeitadas. Bel é responsável em garantir que cada um cumpra com seu dever.
Eu absorvia cada palavra achando a conversa excitante. Além de descobrir sobre a existência dessas criaturas terríveis e fascinantes, estava conhecendo a maneira como se organizavam. De como e porque viviam em sociedade.
— Ele é uma espécie de policial? — isso fazia sentido para mim. O jeito como ele se impunha, a maneira grosseira como ele me tratava, sua masculinidade...
Conn voltou a sorrir. Balançou a cabeça em negação.
— É uma espécie de... — pensou por um momento antes de dizer: — Governador.
Contentei-me com essa resposta. Fiquei calada pensando sobre as responsabilidades que ele tinha. Provavelmente Belphegor punia aqueles que afrontavam a máscara. Tive pena daqueles que precisavam prestar contas a ele.
— De alguma forma eu ameaço a máscara? Por isso vocês me mantêm cativa? — Conner me observava de uma forma constrangedora. Sentou-se ao meu lado na cama e acariciou minha face. Fiquei apreensiva com essa proximidade inesperada.
— Você é realmente um belo espécime de ser humano, Clarice — disse em tom baixo, cochichado. — Quase posso voltar a sentir seu gosto doce em minhas presas. É tão esperta e frágil. Uma pena que você seja impossível para mim — havia franqueza em suas palavras.
Conn colocou uma mecha de cabelo atrás de minha orelha direita e sorriu ao perceber que eu estava rígida de tensão. Completou:
— Você não ameaça a máscara, fique tranquila! É uma outra “coisa” que você ameaça — notei satisfação em sua voz. Percebi que não arrancaria mais nada dele.
— Chega de perguntas por hoje, Clarice. Trate de ir dormir.
Conner confirmou minha suspeita, infelizmente meu interrogatório chegava ao fim, por hora.
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