A Máfia
27 Esperança corrompida.
Notas iniciais
Um buraco enorme se formou em meu coração assim que li a mensagem em meu celular. Valentin estava com Lia e eu não impedi isso. Achei que ela estivesse segura, mas não. Ele a pegou e vai usar isso contra mim. Do mesmo modo que fez com meu irmão. Só rezo a Deus que essa história não tenha o mesmo final que a outra.
_Aquele desgraçado! – Muriel gritou com raiva, batendo as mãos na parede.
_Vou emitir um alerta sobre ela. – Vitor diz.
_Ele não vai ferir Lia... – digo a mim mesma baixinho, tentando ainda acreditar no que estava ocorrendo.
_Não vai ferir? – Muriel ironizou. Ele riu nervoso e se aproximou, agachando na minha frente. – Ele matou seu irmão! – gritou para mim.
Olhei para ele assustada.
_Se afasta dela!
Vitor o pegou pelo o ombro e o empurrou com força até a parede próxima, o prendendo.
_Eu queria saber o que você faria se fosse a sua mulher que estivesse nas mãos do inimigo! – Muriel gritou fora de si.
_Eu já estive no seu lugar! – rebateu Vitor. – Duas malditas vezes! E eu sei que não é nada agradável, mas eu pensei com a cabeça ao invés da raiva. E ela está aqui comigo agora, — apontou para mim. – viva! Então se você quer que Marcelina saia bem dessa, é melhor se acalmar e pensar direito. Temos que descobrir o porquê de Valentin ter a pego e o que ele quer com isso.
Muriel pareceu se acalmar o bastante para Vitor o soltá-lo. Ele respirou fundo e começou a andar de um lado para o outro, bufando a cada instante. Ele e Vitor passavam a mão no cabelo e puxavam uma bela quantidade de fios com força. Vitor fazia ligações e Muriel tentava se manter calmo a todo custo. E eu? Eu vou me condenar pelo resto da vida se algo acontecer a Lia, só isso. Primeiro foi meu irmão, agora ela. Valentin está caçando as pessoas que eu amo para me atingir, achando que isso vai me levar até ele. E talvez seja isso que eu devesse fazer. Ir até ele e acabar com tudo. Com ele. Comigo. Com tudo que eu sonhei um dia, mas a Máfia sempre me tirou. Mas eu não posso ter esses tipos de pensamentos agora, não estando grávida. Mas eu tenho que dar um jeito de salvar Lia. De descobrir onde ela está e...
Claro! O maldito rastreador!
_Eu sei como achá-la! – anuncio, me levantando confiante. – Eu coloquei um rastreador único no celular de Lia, se Valentin ainda estiver com ele, podemos rastreá-lo.
Sentia o buraco em meu estomago aos poucos ir sumindo. Esse rastreador pode estar desativado, ou Valentin pode ter quebrado o telefone. Ou talvez não. Eu tenho que ter esperanças.
_Vou ver se Mark consegue rastrear. – digo. – Enquanto isso vocês dois vão preparando para ir pegá-la. Reúnam todos os que conseguirem.
Os dois assentem e antes que eu saísse do escritório, Vitor me puxou e me deu um beijo cálido.
_Nós vamos encontrá-la. – sussurrou para mim.
_Nós vamos. – concordei.
_Valentina? – Muriel chama.
_Sim?
_Fale para aquele nerd fazer um bom trabalho, caso contrário ele vai se ver comigo.
Concordo de leve com a cabeça e saio, andando apressada até a sala de Mark. Entro sem bater e fecho a porta com força, o assustando e fazendo com que ele quase caísse da cadeira.
_Preciso de você agora! – exclamei.
_Santos Deus, Valentina! Quer me matar de susto? – indagou enquanto se ajeitava na cadeira e arrumava os óculos.
_Lia foi sequestrada e preciso que você a rastreie. – explico rapidamente.
_Quem é Lia? – perguntou confuso.
_Lia é minha melhor amiga e mulher de Muriel. Estamos muito putos da vida então acho melhor você fazer isso logo – gritei, o assustando novamente.
_Tá bom, tá bom! – falou. – Me passe o ID do rastreador.
Passei as informações necessárias e Mark começou seu trabalho. Logo, a grande tela ficou repleta de letras e números verdes, depois um mapa começou a fazer a procura. A cada volta que a seta fazia, meu coração pulava.
_Foi Valentin que fez isso? – Mark perguntou baixinho.
Concordei de leve com a cabeça, observando a página do sistema carregar.
_É estranho ele atacar assim do nada, não é? – olho para ele sem entender. – Quero dizer, mafiosos geralmente fazem algo assim com um propósito. Qual é o dele?
Suspiro frustrada.
_Me atingir. – digo.
_Sim, mas só isso? – voltou a perguntar. – Pelo o que vocês me falaram, Valentin não é apenas um stalker nível hard, é também um ótimo estrategista. Para mim, ele deve estar bolando algo maior do que apenas te provocar.
Reflito sobre suas palavras, até porque ele não estava errado. Porém não há nenhum proveito que Valentin possa tirar sequestrando Lia. Tudo depende se ele ligar pedindo algo em troca. Mas localizando Lia, ele não terá essa chance.
_Seja lá qual for sua estratégia, vai cair por terra assim que nós o localizarmos. – digo.
Mark assente e a tela no computador pisca, avisando que havia conseguido a localização.
_Opa, consegui. – Mark exclama. – O endereço é esse aqui.
Mark anota o endereço para mim em um pedaço de papel e eu o pego rapidamente, saindo em disparada para o escritório de Vitor. Corro sem olhar para trás, como se minha vida depende-se disso. A vida de Lia depende.
_Consegui! – exclamo entrando no escritório de Vitor com o papel em mãos.
Muriel, que estava sentado no sofá, se levantou rapidamente e arrancou o papel da minha mão, do mesmo modo que eu havia feito anteriormente com Mark. Ele analisa o documento com cuidado e respira fundo.
_Conheço o lugar. – diz. – Vitor, vou precisar de todos os homens que poder disponibilizar, até mesmo os que não estão.
Vitor assente.
_Vou ligar para meu pai, tem alguns homens dele aqui também. – reforço.
_Ótimo. – Muriel diz. – Vitor?
_Pode ir. – Vitor diz. – Pegue quantos homens quiser, o que for necessário para tirá-la de lá, faça.
Muriel e Vitor se encaram por um breve instante, e sinto que isso deve ser algum tipo de comunicação masculina que só eles entendem. Depois disso, Muriel caminha até a mim.
_Eu vou trazê-la de volta, prometo. – sussurra.
_Nós vamos. – o corrigi. – Eu vou com vocês!
_Não, não vai. – Vitor intervém.
Olho para ele incrédula.
_Desculpa o que disse?
Vitor está encostado em sua mesa, de braços cruzados, me olha com certa frieza. Me encarando com aqueles grandes olhos negros.
_Eu disse que você não vai. – persiste.
_Valentina, nós conversamos. É melhor desse jeito, sabemos que é isso que Valentin quer. – Muriel diz.
_Não! – grito a ele. – Eu não vou ficar aqui de braços cruzados enquanto vocês vão atrás de Lia. Talvez eu seja a única que possa salvá-la.
_A única coisa em que você possa ajudar, é se caso tenha alguma troca entre você e Marcelina, e isso não será possível. – Vitor diz e eu o olho. – De maneira alguma.
_Valentin quer você e se você for, com certeza, só irá dificultar as coisas. – Muriel completa.
O que mais dói é que eles têm razão. Tento pensar em algo que conteste isso, dizendo que posso ficar esperando no carro. Mas Vitor não quer nem saber. Ele ordena que eu vá para a casa de seus pais, junto com seus irmãos e aguarde lá. Pois de acordo com ele, é mais seguro. Dou-me por vencida e me sento novamente no sofá, enquanto observo Vitor, Muriel e Ryan, o chefe de segurança do Quartel, planejarem o ataque. A única coisa que me restou foi ajudá-los a bolar uma estratégia.
_John e Miguel irão conosco, eles acabaram de confirmar. – comenta Ryan. – Agora que já decidimos tudo, vou preparar os nossos homens.
_Eu vou junto.
Muriel e Ryan saem me deixando sozinha com Vitor, que me encara descaradamente. Luto para não olha-lo, estou puta da vida por ele não me deixar ir, mesmo que seus argumentos sejam válidos para isso.
_Você sabe que essa medida que tomei é para a sua segurança, não sabe? – Vitor pergunta calmo.
Respiro fundo.
_A única coisa que eu sei é que minha melhor amiga é refém de um dos piores criminosos que conheço e eu não posso fazer nada para salvá-la. – respondo seca.
_Eu prefiro ver você puta da vida comigo do que nas mãos daquele desgraçado do Corletto. – dispara.
Respiro fundo, mas dessa vez não para controlar a raiva e, sim, o choro. O problema é que não sou eu quem está nas mãos de Valentin e sim Lia. E isso está me matando por dentro, me corroendo. Desde que nos conhecemos, ela sempre foi a minha melhor amiga. A única com quem tive a confiança de contar todos os meus segredos. Prometi a mim mesma que a protegeria de tudo, principalmente da Máfia. E eu falhei. Falhei com ela. Falhei com meu irmão. Falhei até comigo mesma, me casando com Vitor e fazendo parte da Cosa Nostra. Vai ver eu sou uma dessas pessoas que sempre tem as melhores coisas da vida, mas sempre as perde por simples capricho do destino.
_Ei, calma. – Vitor se aproxima de mim ao perceber que eu estava chorando. – Vai dar tudo certo, eu prometo.
Encosto-me na mesa, com Vitor a minha frente e deito minha cabeça em seu ombro, chorando baixinho.
_Isso é tão injusto. – sussurro.
_O que é injusto?
_Valentin fazer essas coisas... Perseguir as pessoas que eu amo. É tudo tão injusto. – choramingo.
Vitor acaricia meus cabelos por um breve tempo. Seu toque é tão gentil e acolhedor. Seus braços me rodeiam como se eu fosse cair a qualquer momento. E eu adoro quando ele me abraça assim.
_Eu vou resgatar sua amiga. Vou trazê-la em segurança. – Vitor diz confiante, me confortando de certo modo.
_Eu sei que vai. – digo, olhando-o nos olhos.
Ele, então, me beija. E como se sua vida dependesse daquele beijo, Vitor me beijou calidamente, passando sua mão pela minha cintura e me agarrando mais para si. Depois de longos minutos nos beijando, Vitor se separa de mim no exato momento em que Muriel abre a porta do escritório e adentra na sala.
_Estamos prontos. – anuncia.
[...]
Já fazia mais de três horas que Vitor e Muriel saíram com mais de cem homens atrás de Lia até o lugar que o rastreador levava. E já faz mais de três horas que eu estou sentada na sala dos pais de Vitor segurando fortemente meu telefone a espera de alguma ligação. Tanto de Vitor quanto de Valentin. Qualquer noticia para mim serve. Meu nervosismo já assustou todos da casa, até mesmo Julie desistiu de tentar me animar e foi ajudar a sua avó a preparar um bolo de cenoura.
_Sei que já dissemos isso, mas vai dar tudo certo, Valentina. – Sarah diz ao entrar na sala e constatar que eu continuava na mesma posição há horas. – Tente se distrair um pouco.
_Sem querer ser rude, mas se você estivesse no meu lugar, eu duvido que tentaria se distrair. – digo a ela.
Sarah sorri compreendendo minha situação e retorna a cozinha. A casa está silenciosa – a não ser pelo barulho abafado das meninas na cozinha – o restante dos cômodos estão todos vazios, deixando aquele silêncio que mais me faz lembrar os filmes de terror. Nada se parece quando estive aqui pela ultima vez, no nascimento dos gêmeos. Alicia e nem os seus bebês estão aqui, o que acho estranho, uma vez que Vitor disse que todos estariam aqui. Talvez Alicia tenha achado melhor ficar em casa com os gêmeos, afinal, não é recomendável que recém-nascidos fiquem viajando (a casa dos pais de Vitor é bem longe da cidade). Depois de uns cinco minutos, Julie retorna com a carinha suja de chocolate e eu não me aguento e acabo rindo da pequena, que parece ficar contente.
_Até que enfim a tia sorriu. – ela diz levantando os bracinhos para cima, meio indignada e meio satisfeita.
_Deve ser porque você está toda lambuzada de chocolate. Venha aqui.
Puxo Julie para mais perto e retiro as gotas de chocolate de seu rosto.
_Por que a tia está tão triste? – ela pergunta com uma voz manhosa.
A olho e vejo que ela tem os olhos tristonhos. Reflito sobre o que falar, não posso simplesmente contar a uma criança sobre o que acontece na Máfia, de uma maneira ou outra isso pode afetá-la.
_Eu estou triste porque estou com saudades de uma pessoa, mas logo, logo ela já estará voltando. – conto.
_Tomara que ela volte logo, então. – ela diz me abraçando.
Luto contra mim mesma para não chorar novamente e retribuo o abraço de Julie. No mesmo instante, a mãe de Vitor, Margareth, entra na sala apreensiva.
_Eles chegaram. – avisa.
Solto Julie e me levanto rapidamente do sofá, andando até a porta e saindo para a varanda. Depois que se atravessam os portões da fazenda, demora cerca de meia hora até chegar a casa. E tenho certeza que esses trinta minutos vão ser os mais longos da minha vida.
_Tia Valentina, seu celular está tocando. – Julie vem atrás de mim com meu telefone em mãos.
O nome de Valentin pisca na tela. Minhas mãos tremem, mas mesmo assim clico no botão verde para receber a chamada.
_Maledetto*. – o saudei raivosa.
Ouço a risada fria dele pelo telefone.
_Adoro quando é gentil comigo, mon amour.
Sinto meu estomago revirar assim que ele diz isso.
_Se você tiver tocado em um só fio de cabelo de Lia, você vai me pagar. – vocifero.
_Eu não toquei nela. Eu nem a sequestrei. – confessa.
_O quê? – pergunto atordoada.
Pela sua respiração, sinto que Valentin sorri maldosamente.
_Meu problema é com Vitor, minha vingança é para com ele e sua família, que atacaram a minha. Você e sua amiga não tem nada a ver com isso.
Minha cabeça gira e tento similar suas palavras. É então que me recordo das palavras de Mark hoje mais cedo.
“_Sim, mas só isso? – voltou a perguntar. – Pelo o que vocês me falaram, Valentin não é apenas um stalker nível hard, é também um ótimo estrategista. Para mim, ele deve estar bolando algo maior do que apenas te provocar.”
Foi tudo uma artimanha. Lia não é o alvo principal de Valentin.
_Sua amiga apenas pegou um táxi que tinha problemas com o GPS. O carro foi parar no deserto e quebrou. E lá ela ficou por horas até que seu amado e todos os seguranças da Máfia chegaram e a resgataram. – Valentin falou como quem conta uma história. – Me diga Valentina, você não acha que isso foi meio exagerado? Cem homens é muito para quem ficou perdida no deserto. – ironizou.
_E-eu não sei aonde você quer chegar com isso. – disse. — O que você fez Valentin? O que tramou dessa vez? – exigi saber.
_O que eu fiz? – gritou ele do outro lado da linha. – O que o seu marido fez! Ele matou meu primo. E sabe o que fez depois? Mandou a fita da tortura para a família dele assistir. Minhas sobrinhas choram até hoje com as cenas que viram, aterrorizadas pelos gritos do pai.
_Do quê você está falando? – perguntei.
_Lembra-se de Louis? – perguntou ele. – Ele foi capturado no Cassino.
Imagens da noite do Cassino se passam pela minha cabeça.
A angústia de deixar Vitor sozinho naquele galpão.
O desespero quando Muriel foi baleado.
E por incrível que pareça, agora que Louis foi mencionado, lembro-me de tê-lo visto sim, naquela emboscada.
_Se ele foi capturado merecia morte. É assim que funciona. – falei fria.
_Eu sei que é, mas Vitor me confrontou com aquela fita, mon amour. E eu não vou deixar barato.
Meus olhos se enchem. Meu coração bate tão rápido que penso que ele poderá saltar de meu peito. Sinto uma necessidade enorme de saber onde Vitor está agora. Toco meus lábios relembrando nosso último beijo no escritório.
_V-Valentin, o q-que v-você fez? – balbuciei.
_Sua sobrinha é linda sabia? – comenta ele, com alegria na voz.
Instintivamente olho para trás, a procura de Julie e a vejo brincando com uma de suas bonecas.
_É claro que é. E nem comece a dizer que ela está com você, pois ela está bem na minha frente. – digo mais confiante. – Sem joguinhos dessa vez, Corletto.
Valentin ri.
_E quem disse que estou falando de Julie?
Ao fundo ouço o choro de um bebê chorar e os gritos abafados de Alicia.
[...]
A casa está lotada agora. São tantos homens vestidos de pretos que é difícil identificar alguém ali, apenas Mark que se destaca com seu casaco de lã vermelho. Ele está cem por cento concentrado no que faz, digitando freneticamente tentando localizar Alicia e a filha dela, Geovana. Miguel é o que está mais descontrolado. Anda de um lado para o outro e quebra tudo o que vê. Pelo o que Vitor me contou, os homens de Valentin aproveitaram que todos os nossos seguranças estavam indo a procura de Lia e invadiu a casa de Alicia e Miguel. Deixaram para trás apenas o pequeno Lorenzo. Meu coração bate em um ritmo acelerado desde que Valentin desligou o celular há meia hora rindo da minha cara. Ele repetiu novamente aquela maldita frase “Você é ótima para desenvolver planos de ataque, para armar emboscadas, mas não consegue distinguir uma. Chega ser engraçado.”.
_Eu quero todos vocês lá fora, invadindo todos os lugares a procura da minha nora e neta! – gritou Lorenzo. – Vão! – ordenou.
Alguns homens saíram em disparada para fora, não ousando demorar nem mais um minuto ali. Vitor fazia umas ligações. Ele está furioso. Assim como todos, na verdade. Eu estou encolhida em um canto me sentindo culpada. Tudo isso é culpa minha. Se não fosse por mim, Valentin não teria nunca nem tocado nos integrantes dessa família, e agora, um bebê e uma moça inocente são reféns dele.
Quando ficam apenas alguns chefes importantes do Quartel na sala, Lorenzo se vira para eles.
_Eu só quero saber por que Valentin sequestrou a minha nora e neta. – falou entre os dentes. Ele tentava ao máximo manter a calma.
Tremendo um pouco, dou um passo à frente, fazendo todos me notarem.
_Eu sei o porquê. – falo e todos me olham. – Ele quer vingança.
Lorenzo semicerra os olhos para mim, desconfiado.
_Vingança? E pelo que? – perguntou.
Vitor adentrou na sala, escutando nossa conversa. Ele também me olha estranho, fazendo com que eu me sinta pior do que já estou.
_Ele me disse que Vitor matou um membro da família dele, um primo de primeiro grau. Louis. – conto. – Ele quer fazer vingança.
Miguel também adentra no cômodo, possesso de raiva.
_Então quer dizer que ele vai matar a minha mulher? E a minha filha? – gritou para mim.
Tentou dizer algo, mas minha garganta fecha e eu apenas o encaro envergonhada. Ele tem os olhos vermelhos, cheios de lágrimas, o rosto pálido e parece não ter forças para mais nada. John aparece e o puxa para longe. Volto para o meu canto, tentando não chorar. A família toda de Vitor está me olhando estranho, e eu sei o que eles pensam. E eu odeio isso.
_Achei algo! – grita Mark, fazendo com que todos nós nos aproximemos dele.
_O que é? – a maioria presente ali perguntou em uníssono.
_Bom, parece ser... Na verdade é um email que nos enviaram. Tá no nome de Valentin. – disse.
_Abra. – ordenou Lorenzo.
Mark olhou para mim e eu apenas balancei a cabeça, confirmando. Ele sorriu timidamente e fez o que Lorenzo pediu. O email nada mais era que um vídeo.
“Espero que você, Vitor Chaicchio, e toda a sua família, esteja assistindo esse singelo vídeo que fiz para vocês. Divirtam-se.”
A voz de Valentin com seu sotaque francês inunda a sala. Estavam todos atentos, prestando atenção no conteúdo do vídeo. Atônitos com o que poderia acontecer.
A câmera ficou preta e depois voltou, mostrando Alicia sentada, amarrada em um velha cadeira. O cômodo parecia ser um velho açougue pelas paredes brancas manchadas de vermelho. Bom, prefiro achar que era um açougue... A câmera estava direcionada para ela, que está com a cabeça levantada, mostrando alguns pequenos cortes espalhados.
_Desgraçado! – gritou Miguel.
“Vitor fez algo que não me agradou muito.” – começou Valentin. – “Primeiro casou-se com Valentina.” – olhei rapidamente para Vitor, que me assustou aparecendo logo atrás de mim, me abraçando. – “E depois matou meu primo e teve a coragem de mandar um vídeo para a minha família assistir a tortura. Você teve muita coragem, uma pena que agora, um membro da sua família irá pagar por isso.”.
Os presentes suspiraram, esperando pelo pior. Vitor me apertou mais ainda em seus braços, tentando fazer com que eu não olhasse para a tela, mas é vão, meus olhos estão vidrados no vídeo, encarando Alicia.
“Mas para vocês não falaram que eu sou um covarde, irei matá-la de uma vez. Ela não irá sentir nada.”
Conforme Valentin falava, os olhos de Alicia se enchiam de lágrimas, mas em momento algum ela tirou o pequeno sorriso do rosto. Podia-se ver a dor que ela estava sentindo, a angústia, o medo, pavor. Porém ela sorria. Talvez ela estivesse pensando nos filhos, no marido...
“Vamos, se despesa mon cher*.” – disse ele a Alicia.
Miguel não se controlava, lágrimas desciam sem cessar. Ele estava sentado à frente da tela, Mark havia cedido seu lugar a ele.
“Meu amor...” – sorriu Alicia. – “Eu só quero que saiba que eu te amo. Te amo com todas as letras, palavras e pronuncias. Em todas as línguas e sotaques. Em todos os sentidos e jeitos. Com todas as circunstâncias e motivos. Simplesmente te amo. E sempre vou amar. Por favor, não se sinta culpado, isso tudo é apenas um efeito colateral. Eu sabia perfeitamente aonde estava me metendo quando me apaixonei por você. Você tentou me avisar, me afastar... Mas nada adiantou. Você me conquistou, Miguel. Ganhou meu coração em um único olhar. Me pergunto como conseguiu essa façanha. Mas fique sabendo meu amor, se eu pudesse voltar e escolher de novo, eu escolheria novamente você. Todos vivem por uma razão, a minha é você.”
Lágrimas caem do rosto de Alicia, assim como as minhas insistem em cair. Miguel tem um pequeno sorriso nos lábios, encantado com as palavras da mulher. O som de uma arma sendo destrava é ouvida por nós, deixando todos nervosos. Um homem vestido de preto, com roupas e mascara preta, aparece no vídeo e caminha até Alicia, parando ao seu lado. Levanta o braço e aponta uma arma para a cabeça dela.
“Conte aos nossos filhos como nos conhecemos. Conte como nos apaixonamos. E diga a eles que eu os amo muito.”
Vejo Alicia dar seu último sorriso e seu último suspiro são as palavras amo você para Miguel. O tiro é disparado e eu rapidamente afundo minha cabeça no peito de Vitor, o abraçando com força e chorando copiosamente. Vitor me abraça com força e afaga meus cabelos e me leva para fora da sala. Não tenho coragem de ver mais nenhum segundo daquele maldito vídeo. Ouço Margareth entrar na sala e começar a gritar e chorar. Todos ficam pasmos, sem saber o que fazer o dizer para Miguel, que ficou imóvel encarando a tela do computador.
Era isso. Alicia está morta. A ruiva pela qual tinha um grande carinho estava morta.
_Calma. Calma. – Vitor pedia, enquanto me consola na varanda.
_Eu... Sinto... Tanto! – falei entre um soluço e outro.
_Ei, ei, ei. – Vitor chamou minha atenção. – Nada disso é culpa sua! Me ouviu? Nada.
Volto a abraçar Vitor com força e continuo a chorar horrores. Sentia que faltava pouco para que eu colocasse todos os meus órgãos para fora se continuasse a chorar assim, mas a dor é tanta que não a outro jeito de extravassala. O choro dentro da casa dos pais de Vitor é outra ferida minha que arde. Mesmo sabendo que a vida um dia acaba, a gente nunca está preparado para perder alguém.
[...]
Eu não sei quanto tempo fiquei chorando, mas já era tarde da noite quando Vitor conseguiu me levar para dentro, pedindo que eu descansa-se um pouco. Caminho lentamente até um dos quartos, minhas pernas, assim como todo o meu corpo doem. Abro a porta do quarto e entro, encontrando o pequeno Lorenzo dormindo tranquilamente no berço ao lado da cama. Devo ter entrado no quarto errado, mas mesmo assim eu me aproximo dele e consto que ele não está dormindo, mas sim acordado. Ele brinca com as meias nos pés e sorri a me ver. E pela segunda vez nesse dia, eu sorrio. O pego no colo e o acaricio. Ele não faz ideia do que está acontecendo ao seu redor e que queria ter a inocência dele nesse momento.
_Olá pequeno. – digo e ele sorri. – Sabe, aqui está tudo desmoronando. Uma coisa horrível aconteceu e – minha voz embarga. – e eu sinto muito. Eu não vou dizer que essas coisas acontecem no mundo em que vivemos, porque isso não devia acontecer. Não foi justo o que aconteceu com a sua mãe... Mas eu vou te fazer uma promessa, eu vingá-la, tá legal? E irei trazer a sua irmã de volta, sã e salva. Eu prometo Lorenzo. Nem que essa seja a ultima coisa que eu faça.
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