A Morte de Jonas
9 Hoje - Epílogo
“Isso tudo começou com uma maldita sacola se rompendo. Uma garrafa que estava dentro caiu sobre meu pé. Adentrei ligeira no lugar mais próximo que havia. O objetivo era enxaguar o sangue e estancar meu ferimento. Eu estava tão desnorteada que mal vi onde eu estava entrando. Tudo que me importava naquele restaurante exótico era a fonte que esguichava abundante no meio do ambiente.”
“Mas no meio do caminho, eu dei de frente com um dos garçons e acabei derrubando a bandeja com uma tigela que ele trazia. Ele ficou visivelmente furioso, eu pedi desculpas, mas não é do meu feitio me prolongar nesse tipo de coisa. Confesso que não é normal eu me preocupar muito com os arredores. Os acidentes e consequências… Retratar-se continuamente não os farão deixar de ter acontecido, não é? Sei que preciso melhorar nisso, tá bem? Mas, continuando...”
“Quando cheguei em casa, deixei as sacolas no chão, porque estavam molhadas, devido ao fato de eu ter entrado com elas na fonte do restaurante. Então, fui dar uma olhada no ferimento de novo no banheiro. Foi quando Jonas, o camundongo que era meu companheiro de apartamento, correu para as sacolas no chão. Quando eu voltei ele estava ali se deliciando com o que achei que fosse alguma das coisas que eu tinha comprado. Falei pra ele ‘sai daí’, e ele saiu correndo. Foi uma coisa comum, cotidiana. Normal os bichinhos se aproveitarem desses momentos. Mas pensando bem, eu não tinha comprado nada que pudesse ter aquela cor ou aquele aspecto que havia numa das sacolas. E eu sei o porquê. Quando o garçom trombou comigo no restaurante, a tigela despejou-se por completa sobre uma das sacolas. E era lá que estava o veneno. Houve toda essa confusão que desviou o foco do restaurante para uma espécie de vendeta pessoal, porque se tentaram envenenar a mim na minha própria casa, essa pessoa estava agindo de fora, certo? Mas, não. Desde o início estavam agindo lá de dentro do restaurante mesmo. Aquelas pessoas que estavam lá aquele dia deveriam ser todas envenenadas ali. Mas isso precisou ser adiado.”
“E essas memórias vieram como um tiro na minha face quando eu por coincidência, esbarrei-me de novo com o mesmo garçom que eu havia esbarrado antes. A diferença foi que desta vez ele estava tranquilo, sereno. Ele não estava nervoso. Estava simpático, até. Da outra vez ele estava ensandecido de raiva. E se tem uma coisa que aprendi, é que as emoções não enganam. Os sentimentos denunciam. Eles contam. Ah, aquela velha e péssima sensação de você perder de uma vez só todo seu estoque de veneno…”
Os investigadores interrogaram o rapaz que trabalhava no restaurante e confirmaram para mim eventualmente que o que eu disse era factual. O que se sucedeu no caso já não tinha nada a ver com minha pessoa – nunca teve. Eu não estava correndo perigo, nunca estive. Bom, pelo menos, não por aqueles criminosos do restaurante.
— Como se sente? – Minha amiga perguntou.
— É bom finalmente poder fazer isso.
Estávamos diante ao túmulo do Jonas. A mulher trouxera umas flores e uns de seus cristais para ele. Juntas nós duas terminávamos uma pequena cerimônia de despedida ao meu falecido companheiro. Limpei minhas lágrimas com meu cachecol preto.
— Descanse em paz.
E a vida continuou para quem não estava morto.
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