A Mother's Love
1 Capítulo Único
Notas iniciais
"Tão forte é o amor que, mesmo após a morte, perdura em nossos corações"
Nove meses. Trinta e seis semanas. Aproximadamente duzentos e cinquenta e dois dias. Esse foi o tempo em que Carole Hudson teve de gravidez. Ela viu sua barriga crescer a cada dia; ela sentiu os enjoos matinais, os desejos absurdos, a fome, o sono, os chutes, o amor puro e incondicional. E, tanto tempo depois, ela segurou um menino em seus braços. Três quilos e meio. Mãos e pés pequenos. Uma boca sem dentes. As lágrimas caíam incessantemente de seus olhos enquanto ela observava o seu garotinho.
Ela o chamou de Finn. Esse não deveria ser seu nome – ela e seu marido haviam concordado chama-lo de Nathaniel, em homenagem ao seu avô. Mas, então, ela colocou os olhos nele pela primeira vez, e sabia que esse deveria ser seu nome. Finn. Finn Nathaniel Hudson. Ela o amou naquele instante. Ela já o amava antes disso, na verdade, mas vê-lo ali, tão perto, sentir o calor de seu corpo, olhar dentro de seus olhos. Tudo mudou. Simples assim, Carole não conseguia mais imaginar sua vida sem ele. Um garotinho que mal acabara de nascer. O amor de sua vida.
Ele foi seu porto seguro. Ele a confortou quando o pai estava longe, no exército, lutando pelo país. Ele foi o que a fez continuar quando seu marido morreu de overdose. Ele quem a segurou durante as noites frias, limpando suas lágrimas, sendo tão forte quanto um garotinho podia ser, dizendo-lhe “Ele morreu como um herói”. Ela não teve coragem de dizer-lhe o contrário. Então, ela mentiu. Sabia que chegaria o dia em que ele descobriria a verdade, mas, até lá, ele estaria pronto para ouvi-la. Ou tão pronto quanto pode se estar para saber uma coisa dessas.
A voz. Ela sempre gostou de ouvi-lo cantar; claro, o som dele tocando sua bateria era irritante, às vezes, só que ela jamais negaria o talento natural que ele tinha. Finn havia nascido para a música. Ela imaginou, então, seu futuro – imaginou-o em palcos grandes, cantando para uma multidão, as pessoas gritando seu nome, chorando por vê-lo, amando-o, mesmo sem nunca tê-lo encontrado pessoalmente. Seu peito inflamou de orgulho só de pensar sobre isso. Seu menino estava destinado a coisas grandes, ela sabia disso, ela sentia isso. Quase como um sexto sentido de mãe, que raramente falha.
O garotinho cresceu. Tornou-se um adolescente. Chegava em casa irritado porque as outras crianças zombavam de sua altura. Trancava-se em seu quarto e jogava videogame a noite inteira, e descia para o café da manhã no dia seguinte de olhos inchados. Ele dizia que foi por ter ficado acordado. Ela sabia que ele estivera chorando. Isso partia seu coração. Nada dói mais em uma mãe do que ver seu filho sofrer, e não saber como ajudar. Tentou dizer a ele para sentir orgulho de si mesmo. Ele era alto, assim como seu pai foi; era um bom garoto; um bom filho. E não era isso o que importava? Disse-lhe para não ligar para que os outros pensavam. Mas ele era um adolescente. Claro que ele se importava. Ela se importou, também, quando tinha a sua idade. Isso é algo que apenas a maturidade e experiência de vida iriam mudar.
Veio, então, o colegial. Quatro anos antes de ele entrar para uma Universidade e ir viver sua vida. Quando ela o deixou na escola, no primeiro dia, foi para o trabalho, escondeu-se no banheiro e chorou. Chorou por saber que seu bebê estava crescendo. Chorou por saber que um dia ele a deixaria, e ela ainda não estava pronta para vê-lo partir. Chorou, porque ele era a sua razão de viver. Chorou por amá-lo. Com toda sua alma. Com todo o seu coração. Com cada partícula de seu corpo. Respirou fundo. Limpou as lágrimas. Prometeu que aproveitaria os próximos quatro anos da melhor maneira possível. Guardaria muitas recordações – assim, quando ele partisse para a faculdade, ele ainda estaria lá. Em suas lembranças. Em fotos penduradas na parede. No seu cheiro deixado em seu quarto. Nas roupas velhas que ficariam para trás. Era o que lhe restaria, no final.
O primeiro ano foi bastante complicado. Finn entrou para a equipe de futebol, e começou a se preocupar demais com a aparência. Sentia vergonha de seu corpo. Sentia-se inseguro sobre si mesmo. Então, ele cantava. A voz grossa, diferente de quando era só um menino. Cantava ainda melhor. E Carole ouvia. Guardou dinheiro, certa vez, e lhe comprou um karaokê. Eles cantavam juntos, e ele ria do quão terrível ela era. Mas ela não se importava, desde que pudesse escutar a voz dele em suas músicas favoritas.
Ele se apaixonou. Ela nunca sentiu tanto medo em sua vida. E quando ele chegou da escola, certo dia, dizendo que Quinn Fabray, a capitã mais nova das líderes de torcida em toda a existência do McKinley High, aceitara ser sua namorada, ela teve medo. Ela convidou Quinn para jantar. Uma garota adorável. Mas seu sexto sentido a dizia que Quinn seria a primeira a partir o coração do seu filho. Não a convidou para sua casa depois disso, mas não foi contra o namoro. Se ele a amava, e se ela o fazia feliz, então ela jamais se oporia a isso.
No segundo ano, as coisas se complicaram. Ela estava certa sobre Quinn. A garota não apenas partiu o coração de seu filho, como o apunhalou pelas costas e traiu sua confiança, tirou sua inocência. Foi a primeira vez que Carole o viu chorar abertamente. Foi a primeira vez que ela o segurou em seus braços, e acariciou suas costas, e procurou conter as próprias lágrimas. Foi a primeira vez que ela o viu desmoronar.
Mas, então, havia o clube do coral. A música o curou. E Rachel. Uma garota pequena, irritante, e com uma voz que, meu Deus!, era impressionante. Palavras de Finn, não dela. Só que ela percebeu o brilho em seus olhos todas as vezes que ele mencionava o nome de Rachel. Daquela vez, contudo, não foi Finn que teve um coração partido – foi a primeira vez que ele partiu um coração. Eles tiveram uma longa conversa sobre isso. Carole disse que ele sempre deveria ser sincero sobre seus sentimentos. Sabia que ele estava confuso; era jovem, cometia erros, não sabia o que queria. Ela o aconselhou a tentar descobrir antes de qualquer coisa, porque atitudes impensadas poderiam acabar machucando alguém. Ele não lhe escutou. E ela observou seu filho ir e vir em relacionamentos, brincando com os próprios sentimentos, e com os das garotas com quem estava saindo. Desaprovava suas atitudes, mas o amava mesmo assim, e o apoiou todas as vezes, mesmo quando estava errado.
O terceiro ano não foi muito diferente do segundo. Mas, ela podia ver isso, Finn estava crescendo. Ainda cometia erros bobos. Ainda não sabia o que queria da vida. Mas Carole era sua mãe, e o conhecia com a palma de sua mão, e notou as pequenas diferenças quando elas começaram a surgir. Ficou orgulhosa ao vê-lo evoluir. Sentiu-se feliz. Viu o filho se apaixonar ainda mais pela música. Viu cada apresentação do clube do coral, e sempre cutucava as pessoas ao seu lado para dizer, de peito estufado, “aquele é meu filho”.
Foi um ano grande para ela, também. Burt Hummel conquistou seu coração. Um homem bondoso, dono de uma oficina, e pai de um dos colegas de Finn da escola, Kurt. Levou um tempo para que todos estivessem confortáveis com a situação; para Finn, contudo, foi mais difícil. Carole teve que explicar diversas vezes que Burt jamais ocuparia o lugar que pertenceu a seu pai, mas que não podia passar sua vida chorando por alguém que não estava mais ali. Ela precisava seguir em frente. E ela faria isso, com Burt. Levou um tempo, mas Finn o aceitou. Então, Burt passou a ser o pai que Finn nunca teve. Eles iam a jogos juntos, assistiam a programas televisivos no sofá, trabalhavam na oficina.
E o tempo estava passando. Finn finalmente decidiu sua vida amorosa, e engatou em um relacionamento sério com Rachel. O último ano chegou. Seu bebê cresceu. Deu mais alguns tropeções no meio do caminho. Descobriu a verdade sobre o pai. Ficou sem rumo. Quase se casou. Começou, com passos pequenos, tímidos, a caminhar em direção à vida a adulta. Alistou-se no exército. Teve sua formatura.
Carole nunca chorou tanto quanto no momento em que o viu no palco do McKinley High, de beca vermelha, jogando o chapéu para cima e um sorriso largo enfeitando seu rosto. Ela sabia que o momento estava próximo. Sabia que, em breve, precisaria se despedir. Sentia tanto medo! Seu menino no exército. O mesmo exército que destruíra seu pai. Quase não suportou vê-lo partir. Foi como se seu coração estivesse saindo pela boca. Não dormiu aquela noite, com medo, imaginando todas as situações horríveis que poderiam lhe acontecer. Se não fosse Burt, ela não teria suportado.
Dois meses depois, Finn voltou. Acabara dando um tiro na própria perna por acidente – Carole quase perdeu a cabeça quando ficou sabendo disso –, e fora dispensado do exército. Ficou com pena de vê-lo sem rumo. Mas, então, Finn encontrou uma nova paixão. Ensinar. Quis se tornar professor. Não era o palco que Carole imaginou quando ele era pequeno, mas, ainda assim, sentiu orgulho. Porque estar numa sala de aula era ainda mais importante. Seu filho ensinaria a outras crianças, assim como o senhor Schuester ensinou a ele, como sonhar. Finn os incentivaria a seguirem seus sonhos. Ensinaria a eles o poder da música; o poder de acreditar em si mesmo; o poder que eles tinham dentro de si, a força, a coragem. Ele seria um bom professor, Carole sabia disso. Ele a ensinou tanto em seus dezenove anos de vida.
Nove meses. Trinta e seis semanas. Aproximadamente duzentos e cinquenta e dois dias. Esse foi o tempo que Finn Nathaniel Hudson levou para nascer. Levou apenas alguns segundos, contudo, para encerrar sua vida. Aos dezenove. Sem ter vivido nada, mesmo tendo vivido tanto. Ele nunca seguraria seu próprio filho nos braços. Ele nunca se casaria. Nunca se tornaria professor. Nunca veria seus amigos de novo. Ou seu irmão. Ou sua família. Tudo isso acabando em uma fração de segundos. Apenas o tempo em que o sinal ficava vermelho, e o motorista vindo em alta velocidade não conseguira frear a tempo.
Ela ainda se lembra da ligação. Ela estava sentada no sofá, sozinha, assistindo a um programa qualquer de televisão. Sentia-se inquieta. Seu coração estava apertado no peito, e ela sabia que havia alguma coisa de errado, mas não conseguia descobrir o que. Pensou em ligar para Finn, apenas para saber se estava tudo bem, mas falara com ele ainda aquela manhã, e não quis sufoca-lo sendo uma mãe coruja. Ele tinha asas, agora, e ela precisava deixa-lo utilizá-las. Foi quando o telefone tocou.
Ela desmoronou no chão. Foi só uma fração de segundos. E tudo acabou.
Fale com o autor