A Máfia
3 Foge comigo?
Notas iniciais
Acordo com algo vibrando em algum canto do quarto. Obrigo-me a abrir os olhos e vejo Vitor dormindo tranquilamente ao meu lado. Um sorriso bobo escapa dos meus lábios, quer dizer, a noite de ontem não foi nada romântica, muito pelo contrario. Mas teve algo, rolou algo ali e agora não consigo tirar o sorrisinho bobo do rosto. Talvez seja disso de que Lia estava falando ontem, essa coisa de se apegar a alguém.
Opa, você acabou de conhecer o cara Valentina, se acalma garota.
E é falando em Lia que acabo lembrando de que a deixei sozinha ontem. Murmuro um “oh, não” e acabo me levantando com tudo da cama, mas meu pé fica preso entre as cobertas e acabo caindo de cara no chão.
_Cacete. – comprimo um grito e massageio a parte de trás da minha cabeça.
Olho para cima e vejo Vitor rindo de mim.
_Bom dia para você também. – caçoa e eu percebo o quanto ele fica lindo com cara de sono. – Por que caiu da cama? – mas que tipo de pergunta é essa? Agora se tem motivos para cair da cama?
_Eu só cai. – disse eu me recompondo e me levantando.
Percebo que uso uma blusa branca de mangas longas que mais parece um mini vestido. Deve ser de Vitor, mas eu não faço a mínima ideia de como ela veio parar em mim.
_Claro que sim. – responde meio desapontado. A qual é, quem fez a pergunta besta aqui foi ele.
_Me desculpe, não queria ter sido grossa com você. – falo enquanto busco minhas peças de roupas espalhadas por seu quarto. Mas isso estava um pouco difícil já que as cortinas estavam todas fechadas. – Se importa se eu ligar a luz? – pergunto.
_Não, fique a vontade. – disse ele. Vou até a porta do quarto e começo a apalpar a parede até achar o maldito interruptor. Assim que acho, deslizo o botão para baixo e todo o lugar se ilumina. Me viro novamente e dou de cara com um deus grego.
Esse cara é realmente muito bonito e sexy, e agora na luz e estando sóbria posso admirar mais sua beleza. Acho que o encarei demais, pois ele solta uma risadinha fraca e vem até mim. Mostrando que vestia uma calça de moletom cinza e deixando amostra deu peitoral incrível.
_Se você quer saber, você também é incrivelmente sexy!
Ele me rouba um beijo, mas esse beijo não é quente nem feroz, é um beijo suave e gostoso. Podia ficar aqui por horas sendo beijada por ele dessa maneira.
_ Eu adorei suas tatuagens. – diz.
Eu tinha três. Uma cabeça de uma raposa na panturrilha direita, um trecho da música Clarity, que dizia “If our love is tragedy, why are you my remedy? If our love's insanity, why are you my clarity?”e “God” escrito no meu dedo anular direito. Pretendo fazer mais algumas, mas estou sem ideias no momento. Sorrio constrangida e murmuro:
– Eu preciso ir. – digo sem jeito.
_Claro, eu vou te dar uma carona. Vou me trocar e já venho.
Ele voltou com a mesma rapidez que se foi já vestido com uma bermuda jeans e sem camisa, ele olha para mim e abaixa seu olhar para meus peitos. Fico sem entender sua ação e o olho com uma careta como se eu falasse “o que está fazendo?”.
_Se não se importar, gostaria de usar essa blusa. – é ai que me toco que ainda estou vestida com a blusa dele e que era isso que ele estava olhando, não os meus peitos.
_Ah claro, aqui está. – retiro a blusa e dou graças a Deus por ter colocado minha roupa de baixo antes (tenho vergonha). Depois vou procurar por meu vestido e o encontro jogado no mais distante canto do quarto. Quando o pego, avisto um celular, que presumo ser do Vitor, embaixo dele. Deve ter sido isto que me acordou. Havia uma mensagem e por curiosidade (e acredite, sou muito curiosa) acabo lendo.
“Já fez o seu trabalho?”
O número está como privado, e acredito que deve ser algum amigo dele ou coisa do tipo. Jogo o celular no canto novamente e visto meu vestido. Procuro por meus sapatos, mas estes devem estar na sala. Vou até lá e os encontros debaixo do sofá. Mas como é que vieram parar bem aqui?
Depois de uma passada rápida no banheiro, peço para Vitor me levar até a boate, onde meu carro está. Já dentro de seu carro, me sinto constrangida. Eu sei que o que eu fiz na noite passada é mais constrangedor ainda, mas mesmo assim, me sentia uma menininha apaixonada. E não gosto dessa sensação. Pra mim tem que ser “transamos, mas não quero mais saber de você”, e não me acho vadia por isso. Homens pensam coisas piores sobre nós mulheres e fazem coisas mais terríveis ainda. Mas eu gosto de Vitor, tudo bem que mal o conheço, mas eu gosto de pensar em gostar dele, entende? Ele tem um jeito meio “obscuro” e “secreto”. E tem também seus olhos pretos que me fascinam e me deixam com uma vontade de querer mais e mais. Em meus dias normais, deixaria o cara ir embora com um falso número ou com uma desculpa esfarrapada de que eu não queria nada no momento. Mas como a própria Lia disse eu tenho que me abrir um pouco, deixar levar.
Quando ele estaciona o carro ao lado do meu, sorrio meio decepcionada e aliviada.
_Entregue. Eu acho. – rimos e olho para ele. Por favor, peça meu telefone, por favor... – Bom, acho que foi isso.
Bom, na vida nem tudo são flores, certo? Faço de tudo para não demonstrar o desapontamento que senti naquele momento e dou meu melhor sorriso, pronta para sair de seu carro e esquecê-lo para sempre.
_É, foi isso. – digo já abrindo a porta e me retirando do carro, então ele segura o meu braço me fazendo olhar para ele.
_Quero te ver novamente. – em dias comuns iria rir da sua forma autoritária de falar, como se eu fosse uma garota qualquer que estava pronta para mais uma transa com ele, e iria responder a altura. Mas como esse não é um dia comum, muito menos ele é um cara comum, apenas sorrio docemente e agradeço aos céus por essa chance divina.
_Acho que posso pensar no seu caso. – sorrio.
_Ótimo. Eu te encontro. – diz ligando o carro novamente.
_Se você acha que é capaz... – como já devem ter percebido, provocar é algo que adoro fazer.
Ele dá um sorriso de banda.
_Acho que eu já provei do que eu sou capaz Valentina.
Sorrio e saio do carro, gostei dele. Dou a ultima olhada para ele, e vejo seus olhos pretos me fitarem. Aqueles olhos escondem algo, e eu quero muito descobrir o que é.
***
Entro no apartamento de Lia nas pontas dos pés, e torço mentalmente para que ela também tenha saído com alguém ou algo do tipo e não me mate por abandoná-la na noite anterior. O apartamento está silencioso e totalmente iluminado por conta das janelas abertas. Ela sempre se esquece de fechá-las. Com os sapatos em mão, vou até seu quarto e abro uma brechinha na porta para espiar se ela esta lá dentro. Sorrio aliviada ao ver uma morena jogada na cama de qualquer jeito e roncando como se não houvesse amanhã.
_Bom dia flor do dia! – grito enquanto me jogo em cima dela na cama. Ela resmunga várias coisas até abrir seus olhos e me olhar, e me olha com muita raiva.
_Onde foi que você se meteu? Caralhos Valentina fiquei louca quando você sumiu, quase liguei pro seu pai achando que havia sido sequestrada! – fala com a voz bêbada de sono.
_E você ligou? – pergunto arqueando as sobrancelhas.
_Não, o cara das roupas me disse que você saiu acompanhada. E aparentava estar muito feliz! – esboço um largo sorriso ao me lembrar da noite anterior, Lia percebe e sorri junto comigo. – Pelo jeito a noite foi realmente muito boa.
_Sim, foi. – disse eu. Ajeito-me na cama ao seu lado e, juntas, encaramos o teto de seu quarto.
_Sabe, – bufo ao ouvi-la começar a falar, sempre que começa uma frase com “sabe” é porque ela está pronta para te dar uma lição de moral ou justificar algo que ela ache que é o certo. – quando eu disse para você tentar se apaixonar, eu não quis dizer para você ir transar com o primeiro que te puxasse para dançar. – sua voz saiu calma e reflexiva.
_Assim você me faz sentir uma vadia. – comento ainda encarando o teto. – E se quer saber, ele não foi o primeiro a me puxar para dançar, mas ele era diferente. Você tinha que ver os olhos dele. Eram pretos, escondiam algo, é lindo. – digo suspirando.
Lia me olha curiosa e me analisa, olho para ela e ficamos nos encarando. Lia e eu somos muito parecidas. Não na parte física, mas sim interna. Gostamos do mesmo tipo de cara, nada de romântico ou grudento. Temos a mesma opinião sobre tudo, e sempre entendemos o que a outra quer dizer, seja com gestos ou palavras. Ainda penso na possibilidade de sermos irmãs.
_Me conte mais sobre ele, pela sua cara, você deve estar louca para contar os detalhes.
Volto a encarar o teto, tinha algo dentro de mim que havia mudado, e motivo disso estava relacionado a Vitor.
_Quando eu disse que ele é diferente, é porque ele é diferente. – falo dando ênfase no “é”. – Mas como eu disse, ele também parece esconder algo.
_Pelos olhos? – debocha.
_Não pelos olhos, idiota, mas são eles que demonstram esse segredo. Já pensou eu me apaixonar e ele se admitir ser um mafioso? – explico.
_Valentina eu acho que você esta muito obcecada por esse lance todo da Máfia e com essas brigas com seu pai. Deixa-se levar, vê aonde isso vai dar, e ai, quem sabe.
Quem sabe, não é mesmo? Talvez ela esteja certa, talvez minha cabeça esteja tão concentrada nessa coisa de não ser da Máfia, que tudo ao meu redor acaba sendo da Máfia. E talvez eu só precise me desligar dela e viver um pouco.
_Tem razão. – disse eu. – Ele disse que quer me encontrar novamente, mas não pegou meu número, apenas disse que era capaz de me encontrar. – digo depois de um tempo calada.
Lia murmura um grande “hm” em sinal de provocação. Dou um tapa em seu braço e penso em como ele ira me encontrar, já que vivo trancafiada em casa. Não que meu pai não me deixe sair, é que Sicilia não é daquelas cidades grandes onde a várias coisas para se fazer ou ir. Talvez ele não tenha gostado muito e tenha me dado um fora sem eu perceber.
_Estou com fome, podemos almoçar na sua casa? – Lia choraminga, colocando as mãos em sua barriga e a apertando.
_Claro. Só se arrume logo, anda. – Digo enquanto a empurro da cama com os pés. Ela cai da cama e fica no chão por alguns minutos, alegando que está cansada demais para ir se arrumar. Contra-ataco dizendo o quanto é boa à comida de Edna aos domingos. Ela rapidamente se levanta e vai se arrumar.
[...]
Como eu disse, Palermo é uma cidade antiga e maravilhosa. É cheia de montanhas e colinas. Minha casa fica no topo de uma, bem lá em cima é visível uma bela casa branca cercada por homens e câmeras de segurança. Havia um píer também, adorava passar as noites estraladas deitadas lá admirando o céu. Muitas vezes já quis me jogar de lá, admito, e se as coisas continuarem nesse clima com o meu pai, com certeza ainda me jogo. Mas não quero pensar em brigas, discussões ou em mortes, quero apenas relaxar nesse domingo.
Subo a colina com o carro e no portão, me identifico e eles o abrem me cumprimentado e desejando boa tarde. Não quero nem saber que horas é, Edna vai me matar com certeza. Depois de sair do carro e alguém ir levá-lo para garagem, sigo com Lia para dentro da casa, entrando por trás, diretamente na cozinha. Edna está ali com a minha mãe, ambas devorando um pequeno prato de pudim.
_Gordas. – exclamo ao entrar. Lia passa por mim e fecho a porta. Minha mãe me repreende por algo ao me olhar, odeio quando ela faz isso.
Já Edna sorri de orelha a orelha e vem nos abraçar.
_Meninas! Que bom que chegaram. – Lia sorri sem jeito para Edna que quase não se contenta de tanta felicidade. – O almoço já foi servido, mas posso preparar um prato para vocês. Hoje eu fiz uma lasanha deliciosa!
_Menos palavras e mais ação Dona Edna, estou morrendo de fome! – Lia brinca. Juro que ouvi sua barriga roncar assim que ouviu a palavra lasanha. Edna assente sorridente e vai preparar nossos pratos, eu e lia seguimos para o balcão e nos sentamos com a minha mãe.
_Bom dia senhora Baldocchi. Seu cabelo está maravilhoso hoje! – seguro uma risada quando Lia diz isso, ela sempre faz um elogio desses para minha mãe quando vem visita-lá. E é por isso que minha mãe a adora.
_Bom dia Marcelina.
Marcelina é o nome de Lia, mas a mesma prefere ser chamada de Lia, acha mais prático.
_ E bom dia para você também Valentina.
Minha mãe tem um olhar cínico para nós duas, leva uma colherada de pudim até a boca e, lentamente, faz o ato de comê-lo. Deve estar com raiva pelo horário que eu cheguei, mas com Lia aqui, ela não pode dar seu sermão. O que é engraçado, já que tenho 21 anos e não tenho mais essa coisa de “horário”. Edna traz nossos pratos fardos de comida, Dios, vou engordar quilos depois de comer tudo isso. Mas Lia parece não se importar com a quantidade, já que põe tudo para dentro sem questionar. Depois de comermos, fomos até meu quarto, onde tomei um longo e demorado banho.
_Achei que pretendia se matar lá dentro. – Lia diz quando saio do banheiro. Faço uma careta para ela e escolho uma roupa leve para vestir. Opto por um short claro e uma regata preta.
Lia brinca com um dos meus travesseiros deitada em minha cama quando meu celular começa a tocar em cima da penteadeira ao lado da cama. Aproximo-me dele e o nome “desconhecido” pisca na tela.
_Quem é? – pergunto assim que atendo.
_Nossa, esqueceu os modos dona Valentina? – uma voz masculina e incrivelmente sexy brinca. De momento achei que fosse Josué, mas depois de um breve flashback consigo distinguir quem é.
Um sorriso bobo se forma no canto da minha boca.
_Vitor. – sussurro alegremente. Lia ouve e larga o travesseiro de lado e se senta na cama com as pernas cruzadas animadamente. Sorrimos uma para a outra e ela faz sinal de positivo com o dedão. – Como conseguiu meu número? – pergunto contrariada e ouço uma risada fraca do outro lado da linha.
_Tenho meus meios Valentina. – diz ele.
_Hm, certo. Mas o que deseja? – disparo.
_Desejo você. – um arrepio me percorre o corpo todo ao relembrar de seus toques. Ah, Vitor, eu também te desejo. – Será que podemos nos encontrar hoje? É meu último dia na cidade.
_Ah. – exclamo surpresa, claro que ele não mora aqui, se não o teria conhecido antes. Lia me olha e pede detalhes da conversa, pedindo mais com as mãos. – Claro, a gente pode se encontrar hoje. – falo para que ela entenda sobre o que estamos conversando, o sorriso malicioso que essa menina dá assim que ouve, é assustador.
_Ótimo. Encontre-me às oito horas na praia. – dizendo isso ele se despede e desliga.
_E então? – Lia questiona dando pulinhos na cama. Aproximo-me e me jogo ao seu lado, juntas caímos na cama.
_Vamos nos encontrar na praia às oito horas. – digo.
_Hm, fazer amor na areia não me parece confortável. – diz pensativa e eu reviro os olhos. – Em qual praia irão se encontrar?
_Ele não disse. – falo ainda sorrindo abobada. Lia olha para mim e ri, eu a acompanho e minutos depois, estamos fazendo uma guerra de travesseiros.
Depois de me ajudar a escolher uma roupa, Lia foi embora e me deixou sozinha, aproveito esse tempo para descansar. Ainda tenho três horas antes de ir me encontrar com Vitor.
Acordo com o som irritante de meu celular apitando sem parar. Bufo irritada, o sonho estava tão bom que estava até babando. Obrigo a me levantar e ir até o banheiro para ver quem foi o infeliz que me acordou. Vejo o nome “Valentin” piscar na tela. Meu corpo se estremece só de pensar nele, ele é só mais um efeito colateral de ser a filha de um grande mafioso. Desligo o celular e passo as mãos nos cabelos a fim de me acalmar. Olho no meu relógio de pulso e checo as horas: 18:58.
_Merda! – exclamo. Agradeço-me mentalmente por ter tomado banho antes e corro para o quarto e tento achar uma roupa. Novamente agradeço mentalmente Lia por já ter feito isso por mim. – Ótimo, agora é só se vestir e ir se arrumar. Fácil. – disse eu para mim mesma.
Lia havia escolhido outro vestido para mim, um todo florido. Ele tem a cintura marcada e a saia rodada, as alças são duas tirinhas trançadas. No pé, escolho uma sandália com salto plataforma marrom baixo e básico. Com o cabelo, faço um coque bem despojado, com vários fios fora do lugar. Me olho no espelho e o que vejo é uma menina apaixonada. Bufo irritada, não quero parecer uma menina apaixonada! Ligo para Lia e choramingo com ela sobre como estou parecendo uma menina de 15 anos indo jantar fora com a família do namorado perfeito dela.
_Tudo bem Valentina, não vou discutir isso com você, indo com essa droga de vestido ou não, é melhor você se apressar. Já são quase oito horas! – checo novamente o pequeno relógio em meu pulso e consto que ela tem razão. Despeço-me dela e depois de prometer que iria ligar assim que chegasse, desliguei e decidi ir com aquele vestido mesmo, já estava atrasada. E se atrasar por conta de roupa já é bem mais vergonhoso.
Desço as escadas saltitando e dou de cara com meus pais. Minha mãe sorri para mim e diz que estou linda, meu pai comenta o mesmo. Aviso que irei sair e que provavelmente passarei a noite fora e para a minha surpresa eles não protestaram. Saio de casa e pego meu carro indo o mais rápido possível para a praia. Mesmo tendo vários lugares em que ele possa estar me esperando, paro na praia mais visitada de Palermo: Modello. É uma praia linda e muito visitada, só pode ser aqui. Estaciono o carro em um parque e caminho até a calçada da praia, aqui as únicas luzes eram de alguns postes de luz espalhados e da lua, que estava incrivelmente linda hoje. Sento-me em um banco e fico admirando a lua. Confesso que tenho uma paixão platônica por ela desde criança, fazia birra para dormir no quintal só para ficar a observando.
“Não é a toa que é tão parecida com ela. Valentina e a lua com suas fases.” – minha mãe costuma dizer.
_Você é tão linda quanto ela, se quer saber. – olho para o dono da voz e encontro Vitor deslumbrante. Ele traja um terno preto de linho sobmedida, os cabelos estão penteados para trás e os olhos pretos estão brilhantes. – Espero que eu não tenha te feito esperar muito. – disse ele.
_Não, não fez. Cheguei agora a pouco. – disse eu. Ele esboça um sorriso gentil e estende o braço para mim, o pego sem hesitar. – Para onde vamos? – pergunto.
_Surpresa. – diz apenas e caminhamos até a parte mais deserta da praia.
Começo a concordar com Lia sobre a parte de que fazer sexo na areia não é uma coisa muito maravilhosa, mas então, ao longe, enxergo uma pequena mesa redonda com duas cadeiras ao seu redor. Uma toalha branca fora estendida por cima dela e um jarro com uma rosa vermelha a enfeita. O local é iluminado por tochas. Paraliso por um momento pensando se aquilo é mesmo verdade.
Vitor ri de mim.
_Espero que não ache isso tudo romântico demais. Pedi ajuda a uma amiga e foi isso que ela me aconselhou a fazer. – diz ainda se divertindo com a minha expressão de espanto. – Nunca mais irei pedir ajuda para uma pessoa que vive vendo filmes de comedia romântica.
_Não, não. – me apresso a dizer. – Está tudo... perfeito. – digo encantada com o local.
À noite em si está perfeita. O céu está repleto de estrelas e a lua está linda. A brisa do oceano é calma e deliciosa. E tudo a minha volta parecia gritar “Se apaixone! Se apaixone!”.
Vitor ri novamente. Um riso calmo. Olho para ele e não me aguento e o beijo.
_Faça de mim uma menina apaixonada esta noite, Vitor. – sussurro para ele. Ele levanta seu olhar de minha boca e olha nos meus olhos.
_Eu irei.
*********
Vitor e eu passamos um bom tempo conversando durante o jantar. Ele me contou de sua vida e eu a minha. Claro que não disse sobre a minha família ser criminosa, contei apenas que sofro uma pequena grande pressão da parte de meu pai para continuar os negócios da família. Esses tipos de coisa não se contam no primeiro encontro, certo? Vitor me disse que sabe exatamente como é, já que teve que assumir a empresa obrigado pelo pai, mas que acabou gostando. Pergunto mais sobre a empresa dele, a fim de ter certeza de que ele não é um mafioso e não tem nada envolvido com a Máfia. Ele me responde todas, e pelo visto, ele é um cara limpo.
_Seu pai parece te chatear bastante. Por que não se livra dele? – arregalo os olhos para Vitor. A palavra se livrar para mim significa matar. – Eu me livrei do meu.
Ai meu Deus. Esse cara é um assassino?
_Ai meu Deus, você matou o seu pai? – pergunto assustada. Dessa vez é Vitor quem arregala os olhos para mim e depois, gargalha alto.
_Santo Deus Valentina, é claro que não! – solto o ar pela boca e agradeço a Deus. Maldito pensamentos mafiosos. – Quando disse se livrar queria dizer ir embora. – explica.
Meu Deus como fui idiota! É claro que ele não quis dizer para que eu matasse o meu pai. Afundo-me na cadeira envergonhada.
_Me desculpe. – falo tampando o rosto com as mãos. Ele continua rindo e fico cada vez mais vermelha.
_Não tudo bem, é que foi engraçada a cara que fez quando achou que sugeri que matasse seu pai. Sua cara foi de completo espanto.
_Que vergonha. – exclamo baixinho.
_Não seja boba. Eu que devo ter me expressado mal. Está tudo bem, vamos olhe para mim.
Abaixo as mãos e olho para ele. Ele tem um sorriso brincalhão e lindo, mas são seus olhos que me chamam a atenção. Eles estão escuros e não brilham mais.
_Você parece estar escondendo algo. – penso alto. A afeição de Vitor se torna séria e nítida. Vitor demonstra ser uma pessoa que não é. E é isso que eu quero descobrir, quem ele realmente é.
Longos minutos de silêncio se passaram, seus empregados nos servem de mais vinho e logo trazem a sobremesa. Comemos em silêncio e começo e me xingar por ter tido aquilo em voz alta. Quando ambos terminam a sobremesa Vitor me olha e me sinto enrubescer.
_Dança comigo Valentina? – pede.
Sua afeição é calma e serena. Ou seja, ele não está brincando. Sorrio surpresa e afirmo com a cabeça. Ele se levanta e estende a mão para mim. Eu mais uma vez a pego sem hesitar.
_Acho que dançar na areia com sapatos não é muito confortável. – disse ele. Ele se abaixa e retira os seus. Olha para mim e eu faço o mesmo. Afastamos-nos um pouco da mesa e fomos um pouco mais para perto do mar.
Dançamos abraçados e a nossa música é o barulho das ondas. A areia roçava nos meus pés fazendo cócegas e por um momento de desequilíbrio acabei afundando um dos meus pés e cai para trás, com Vitor por cima de mim. Rimos descontrolados da nossa situação que é, agora, estarmos cheios de areia.
_Acho que irei te beijar Valentina. – sussurrou ele depois de longos minutos me encarando.
_Acho que vou adorar se fizer isso. – é o que ele faz. Beija-me com carinho e desejo e depois me beija com mais vontade e intensidade. Separo-me de sua boca a procura de ar. – Não quer fazer isso aqui, quer? – pergunto. Os olhos de Vitor ficam tensos e por um segundo me pergunto se falei algo de errado.
_Foge comigo? – pisco os olhos várias vezes. Fugir? – Se livre do seu pai por uns dias, fique comigo. Nada sério só... Fuja comigo.
Me livrar...
_Eu fujo com você. – disse eu, sorrindo abertamente e tentando não me arrepender depois.
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