A Máquina da Morte
1 A Máquina da Morte
Hiorata, Japão.
Tatsuki Sato era um jovem normal, peso normal, cabelo preto normal, vida normal. Estava no último ano do colegial, solteiro e sem grandes pretensões para o futuro. Ele morava junto de sua mãe e irmã mais nova em um bairro simples no subúrbio da pequena Hiorata. O pai morreu em um acidente quando tinha 15 anos, por isso, além dos estudos, tentava ajudar a família com as contas no fim do mês.
Sua rotina se resumia em estudar de manhã, trabalhar meio-período no açougue de seu tio, clube do xadrez mais tarde e retorno para a casa à noite.
Entre o clube e o retorno era necessário uma caminhada de 20 minutos, no qual ele sempre passava por um local coberto onde haviam algumas máquinas de auto-venda de mantimentos. Engenhocas das décadas passadas, ainda com visual retrô, que funcionavam no sistema clássico de depositar moedas ou notas para conseguir o produto que vendiam. Doces, snacks, lanches e refrigerantes estavam sempre sendo abastecidos, apesar do lugar estar meio que abandonado no quesito limpeza e iluminação. Fliperamas quebrados, pichação nas paredes e bitucas de cigarro no chão representava este óbvio descaso com aquele lugar que servia de abrigo para os mendigos durante a madrugada.
Ainda assim, Tatsuki diariamente parava diante da máquina de doces e comprava o favorito de sua irmãnzinha, uma barrinha de chocolate com caramelo. Depois se dirigia para a máquina ao lado e pegava uma latinha de soda Splash para si. Adorava ouvir os mecanismos antigos trabalhando após empurrar a moeda na minúscula fresta circular do aparelho. Rangendo, as engrenagens capturavam a lata e a despejava na bandeja de saída com um som metálico.
Aquela noite não seria diferente, principalmente com o calor que fazia e a sede que sentia. Pagou, aguardou e apanhou a latinha gelada ao toque. Abriu o lacre com o gás da bebida assoviando alto, e a degustou de olhos fechados. Ouviu passos às suas costas, mas não se alarmou. A cidade era segura, pelo menos até aquele horário.
Era uma moça.
Bonita, cabelos curtos e loiros, ela sorriu por educação, e ele devolveu com um aceno, dando-lhe espaço para usasse a máquina. Parecia estar apressada, vestida de forma elegante, provavelmente acabara de sair do serviço de escritório. Comprou um refrigerante também.
— Ué — a moça disse, levantando a lata em frente ao rosto. — Será que fizeram uma embalagem nova promocional?
De fato, a lata dela era toda preta, diferente de Tatsuki e do costumeiro esverdeado da marca Splash, que era dona da máquina. E ainda não tinha rótulo ou qualquer tipo de mensagem, porém as letrinhas miúdas sobre os ingredientes, valores nutricionais e local de produção estavam presentes.
— Realmente não sei — respondeu o rapaz com sinceridade.
— Espero que seja o mesmo sabor — retrucou a mulher.
A máquina era completamente lacrada de modo que era impossível ver quais latas estavam lá dentro, embora por ser da marca Splash, o sabor de limão nunca havia sido mudado. Tatsuki tentou não demonstrar muito interesse, mas estava curioso sobre o gosto da bebida daquela lata distinta. A moça, ainda desconfiada, abriu a lata e deixou o refrigerante cair um pouco no chão. A cor continuava a mesma, pelo menos. Deu de ombros e bebeu. Por fim, sorriu aliviada e satisfeita.
— Ufa. É apenas a embalagem que é diferente. Bem, desculpe-me incomodá-lo com isso. Tenha uma boa noite.
— Imagina, boa noite!
Com pressa, ela saiu andando na direção oposta do qual Tatsuki ia.
Quando o rapaz chegou em casa, a situação já havia se transformado em fumaça na sua mente. Exausto por mais um dia, tomou um banho e se preparou para jantar com a mãe e a irmã. Foi logo após de comer que o noticiário local apresentou uma triste notícia. Um incêndio por explosão de gás acabara de ocorrer em um apartamento no centro da cidade, ceifando a vida da única moradora. Tatsuki reconheceu a foto que apareceu na tela do televisor. Era justamente a moça que conhecera mais cedo, no corredor das máquinas de mantimentos.
Aquilo lhe deu um arrepio sinistro na nuca, mas permaneceu em silêncio, sentindo pena por uma pessoa tão jovem ter partido de forma tão abrupta. Porém, ele mais do que ninguém sabia que acidentes aconteciam, não tinha como se prever. Olhou para o retrato do falecido pai na estante, sentindo imensa saudades.
Tatsuki foi dormir aquela noite um pouco mais triste, mas sem pensar em nada fora do normal.
Somente no dia seguinte, quando se viu mais uma vez pagando por uma latinha de Splash, que se lembrou da estranha lata preta que a pobre moça havia comprado um pouco antes de morrer. Entretanto, durante toda aquela semana e metade da outra, as latas vieram normais para o rapaz, o que fez o episódio cair no esquecimento.
~~
Era sexta à noite quando Tatsuki depois do clube do xadrez foi convidado por um amigo e sua nova namorada para jantar hamburgueres e jogar conversa fora. Conhecia Kaito há um bom tempo, e o garoto parecia feliz com Yumi, uma linda jovem de cabelos escuros, franja na testa e rabo-de-cavalo. Ela também parecia ser bem legal, nerd como os dois, fã de ficção cientifica e jogos de tabuleiro.
Depois de comerem, decidiram andar pela vizinhança e respirar o ar noturno. Aleatoriamente, chegaram naquele corredor das máquinas de alimentos. Com sede por conta da andança, Yumi decidiu comprar um refrigerante.
— É sério, cara! — exclamou Kaito empolgado, arrumando seus óculos de lentes quadradas no rosto rechonchudo. — É por isso que Interestelar é o melhor filme já feito.
— Ainda não estou convencido. Não mudou o cinema como Matrix — argumentou Tatsuki com um sorriso. Adorava aquele tipo de discussão.
— Tá, me escuta...
Tatsuki queria ter escutado, mas assim que viu a lata preta na mão de Yumi foi como se o mundo inteiro se calasse. Uma sensação horrível tomou conta de si. Algo... fúnebre. A jovem notou que estava sendo encarada, franziu as sobrancelhas e sem entender ofereceu o refri.
— Com sede? — ela perguntou.
— Er... não, obrigado. Só... fazia tempo que não via essa embalagem.
— Ah, já viu antes? Primeira vez que vejo.
— Também nunca vi, posso? — Kaito indagou curioso, tomando um gole em seguida. — Decepcionante. Mesmo sabor.
— Pois é... Está tudo bem, Tatsuki?
— Sim, eu... não é nada. Tudo bem — sorriu tentando se livrar de pensamentos ruins.
Continuaram a caminhar mais um pouco, mas se despediram depois de alguns minutos. Tatsuki seguiu para casa a pé enquanto os amigos pegaram um táxi.
Era quase 3 da matina quando a mãe de Tatsuki invadiu seu quarto com lágrimas nos olhos e o telefone tremendo nas mãos.
— Tatsuki, meu filho.
— Mãe? Aconteceu alguma coisa?!
— Acabei de falar com os pais de Kaito. Ele e a namorada sofreram um acidente de carro ao voltarem para a casa. Um caminhão perdeu o controle e os pegou na lateral.
— E estão bem?!
— O motorista sofreu arranhões, Kaito quebrou um braço e duas costelas, mas a menina... Oh, filho, sinto muito. Você a conheceu hoje, não?
— Está dizendo que ela morreu?!
— Infelizmente, sim. Parece que teve traumatismo. Tentaram salvá-la, mas constataram o óbito no local. Que tragédia, meu Deus!
Tatsuki, ainda abalado, recebeu o abraço da mãe, perdendo totalmente o sono.
Os próximos dias foram péssimos. Tatsuki visitou o amigo no hospital, que tentava explicar o acidente, perguntando sempre por Yumi na esperança de receber uma resposta diferente sobre seu triste destino. A pobre garota foi sepultada com grande comoção pela família e amigos. Embora tivesse a conhecido pouco, parecia ser uma pessoa agradável, com todo um futuro brilhante pela frente.
Mas havia algo bizarro. Algo que dava insônia a Tatsuki sempre que ele pensava a respeito, mesmo que sem querer, pois era uma ideia um tanto que absurda. Não pôde de deixar de ligar a morte de Yumi com aquela moça que morreu no incêndio de seu apartamento, semanas antes. Ambas compraram um mesmo refrigerante de lata escuta.
Não... aquilo não tinha nada a ver. Era puramente aleatório e sem sentido.
Ainda assim...
Numa dessas noites em claro, Tatsuki pulou da cama e pesquisou no celular sobre a Splash, se havia alguma embalagem nova circulando pelos mercados. Nada. Nenhuma informação sequer. Nem mesmo algo promocional ou particular de alguma região do Japão ou do mundo.
Tentou esquecer, mas era impossível. Sempre que voltava para a casa e passava pelo corredor coberto das máquinas sentia um arrepio maldito lhe tocar a espinha. Por alguns dias, não comprou nenhum refrigerante, cedendo rápido a curiosidade após um tempo. Entretanto, todas as vezes que depositava seu dinheiro e esperava a lata escorregar até a bandeja de saída era uma normal esverdeada, com a logo da Splash com a pergunta “Vai um refri aí?”, como de costume. Desistiu, concluindo que era loucura pensar que algo sobrenatural estava ocorrendo às pessoas que compravam da lata preta.
~~
Kaito havia recebido alta do hospital em uma manhã chuvosa. Tatsuki, como um bom amigo, estava lá para colocá-lo no carro dos pais, visivelmente emocionados por não perderem o filho no acidente. Porém, Kaito estava quebrado, ainda enlutado pela morte de Yumi, que nem pôde se despedir por conta de sua internação.
Ofereceram uma carona, mas Tatsuki achou melhor não atrapalhar aquele momento. Pegou seu guarda-chuva e seguiu para a morada um pouco mais contente, pulando as poças de água que se acumulavam na calçada.
As gotas da chuva pararam de bater no plástico, e se viu de novo naquele corredor dos snacks e bebidas. Ultimamente, parecia que todos os caminhos o levavam para lá. Praguejando, decidiu que nada estragaria seu dia. Foi até a máquina de doces para comprar o favorito da irmã. Assim que comprou, um senhor se colocou ao seu lado, comprando um refrigerante. A cor da lata era preta.
Alheio a diferente embalagem, o homem de sobretudo por baixo de uma capa de chuva, pegou a lata e saiu andando despreocupadamente. Tatsuki o assistiu sair daquele corredor encoberto em silêncio. O que poderia fazer, afinal? O doce da irmã bateu na bandeja de retirada, mas sua mão não conseguia alcançá-lo. Agora percebeu que estava petrificado, como se um medo anestésico tomasse todo seu corpo. Tinha que fazer alguma coisa! Não... era loucura agir assim. Lembrou-se do local de produção que vinha escrito na lata. Seria diferente das normais? Pode ser, uma vez que não tinha informações na internet sobre as pretas. Desse modo, só havia um jeito de descobrir.
Deixando o chocolate sem ser apanhado, Tatsuki saiu a toda atrás do senhor, sem se importar em se molhar com a chuva. O sujeito havia atravessado a rua e parado no outro lado para atender o celular.
— Senhor! — chamou Tatsuki antes que ele recomeçasse a andar, sentindo seu coração pular no peito. — Ei, senhor! Aqui!
O homem escutou, girando nos calcanhares e cerrando os olhos debaixo do mal tempo que não dava trégua.
— O que quer, jovem? — questionou confuso ainda da calçada contrária.
— Eu só queria...
O velho nunca escutaria o restante das palavras de Tatsuki. Ele foi atingido em cheio por um ônibus que derrapou na pista molhada. Tudo foi muito rápido. O impacto fez o celular voar de suas mãos, assim como a lata preta do refrigerante, que se perdeu no meio de ferro retorcido e vidro quebrado.
A alma de Tatsuki parecia ter saído de seu corpo. Simplesmente não acreditava no que havia acabado de presenciar. O motorista do ônibus saltou pela janela, e foi até a frente do veículo ver o estado da vítima. As mãos na cabeça já indicavam que as notícias não eram boas. O pobre coitado fora prensado contra o muro que cercava a calçada, ficando complemente esmagado. Os passageiros do ônibus agora se desesperavam com a cena, outras vomitavam.
Tatsuki cambaleou um pouco tonto, sem entender exatamente que havia visto alguém morrer de forma tão chocante. O celular ainda estava ligado no chão, uma voz feminina chamando.
— Pai? Cadê o senhor? Que barulho foi esse? Pai?!
~~
Tatsuki não conseguia dormir. Sempre que fechava os olhos, se lembrava das latas de embalagem enegrecida, e das pessoas que conseguiam aleatoriamente comprá-las na máquina, só para depois morrerem de alguma forma. O que diabos aquilo significava? Elas estavam sendo escolhidas por alguma entidade? O demônio da máquina de refrigerante? Aquilo era ridículo! Mas então... como havia tanta coincidência na ligação de suas mortes?
O rapaz não prestava mais atenção nas aulas e no serviço. No clube de xadrez era facilmente derrotado. Evitava ao máximo passar pelo corredor das máquinas, atravessando a rua para ir pela outra calçada, mesmo que desse de frente com o muro quebrado do qual aquele velho senhor fora esmagado por um ônibus dias atrás.
Tinha que contar para alguém. Mas quem? Sua mãe já estava com muita coisa na cabeça, a irmã ainda era uma criança, e seu melhor amigo provavelmente o amaldiçoaria por levantar tal possibilidade, afinal a namorada dele teria sido uma das vítimas.
Porém, os dias passaram, e Tatsuki não pensava em outra coisa senão aquela maldita sina. Ligou para os locais de produção do refrigerante, e todos garantiram que não faziam ideia de embalagens cor preta em seus produtos. Buscou na internet sobre lendas ou casos semelhantes, mas também não obteve sucesso. Depois tentou compreender como a coisa funcionava.
A pessoa precisava comprar a lata para morrer ou teria que solver da bebida também? Não, Kaito havia bebido aquele dia, entretanto somente Yumi morrera. A primeira pessoa era uma mulher nova, o último um homem idoso, então a máquina não escolhia idade nem gênero. Tudo era ao acaso. Mas todos morreram por algum tipo de acidente, e pelo visto sem tempo estimado, uma vez que o caso do senhor ocorreu poucos minutos após comprar a lata.
Tatsuki estava enlouquecendo e precisava fazer algo a respeito. Quebrar a máquina fora uma das primeiras ideias a passar por sua cabeça. Descartou ao concluir que seria preso por vandalismo, mesmo que tentasse isso em horários noturnos, algum sem teto veria. Teria que ser algo mais sutil. Então, decidiu cortar o fio de alimentação de energia. Sim, talvez trocassem o equipamento e tudo terminasse. Parecia ser o melhor a se fazer.
Era sábado quando pegou uma faca da cozinha e se direcionou para a porta da casa.
— Filho? — perguntou a mãe. — Onde vai?
— Eu... só vou dar uma volta. Comprar um refrigerante naquela máquina perto da praça.
— Preciso que fique com a Aiko para eu ir ao banco.
— Agora?
— Sim, por favor. Na verdade, leva-a junto. Sabe como ela adora aquele chocolate de caramelo.
— Mas...
— Já estou saindo — ela disse, passando pela porta primeiro que ele. — Obrigada.
Com um suspiro demorado, Tatsuki chamou a irmã.
Aiko tinha 7 anos e era uma criança um tanto que travessa, aproveitando de sua excessiva fofura para aprontar sem quase nunca sofrer as consequências. Mas também era uma menina doce e amável, seu cabelo negro amarrado com duas chuchinhas laterais. Por isso ela concordou quando o irmão fora bastante rigoroso ao pedir que o esperasse no banco da praça enquanto ele fosse comprar o refrigerante e seu doce favorito.
Sozinho naquele corredor mais uma vez, Tatsuki precisou fazer esforço para se espremer do lado da máquina, empurrá-la um pouco da parede, e encontrar a tomada no qual o fio estava ligado. Seria mais seguro desacoplar o fio e cortá-lo fora da energia, mas não conseguiu tirá-lo na primeira puxada, nem na segunda ou terceira. Estava terrivelmente preso, por mais que fizesse força, não saía. Resmungando, pousou os pés na parede e puxou com tudo o que tinha, enfim retirando e caindo para trás pelo esforço. Ofegante, sentiu medo ao olhar que do buraco na parede escorria um líquido viscoso e vermelho, lembrando sangue.
Não atestou se era ou não, somente sacou a faca e começou a cortar o cabo para que ele não entrasse mais naquela tomada. Queria terminar logo com aquilo e voltar para a casa. Sentia-se um idiota, mas se suas ações salvassem vidas, pelo menos valeria a pena.
Cortou o fio e o jogou no chão. A máquina estava desligada. E o pesadelo encerrado.
Aliviado, voltou para o banco da praça onde Aiko surpreendente o aguardava. Sentou-se ao lado dela, ou melhor, se largou ali como se tivesse tirado o peso do mundo de suas costas.
— E meu chocolate? — Aiko indagou chorosa.
— Puts, esqueci.
— Não! Eu quero! Você prometeu.
— Aqui, vá lá pegar e já volta. Estou cansado — disse Tatsuki, tirando uma nota do bolso e a entregando para a irmã.
Ele respirava com leveza e sua mente também estava calma. Até as nuvens no céu passavam vagarosamente, como se estivessem preguiçosas e tranquilas. A irmã não demorou muito, mas retornou com um pedido estranho.
— Me dá mais dinheiro?
— Aiko, com aquela nota você comprava o chocolate — disse sem olhar para ela.
— Eu sei, mas como eu vi que você esqueceu de comprar seu refrigerante, eu comprei pra você primeiro. E olha! Esse é especial!
Tatsuki sentiu a respiração travar na garganta e seu peito arder. Era como se esquecesse de respirar, de se mover, pensar ou qualquer coisa. Apenas seus olhos giraram na direção das mãos da irmã, que sorria de forma ingênua. A lata de Splash preta estava com ela.
— NÃOOOO! O QUE VOCÊ FEZ?! IMPOSSÍVEL! EU...
— Irmão... eu pensei... eu pensei que fosse gostar — de repente os olhos da menina se encheram de lágrimas.
O jovem, incrédulo, se levantou e correu para o corredor. Ele havia cortado o fio! Tinha feito aquilo! Não podia estar funcionado! Não devia...
Ao chegar em frente à máquina, a mesma estava com seu letreiro ligado, com energia. Espiou para o fio que ainda jazia ao chão, com o cobre em contato com aquele líquido rubro que escorria do buraco na parede e formara uma pequena poça ali.
— NÃO! MALDITA! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! NÃO PODE FAZER ISSO COMIGO! COM ELA! É SÓ UMA CRIANÇA!
Tatsuki se descontrolou, dando socos e mais socos na máquina, sua porta de metal amaçando com as porradas. E ele chorava copiosamente.
— Não... é tudo culpa minha... por favor, deixe que eu vá em seu lugar, por favor...
— Irmão? — Aiko havia o alcançado, ainda sem entender o que estava acontecendo.
Ele a abraçou firmemente. Respirou fundo e parou de se lamentar.
— Precisamos te deixar segura — disse pegando a lata da mão dela. — Me dê isso. Vamos para casa.
--
— Certo, Aiko. Repita para mim as regras do jogo para ver se entendeu bem — disse Tatsuki apreensivo, encarando a irmã na cama. Ao seu lado, o amigo Kaito, observava tudo com uma expressão cética.
— Eu não posso sair daqui porque o chão inteiro é larva — respondeu a menina fazendo esforço para se lembrar. — E devo ficar longe de qualquer coisa que possa... me machucar ou...
— Ou entrar na sua boca, olhos ou ouvidos — completou o irmão.
— Isso... preciso ficar aqui até você voltar... aonde você vai mesmo?
— Não posso dizer, faz parte do jogo.
— Parece chato — resmungou. — Não sei se gosto desse jogo. Vou ficar parada!
— Porque é uma princesa aprisionada — explicou Tatsuki. — E o Kaito aqui vai ser o dragão que a vigia. Pode parecer chato agora, mas quando eu voltar vai ser bem emocionante, vai ver!
— Promete?
— Claro que sim!
— Posso mexer no celular?
— Não... celulares explodem.
— Do que você tá falando, cara? — dessa vez foi Kaito que perguntou.
— Toma — Tatsuki o ignorou e entregou um mangá para Aiko. — Você pode ler durante esse tempo. Se conseguir ler até o final, ganha 20 pontos do nosso jogo.
— Sério?! Oba!
— Só não... não vire as páginas muito rápido, papel pode cortar.
— Você tá estranho, irmãozão.
— Desculpe — disse com um suspiro. — Vou explicar as regras pro Kaito agora, ok? Não pode escutar.
Ele se afastou alguns passos com o amigo, que o encarou verdadeiramente assustado.
— Você não pode deixá-la sozinho um segundo sequer, Kaito. Também não pode deixar que ela saia desse quarto. Tudo parece organizado, sem perigo, mas... não sei, deixe as janelas fechadas, se minha mãe chegar, não deixe que se aproxime com nada nas mãos.
— Cara... o que está acontecendo? Quando me pediu um favor, não achei que era essa loucura. Talvez fosse melhor ligar de uma vez para sua mãe e...
— Não, não. Eu já volto. No máximo uma hora, juro. Faz essa por mim. É a pessoa que mais confio.
— Tá, mas... do que tá protegendo sua irmã? Isso tá bizarro.
— É só um jogo bobo.
— Não sei, não...
— Me liga qualquer coisa. Vai dar tudo certo.
— Ei, pera aí, me diga pelo menos onde vai?!
Tarde demais, Tatsuki já saiu pela porta do quarto, e depois de casa. Ele pegou a velha bicicleta na garagem e passou a pedalar. Seu destino era o local de produção daquela lata preta, uma vez que finalmente tinha uma delas em mãos. O endereço era totalmente diferente das filiais da empresa Splash. Mal conhecia o bairro em que ficava, e nem sabia o que poderia descobrir ou fazer lá, mas tinha que tentar salvar a vida da irmã. Ainda se sentia culpado por ter a envolvido diretamente nisso.
Chegou numa rua vazia, o anoitecer deixando tudo mais sombrio e misterioso. Havia algumas casas abandonadas, prédios em construção e lojas depredadas. Certamente não era o melhor das regiões da cidade. Parou com a bike diante de um beco mal iluminado, seguindo a pé. No meio desta viela havia uma portinhola de metal enferrujado, e uma placa de lugar privado, pedindo para quem que estivesse ali ficar longe. Mas não estava trancada, o que fez o jovem adentrar sem problemas. Continuou por um caminho estreito e cercado por mato alto, ficando diante de uma pequena construção com outra porta, agora mais larga e de madeira, o número acima iluminado por uma única lâmpada amarela que zumbia, indicando a localidade correta.
Mais uma vez, a passagem estava destrancada, e Tatsuki entrou com cautela, encontrando na parede um interruptor que não funcionava. Não se via um palmo a frente assim que a porta se fechou sozinha num estrondo. Típico. O rapaz teve a sensação de pisar em algo molhado e grudento, e sem querer chutou um objeto metálico e leve. Acendeu a lanterna do celular e deu de cara com uma sala cheia de máquinas quebradas da Splash. Elas formavam pelo menos quatro fileiras com umas dez em cada, deixando o ambiente apertado e claustrofóbico. Olhando para o chão, viu que estava lavado por aquele líquido viscoso avermelhado, e latas negras se espalhavam aos montes, amassadas ou cortadas.
— Que droga de lugar é esse? TEM ALGUÉM AÍ? ESPERO QUE NÃO SEJA MUITO TARDE!
Ninguém respondeu. Tomando cuidado por onde pisava, olhou em cada fileira de máquinas, mas não viu nenhum outro caminho ou portas que levavam para outras salas. O que significava aquilo?
De repente, sentiu uma respiração pesada em sua nuca. Virou a luz do celular com pressa, mas acabou se atrapalhando, deixando cair. Nervoso, se agachou para pegar o telefone, só que antes disso, luzes bruxuleantes se acenderam, dando um pouco de vida ao recinto, e revelando um enorme homem de pelo menos dois metros de altura, moreno, careca, um olho cego, e uma horrível cicatriz que atravessava a carranca de poucos amigos. Ele estava vestindo um macacão completo de serviço, e tinha numa mão um esfregão e na outra um balde.
— Puta que pariu — soltou o jovem sem se conter.
— Quem é você? — perguntou o sujeito, seu olho cego era completamente branco, salvo as ramelas que escorriam pelos cantos, nojento de ser ver.
— Desculpe... eu... eu vim por conta disso — explicou Tatsuki, pegando a lata preta da mochila, a mesma que a irmã havia comprado, ainda lacrada.
O homem encarou a lata e riu brevemente.
— Você comprou isso?
— Não, foi minha irmã.
— Então devia estar com ela, não invadindo meu lugar de trabalho.
Tatsuki engoliu em seco, lendo o nome Jones no traje do outro.
— Sr. Jones, não? Você... você cuida desse lugar?
— Sim, sou o zelador. E pelo que pode ver, tenho muito trabalho a fazer.
— Desculpe incomodar o senhor. Eu só queria conversar com o dono. Ou seu chefe.
— Não há mais ninguém. Apenas eu.
— Apenas você? Do que está falando? Na lata fala que os refrigerantes são produzidos aqui.
— Não mais, agora aqui é o cemitério deles. E eu sou o coveiro — sorriu de forma insana, deixando o balde no chão e passando o esfregão no piso. — Vá embora.
— Não.
— O que?!
Tatsuki se encolheu com medo, mas não se moveu.
— Não posso. Eu sei das mortes. Eu sei que quem compra essas malditas latas acabam sendo marcadas para morrer! Não posso deixar isso acontecer com minha irmã. Tem que ter uma forma de evitar isso.
— Hm... não sei do que está falando.
— Sr. Jones... por favor! Se não há mais ninguém aqui, não me interesso em saber o que estão fazendo, ou o motivo disso. Eu só quero salvar a vida dela... é apenas uma criança.
O homem parou de esfregar o chão, se apoiando no cabo do esfregão. Parecia estar pensando em algo. Então, olhou com frieza para as máquinas, depois para o jovem.
— Não há como quebrar a corrente, porém existe um modo de pular o elo. Isso se você estiver disposto ao sacrifício — sorriu.
Tatsuki o encarou com demora. Então era isso? A única solução? Que fosse! Deixou a lata cair no chão e pisou enfurecido em cima dela, retorcendo o metal. Em seguida, saiu daquele lugar miserável com pressa, montando na bicicleta e indo com rapidez para o corredor das máquinas, sem antes passar em um caixa eletrônico e sacar todo o dinheiro de sua poupança.
~~
Diante da máquina de refrigerante, solitário naquele lugar, Tatsuki começou a colocar notas e mais notas para comprar o maior número de latas que conseguisse. Elas desciam sem parar até a bandeja de saída, se empilhando. Ele precisava retirar um grupo delas de vez em quando para não ficarem presas. Depois de duas dezenas de bebidas compradas, finalmente uma era a perversa de embalagem escura. Sentiu seu coração errar as batidas, como se estivesse pintado um alvo na própria cabeça. Mas controlou-se, ligando para o amigo.
— Tatsuki, onde você?! Já se passou uma hora! Sua irmã já leu o mangá duas vezes!
— Ela tá bem, né?
— Sim... por que você está ofegante?
— Kaito, por favor, diga pra minha irmã e minha mãe que as amo. E por você, vou vingar a Yumi.
— O que... do que...
Tatsuki desligou. Dessa vez ele terminaria com aquilo de qualquer jeito. Continuou gastando seu dinheiro na máquina. Praticamente, se foi todo seu salário. Porém, chegou em um momento que a coisa parara de responder e cuspir latas. Ele havia comprado tudo, cerca de 104 bebidas que havia ali dentro, entre elas 27 da embalagem da morte. Sentia que havia salvo a vida de 27 pessoas inocentes. O problema era que não podia contar isso para ninguém. O chamariam de louco.
Agora só teria que esperar...
Não, se fosse para morrer, ele mesmo escolheria, e sabia muito bem como.
Comprando um isqueiro num lugar e álcool em outro, o jovem voltou para aquela construção de máquinas abandonadas. Mesmo que não estivessem mais produzindo, passaria tudo em fogo como garantia. Não encontrou o zelador lá dentro, como esperava, afinal a madrugada começava a cair.
Jogou o álcool por todos os lados da sala, acendeu o isqueiro e o lançou ao chão.
As chamas ganharam força rapidamente, consumindo as fileiras das máquinas, derretendo o material do qual eram feitas. Aos olhos chorosos e inexpressivos de Tatsuki, pareciam derreter em sangue.
Ele sentiu o calor tocar sua pele, a fumaça entrar em seu nariz. Aos poucos foi perdendo os sentidos por conta do ar impregnado. Não havia saída. Já havia aceitado seu fim.
Caiu desacordado no chão. O incêndio ao redor.
Sentiu uma presença.
— Pai? É você?
Não sabia dizer, mas uma mão o puxou para longe do fogo.
~~
Tatsuki acordou numa maca de hospital. Ainda doía respirar, mas estava vivo. A mãe dormia num sofá ao lado, lágrimas secas no rosto. Ele tossiu, acordando-a.
— Meu filho! Oh, meu filho! — ela se debruçou sobre seu corpo, chorando.
— Mãe... eu... estou vivo... como?
— O que estava querendo? Morrer? Por que não me disse? A gente podia ter conversado sobre o que sentia... sobre o que queria... você é tudo pra mim... me desculpe se eu... oh, Deus...
— Não mãe, eu não tentei me matar... eu só... foi um acidente. Mas não entendo.
— Jura que não tentou? Por favor, jura?
— Eu juro, mãe. Eu nunca quis abandonar a senhora e a... Aiko? Onde ela está?!
— Não deixam menores entrar aqui. Ela está do lado de fora com Kaito.
— Estão bem?!
— Preocupados, mas bem sim.
Tatsuki tentou raciocinar. Por qual motivo ainda estava vivo? Ele fora o último a comprar as latas pretas, sua morte devia ser certa.
— Então ele acordou — a voz veio da entrada do quarto. Era Jones, o zelador.
— Filho, conheça seu salvador.
— Você?!
— Sim, eu falei para você que cuido daquele lugar. Apesar do seu... vandalismo, tem sorte dos meus patrões terem o abandonado, e não o processarem por invasão e destruição de patrimônio.
— Por que fez isso, meu filho?
— Mãe... me desculpe, vou explicar tudo. Primeiro, posso falar a sós com o Sr. Jones? Quero agradecê-lo direito.
— Oh, tudo bem. Vou avisar sua irmã e seu amigo que acordou, graças a Deus!
— Certo.
Tatsuki esperou a mãe sair para se sentar melhor e encarar o homem. Ele se vestia com mais formalidade, diferente do macacão sujo do trabalho, e seu semblante estava bem menos assustador, embora o olho cego ainda fosse um problema a se evitar.
— Você me salvou. Como? Eu deveria ter morrido. Fiz o que disse. Comprei uma lata da morte antes que minha irmã fosse atingida. Me sacrifiquei por ela.
— Ah, eu sei que sim.
— Então você tem esse poder?
— Eu? — sorriu. — Nenhum pouco. Sou apenas um empregado dela.
— Dela?
— Escute, meu jovem. Você achou mesmo que aquela máquina era a única a distribuir as tais latas que considera serem amaldiçoadas?
Aquela pergunta o pegou de surpresa. De fato, ele não levou em consideração que podia ter outras espalhadas pela cidade, ou talvez pelo país. Aquele lugar de máquinas quebradas significava isso! Muitas haviam sido tiradas de circulação, mas existiam outras.
— Está me dizendo que a corrente não segue por uma única máquina, e sim por todas elas? Que uma outra pessoa em outro lugar acabou comprando uma lata depois que eu comprei a minha última, e me salvou da morte sem saber?!
— Me parece ser a única solução. Obviamente, ainda poderia tê-lo deixando queimar no incêndio. Mas como eu disse... sou apenas um empregado.
— Maldito seja você e para quem trabalha! — esbravejou com raiva. — Não me importa se me salvou, essas máquinas estão matando as pessoas! Qual o motivo?!
Jones respirou fundo, olhando para a janela do quarto, no qual a cidade acontecia lá fora.
— Você quer um motivo para a morte? Bem, simplesmente não há.
— Mas estão escolhendo quem morre!
— Não. Nunca se sabe qual a próxima lata vai vir. Assim como uma pessoa nunca sabe se vai voltar para casa ao sair para trabalhar. Estamos à mercê dela.
— Dane-se ela. Descobri seu plano! Eu vou acabar com isso!
— Vai? Como eu disse, a polícia encerrou qualquer tipo de investigação sobre seu incêndio criminoso, uma vez que não havia de fato motivos para levar esse caso adiante. Mas o que espera conseguir? Vai destruir todas as máquinas que encontrar? Acha que consegue fazer isso sem antes te transformarem num maluco completo?
— Eu...
— Se quer um conselho, fuja... há lugares que talvez essas máquinas não estejam em circulação. Porém, estará se enganando. Com latas pretas ou não, a morte está em todo lugar. Sempre à espreita.
Sem conseguir argumentar, Tatsuki engoliu em seco.
— Bem, tenho que ir andando. Vejo que não temos mais nada a tratar. Cuide-se, e não esqueça de parar com os refri. Eles engordam e dão azia. Senão, coisa pior — sorriu com malícia. — Tchauzinho.
~~
Por fim, Tatsuki resolveu seguir o conselho de Sr. Jones, pesquisando uma cidade do qual não havia qualquer tipo de comércio por conta da marca Splash, e convencendo sua família a se mudar para lá. Também decidiu parar de beber qualquer coisa gasosa, pedindo para o amigo Kaito, que ficaria em Hiorata, a fazer o mesmo.
— Fique bem, meu amigo! — disse Tatsuki na despedida no aeroporto.
— Você também. Vamos nos falando por mensagem. Sabe que adoro te vencer no quesito de melhores filmes do cinema.
— Claro — concordou com ironia, o abraçando.
— Ei, cuidem desse idiota por mim, em! — pediu Kaito para Aiko e a mãe de Tatsuki, que corresponderam com sorrisos e acenos. — Boa viagem para vocês. Até logo!
A família correu pelo corredor de embarque uma vez que o avião já estava na pista, quase pronto para decolar.
O piloto os recebeu na entrada com um sorriso de boas-vindas. Tatsuki não viu, mas em uma das mãos do homem havia uma lata preta da Splash.
Fale com o autor