A Morte de Ivan
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Primeiro de Agosto de 2058 foi o dia em que Ivan morreu.
Mas não permaneceu neste estado por muito tempo.
O acidente foi horrível: uma queda de mais de 100 metros em cima da rocha nua. O crânio de Ivan rachou no meio e uma parte considerável de massa encefálica espalhou-se pelo chão deixando seu rosto destruído. Quase todos os ossos de seu corpo se quebraram e os órgão rasgaram-se por dentro. Ele permaneceu neste estado por quase dose horas até que o resgate pudesse alcançá-lo.
Mas, em poucos dias ele estava plenamente recuperado.
Bom, ao menos seu corpo estava.
Ivan era apenas um entre tantos jovens que procuravam aventura nas encostas selvagens da América do Sul para praticar esportes radicais e colocar em risco sua vida e a de seus amigos numa mistura de euforia juvenil, drogas e falta de medo da morte.
Ele também era um dos muitos que morriam todos os anos, não somente nas montanhas Sul Americanas, mas em todas as partes do mundo e de inúmeras formas diferentes.
Mas, Ivan tinha a sorte de pertencer àquela parcela da humanidade capaz de pagar por quase tudo o que existe neste mundo. Sua família era descendente de empresários científicos responsáveis pelo desenvolvimento da nano medicina e eram muito, muito ricos.
E é claro que era somente essas pessoas que eram muito ricas eram capazes de voltar do mundo dos mortos.
Foi assim que aconteceu:
Logo que aquele corpo destruído foi recolhido do chão (muitas partes tiveram que ser recolhidas com uma pá e armazenadas em potes plásticos), ele foi levado de jato até a maior clínica de nanomedicina da América do Sul (muito poucos sul-americanos se consultavam ali) e seus pedaços foram colocados mais ou menos no lugar por médicos que vieram de várias partes diferentes do mundo especialmente para remendar Ivan.
Então o milagre foi injetado nas veias sem vida do rapaz.
Uma seringa de com apenas 10ml do que, à primeira vista parecia uma substância prateada líquida, continha bilhões de nanomáquinas, cada uma do tamanho de uma molécula e elas logo começaram o trabalho de reconstrução.
Quando era apenas um bebê, Ivan havia sido levado por seus pais ricos até uma clínica parecida com aquela em seu país natal onde uma gota de seu sangue havia sido retirada. Então, usando nanomáquinas para decifrar o código genético de Ivan, os cientistas criaram uma simulação, um “Ivan no computador”. Esse “Ivan no computador” nada mais era do que uma espécie de backup de Ivan. Todas as pessoas muito ricas tinham seus backups que serviam como mapa para as nanomáquinas trabelharem caso uma dessas pessoas morresse e quisesse reviver. Teoricamente qualquer tipo de morte tinha cura. Quanto mais rápido fosse começado o tratamento, maior seria a probabilidade de voltar à vida.
Porém, nunca alguém havia passado tanto tempo morto e ressuscitado.
Mesmo assim, pequenas máquinas trabalhavam obstinadamente. Os médicos estavam sempre dispostos a quebrar os limites e um grande esforço foi desprendido para trazer de volta aquele jovem.
As horas iam se passando e o corpo ia se reconstruindo milagrosamente. Cada sinapse foi remendada. Ossos e nervos eram reconstruídos a partir de suas ruínas enquanto as nanomáquinas trabalhavam nos tijolos da vida, reanimando cada célula e substituindo aquelas que estavam além da salvação.
Molécula por molécula, célula por célula, Ivan foi reconstruído. O milagre da ressurreição estava acontecendo diante dos olhos lacrimosos de sua família que aguardava pacientemente enquanto os médicos, tendo decifrado os segredos de deus através da ciência verificavam seus equipamentos.
Enfim Ivan foi refeito.
Durante algumas horas ele ficou desacordado. Seu corpo mergulhado numa solução nutritiva enquanto suas células se reacostumavam à vida. Depois ele foi retirado e colocado numa cama. Seus órgão já funcionavam perfeitamente, coração batia, pulmão respirava. O cérebro começou a apresentar atividade consciente, Ivan acordou.
Mas ele nunca mais foi o mesmo.
Sua família o levou de volta para casa, para o seu quarto, para seus animais e coisas que ele havia amado durante toda a vida. Os médicos haviam explicado que ninguém nunca havia ficado morto por tanto tempo após uma destruição tão grande do corpo e voltado a vida. Ivan era realmente um “milagre da medicina”. Poderia demorar um pouco para que ele se recuperasse psicologicamente. Ainda era incerto o quanto o inconsciente de uma pessoa podia se lembrar de uma morte. Era comum que as pessoas ressuscitadas se sentissem deprimidas durante um tempo, mas sempre melhoravam depois de alguns dias recuperando a estrutura de sua mente mediante exercícios de cognição.
Mas Ivan não melhorou.
Ele reconhecia todas as pessoas de sua vida, seus amigos e família. Comia normalmente e conseguia anadar e correr sem dificuldade. O trabalho fora bem-feito, aquele corpo estava melhor do que antes do acidente, mas havia alguma coisa estranha.
O jeito como ele olhava para as pessoas, analisando suas feições e movimentos. Seus olhos pareciam se perder ao observar uma pessoa fazendo tarefas cotidianas. O movimento de seus corpos parecia ter um efeito estranho em sua mente e ele tinha constantes ataques de ansiedade e de depressão.
A verdade era que Ivan via as pessoas como elas eram: um amontoado de carne ossos e nervos montados de certa forma a permitir que funcionassem. Ele havia morrido, seu corpo violentamente destruído. Aquela dor imensa em todo seu ser no momento do impacto ele não esqueceria. Nada nunca seria o mesmo. Ele estivera do outro lado mais tempo do que qualquer outra pessoa Sua existência agora lhe parecia totalmente errada.
Daquela escuridão da inexistência sem consciência depois da morte e antes da ressurreição alguma coisa ficou com ele. Algum processo que tinha começado em naquele vazio do não-ser havia sido interrompido de maneira bruta pela mão salvadora da ciência.
Seus pais começaram a encontrá-lo mais e mais vezes pelos cantos rabiscando em seu caderno as palavras de Lovecraft: “não existe paz na passagem.”
Ivan não sabia o que fora feito com ele naquele “outro lado que não existia”. Era algo que ele não podia nem começar a descrever para aqueles amontoados de carne e ossos que andavam e conversavam ao seu redor, pois passou a entender que a vida não existia e sabia que não devia estar mais neste mundo. Os átomos precisavam voltar a se espalhar. Sua existência estava podre e escura. Sua vida era um erro, a entropia era irresistível.
O universo era o que era, nem mais nem menos.
Ivan fez o chamado profundo.
Pouco a pouco foi sentido aquela escuridão invadindo seus átomos. Ele se sentou num canto e esperou a morte chegar para desfazer o erro da humanidade e completar a transformação. Seu corpo se desfez lentamente, molécula por molécula. Suas roupas se encharcaram com os líquidos de sua decadência e ele escorreu pelo chão.
Seu corpo havia mudado de estado.
E assim, uma semana após sua morte, Ivan morreu de novo.
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