A Máfia
17 A culpa é das cozinheiras ?
Notas iniciais
“_Eu não sei. Eu só... amo. Amo quando você demonstra que se preocupa comigo, amo quando me toca com delicadeza, amo quando acaricia meu rosto, amo quando me faz me sentir mulher na cama, amo quando você dá esses seus sorrisos lindos, amo quando fica bravo e fica com aquela cara sexy, amo quando fica bravo comigo e tenta ao máximo não tentar me estrangular, amo sua sinceridade. E amo ainda mais quando recita poemas para mim. Eu amo a sua vida e eu amo tudo o que é seu.
Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu nada, apenas porque o seu nada também é seu. Eu amo tudo em você, Vitor.”
Dizem que quando você coloca tudo o que sente pra fora, você se sente melhor.
E eu estou me sentindo ótima!
Meu estômago parece estar infestado de borboletas, o sorriso não larga o meu rosto e eu me sinto tão... Tão apaixonada! Expressar o que eu sentia para Vitor mais uma vez foi meio que libertador. Aquela briga interna comigo mesma estava me fazendo mal, eu tinha que colocar aquilo pra fora de uma vez por todas! Precisava admitir para mim mesma que eu o amava mesmo depois de tudo.
Certo, ele não me ama. E me dói um pouco. Mas ele gosta de mim, se importa comigo, disso eu tenho certeza. E quem sabe aos poucos esse sentimento não floresce? Ah, isso seria incrível!
_Devia dormir um pouco.
A voz rouca de Vitor me tira de meus devaneios. É madrugada e faltavam poucas horas para o sol raiar. Eu estava deitada de bruços enquanto Vitor estava deitado de costas e fazia carinho em meus cabelos. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, e apenas o lençol de seda cobria o meu corpo desnudo. Eu estou virada para ele e consigo sentir seus olhos sobre mim.
_Se parar de me encarar dessa maneira, talvez eu consiga. – disse ainda com os olhos fechados.
_Não dá, você é linda de mais. – falou em italiano ao pé do ouvido, me fazendo arrepiar por inteira.
_Não fale em italiano quando eu estiver nua nesta cama, você sabe aonde isso leva! – exclamei.
Ouço a risada rápida de Vitor e viro a cabeça para o outro lado. Vitor passa a sua mão pelo o meu pescoço e depois a desce levando o lençol junto com ela, deixando a minhas costas desnuda. Ele então começa a distribuir beijos por ela toda causando sensações inadequadas.
_Então meu italiano te excita? – perguntou em italiano entre os beijos.
_Sabe que sim, então pare já com isso! – respondi, tentando afastar de mim os pensamentos sujos que invadiram minha mente. – Você disse que eu devia dormir então me deixe dormir.
Mesmo não vendo seu rosto, sei que ele sorri. Ele volta a me cobrir com o lençol e me puxa para ele, me fazendo deitar em seu peito.
_Vitor? – o chamei. – Promete nunca mais mentir para mim novamente?
Ele respira fundo, incomodado. Meu coração dói só de pensar em coisas ruins, mas isso logo desaparece quando ele beija o topo da minha cabeça e diz em italiano que nunca mais faria isso.
[...]
O dia amanheceu lindo, o céu estava coberto por uma imensidão azul, sem nenhuma nuvem para enfeitá-lo. Vitor já havia saído para trabalhar e eu, como sempre, estava na cozinha comendo os bolinhos de chocolates. Lia ainda dormia, devido ao horário que chegou à noite anterior de um encontro com Muriel. Essa amizade colorida só pode acabar de dois jeitos: com ela grávida ou ele com um olho roxo. Ou das duas maneiras.
_Sempre comendo... – exclamou Josué adentrando na cozinha.
Mostro a língua para ele que ri mostrando os dentes perfeitos. Há quanto tempo eu não o via?
_Você por acaso já experimentou a comida daqui?! Josué, elas conseguiram superar a sua mãe! – falei com a boca cheia de bolinhos.
Ele riu de mim e se sentou ao meu lado no balcão. Ele tinha um semblante triste e parecia que algo o incomodava.
_O que foi? – perguntei batendo de leve em seus ombros.
_Dona Edna ligou ontem para mim. Ela esta com saudades de você. – falou ele. Edna, a cozinheira da casa de meus pais, é também mãe de Josué e é como se fosse minha segunda mãe.
_Também estou, queria muito ir vê-la.
_Eu queria ir visita-lá Valentina.
_Josué, — olhei para ele. – você não está preso aqui. Pode ir visita-lá quando quiser.
Josué veio para Chicago afim de me proteger, cuidar de mim, já que ele não confiava em Vitor. Mas sua mãe é da Itália, assim como a minha família é. E agora que eu e Vitor nos entendemos, não tem o porquê dele ficar aqui vinte e quatro horas me protegendo.
Josué é meu melhor amigo e ele já fez muitas coisas por mim. Estava na hora dele cuidar de si mesmo.
_Sei disso, mas meu ponto é outro, Valentina. Queria que você fosse comigo, para que também veja seus pais.
Respiro fundo e fecho os olhos. Pensar em meus pais me deixa com vontade de chorar. Sinto tanto a falta deles...
_Josué, eu e meu pai não, não vai dar certo. – comecei pensando em nosso reencontro.
_E por que não? Valentina você já perdoou Vitor, poderia perdoar também o seu pai.
Me levanto e começo a andar pela cozinha, com Josué atrás de mim.
_É diferente, Josué. Eu amo Vitor! – esbravejei.
_Seu pai também te ama! Se você foi capaz de perdoar alguém que nem te ama, por que não pode perdoar alguém que fez de tudo para te proteger? – gritou ele de volta.
_Chega! – gritei.
Minha cabeça dói com tantos pensamentos indo e vindo. Encostei-me na bancada da cozinha com as mãos na cabeça. Josué tinha razão, mas queria que ele não tivesse.
E do que o meu pai estava me protegendo?
_Valentina, pense nisso, por favor. – pediu ele.
_Eu já pensei. – afirmei.
Ele respirou fundo e saiu da cozinha. Continuei ali, pensando. Talvez eu estivesse sendo mesquinha ou algo assim. Como Josué disse, eu fui capaz de perdoar Vitor e não estou sendo capaz de perdoar meu próprio pai.
_Devia ir visitá-los. – a voz de Vitor invade o cômodo e logo levanto a cabeça, o encontrando encostado na batente da porta com os braços cruzados. – Vai te fazer bem.
_Eu sei que vai. Mas não sei se to preparada. – confessei.
Ele caminhou até a mim e acariciou meu rosto. Fechei os olhos e senti seu toque sobe minha pele.
_Eu vou estar com você. – falou convincente.
Ele depositou um beijo em minha testa e ficamos ali por um momento. Minha cabeça está agora em outro mundo, penso em como será a conversa que terei com meu pai. Na nossa reconciliação e se a partir desse ponto voltaremos a ser como éramos antes, como uma família grande e feliz. E por breves segundos imagino a minha família reunida com a família de Vitor. Todos sentados em uma grande mesa, comendo, bebendo e conversando sobre coisas paralelas. Todos felizes e alegres. Como uma grande família feliz... Permito-me sorrir ao imaginar essa cena. O mais perto que tive de um encontro de família foi com a família de Vitor na casa de seus pais.
_Que sorrisinho é esse? – pergunta Vitor desconfiado.
Sorrio e o puxo para um selinho.
_Imaginei como seria um encontro entre nossas famílias. Como naqueles filmes natalinos onde as famílias se reúnem em um grande jantar e conversam alegremente... Seria divertido. – contei.
_É, seria. Nossas mães falando o quanto éramos travessos quando crianças, nossos pais discutindo o trabalho sobre a Máfia.
_Sobre os valores da Máfia. – o corrigi entrando na onda.
_Crianças correndo de um lado para o outro enquanto gritam sem parar. – ele continuou.
_Ah, que perfeição! – brinquei.
_Quer saber? Devíamos mesmo reunir nossas famílias para o natal, será uma experiência incrível! Sua amiga e Muriel estão convidados também.
_Achei que não gosta-se dele. – falei lhe abraçando pelo pescoço.
_Não gosto dele solteiro jogando charme para cima de você, mas agora que ele e Lia estão de caso, por mim tudo bem. – contou ele dando de ombros.
_Sabe que os dois não vão acabar bem ,não é?
_Talvez sim, talvez não. Os dois são farinhas do mesmo saco, Valentina. Pra mim, isso acaba em casamento.
Olho pra ele incrédula. Casamento? Os dois?
_Eles casados? Sério? – perguntei.
Vitor me pega no colo e me põe sentada na bancada.
_Eles irão brigar muito e a cada briga vão ver como precisam um do outro e no final, talvez essa parte demore um pouco, eles terão certeza de que foram feitos um para o outro. Resultando em um casamento longo e feliz.
Não aguento e começo a rir. Dá onde Vitor tirou isso?
_Vitor, pare de assistir essas novelas mexicanas. Isso está te afetando. – falei ainda rindo.
Ele revirou os olhos.
_Vamos ver quem ri por ultimo quando os dois confessarem que se amam. – falou ele.
Paro de rir e o encaro.
_Isso é uma aposta, Sr.Chiacchio? – perguntei arqueando as sobrancelhas. Eu não consigo arquear somente uma. Triste, eu sei.
_Podemos dizer que sim, Sra. Chiacchio. Só não vale fazer a cabeça da sua amiga para que termine com ele.
_Sem problema, prometi a ela que não irei mais me interferir em seus relacionamentos. – contei.
_Duvido que consiga fazer isso... – sussurrou ele baixinho enquanto se virava para o balcão. Bati em seu ombro contrariada, eu consigo sim! – Dios Valentina, você comeu todos esses bolinhos?
Olho por cima de seu ombro e vejo várias forminhas de papéis amassadas, denunciando meu ato. Ele se virou para mim incrédulo, afinal, eram trinta bolinhos de chocolate e morango.
_Eu estava com fome! – defendi-me.
_Mas você tomou café da manhã. – ele lembrou, ainda não acreditando na quantidade de embalagens jogadas sobre o balcão.
_Eu não tenho culpa se suas cozinheiras têm mãos de fadas.
Vitor riu de mim jogou as embalagens no lixo.
_Creio que irei almoçar sozinho hoje. – falou.
_Por que diz isso?
Ele olhou para mim mais uma vez como se não tivesse acreditando.
_Você vai almoçar? – perguntou.
_Claro que sim! Hoje tem lasanha! – rebati.
Na boa, eu não sei o que deu em Vitor. O mesmo sorriu abertamente e nesse mesmo instante, Dominique anunciou que o almoço já estava sendo servido. Ignorei Vitor e segui para a sala de jantar. Se ele supuser que eu esteja ficando gorda, a coisa vai ficar feia. Na verdade, não ligo muito, sempre fui de comer muito, se bem que, desde que vim para a casa de Vitor, andei comendo mais do que devia e estou ganhando alguns quilinhos a mais. Porém, a culpa é das cozinheiras, sim, por cozinharem tão bem!
[...]
Ah, como eu adoro comer lasanha!
Infelizmente, só consegui comer alguns pedaços (dois) pois eu estava cheia de tantos bolinhos. Vitor se acabou de comer, quase comeu a lasanha inteira. E depois vem falar de mim... Quando ele já estava indo embora, tomada pela decisão de hoje cedo, o chamei.
_Se estiver tudo bem para você, eu gostaria de ir visitar meus pais o quanto antes. – falei.
Ele me olhou e seus olhos ficaram misteriosos.
_Partiremos amanhã, então.
Ele depositou um beijo em minha testa e foi embora.
Amanhã.
Amanhã irei rever meus pais e tentar por um fim nesse nosso drama mexicano. Eu realmente desejo que as coisas deem certo, mas às vezes meu pai é tão cabeça dura que faz com que eu me irrite fácil demais e desista de tudo. Mas eu preciso esquecer toda essa história de casamento arranjado, mentiras e ilusão. E só conseguirei fazer isso se eu, de uma vez por todas, perdoar meu pai. Claro que isso não será tão fácil, isso só o tempo apaga. Entretanto, aceitando o fato, já é um começo.
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