A Moça

1 O lago reflete


Notas iniciais
Apenas um devaneio que eu decidi aproveitar. Por favor, poupem comentários sobre como o texto é pequeno. Apesar de ser classificada como +16 por pura precaução, a estória é leve.

A MOÇA

Slippery Sanity

A moça sentou-se à borda do lago.

Seus cabelos brilharam fronte ao fulguro heliocêntrico. Ali só existia a beleza do mundo exterior, e o cheiro limão que sua pele exalava. O sol parecia estar cada vez mais perto, ele era frio, mas a moça não se importaria caso aquela grande bola brilhante e nostálgica lhe consumisse. Não. Seria uma dádiva.

E após aquilo — após aquilo qualquer coisa era boa o suficiente. Será que ela era feia? Sua mãe sempre lhe dissera que não, mas... ela sempre fora a única que a entenderia numa hora dessas. E ela mentiria, ela mataria, ela iria até o fim do mundo para proteger sua progênita. E ela foi. “Não é, mamãe?”, a moça pensou, abraçando os joelhos. “Porque você me abandonou? Estou tão sozinha.”

Será que ela não era inteligente o suficiente? Certamente ela não era. Comparada a ela, sua linda, sua boneca, sua amante... ela brilhava mesmo dentro de uma sala sem portas e janelas.

Será que ela era tanto um pedaço de merda que deveria seguir o fluxo da descarga inesperada? Porque a moça se sentia assim, agora. E era tão frustrante poder fazer absolutamente nada. Era tão frustrante ficar sentada em um lago eternamente, com aquele sol — aquele sol que se fora.

A chuva caía forte, e a terra molhada era tão profunda que a moça quase sentia o gosto. Era bom. Ela estava com fome, talvez... não. As gotas insensíveis lhe reconfortavam — batiam nas suas costas nuas, castigavam o vestido não mais alvo, desvaneciam seu cheiro para sempre. Para sempre naquele momento era tudo o que a moça queria.

Então, com um clarão, folhas de outono caíram de qualquer lugar no céu e a adornaram. Eram seus galhos se quebrando? A árvore da vida estava a deixando e chorando suas folhas estragadas. Suas folhas velhas e imundas, que ninguém queria, ninguém apreciava. Ela não apreciava. Por quê? Eram só pedaços amarelados e secos de uma planta.

Amarelada, pois estava doente de tudo aquilo. Seca, porque não havia mais lágrimas esperando para sair; e pedaços... porque era como a moça estava agora. Despedaçada.

Ela queria morrer.

Mas a moça já não estava morrendo? Ela sentia que sim. Linda manhã cinza-chumbo, me leve, ela implorava, me leve, ela chorava, me leve, ela sangrava. O mundo agora era vermelho. Era bordô. Era escuro, e límpido, e todas as suas memórias estavam na superfície, esperando um visitante bravo o suficiente para mergulhá-las.

Não havia visitante, não é, moça?

Os cantos da saleta eram marrons, as teias de aranha os consumiam. Uma mesinha quebrada e que quase não agüentava seu peso posava lá, gentil, olhando para a moça com seus olhos de madeira. Mas ela não lacrimejava. A mesa sorria. Parecia ela.

Então seus olhos arderam, e a moça os virou para o chão. Lá estavam seus pés moles, largados e sem músculos, e o chão que a moça nunca mais pisaria.

O para sempre era bom, mas o nunca... a moça nunca esqueceria.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!