A Máscara
20 Capítulo 20 - Mesmo quarto.
Notas iniciais
Como Belphegor podia ser tão sujo? Ele sabia o quanto havia me magoado, por essa razão tentava inverter o jogo a seu favor, queria me manipular. Bel sabia o quanto era difícil para mim resisti-lo, especialmente quando demostrava ter algum tipo de consideração, o que sei que não tinha. Caí no choro.
Era muito difícil passar por isso. Especialmente agora, sozinha nesse quarto. Não podia parar de pensar em quão errados e corrompidos ambos estavam.
Conn sabia que só possuía a eternidade por misericórdia de um príncipe tirano que usou seu tempo livre para humilhá-lo.
Não que eu julgasse as razões de Conner para odiar Belphegor, mas o fato é que talvez ele fosse tão manipulador quanto o próprio príncipe, e talvez ainda mais mentiroso.
Ele admitiu que havia delatado seu Senhor, mesmo sabendo que “me” puniriam. Não estava preocupado com minha morte, só em sua vingança.
Bel, mesmo não tendo virtudes admiráveis, sempre mostrou que era uma criatura das sombras, não se fez de bom moço. Pelo menos foi sincero.
Por outro lado, Conner, simulou se preocupar comigo. Forjou uma amizade para me colocar contra Belphegor, e tenho que admitir que seu plano deu certo.
Eu não podia ter certeza. Nem com respeito aos sentimentos de Bel, nem com respeito ao jogo de Conner. Talvez, os dois estivessem tentando me manipular.
A verdade era simplesmente uma, eu estava envolvida num jogo de mentiras e de morte, envolvida com criaturas perigosas que não se importavam com nada se não elas mesmas e sangue.
Sentia-me péssima com esses pensamentos, a verdade é que eu era um brinquedo nas mãos de vampiros.
Eles leiloavam meus sentimentos e queriam arrematá-los por capricho. Fiquei deprimida por pensar em quão pouco valia. Depois dessa reflexão decidi que não me refrearia. Faria com eles o mesmo jogo que faziam comigo.
Minha garganta me incomodava. Comecei a tossir compulsivamente. Não tinha sido uma grande ideia passear pela chuva, afinal.
Tomei um banho quente, duas aspirinas e me enfiei embaixo dos cobertores. Agarrei-me a gargantilha. Acariciei a superfície do camafeu até que o sono me visitasse. Não pude deixar de chorar enquanto me familiarizava com o objeto. Eu tinha sorte por tê-lo jogado no bolso do roupão antes que a briga começasse. Demorou, mas enfim adormeci.
Acordei com batidas na porta.
— Bel? – perguntei sonolenta.
— Não. – ouvi uma voz impaciente. —Meu Senhor a espera para o desjejum.
Bocejei, reconhecendo a voz do capanga.
— Não me demoro.
Escovei os dentes e penteei o cabelo, amarrando-o num nó. Vestia o mesmo conjunto de moletom que já usava. Era a única roupa que eu tinha no momento. Minha garganta já não incomodava como antes.
O vampiro me levou até seu mestre. Bel estava no restaurante da pousada, sentado a mesa mais protegida do sol. Lia um jornal. Era provável que sabia de minha presença no momento em que entrei no saguão, mas só despregou os olhos do papel quando me sentava ao seu lado.
— Bonjour, Clarrice! – usou seu tom mais amável. Vestia um terno cinza claro, com riscas mais escuras, o caimento era perfeito em seus ombros. O cabelo estava impecavelmente penteado. O cheiro de seu perfume parecia especialmente concentrado. — Tem uma ótima aparrência essa manhã! – galanteou.
Me indignei com sua zombaria. Enquanto ele era a visão de um príncipe encantado, eu era a bruxa.
Fez sinal para o garçom que logo estava diante dele.
— A menina prrecisa se alimentar. Trraga o que vocês têm de mais apetitoso. – ordenou.
O pobre garoto saiu tropeçando em seus próprios pés, alguma coisa nos olhos de Bel o deixou amedrontado.
— E entón, chéri, menos aborrecida com meu desentendimento com Conner?
Só de ouvir o nome dele senti meu estômago embrulhar. Não seria capaz de comer qualquer coisa.
— Desentendimento? — reprimi minha vontade de berrar, minha voz saiu incrédula, porém num sussurro. — Chama aquilo de desentendimento? Você parecia um exterminador, sem piedade, sem qualquer sentimento humano, dominado por uma fera. Refletindo tudo o que mais abomino. — cruzei os braços e o encarei.
Belphegor se inclinou sobre a mesa, ficando desconcertantemente próximo. Não gostava de tê-lo tão perto, me deixava confusa.
— Ser piedoso com ele é um erro que nóm cometerrei novamente.
Me afundei na cadeira, tentando evitar aqueles olhos. Eu era fraca demais, era melhor não encará-lo.
— Gostarria que pensasse em algo... – disse misteriosamente.
Assenti, ainda sendo muito cautelosa ao olhar em sua direção.
— O que imagina parra seu futuro, Clarrice? – prosseguiu. — Você nóm vai concluir seu currso universitárrio. – ele foi categórico. De alguma forma aquilo me incomodou e suspirei. — Nunca vai prrecisar trabalhar. Terrá tudo o que quiser. – também não gostei dessa parte. Sei que era o sonho de todos, ter a vida ganha, mas não era o meu. Queria conquistar minhas coisas, para que no futuro pudesse me orgulhar delas. — Infelizmente, nóm terrá opçóns com respeito a relacionamentos. Nunca permitirria que se envolvesse com alguém. Mesmo que permitisse, acho difícil que esse alguém conseguisse me superrar. – essa frase foi tão típica dele. O vampiro deve ter percebido como aquilo soou mal. — O que estou dizendo é que você devia ser mais tolerrante com meus erros. Estou tentando ser menos intrransigente com você pela mesma razón.
Pisquei aturdida. Entendi direito? Tinha a obrigação de perdoá-lo, pois ele era a única pessoa com a qual eu poderia me relacionar? Bem, tenho que admitir que já imaginava isso. Entretanto, por qual motivo ele se esforçava para ser menos intransigente comigo? Estava dizendo que eu era a única pessoa com quem ele poderia se envolver? Ainda estava confusa com as suas palavras. Queria perguntar sobre isso, mas preferi não me aprofundar no assunto.
— Na verdade... – respondi. —Posso morrer a qualquer momento, sou apenas uma simples mortal. Prefiro não ficar pensando sobre o futuro.
Por um instante ele me pareceu preocupado pelo que eu disse, mas no segundo seguinte adquiriu aquela postura ameaçadora, olhando para a porta do saguão.
Reconheci imediatamente o homem bonito e bem arrumado que caminhava sorridente em nossa direção. Era Gage.
— Nunca imaginei que um príncipe daria tanto trabalho para ser localizado. – disse frente à mesa. — O tempo têm sido benevolente com você, Belphegor.
Ouvi o rugido se formar no peito de Bel, entretanto, ele se levantou para cumprimentar o ancião.
— Como tem passado? –perguntou mecanicamente ao apertar a mão de Gage.
— Bem. – respondeu o ancião. Logo sua atenção voltou-se para mim. Senti os pelos da minha nuca se eriçarem. Esse vampiro me causava pavor.
— Ora, ora! Não achei que fosse te rever tão cedo. Como está, Clarice? – segurou minha mão e a levou até seus lábios frios, depositando um beijo em meus dedos.
— É ainda mais bela do que me recordava. – insistia no galanteio. Não havia sinceridade em suas palavras, tudo o que ele queria era irritar Belphegor, que estava evidentemente contrariado com a atenção que o vampiro me dispensava.
— Se estava a minha procurra, me encontrrou! Em que posso ajudá-lo? – a voz de Bel estava impregnada de impaciência. Queria que o assunto se encerrasse o quanto antes.
Gage puxou uma cadeira, sentando-se próximo a mim.
— Nos reunimos ontem para discutir a segurança da Máscara nos Distritos. Percebemos que o Distrito 3 anda desfalcado pela ausência de seu príncipe. Decidimos procurá-lo para uma reunião, para que tenha a chance de expor seus problemas. Se for o caso, se houver necessidade, procuraremos um substituto.
Bel levantou-se, irado. — Você nóm oussaria!
Vi o momento em que os olhos de Gage adquiriram aquele brilho carmesim que tanto me apavorava.
Sem pensar no que fazia, agarrei a mão do príncipe sobre a mesa. Precisava evitar que fizesse alguma tolice. Já me doía ver o que havia acontecido com Conner, não permitiria que o mesmo acontecesse a ele.
— Está tudo bem. – me atrevi a dizer. — Gage só veio marcar uma reunião. Tenho certeza que seus serviços não serão dispensados. Tudo o que querem é conversar.
Tive medo quando os dois olharam em minha direção, contudo Bel retomou seu lugar e pude voltar a respirar.
— Tem muita sorte por tê-la encontrado. – disse Gage, encarando-me de um jeito perturbador.
— Já deu seu recado. – encarei-o, embora estivesse amedrontada. — Não vejo necessidade para essas provações. Você é muito maduro para agir de maneira infantil. – Bel sorriu baixo com meu comentário.
Nesse momento o garçom deixou algumas bandejas sobre a mesa. Assim que o garoto se afastou, Gage me lançou um olhar ressentido.
— Não estou provocando-o, menina. Devia se enxergar como realmente é. Se estivesse consciente do poder que tem, não estaria com os olhos inchados de chorar. – tentei acompanhar o raciocínio de Gage, mas não pude.
— Como me encontrrou? – exigiu Belphegor, enquanto me servia com chocolate quente.
— Soube de um confronto indiscreto entre nossa irmandade e caçadores. Fui até o local, no entanto só encontrei destruição. Vasculhei a localidade até me deparar com um corpo estilhaçado num galpão velho, o reconheci como um membro da Aliança. A propósito, levei algum tempo para concertar a boca de seu escravo, para que me dissesse em que lugar te procurar.
— Oh Deus! Ele está bem? – não pude evitar o sobressalto.
— Sim, criança, totalmente fora de perigo, visto que agora pode se alimentar.
Uma onda de alívio tomou conta de mim.
Gage olhou de forma reprovadora para o príncipe.
— Na condição delicada em que se encontra, sugiro que seja mais cauteloso na maneira de conduzir seus assuntos. Esse descuido pode valer sua coroa, alteza. – sim, ele estava provocando, embora não admitisse.
— Vou anotar seu conselho e prrendê-lo na minha geladeirra. – zombou Bel.
— Muito obrigada, Gage. Não sabe o quanto lhe sou grata por tê-lo ajudado.
Ele sorriu de lado. — Minha querida Clarice, vivi o bastante para saber que cada um tem aquilo que merece. Por sorte eu precisava de informações e tenho o poder necessário para desfazer algumas obras.
O ancião retirou um cartão do bolso e o entregou ao príncipe.
— Sua ausência nessa reunião seria considerada um sacrilégio. Se estiver envolvido em qualquer atentado a Máscara, por menor que seja, além de perder seu cargo, perderá a menina. Espero ter sido claro.
Gage se levantou e se despediu, voltando a beijar minha mão e fazendo uma reverencia ao príncipe.
Percebi o quanto Bel estava contrariado após a partida do ancião. O odiei secretamente por ter arruinado o bom humor de Belphegor.
— Coma. – exigiu. Não foi difícil obedecê-lo. Desde o momento em que soube que Conner ficaria bem senti fome.
Quando estava satisfeita, Bel me puxou pelo braço.
— Vamos! Temos que sair daqui o quanto antes. Já que Gage sabe da nossa localizaçón, nóm estamos segurros.
Ele me conduziu as pressas até o carro. Perguntei, assim que deu a partida.— E seu capanga?
— Ele sabe se virar, já é grrandinho.
Ficamos em silêncio por algum tempo. Alguma coisa perturbava Bel.
— O que houve? – tomei coragem para perguntar. Imaginei que o fato de Conner estar bem o aborrecia.
— Tenho que comparrecer a essa reunión na Romênia. Nóm posso deixá-la e nóm há uma forma de levá-la em segurrança. – ele apertava a mão contra o volante, realmente aborrecido.
— Posso te esperar na casa de Raleph. – tentei tranquiliza-lo.
— Você já fugiu de lá antes. – me lançou um olhar de acusação. — Bem, de qualquer modo acho que devíamos voltar parra lá, pelo menos por horra.
Seguimos de carro por algumas horas até chegarmos à mansão. O príncipe estacionou o carro na garagem subterrânea e certificou-se de que era seguro para que eu pudesse saltar.
Já me encaminhava para meu quarto quando ele me puxou pelo braço.
— Vai ficar no meu quarrto dessa vez. – comunicou-me.
Revirei os olhos. — Você está arrumando uma desculpa para eu acabar na sua cama. – o acusei.
— É exatamente onde você semprre quis estar. – afirmou arrogante.
Puxei meu braço e me encaminhei até o quarto de Belphegor.
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