A Máfia
10 O baile
Notas iniciais
Faltava cinco horas para o baile começar e Sarah, irmã de Vitor, já estava me deixando maluca. Ela corria de um lado para o outro organizando todos os detalhes, e parece que hoje a única coisa que ela sabe fazer é gritar. Ela pede as coisas gritando, ela faz as coisas gritando e como se não bastasse ela briga com as pessoas gritando. Ela está deixando todos malucos.
_Sarah, se acalme. – peço. – Tem várias pessoas aqui para te ajudar.
Ela virá à cabeça tão rapidamente para mim que eu me assusto e quase caio para trás.
_Me acalmar? Daqui a algumas horas esse lugar vai estar cheio de gente, e não sei se você já foi a algum baile da Máfia, mas bailes da Máfia são chiques! São luxuosos! E o meu, quer dizer, o seu baile tem que ser de tamanha grandeza. – diz (grita) ela.
Levanto as mãos ao alto e vou até a cozinha comer algo, estou faminta. Na verdade estou sempre com fome, coisa que eu estranho, pois nunca fui de comer tanto assim, é sempre uma vontade de comer doces que, nossa, do jeito que eu ando comendo vou engordar muito, mas deve ser o stress do casamento. Na cozinha, sentadas no chão atrás do balcão, encontro Lia e Julie escondidas atacando uma bandeja de biscoitos coloridos. Rio da cena e me junto a elas.
_O que fazem escondidas aqui com toda essa guloseima? – pergunto enquanto coloco Julie em meu colo.
_Aquela mulher está me assustando lá dentro, Valentina. Sério. – comenta Lia com uma cara de espanto.
_E você pequena? Também está se escondendo da sua mãe? – pergunto a Julie.
_Eu só vim pelos doces, tia. – diz com a boca toda lambuzada.
Rimos dela e eu a aperto forte, essa menina é um anjo.
_A-hã! Vocês estão aqui! – Sarah diz colocando a cabeça debaixo do balcão, nos assustando. – Valentina, você precisa ir escolher o seu vestido, ou melhor, experimentar caso decida seguir a tradição.
_Como assim? Que tradição? – pergunta Lia.
Me levanto do chão com Julie no colo, seguida por Lia. Coloca a pequena sentada no balcão.
_Bom, é uma tradição sobre a cor do vestido. Te explico depois.
_Eu posso ir com elas, mamãe? – pede Julie fazendo um biquinho lindo.
Como podem dizer não a uma criaturinha dessa?
_Na-na-ni-na-não! – respondeu Sarah, pegando a filha no colo. – A senhorita vai ficar aqui e depois vamos voltar para casa e se arrumar para a festa de hoje à noite.
Julie faz outro biquinho, mas dessa fez emburrada. Eu a beijo e me despeço de Sarah, assim eu e Lia partimos.
O baile seria no quartel, em um salão de festas dentro da propriedade. Lugar mais seguro do que este não existe. E seria lá mesmo onde iria provar o vestido que eu usaria esta noite, a costureira está me esperando em uma das salas do segundo andar e eu e Lia subimos para lá.
_Que tradição é essa? – pergunta ela curiosa enquanto subimos as escadas. – Algo sobre se vestir de branco?
_Branco representa a pureza, e nós sabemos de que pura eu não tenho nada! – digo.
Ela ri.
_Sim, eu sei disso. Sobre o que é então?
_Costa Nostra é uma rede de criminosos, mas não somos os únicos. Por isso, em bailes temos cor que nos representa, e cada família tem o seu vestido de apresentação. Minha mãe se vestiu com o vestido da mãe do meu pai, e por assim vai.
Ela murmura um “ah” e quando já estávamos na porta de onde estaria a costureira ela perguntou:
_E qual é a cor que representa a costa nostra?
Sorrio com a pergunta, a cor é uma das coisas que me anima.
_Vermelha
Lia esboça um sorrisinho travesso.
_E se eu bem te conheço, vai ficar gostosa pra caramba, hein.
_É o que eu espero.
[...]
_Linda! – exclama Lia assim que saio do provador improvisado. – Nunca vi tão gostosa, sério!
Rio dela e me olho no espelho. O vestido era mesmo muito bonito e caiu feito uma luva. Todas as curvas do meu corpo foram valorizadas e nossa, nossa e nossa! O vestido é lindo!
_Acho que estou apaixonada por mim mesma. – sussurro.
O vestido é um modelo longo que se arrasta no chão. Da cintura pra cima ele é bem apertadinho, definindo minha cintura e valorizando (e muito) meus seios. E da cintura pra baixo, a saia, é todo soltinho, onde se parece ser varias tiras e se arrasta em uma pequena cauda. O cabelo iria ser um coque com trança.
_Quanto tempo falta para o baile? Não quero tirar esse vestido nunca. – digo me namorando no espelho.
_Apenas duas horas, irei fazer seu cabelo e maquiagem, até lá já vai estar pronta.
_Ótimo.
Me sento na cadeira, ajeitando o vestido para não amassar e Lia se sentou ao meu lado, ela vestia apenas um hobbie, pois não queria sujar o dela. No final da “transformação” não precisa nem dizer o quanto estávamos lindas.
O vestido de Lia é branco e vai até os joelhos, tem uma faixa preta na cintura a marcando e um belo decote de coração. O vestido é justo e sofisticado, muito diferente do que ela costuma usar em festas. Os cabelos estavam soltos e escovados, por isso ondas definidas caiam até seu ombro. Ela estava certa de que iria arranjar pelo menos o garçom da festa.
_Meu Deus, estamos lindas! Olhe só para nós, não vai ter pra ninguém nessa festa.
Lia girava em frente do espelho, se olhando de todos os ângulos enquanto eu olhava da janela a movimentação do estacionamento lá embaixo. E querem saber? Estava lotado e não parava de chegar mais carros. Com certeza o salão também estaria cheio. Seria uma noite e tanto.
_Com licença, meninas. Já estão prontas? – Sarah entra na sala onde estamos e se mostra mais linda do que já é. – Meu Deus Valentina, como você está linda.
_Obrigada. – sorrio.
_Bom, o salão está cheio. Todos já chegaram, estamos prontas para ir. Valentina você espera aqui, tem alguém querendo falar com você antes. Lia, vamos? – dispara. Céus como essa mulher fala.
Sarah sai acompanhada de Lia e das duas moças que nos ajudaram a nos arrumar e fico sozinha por um instante. Eu estava nervosa, muito nervosa. Começo a andar de um lado para o outro em uma tentativa inútil de me acalmar e quando me viro para a porta o meu mundo para. É meu pai, e ele está acompanhado da minha mãe que quase chora ao me ver.
_Santo Dio, minha filha! Você está linda!
Minha mãe corre em minha direção e me abraça com força. Meu corpo está paralisado. E meus olhos focados em meu pai. Depois de um outro aperto forte de minha mãe eu finalmente a abraço e meu corpo relaxa.
_Senti tanta a sua falta, fiquei tão preocupada com você. Oh, minha filha eu sinto tanto. – dispara.
_Se acalme Catarina, sua filha está bem. – fala meu pai.
Eu volto a encara-lo e começo amaldiçoar as pessoas que planejaram esse encontro. A última pessoa que queria ver agora era ele e cá está, a pessoa que me apunhalou pelas costas. A raiva toma conta de mim e uma vontade enorme de jogar tudo daquela sala nele é bem grande. Minha mãe pega meu rosto nas duas mãos me fazendo olha-la, ela sorri com ternura.
_Se eu soubesse o que ele planejava minha querida, nunca teria permitido. – sussurra.
E eu sei que ela não teria permitido. Mas o poder é meu pai, ela não poderia ter feito muita coisa para me proteger, mas eu me sinto bem em saber que ela pelo menos tentaria.
_Eu sei mãe. – digo.
Ela limpa suas lágrimas e se afasta tentando sorrir, ficando entre mim e meu pai.
_Bem, você está magnífica Valentina. Não é mesmo, Augusto? – diz ela.
_Sim, você está linda filha.
_Já disse para não me chamar mais assim. – esbravejo.
Raiva. Ódio. Decepção. Angústia. Sentia isso tudo ao mesmo tempo. Apertava forte a minha mão para tentar me controlar, a vontade de descer e aproveitar o baile havia desaparecido por completo.
_Valentina, não fale assim. – diz ele.
_Não importa, você não importa mais para mim. – digo sentindo minhas bochechas queimarem. – Agora se me dão licença, eu vou descer, estão me esperando.
Desvio o olhar para o chão e tento me lembrar como é que se anda. Certo, primeiro um pé e depois o outro, segui o ritmo. Saio da sala o mais rápido que consigo, sentindo uma dor enorme no coração. Dói tanto. Queria muito voltar no tempo e ter feito escolhas diferentes. Mas eu não posso mudar nada, a única coisa que posso fazer é fingir ser perfeita. Respiro fundo várias vezes enquanto caminho até o começo da escada no segundo andar. Eu desceria aquela escada, viraria e teria outra escadaria me esperando e no final dela haveria o salão, com centenas de pessoas. Desceria ao lado de Vitor, mas nenhum sinal dele até agora. Só quando olho para o outro lado do corredor que o vejo, parado me olhando de cima abaixo.
Seus olhos brilham. Minhas bochechas coram.
_Você.Está.Linda. – diz ele, pronunciando cada palavra com o devido ênfase. Ele se aproxima e para na minha frente. – Está se sentindo bem? Está pálida, e sua
_Por que não me disse que meu pai viria? – o corto.
A afeição dele fecha.
_Ele é seu pai, por que não viria?
_Ele deixou de ser meu pai. Por que não me avisou que ele estaria aqui? Por que não pediu para que ele ficasse longe da minha vista durante esta porcaria de baile?
Estou irritada. Quero chorar de raiva e pedir colo a minha mãe. Toda aquela sensação e toda aquela dor que senti quando descobri a verdade e que me fez pular daquele penhasco volta. Até mesmo a raiva por Vitor.
Se eu sou bipolar? É, talvez.
_Valentina se acalma, está bem? – pede ele.
Ele estica o braço para me tocar, mas eu recuo fechando os olhos com força e tento fazer com tudo aquilo sumir.
_Eu vou descer, fingir para todos que somos um casal perfeito, dançar o que tiver para dançar e depois irei embora.
_Valentina, por favor...
_Vitor, não. Você não sabe a dor que sinto sempre que lembro de meu pai e penso no que ele foi capaz de fazer comigo. Ele e você. –falo. – Só me deixe, tá legal?
Viro-me para a escada e me preparo para descer o primeiro lance de escadas. Com Vitor ao meu lado, começamos a descer. Ele pega a minha mão e é como se uma corrente elétrica passa-se por todo o meu corpo, e quando chegamos ao pequeno hall, todos percebem a nossa chegada e a música para. Todos nos olham. É gente pra caralho.
Sentia todos aqueles olhares me queimarem. É uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo, me sinto importante e poderosa ao mesmo tempo em que me sinto indefesa. São muitas sensações para uma só pessoa. Deve ser por isso que sou bipolar deste jeito.
Mas ok, foco Valentina.
Depois de alguns minutos de superioridade em cima daquela escada, eu e Vitor começamos a descer o ultimo lance da escada. No final dela, do lado esquerdo, tinha um pequeno palco onde continha uma banda. Eles tocavam instrumentais e tinha três cantores. Um homem e duas mulheres. E mais na frente, quase do outro lado do salão, tinha uma mesa de comida e só de ver a beiradinha dela minha barriga já roncou. Vitor me arrasta até o centro do salão e algumas pessoas vêm falar conosco. Muitos parabenizam a nossa união, outros dizem que somos um casal perfeito e outros parabenizam Vitor pela a volta de sua Máfia a Costa Nostra. E então, um casal vem nos cumprimentar e de cara os identifico como os pais de Vitor, pois o homem é uma versão mais máscula e velha de Vitor. A mulher que o acompanha, me lembra Sarah, pelos cabelos loiros.
_Filho, parabéns. – o pai dele diz.
Parabéns? Parabéns pelo o que? Por ter feio o que fez comigo? Essa gente mafiosa não presta...
_Valentina? Prazer, sou Margaret, a mãe de Vitor. Esse é meu marido Lorenzo. – cumprimento ela e seu marido. – Seja bem-vinda a nossa família.
Coloco o melhor sorriso na cara e falo com ternura:
_Obrigada. – respondo.
Lorenzo é sério, e quando sorri é aqueles sorrisos sérios. Os olhos, os traços fortes são iguaizinhos ao do filho. É como se eu estivesse olhando Vitor com uns 50 anos.
Depois de mais algumas pessoas importantes vierem falar conosco, eu e ele finalmente nos sentamos em uma mesa no centro do salão. As mesas são redondas e cabem umas 10 em cada. E em nossa mesa estavam os pais de Vitor, Sarah, seu marido Josh, a pequena Julie, Lia, meus pais e Josué. Sentamos-nos e um clima estranho começa entre meus pais e eu e Vitor. Lia e Josué sabem o que aconteceu, mas a família de Vitor não faz ideia e por isso começaram a conversar entre si, minha mãe com a mãe de Vitor e meu pai com o dele. E de repente estavam todos entrosados em uma conversa qualquer, assim como o resto do salão.
E eu lá, com um misto de emoções dentro de mim, raiva, ódio, medo, sono, fome, insegurança, paixão, fome... Nossa, fome. Isso, eu precisava comer. Quando me levanto para ir até a mesa, outro cara para na minha frente. Correção, um homem lindo para na minha frente. O nome dele é Gabriel e é chefe de uma Máfia, os olhos são azuis escuros e entram em contraste com sua pele clara e os cabelos escuros. Sua beleza de modo algum se compara a de Vitor, pois Vitor é um deus nesse quesito, mas mesmo assim, o homem arranca suspiros.
_Senhorita Chiacchio, sou Gabriel. Me concede a honra de uma dança? – pede formalmente.
Encantada, faço que sim com a cabeça e ele começa a me guiar até a pista de dança, que é no espaço a frente da escada. Sinto mais olhares sobre mim, mas não ligo. Desligo todas as minhas emoções e ligo o meu lado vadia. É hora de se divertir um pouco.
A banda começa a tocar uma versão acústica de We Found Love (http://www.youtube.com/watch?v=6I3kgbBp6PY ). A dança é como um tango, os movimentos são rápidos e suaves. Gabriel é um ótimo dançarino e quando começamos a dançar todos param e começam a nos observar, formando uma pequena roda ao nosso redor. Olho para Gabriel e ele me olha com desejo e dá um sorrisinho de lado. Sorrio também.
_Pronta? – pergunta antes que a música começasse a parte do refrão.
_Eu já nasci pronta. – rebato.
Ele sorri e na parte forte da musica começamos a dançar, ou melhor a girar. Dançamos trocando de lugar a toda hora, tango é uma dança sensual e requer atenção e habilidade. Sorte eu ter feito aulas de dança quando pequena.
A musica vai pegando forma e eu e Gabriel a seguimos, em uma parte percebo uma jovem nos olhando feio. Ela é a acompanhante de Gabriel, a vi quando cheguei no salão, e aparece que ela não está nada feliz com a nossa dança.
_Sua acompanhante não parece feliz. – comento com Gabriel.
_Eu estava contando com isso. – diz ele.
Gabriel me gira e me puxa para si, fazendo com que eu bate de frente com seu peito.
_A está provocando? – pergunto.
_Ela merece. – diz.
Começamos a dançar o refrão novamente e os nossos passos se tornam um pouco mais fortes. Ele passa a mão em minha cintura e me levanta a cerca de cinco centímetros do chão, fazendo nossa plateia suspirar. Incrível. Quando acabamos recebemos uma salva de palmas, nós e também a banda que foi maravilhosa.
_Além de linda é uma ótima dançarina. – diz Gabriel beijando minha mão.
_Obrigada, agora vá fazer um agrado a sua namorada. Ela já sofreu bastante. – digo e ele acena com a cabeça.
O vejo se aproximar da moça, e a mesma sai pisando duro para fora do salão. Riu com isso e vou até a mesa onde há comida. Sirvo-me de alguns canapés horríveis e quase cuspo se não fosse por uma moça gravidíssima que se aproximou de mim sorridente. Engulo de má vontade o maldito canapé e sorrio de volta.
_Olá, sou Alicia. É um prazer em te conhecer Valentina. Já tem dias que só se falam em você, a nova chefe da Máfia. – me cumprimenta.
_O prazer em meu. – digo.
_Sou mulher do Miguel, irmão de Vitor. – se explica melhor.
Minha boca se abre em um grande O e eu a abraço. Alicia é ruiva e tem os cabelos encaracolados, ela veste um vestido lilás bem claro que vai até os joelhos, sua barriga é grande e deve estar com uns sete meses de gestação. Uau.
_Oh, me desculpe. Eu ainda não tive a oportunidade de conhecer toda a família de Vitor. – digo.
_Tudo bem, sem problemas. Você está linda está noite. Está arrasando com esse vestido.
_Obrigada, você também está linda. Está de quantos meses? – pergunto acariciando sua barriga.
_Seis. Mas duvido que sejam gêmeos, sabe? Ela está muito grande para ser apenas um. – comenta sorrindo de orelha a orelha.
_Vocês ainda não foram ao médico para descobrir? – pergunto franzindo o cenho.
Alicia sorri e um homem loiro chega perto dela e a abraça. Miguel é claro.
_Não, decidimos fazer surpresa, sabe? – diz ela sorrindo para o marido.
Miguel se apresenta como irmão de Vitor. Ele é loiro, ou seja, puxou a mãe, mas também puxou os traços fortes do pai. Sua barba estava rala e Alicia me conta que ele não a faz por conta dela, que afirma acha-lo sexy daquele jeito. Mulheres grávidas e suas manias. Mas sim, Miguel ficava sexy de barba. Começamos então a conversar sobre o bebê e toda a mudança que eles tiveram que fazer por conta dele. Eles cortaram festas, jantares ao ar livre e várias outras coisas. E eu entendo o lado deles, gravidez dentro da Máfia é algo perigoso, tanto a mãe quanto o bebê sofrem perigo.
_Isso está me deixando louca. Quase não saio de casa, e quando saio estou cercada de seguranças. É horrível e maravilhoso ao mesmo tempo. – diz ela.
Não consigo me imaginar grávida. Não mesmo. Primeiro que eu não suportaria a dor de um parto e segundo que meu emocional já é totalmente fudido. Imagina uma bipolar grávida? Não, isso não é pra mim. Se bem que... Não. Não e não. Ficar grávida está totalmente fora de cogitação.
_Eu tenho certeza que nada de mau acontecerá com você. A Máfia está em uma fase tranquila, o difícil seria se você engravida-se em uma época de guerra. – digo e Alicia concorda acariciando a barriga.
Ah, terceiro ponto que eu não gostaria quando engravida-se: passar a mão em minha barriga. Eu simplesmente odeio isso. Já não basta eu carregar uma pessoinha lá dentro e ficar com uma sensação estranha, tem que vir alguém e começar a passar a mão. Isso comigo não rola.
Enquanto converso com ela, olho ao redor e meu olhar se encontra com Vitor. Ele me olha intensamente e eu ergo a cabeça, o encarando de volta. Depois volto a minha atenção para Josué, que aparece atrás de mim e me chama para dançar. Aceito de bom grado e me despeço de Alicia. Ando até a pista de dança novamente e Josué fala com os músicos, que acabavam de cantar Payphone, também na versão acústica.
Ele volta e pega a minha mão, colocando-a em seu ombro, depois eu pego sua outra mão e ele põe sua outra em minha cintura.
_Vamos ver se você é tão bom quanto parece ser. – digo em um tom de brincadeira.
Josué mostra um sorriso lindo e sussurra ao pé do ouvido.
_Você sabe que eu sou.
Não demora muito e a banda começa a tocar Glad You Came (http://www.youtube.com/watch?v=rojPMESoiAA ) . Sorrio ao me lembrar que foi exatamente essa musica que dançamos quando ficamos pela primeira vez. Também foi em um baile da Máfia e Josué me acompanhou. Foi uma noite incrível. Tanto é que perdi a virgindade naquela mesma noite. Josué sabe como encantar uma garota.
Durante toda a dança, trocamos sorrisos, pois tanto eu quanto ele sabíamos o que a música significa e como aquela noite foi divertida. Se Vitor soubesse disso, já teria me puxado daqui pelos cabelos. Porém esta noite Josué está como sempre foi para mim, como um amigo. Idaí se transávamos de vez em quando? Vitor também devia ser um garanhão, tem mulheres nesse baile babando por ele.
A musica acaba e recebo outra salvas de palmas, eu e Josué agradecemos e o pessoal volta a encher a pista de dança novamente ao som de I Know You Were Trouble (http://www.youtube.com/watch?v=qO1dtLU7PTw ).
Depois disso, varias pessoas me chama para dançar e eu, aceito todos os convites. Até mesmo Dr. Richard, que também está presente me chamou para uma dança. E não é que ele é um verdadeiro pé de valsa? Ri mais do que dancei é claro, mesmo assim foi divertido. Não via Vitor em nenhum momento, e meu coração fica vazio quando o procurava na multidão e não o achava. Mesmo estando magoada por ter lembrado do motivo real do nosso casamento, ficar sem Vitor é pior.
No meio de uma conversa com um outro membro da Máfia, uma pessoa anunciou no microfone que já era hora da dança da noite. Onde eu e Vitor dançaríamos algo como a valsa do casal. Clichê eu sei. Todos pararam e se calaram, procurando por nós e eu, desesperada, procuro por Vitor que aparece do meu lado, sorri de um modo gentil e me puxa para a pista de dança.
_Onde estava? – pergunto sussurrando.
_Não importa. Apenas dance comigo. – urgh. Odeio quando ele faz isso.
Paramos no meio da pista e nós nos preparamos, e assim a banda começa a tocar Mirrors (http://www.youtube.com/watch?v=fvEZUbzqqyM ). E meu coração já começa a palpitar. Amo essa música.
Os olhos de Vitor me penetram e eu tento ao máximo não desviar o meu olhar do dele, pois é intimidador. Mas eu também sabia jogar aquele jogo e não vou me deixar levar. Suas mãos estão suaves sobre o meu corpo e deslizam conforme nossos passos, que são lentos, suaves e sensuais. É difícil olhar para nós e não pensar que somos apaixonados. Queria eu que fossemos. A letra da música mexe comigo e me deixa ainda mais mexida, e não facilita em nada em saber que foi ele que a escolheu. Se ele está tentando fazer as pazes, ele está indo no caminho certo. Mas se ele está querendo me deixar mil vezes mais confusa, ele também está indo no caminho certo.
Em uma parte da musica, Vitor me vira e fica atrás de mim, aperta minha cintura contra ele e damos alguns passos para frente. Sinto sua respiração em meu pescoço e todo meu corpo se arrepia. Em outra parte, ele segura minhas costas e eu me inclino, quando volto a ficar em pé, nossas bocas ficam tão perto que posso sentir seu hálito de menta e café. Delirante.
“Ontem é história, E amanhã é um mistério, Posso ver você olhando de volta para mim, Mantenha seus olhos em mim, Mantenha seus olhos em mim”
E então, no último refrão da musica toda a banda para e só se ouve as vozes do cantor e das outras duas, e seguindo o ritmo eles batem palma conforme a letra e Vitor e eu ficamos frente a frente, nos encarando, dando passos para trás.
“Porque eu não quero perder você agora, Estou olhando bem para a minha outra metade, O vazio que se instalou em meu coração, É um espaço que agora você guarda, Mostre-me como lutar pelo momento de agora, E eu vou lhe dizer, baby, foi fácil, Voltar para você uma vez que entendi que você estava aqui o tempo todo”
Vitor está na minha frente e tudo que eu conseguia fazer era deixar ser guiada por ele, pois eu estava perdida em meus próprios pensamentos. A música é o que sinto agora, é o que tenho no momento.
“É como se você fosse o meu espelho, Meu espelho olhando de volta para mim, Eu não poderia ficar maior, Com mais ninguém ao meu lado, E agora está claro como esta promessa, Que estamos fazendo, Dois reflexos em um, Porque é como se você fosse o meu espelho, Meu espelho olhando de volta para mim, Olhando de volta para mim.”
Sinto meu corpo ficar leve, estou me apaixonando novamente. Estou entrando em um terreno perigoso, eu sei. Ainda mais quando esse alguém é Vitor, um mafioso. Eu também sou mafiosa, isso duplica o perigo. Estou em cima de um meio fio, no meio de uma escolha. Posso me deixar me apaixonando por Vitor e esquecer por vez tudo o que ele me fez, e tentar não ficar triste sempre que me lembrar disso, ou posso adotar de vez o lado vadia. E o fazer pagar por tudo.
A música acaba e demora alguns segundos para todos aplaudirem. Com certeza eles sentiram a tensão que estava entre nós. Um som de trovão inunda meus ouvidos e ouço a chuva forte cair lá fora. Afasto-me aos poucos de Vitor, seguro a saia do meu vestido e subo novamente a escadaria, imersa em meus próprios pensamentos. Pareço um zumbi andando por aqueles corredores, meus pensamentos gritam para mim e não consigo ouvir nada do lado de fora.
Vitor é um homem que na maioria das vezes é frio, mal e sem coração. Na verdade ele deve ter sido criado para isso, não o culpo. Mas ele é. Eu sou sensível, cheia de rachaduras e indecisa, me escondo atrás de uma armadura de ferro e me dou por satisfeita. Nunca daríamos certo, me apaixonar novamente não dará certo e com certeza me jogar de um penhasco outra vez não vai resolver muita coisa.
_Valentina? O que está fazendo nessa chuva? – a voz de Vitor me tira do transe e percebo que estou fora do clube, debaixo da chuva forte.
Ele se aproxima correndo e para a centímetros de mim, me envolvendo com o calor que o corpo dele exala. Ele segura meu rosto nas suas mãos e fecho os olhos com força.
Por que a vida tem que ser tão injusta comigo?
_Me diga, o que está fazendo aqui? – pergunta novamente.
_Estou me perguntando por que fui amar justo você. – digo.
Ele me olha com dificuldade por conta da chuva, se aproxima mais e sussurra.
_Me deixa lhe mostrar a resposta.
Um beijo. Um beijo quente e envolvente que faz meu estomago revirar como se tivesse milhões de borboletas lá dentro. O beijo é longo e quando nos separamos ele diz algo e eu apenos concordo. É sobre sairmos da chuva, ele me guia e entramos no outro prédio do clube, onde ficam os escritórios e tudo mais. Pegamos um elevador e dentro dele, Vitor me agarra e me prende na parede. Seu beijo é selvagem e quando a porta se abre, não nos damos o trabalho de parar o que estamos fazendo e andamos até seu escritório aos beijos mesmo. Lá dentro caímos sobre o sofá e depois vamos direto para o chão. Fazemos ali mesmo, sem nos importar com nada. E estou ciente que vou viver com essa luta interna dentro de mim, amar ou não amar? Mas com Vitor é tudo no meio termo, então, para quê se preocupar?
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