A Moça
1 O lago reflete
Notas iniciais
A MOÇA
Slippery Sanity
A moça sentou-se à borda do lago.
Seus cabelos brilharam fronte ao fulguro heliocêntrico. Ali só existia a beleza do mundo exterior, e o cheiro limão que sua pele exalava. O sol parecia estar cada vez mais perto, ele era frio, mas a moça não se importaria caso aquela grande bola brilhante e nostálgica lhe consumisse. Não. Seria uma dádiva.
E após aquilo — após aquilo qualquer coisa era boa o suficiente. Será que ela era feia? Sua mãe sempre lhe dissera que não, mas... ela sempre fora a única que a entenderia numa hora dessas. E ela mentiria, ela mataria, ela iria até o fim do mundo para proteger sua progênita. E ela foi. “Não é, mamãe?”, a moça pensou, abraçando os joelhos. “Porque você me abandonou? Estou tão sozinha.”
Será que ela não era inteligente o suficiente? Certamente ela não era. Comparada a ela, sua linda, sua boneca, sua amante... ela brilhava mesmo dentro de uma sala sem portas e janelas.
Será que ela era tanto um pedaço de merda que deveria seguir o fluxo da descarga inesperada? Porque a moça se sentia assim, agora. E era tão frustrante poder fazer absolutamente nada. Era tão frustrante ficar sentada em um lago eternamente, com aquele sol — aquele sol que se fora.
A chuva caía forte, e a terra molhada era tão profunda que a moça quase sentia o gosto. Era bom. Ela estava com fome, talvez... não. As gotas insensíveis lhe reconfortavam — batiam nas suas costas nuas, castigavam o vestido não mais alvo, desvaneciam seu cheiro para sempre. Para sempre naquele momento era tudo o que a moça queria.
Então, com um clarão, folhas de outono caíram de qualquer lugar no céu e a adornaram. Eram seus galhos se quebrando? A árvore da vida estava a deixando e chorando suas folhas estragadas. Suas folhas velhas e imundas, que ninguém queria, ninguém apreciava. Ela não apreciava. Por quê? Eram só pedaços amarelados e secos de uma planta.
Amarelada, pois estava doente de tudo aquilo. Seca, porque não havia mais lágrimas esperando para sair; e pedaços... porque era como a moça estava agora. Despedaçada.
Ela queria morrer.
Mas a moça já não estava morrendo? Ela sentia que sim. Linda manhã cinza-chumbo, me leve, ela implorava, me leve, ela chorava, me leve, ela sangrava. O mundo agora era vermelho. Era bordô. Era escuro, e límpido, e todas as suas memórias estavam na superfície, esperando um visitante bravo o suficiente para mergulhá-las.
Não havia visitante, não é, moça?
Os cantos da saleta eram marrons, as teias de aranha os consumiam. Uma mesinha quebrada e que quase não agüentava seu peso posava lá, gentil, olhando para a moça com seus olhos de madeira. Mas ela não lacrimejava. A mesa sorria. Parecia ela.
Então seus olhos arderam, e a moça os virou para o chão. Lá estavam seus pés moles, largados e sem músculos, e o chão que a moça nunca mais pisaria.
O para sempre era bom, mas o nunca... a moça nunca esqueceria.
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