A Muralha
5 Queda Escarpada.
Rafael passou o dia dentro dos aposentos da torre dos novatos, ninguem teve coragem de perguntar o que aconteceu. Os mestres levaram o corpo do patrulheiro para enterra-lo e alguns outros patrulheiros sairam a caça de pistas e do paradeiro da criatura que fez tal crueldade.
A neve preenchia o gramado e a terra, um cheiro peculiar de charuto de canela invadiu o quarto de Rafael. Na porta estava Bartolomeu e um dos patrulheiros chamado Nizaran, responsavel pela coleta de jovens para a patrulha da noite.
–Olá Rafael. Acho que você conhece o irmão Nizaran, não é mesmo?
Rafael balançou que sim com a cabeça e Bartolomeu continuou.
–Ele esta indo para a cidade de Queda Escarpada para juntar alguns jovens e traze-los, de bom grado ofereceu para leva-lo junto. Claro se você concordar. — Um breve silencio enquanto os olhos profundos de Bartolomeu analisavam Rafael, Nizaram com sua barba longa em tranças ficava em silencio, seu cabelo longo e castanho fediam cada vez mais a canela. — Você pode aprender mais com a patrulha e principalmente se livrar desse trauma que sofreu, entendo que um dia se tornara patrulheiro, mas deve ser dificil para um rapaz como você ver um companheiro dilacerado. Então?
Rafael ainda apreensivo concordou.
–Sim. Quando vamos?
–Agora, pegue suas coisas.
Nizaran abriu a porta e esperou os movimentos de Rafael com impaciencia e batidas com o pé fazendo barulho irritante.
–Bom, vou deixa-los. Boa Viagem Rafael, Nizaran.
Bartolomeu baixou a cabeça e saiu com passos largos e firmes como de costume.
–O que eu levo?
Perguntou Rafael. Nizaran cuspiu algo preto no chão e o olhou carrancudo.
–O que puder carregar.
Nizaran e Rafael sairam do castelo negro durante a noite, seria um dia de viagem até Queda Escarpada, uma cidade conhecida pela beleza e população exuberante, muitos dizem que uma familia incrivelmente poderosa viveu lá, mas Rafael não sabia muito sobre eles.
Os cavalos marchavam e mais silencioso que a mata eram os dois patrulheiros que não se comunicavam nem com gestos.
Nizaran não tomava parte da conversa e Rafael preferia assim. Não encontrará Avalon para se despedir e sentia algo estranho no coração.
Foram duas paradas breves para um descanso curto e necessidades. Com uma marcha mais rapida ao meio dia já estavam avistando além de uma grande clareira a cidade de Queda Escarpada. Incrivelmente arquitetada, com as mais luxosas e trabalhadas construções, minuciosamente detalhado, trabalho feito pelos anões conhecidos pela estrutura classica, forte e inigualavel. O que Rafael achava mais interessante eram que as construções tinham uma cor avermelhada com a luz do sol, indicando que fora utilizado terra vermelha para fazer o muro alto e o castelo ao centro.
Na entrada, haviam varios soldados fortemente armados que observaram a chegada dos dois pelo canto dos olhos.
Patrulheiros eram antigamente bem vistos, mas hoje não passavam de gastos que os reinos deixaram "roubar" da população, o que causou uma crise enorme e a revolta do povo até que a verba foi cortada definitivamente.
Dentro das paredes altas os aldeões observavam carrancudos, mas Nizaran parecia acostumado e ignorou o tempo todo, assim como fez com Rafael durante a viagem.
Os dois seguiram para o castelo quando foram barrados pelos soldados com vestes vermelhas e capas brancas.
–Pois não senhor?
Perguntou um homem de cabelos dourados e longos, seus olhos brancos demonstravam a cegueira, mas em nenhum momento o desconhecimento de com quem estava falando.
–Somos da patrulha da noite, viemos ver o Rei Faral para recolher os escravos.
Respondeu Nazaran que logo foi interrompido sem a menor preocupação do Loiro alto.
–Eu sei quem você é, me referi a ele.
–Ah sim, Ele é aprendiz, me substituirá logo logo e por isso esta aprendendo a recolher escravos.
O rapaz levantou a sobrancelha.
–E o que demais precisa saber para isso?
Nizaran estava a ponto de explodir, mas foi Rafael que respondeu.
–Para alguem com poucos talentos, apenas um dia observando o Mestre Nizaran seria insuficiente para entender como ele fez uma incrivel escolha ao decidir pela qualidade de uma cidade como Queda Escarpada e seus habitantes, sejam escravos ou não. Como consequencia eu iria levar escravos de pessima qualidade.
O homem atras se movimentou inquieto como se segurasse um riso. Agora Rafael o percebeu direito, era tão alto quando o loiro porém mais forte e robusto, seus musculos eram claros e deixavam as roupas esticadas ao maximo. Já seu rosto era coberto por uma mascara sorridente e seus cabelos raspados.
–Bom, me acompanhem.
Disse o loiro relutante.
O castelo era incrivel por dentro, tinha detalhes de Rubi por todos os cantos e principalmente no teto onde era detalhado com desenhos e muitos outros rubis espalhados, seja qual era o rei, Rafael não entendia o amor por vermelho.
Enquanto caminhavam pelos corredores largos, varios outros homens de vestes vermelhas e capas brancas conversavam em baixo tom.
A porta dupla tinha desenhos de olhos gigantes e ameaçadores o que fez Rafael tremer as pernas. Dentro da sala haviam vários outros guerreiros que olhavam de mau gosto para os dois patrulheiros. Rafael pode perceber que varias colunas estavam espalhadas pela sala e faziam o formato de um furacão.
–Lorde, os patrulheiros da noite vieram solicitar ajuda.
Todos abafaram um sorriso como se tivessem escutado uma piada antiga,
Nizaran estava com o punho fechado e parecia trincar os dentes de raiva.
–O que desejam?
Disse uma voz abafada além de uma cortina no fim do salão.
–Lorde Faral, venho solicitar mais jovens para se juntar a patrulha da
noite.
–Entendo, mas seria justo ao invés de disponibilizar jovens para a minha
frota que lutam por mim o tempo todo e entregar a vocês que não protegem nada.
–A muralha precisa de nós.
Quem respondeu foi Rafael. Os guardas começaram a sacar suas espadas e
Nizaran segurar o braço de Rafael. A silueta atrás da cortina se moveu desconfortável e nesse instante um perfume que para Rafael era familiar, cheiro de Orquídeas. O mesmo perfume que Avalon exalava. Era embriagador, Rafael parecia se sentir atraído por aquele perfume o que o fez dar um passo a mais. Todos os guardas fecharam um circulo em Rafael e apontaram suas espadas para o pescoço dele.
–Deixe que ele venha.
Disse o Lorde.
Os guardas relutantes baixaram suas armas e observaram indignados a
aproximação que Rafael tinha.
Ele ouvia em seus pensamentos a voz de Avalon lhe dizendo para não
prosseguir, o medo percorria seu corpo, era a mesma sensação da noite passada.
Mas Rafael desejava saber porque o mesmo perfume de duas pessoas que estão a quilômetros de distancia. Rafael sabia que não era natural, ele nunca havia sentido em sua vida o mesmo perfume.
Entre os pensamentos Rafael estava rente a cortina e a silueta de pé. O
cheiro estava mais forte.
–O que você está pensando rapaz?
Perguntou o Lorde com uma voz tão aveludada e doce quanto a de Avalon.
–Estou lembrando de uma pessoa.
–E porque isso agora? Não devia estar com medo, não sente arrepios?
Perguntou duvidoso o Lorde, Rafael não entendia a pergunta, mas resolveu
responder.
–Estou acostumado, é o que senti quando – Rafael sorriu lembrando de quando apanhou para Avalon e como ele lhe dava medo as vezes e ao mesmo tempo um sentimento cálido. – Quando lutei com Avalon.
A silueta se moveu e gritou.
–Retirem eles daqui! Agora!
Os guardas levaram os dois a empurrões para fora e fecharam as portas do
castelo.
Rafael olhou para Nizaran.
–Nem comente rapaz.
Disse Nizaran seguindo até um das tavernas de Queda Escarpada.
A taverna Wrafton esta lotada, muitos bêbados e bardos faziam do lugar uma
zona de barulho e bagunça.
–Dois quartos de solteiro por favor
Pediu Nizaran a um homem velho de poucos cabelos e rosto de cavalo.
–Desculpe senhor, mas só temos um quarto sobrando.
A voz dele era tão rouca e quase inaudível.
–Pode ser.
Nizaran pegou a chave e puxou Rafael pelas escadas. O quarto era simples
haviam uma cama e um sofá velho no canto em que Nizaran se sentou e pousou as mãos na cabeça.
–O que o lorde te falou.
Rafael sentia o vento através da janela.
–Perguntou se eu estava com medo.
–O que você respondeu?
–Que não!
–Talvez sua petulância tenha feito perdemos credibilidade
Disse Nizaran preocupado.
–E tínhamos alguma?
Rafael respondeu zangado.
–Provavelmente não. Agora descanse, vou beber um pouco.
Rafael concordou e se deitou na cama, mas antes de Nizaran sair fez uma ultima pergunta.
–Porque Avalon sumiu?
Nizaran levantou a sombrancelha.
–Não ficou sabendo? Ele decidiu atravessar a muralha e buscar pistas sozinho. Agora deite e durma.
Nizaran bateu a porta e Rafael parecia perplexo, Avalon não havia avisado ele, ninguém parecia se preocupar em deixa-lo sozinho.
Rafael permaneceu olhando para o teto até seus olhos se fecharem e seus pensamentos se calarem.
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