A Máscara
22 Capítulo 22 - Veneno.
Era mesmo inútil. Logo todo meu corpo tremia de vontade de beijá-lo. Sem poder me conter, agarrei seus cabelos e grudei meus lábios no dele, faminta por seu beijo.
Ele arqueou os lábios num sorriso convencido, em seguida me beijou com a mesma avidez que eu o beijava. No inicio, Bel permanecia com os olhos fechados, parecendo usufruir da sensação do beijo como eu própria, entretanto, pouco tempo depois, arregalou os olhos, como se estivesse surpreso com alguma coisa. E então seu modo de me beijar mudou. Ele se concentrou em sugar meu lábio inferior, com tanta força que sentia o sangue verter do pequeno ferimento que eu mesma tinha causado e que agora devia ter se agravado.
Meus lábios doíam. Eu queria empurrá-lo, mas tinha que cumprir a ordem que me dera. Quando me retraí, sem suportar a ardência, ele se afastou, com os olhos reluzindo de puro prazer.
— Teu sabor... — comentou ele. — Você tem um gosto muito bom, muito bom mesmo.
O sangue escorria do ferimento e seguia até meu queixo, gotejando e manchando a camisa azul do príncipe, que eu vestia. Ele parecia fascinado, acompanhando o percurso do sangue. Então seguiu o rastro, lentamente, com a língua.
Fechei os olhos, me entregando a doce sensação de sua língua áspera deslizar do meu queixo até meus lábios. A dor que eu sentia não era nada se comparada a sensibilidade que seus beijos e sua mão passeando pelo meu corpo me propiciavam.
Fiquei confusa quando o vampiro interrompeu o beijo abruptamente, me olhando com terror e desconfiança. Nem tive tempo de perguntar nada, logo sua mão estava em volta do meu pescoço, sufocando-me.
— M-maldita! — disse entre os dentes, empregando força nos dedos. Logo esmagaria minha traqueia, eu já não respirava. Ao passo que suas pálpebras pesavam, ele afrouxava os dedos.
Quando me soltou, me arrastei pela cama, fugindo dele. Puxava o ar com força, ofegando.
Belphegor me deu as costas e tentou caminhar até a porta, mas suas pernas pareciam não obedece-lo. O máximo que conseguiu foi cambalear até a parede, onde se encostou. Balançava a cabeça, completamente desorientado.
Assim que me recuperei, corri até ele. Bel estava sentado no chão, com a cabeça entre as mãos.
— O que aconteceu? — perguntei sem esconder minha preocupação.
Num gesto impensado afaguei seus cabelos claros e macios que deslizaram entre meus dedos como fios de ouro.
Quando o vampiro me encarou, imediatamente me afastei. Seus olhos estavam tão escuros que pareciam os olhos de Conner, e não os dele.
— Nóm me toque — ordenou o príncipe. — Estou perrigoso agorra.
Me levantei e fui para o mais longe que o espaço permitia. Cruzei os braços frente a mim, me abraçando, como se isso pudesse me proteger. Não queria admitir, mas estava muito inquieta com sua atitude. O que tinha acontecido dessa vez? Essas mudanças repentinas de humor me enlouqueciam. Depois de alguns minutos no mais absoluto silêncio, perguntei:
— O que houve? — quando Belphegor levantou a cabeça para me encarar, notei que seus olhos estavam mais claros. Ele se apoiou nas paredes para ficar em pé. Ainda parecia vacilante.
— É alguma coisa no seu sangue. Uma espécie de veneno.
— Veneno? — eu não podia compreender. — Será que comi alguma coisa que te fez mal?
Pela primeira vez, vi Belphegor sorrir com ternura.
— Clarro que nóm, mon ange, mesmo que você tivesse ingerrido um veneno morrtal, ele nóm me prejudicarria.
— Então como pode...? — nem consegui achar as palavras.
— Bem vinda ao meu mundo! — ele sorriu. — Esse é apenas um dos mistérrios que envolve você — respirou fundo.
— Bel, — tive que interrompê-lo — isso não faz sentido algum. Meu sangue não é venenoso para Gage e nem para Conner.
— Mas você nóm é o tótem de Gage, nem o de Conner.
Assenti.
— Então quer dizer que sou mesmo seu tótem?
Belphegor caminhou até mim e tocou o ferimento no meu lábio inferior. Olhou para seus dedos sujo de sangue. Em seguida segurou minha cabeça com ambas as mãos e a levantou para poder ver os hematomas que seus dedos provavelmente deixaram em meu pescoço quando tentou me estrangular. Seu olhar ficou triste quando disse:
— Que outra explicaçón há parra isso?
— Ainda assim não tem certeza? — ele ignorou minha pergunta.
— Estou cansado de me desculpar toda vez que te machuco. Está ficando cada vez mais frrequente. Você tem razóm, Clarrice, parra seu bem é melhor que nóm fiquemos tóm próximos.
Um nó se formou em minha garganta, mas ele estava certo. Não havia argumentos contra isso.
O príncipe enrolou uma mecha do meu cabelo nos dedos por um tempo, e então se encaminhou até a porta.
— Bonne nuit!
— Belphegor! — chamei antes que desaparecesse e eu não voltasse a vê-lo por semanas. O vampiro se deteve e olhou em minha direção esperançoso.
— O que quer de mim, afinal? Que eu enlouqueça? — indaguei. Esfreguei o rosto com ambas as mãos. Respirei fundo para me despir de autodefesa, autopreservação, orgulho. Só precisava de uma conversa franca. — Você me fez conhecer a dor. Me fez conhecer o limite das minhas emoções. Entendi que sou apenas uma mortal de pouca idade e que é muita pretensão desafiar criaturas sobrenaturais — tinha toda sua atenção. — Me mostrou que confiança, sinceridade e amizade são palavras ambíguas no seu mundo. Destruiu minhas ilusões e me mostrou um lugar cruel, onde você é o rei — ele voltou a fechar a porta e se virou em minha direção, parecendo contrariado. — Não sou mais aquela garota que vocês encontraram na boate, que gritava, esperneava e queria ser ouvida. Se esse era seu desejo, por que vem me chatear, controlar minha mente, me machucar? Vá, Bel. Mas te suplico que não volte.
Ele parecia incrédulo. — Eu nunca quis que você deixasse de ser quem é — respondeu. — Eu só querro uma coisa de você : que me perrtença. Nóm por que te obriguei, te coagi, mas por querrer — passou a mão pelos cabelos. — Clarrice, quando entrrei no quarrto e te vi inclinada sobrre o parrapeito, fiquei desesperrado. Sabe o que sua morrte farria comigo? — eu sabia, mas deixei que prosseguisse sem interrompê-lo. — Quando penso que te tenho nas máons, você escapa pelos meus dedos — ele começava a se alterar. — É tóm humilhante, nunca prrecisei apelar parra hipnose. Basta uma ordem para ser obedecido, mas nóm posso confiar em você, nóm posso. Olhe parra você! É só uma menina. Achei que era só te livrrar da má influência do Conner que terria total contrrole sobrre você, mas parra minha surrprresa, está pior que nunca.
Andei até ele com passos determinados. — Por qual motivo te obedeceria cegamente? Você é cruel, insensato, manipulador, frio, controlador, impulsivo. Se fosse mais esperto não precisaria se esforçar tanto para me dominar. Ele me agarrou pelos ombros.
— Enquanto nóm se submeter a mim, nunca saberrá o quanto posso ser generroso. Se fosse boazinha terria tudo o que quisesse — tentei me soltar, mas não pude.
— Isso não é verrdade! — vociferei. — As coisas que mais quero não pode me dar.
— O que? — exigiu. — Nóm posso pensar em nada que te negarria.
— Liberdade! — berrei.
— Sim — concordou. — Mas posso fazer da sua cela um lugar muito agrradável.
— O passáro prefere viver livre, mesmo que sua gaiola seja de ouro — citei uma frase que ouvi em algum lugar.
— Clarrice, essa é a única coisa que nóm posso te dar.
— Não é a única — me livrei das mãos dele. — Também não pode me dar amor.
Me arrependi por ter dito isso ao ver sua expressão surpresa e quase divertida.
— Jurro que te darria meu coraçón se tivesse um – sorriu de lado, não parecendo sincero. — Mas se pensar no assunto verrá que o que te oferreço é mais do que amor. É um vínculo eterrno e indestrrutível.
Me ressenti com isso. Ainda tinha esperanças que ele dissesse que sentia amor por mim, a seu modo. Não podia compreender como que para ele amor era apenas uma palavra no dicionário.
Além disso, o príncipe não me oferecia esse tal vínculo, me impunha.
Fiquei em silêncio por algum tempo e bastante pensativa. Talvez as atitudes dele mudassem se eu mudasse as minhas. Não conseguiria nada batendo o pé e o afrontando.
Manter meus amigos longe de mim era uma maneira de protegê-los. Fazer Belphegor acreditar que eu pertencia-lhe era um modo de me proteger. Não quis pensar muito sobre isso, não queria constatar que eu sempre fui dele, e tinha razões para pensar que sim, embora relutasse.
Diminui a distância entre nós e segurei suas mãos. A principio o vampiro parecia ter sido pego de surpresa, como sempre agia quando eu demonstrava afetividade, mas no segundo seguinte entrelaçou seus dedos com os meus.
O sorriso satisfeito que apareceu em seus lábios permaneceu ali por mais tempo do que esperava. Parecia ter sido talhado caprichosamente pelas mãos de um artesão habilidoso.
— Quer se reconciliar? — perguntou confuso.
— Quero que saiba que sou sua. Sempre fui, e você não teve que me pedir. Simplesmente sou.
Bel soltou minhas mãos. De repente seu semblante ficou cauteloso.
— Prreciso de prrovas — disse somente.
Senti a palma das mãos transpirarem, mas não desviei meu olhar. Passei a desabotoar os primeiros botões da camisa que eu vestia, tentando reprimir meu constrangimento. Senti a tensão do príncipe. Sua respiração ficou mais pausada e ele me pareceu pouco a vontade.
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