A Mulher de Carmesim
1 Dias Tenebrosos
Notas iniciais
Paisley Park, Chanhassen – 17:12 hrs
O céu alaranjado já estava, aos poucos, assumindo a coloração azul dos pecados da noite quando as dançarinas novatas chegaram em Paisley Park.
Localizada no Estado de Minnesota, o berço do artista, Prince Nelson escolheu manter os pés em suas raízes ao invés de abraçar o mundo com entusiasmo. Criou o seu próprio paraíso, branco e monótono por fora, colorido e cheio de vida por dentro, para ter um pouco de sossego e liberdade em seu estilo de vida voraz e dilacerante, e para utilizar como bem entendesse seu próprio talento sem as amarras das gravadoras e dos empresários.
Chegou de mais um passeio trivial pelas ruas de suas terras em uma limusine preta e discreta, se podia-se chamar assim. Seu segurança abriu a porta e o deixou passar; quis seguir diretamente para dentro, estava a fim de tomar um drink para reaver as energias e gravar alguma coisa antes de aposentar a noite.
Porém, bastou pôr os pés para fora do carro que pôde enxergar um pequeno grupo de garotas aparentemente o aguardando do lado de fora da mansão. Não tirou o olhar delas por nenhum segundo.
— Meu astro!!
Ted, o seu faz-tudo, chegou com a sua empolgação de costume. Ajeitou o casaco azul marinho que usava, como se tivesse a esperança de aquela peça elegante o transformar magicamente em alguém de seriedade, em seguida cumprimentou o homem, que o ignorou completamente.
— Está olhando pras meninas, não é? Elas acabaram de chegar! Fizemos uma pré-entrevista com elas, mas eu não sei se você vai querer fazer out…
Ignorando todo aquele falatório, o moreno seguiu adiante sem revelar suas intenções. O olhar, antes surpreso, agora era enigmático e decidido. Ajeitou a curta jaqueta preta que usava e pôs os óculos escuros; naquele dia havia escolhido tons que destoavam do seu usual colorido e, agora, se perguntava se tudo aquilo não havia sido o propósito do destino. A cada "toc" que suas botas faziam, mais em alerta as meninas pareciam ficar, uma a uma, despertando para a sua presença. O cantor era seguido por seus seguranças mais atrás, e então, quando ele julgou estar próximo o suficiente, olhou para a única do grupo que havia chamado sua atenção; a única que havia levado sua voz e desligado seus sentidos do ambiente ao redor.
Já viu muitas mulheres dignas de serem consideradas musas mundiais, mas havia outra coisa no semblante daquela garota que chamou sua atenção: os olhos meigos, o sorriso ingênuo, a postura sincera. Pela primeira vez, sem dizer uma palavra, estava tendo acesso às poucas nuances do coração dela, e pela primeira vez isso foi mais importante que sua bela aparência.
— Você.
Ela estagnou ao perceber com quem ele estava falando. As demais dançarinas, um pouco perdidas, apenas se afastaram para deixar o chefe mais à vontade. Prince não se importava com o que faziam, ele estava completamente alheado do mundo à sua volta, os olhos daquela menina prenderam toda sua atenção.
Ela não o respondeu, não sabia sequer o que falar. Viu o homem levar as mãos aos bolsos e, em uma postura calma e decidida, inclinou-se lentamente para que apenas ela ouvisse as suas palavras.
— Você será minha esposa.
Ela custou para absorver aquelas palavras, porém, quando pensou em questioná-lo, viu aqueles belos e andróginos olhos cor de caramelo deixarem o seu campo de visão para seguir para dentro de Paisley Park e não serem vistos tão cedo. Mayte não teve sequer coragem de virar-se para saber para onde ele foi ou em qual corredor virou, seu corpo ainda estava paralisado, sabia que ele havia mexido em alguma coisa dentro do seu coração.
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Área particular de Paisley Park (anos depois) – 17:12 hrs
Ver o fogo crepitar sobre as roupas, os brinquedos e todo o enxoval de seu único filho era tão agonizante quanto viver eternamente presa em um pesadelo.
Ele sequer havia lhe avisado alguma coisa, sequer havia feito uma ligação. Prince não julgou ser importante, pois os seus desejos estavam acima de qualquer um. Mayte levou as mãos ao rosto e chorou copiosamente, gemendo de dor ao ver cada objeto daquele, comprado com tanto amor, ser destruído sem nenhum tipo de compaixão. Ele sequer se perguntou se isso, em algum momento, a faria se sentir bem.
Teve vontade de tirar satisfações, mas raramente levantava a voz ou questionava as decisões do marido. Prince não era violento, porém era controlador e tinha uma admirável capacidade de convencimento. Ela não fazia ideia de como faria para ultrapassar aquela barreira de autoridade, contudo amava o seu filho tanto quanto o cantor e se sentia egoísta enquanto não o enfrentasse pela sua criança.
Ainda tremendo e chorando, adentrou à mansão e pensou em buscar o primeiro funcionário que encontrasse para saber onde Prince estava, entretanto não precisou ir muito distante, pois o encontrou na sala principal preparando-se para ir embora.
— Prince…
Ela o chamou. Os seus passos cessaram, mas ele não se virou. Sabia o que havia feito e o que ela diria, e sinceramente não estava interessado em lhe dar satisfações.
— Por favor…
Ele fez um sinal para que ela ficasse quieta e, enfim, olhou em seus olhos. O que ela viu foi um homem tentando de todas as formas não explodir na sua frente.
— Fique quieta. Mayte, fique quieta…
— O que você fez…?
— Cale a boca, cale a boca! Você não tem o direito de questionar nada! — ele lançou no chão o casaco que tinha em mãos. — Eu que comprei aquelas coisas, eu que te trouxe pra cá! O que você era antes de me conhecer? Vamos, me diga!
Ela fechou as mãos em punho, incrédula com o que havia ouvido. Ainda em choque e com o olhar congelado, custou a responder qualquer coisa, não fazia ideia de que um dia ele teria coragem de dizer aquelas palavras.
— Eu… eu não pedi nada a você!
— Ótimo, então vá embora!
Sem sequer lhe dar a chance de responder, o homem avançou em passos apressados em sua direção. Não a tocou, mas, por um segundo, Mayte quase sentiu que ele o faria, e pensar nessa possibilidade a assustava de todas as formas. "Prince nunca foi violento, nunca foi violento", repetia freneticamente em seus pensamentos.
Deixou seus medos a dominarem, deu alguns passos assustados para trás e acabou caindo no sofá logo atrás de si. Ele sequer pensou em perguntar se ela estava bem, pois mesmo aquela queda boba poderia ter resultado em algo pior, afinal, Mayte ainda estava se recuperando de um parto. Faziam-se apenas poucos dias que havia dado a luz, e poucos dias que o seu bebê havia partido.
— Eu…
— Isso é culpa sua! Sua mentirosa! Cretina! Olhe nos meus olhos e me diga que não sabia que ele ia morrer! Me diga!
Segurou o seu rosto e a forçou a olhar em seus olhos. Pouco a pouco, ela viu o seu semblante mudar, viu a ira o consumir e o transformar em algo que ele não era, em algo que ele nunca foi. Ele estava mudando.
— M-me solte!
A soltou com certo desdém, e o fez com prazer, como se estivesse buscando se contentar com aquilo, contendo-se para não estapear o seu rosto. Mayte percebeu cada um daqueles detalhes, porque não era algo corriqueiro no comportamento do homem, aquele não era o seu Prince.
Ou, se era, ele escondeu muito bem.
— O que é você…?
Ela murmurou, tornando a chorar em silêncio. Sua maquiagem era apenas um monte de borrões, as lágrimas cintilavam nas suas bochechas e o seu olhar era um misto de raiva e pavor.
Todavia, ele não respondeu. Ainda segurando-se para não fazer uma besteira maior, a olhou uma última vez com desprezo antes de recolher o seu casaco no chão e se afastar.
Não sabia para onde iria, mas iria para longe.
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Estúdio de gravação, Paisley Park – 17:36 hrs
Era previsível que ele buscasse refúgio no próprio trabalho, mas foi o que fez.
Seguiu em direção ao estúdio, não desviou em momento algum, trancou-se ao colocar os pés no seu ambiente sagrado e se acomodou na primeira cadeira que viu. No mesmo instante, sentiu o peso da fúria em seus ombros; seus dedos tremiam, prontos para destruir a primeira coisa ao alcance de seu olhar. Prince estava furioso e nada o convenceria de que não tinha razão. Seu filho durou apenas 10 dias naquela incubadora, enjaulado, sem o mínimo direito de ver o nascer do sol de fora do hospital, e tudo isso por causa de uma falha genética. Não havia a quem culpar, mas ele buscou um alguém.
— Senhor Nelson?
Um funcionário o chamou. Prince só precisava de um gatilho para empurrar com violência aqueles materiais caros de mixagem no chão, e ouvir os seus estalos se partindo era de alguma forma confortante.
— Senhor, está tudo bem?
Não respondeu. Apertou os olhos, tentou segurar as lágrimas, mas perceber que ia chorar lhe deixou ainda mais furioso. Limpou rapidamente o rosto antes de ouvir o homem falar mais uma vez.
— O senhor Graham quer vê-lo…
— Diga a ele que não quero ver ninguém!!
Exclamou, antes de jogar mais um daqueles aparelhos no chão. Ele estava cansado, abatido, e, assim que não encontrou nada mais para quebrar, sentou-se no chão, apoiou as costas na parede e se permitiu chorar. Disse há muito tempo que jamais choraria novamente; disse quando fora expulso de casa pelo próprio pai, mas não conseguiu cumprir sua palavra, pois mesmo o homem mais equilibrado tropeça em dias tenebrosos.
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