A escuridão. Tudo não passava da escuridão. Essa escuridão a envolvia, tomava conta de seu ser. Até que aquela história começou, captando toda a atenção da garota. Aquela história foi como um feixe de luz dentro da escuridão que a torturava, como uma nova esperança. Não sabia, pois estava muito escuro para se saber de qualquer coisa, mas provavelmente um animado sorriso se formou em seus lábios.

─ Há muito tempo atrás houve um amor proibido, a Lua e Sol se apaixonaram, porém os dois eram irmãos, jamais deveriam ficar juntos. – a voz de uma mulher madura disse, era a única coisa que podia ser ouvida naquela escuridão imensa – Os dois tinham um amor tão incondicional que resolveram questionar os deuses, resolveram questionar todos eles, porém os deuses não gostavam disso. “Vou embora, mas vou ficar bem” a lua mentiu, para que seu amado não se preocupasse. Pouco antes da lua ir, o sol deu um presente para ela, uma caixa com todas as estrelas do mundo, para tornar seu brilho mais belo, no entanto esse brilho não durou muito, pois a lua mentiu demais, e o mundo não perdoa mentiras. – pode-se ouvir o barulho de páginas sendo viradas – E foi assim, minha crianças, que a Lua morreu.

O silencio continuou. Durante quanto tempo? Ela não sabia. Dia, semanas, até meses, quando se tem apenas a escuridão até um único minuto parece ser um ano inteiro. Eu preciso encontra-lo, pensou, era a única coisa da qual se lembrava. Mas quem precisava encontrar? Como o acharia? Como o reconheceria sem suas memórias? Não sabia, apenas precisava vê-lo de novamente.

— Lua, Lua acorde! – a voz voltou – Você precisa acordar, já está atrasada, parece até que está morta. Acorde logo, garotinha preguiçosa!

Ela abriu os olhos, sentindo pela primeira vez a luz bater em seu rosto, afastando toda a escuridão. A luz forte feria sua vista, demorou bastante tempo para que pudesse se acostumar a ela, então logo aquele clarão branco tomou forma, permitindo que as coisas ao seu redor pudessem ser vistas. Acreditava que quando acordasse todas as suas lembranças retornariam facilmente, como se jamais tivessem sumido, no entanto aquilo se mostrou mentira, e uma agonia intensa tomou conta da garota ao perceber que não lembrava de nada, inclusive do local onde estava.

— Que bom que acordou, Lua. Estávamos te esperando. – disse a mulher ao lado de sua cama.

O lugar era uma espécie de quarto, lembrando um quarto de hotel. Mas não foi o local que prendeu sua atenção, foram as criaturas que a observavam curiosas, eram completamente diferente de tudo que já havia visto em sua vida. Criaturas estranhas, pareciam ter sido feita defeituosamente, com defeitos tão perceptíveis que poderiam somente ter despertado a raiva dos deuses. Que tipo de criaturas eram aquelas? Por que estavam ali?

A primeira criatura era um garoto, o garoto era completamente branco, como se os deuses tivessem se esquecido de pinta-lo. A próxima criatura era uma criança, poderia ser confundida com uma garota qualquer, se não tivesse uma longa calda de macaco. O ultimo foi o que mais a chamou atenção, o garoto não possuía nenhuma mutação, entretanto chamou sua atenção por reconhecer aquele rosto, ao menos era isso que sentia, desistiu da ideia de ser um conhecido ao perceber que não se lembrava de seu nome.

— Deixem a Lua descansar. – uma mulher disse, era voz que contava a história.

A mulher já tinha certa idade, porém as rugas de sua pele eram disfarçadas pela modelagem delicada de seu rosto. Os cabelos eram tão vermelhos quanto o fogo, e ela usava um vestido roxo justo, que realçava ainda mais o seu corpo perfeito. Porém foram os olhos que prenderam a atenção, eram tão azuis quanto o mar, por algum motivo teve medo daqueles olhos, traziam um sensação ruim.

— Lua, que bom que você acordou! – ela disse animadamente – Estávamos te esperando, como nos fez esperar pequenina. Eu mandaria você descansar um pouco, mas levante-se logo, já dormiu durante tempo demais.

Ela colocou os pés no chão, seus sapatos estavam molhados, todavia não se importou, ver aqueles tênis converse a fez perceber que não havia retornado ao passado ou coisa do tipo. Levantou-se, não teve muita dificuldade, apenas a tontura de alguém que acaba de tirar uma longa soneca, a única diferença é que a soneca parecia ter sido infinita.

— Eu... – parou um minuto, ouvir sua voz foi um susto, não lembrava nem mesmo dela, até o momento – Eu não me chamo Lua, meu nome é – não foi capaz de lembrar – Meu nome não é Lua! – foi a melhor conclusão que teve, se aquele fosse o seu nome se lembraria, pelo menos o nome seria capaz de reconhecer.

— Não é? Que pena, pois agora é esse. – ela voltou-se novamente para as criaturas do local – Crianças, vão, eu preciso ter uma pequena conversa com a amiguinha de vocês, por hoje podem quebrar o roteiro.

Todas as criaturas se retiraram do quarto, observou cada uma dela indo embora, buscando por algo conhecido no garoto loiro, nada, mas aquele rosto continuava trazendo-a lembranças familiares. Quem era aquele?

— O garoto que tanto olha é Ravi, ele é quente, literalmente, qualquer coisa que toca queima, literalmente. – a mulher explicou após ver todos deixarem a sala – Vou logo avisando que qualquer gracinha, namoro, beijo, intimidade ou caricia mais afobada, é proibido dentro de minha casa.

— Por que eu estou aqui? Por que está me chamando de Lua? Que criaturas são aquelas? Quem sou eu? O que está acontecendo? – aproveitou para bombardear a mulher com perguntas, não podendo conter sua curiosidade. Ele costumava dizer que sua curiosidade era um grande defeito, e que um dia a mataria. Mas quem era ele? Não lembrava, não lembrava, e isso era terrível.

— Chamamos esse lugar de X, pois não sabemos onde ficar, ninguém sabe. Mais tarde responderei cada uma das suas perguntas, primeiro vamos para o seu quarto. Acompanhe-me.

Pela primeira vez na vida achou melhor ficar de boca fechada. Aquela mulher fazia-a se sentir assustada, somente a sua presença era intimidadora, fazia-a se sentir como uma formiguinha insignificante, que a qualquer momento poderia ser facilmente esmagada, bastava aquela desconhecida querer.

Seguiu a mulher, logo as duas já estavam fora do quarto, e Lua (adotaria esse nome até descobrir o seu original) pode ver quão grande era o local no qual se encontrava. Uma enorme mansão rodeada de diferentes portas, corredores, e cômodos. Por estes as duas passaram até pararem em frente a uma porta branca. Lua não conhecia o local, porém não havia notado nenhuma outra porta por perto. Seria aquela a única?

— Pegue. – a desconhecida a entregou um envelope – Vai te ajudar bastante, garotinha.

Lua estava pronta para pegar o envelope quando a mulher segurou o seu braço de forma brutal, puxando-o para perto. Agora era capaz de encarar aqueles assustadores olhos azuis, que pareciam tão ferozes quanto mar. Foram aqueles assustadores olhos que a trouxeram uma lembrança de volta, a primeira coisa da qual se lembrava completamente.

Lembrou-se da água invadindo o seu pulmão, do desespero ao tentar se salvar, do reflexo de seu corpo, da desistência, tentando boiar por uma ultima vez. Lembrou-se da lua vista da água, de como havia sido enganada pela lua. Lembrou-se do momento em que seus olhos fecharam, deveria está morta. Morta, sim, morta! Ao menos de uma coisa tinha certeza, o que já era um começo esplêndido para uma pessoa tão esperançosa.

— Escute aqui, Lua, eu sei do que você é capaz, o que você fez, os seus pecados, e o motivo de está aqui, então não saia do quarto, e fique bem longe do garoto loiro, se tiver amor à vida. Essa é sua nova vida, não tente descobrir sobre o que houve no passado, porque você nunca vai saber.

— Sim, senhora. – Lua respondeu com o olhar baixo. Eu quero saber, pensou.

Lua pegou o envelope, e logo pode observar a mulher indo embora, deixando-a parada com os olhos fixos no chão. Pobre moça, se ao menos tivesse notado que em sua boca um sorriso travesso se formou, sorriso de quem gostaria de saber o que estava acontecendo. Não se lembrava de quem era, mas deveria ter sido uma garota má para desobedecer a uma ameaça tão fria quanta aquela.

Olhou para os lados, ao perceber que estava sozinha entrou no quarto, não sabia se era o correto a se fazer, todavia aquela mulher havia dito que o quarto era dela, então ficaria com ele. Fechou a porta com a chave, que já estava na fechadura, e pôs-se abrir o envelope. Finalmente era a hora de descobrir toda a verdade.

Não houve paciência para desembrulhar, tudo o que fez foi rasgar de uma vez, a vida é muito curta para se desembrulhar envelopes de forma delicada, como uma dama deveria fazer. Abriu, devorando cada palavra do papel dentro dele, entretanto ao chegar à metade já estava apavorada, aquilo era loucura, completa loucura. Fê-la estremecer completamente, que coisa mais assustadora, e provocante, precisava saber mais sobre aquilo.

Novas perguntas se formaram em sua cabeça. Neturne, esse era o nome daquela mulher, parecia ter bastante poder. No entanto percebeu coisas que poderiam amedronta-la naquela carta, quanto mais ameaças eram lançadas, mais apavorada demonstrava está. Lua não sabia quem era, como chegou lá, mas sabia por onde começar, o garoto loiro, e por onde terminar, seu verdadeiro nome. Lua não sabia se metade das coisas escritas eram verdade, porém eram uma ótima dica, uma forma para se começar as coisas.

Mais um sorriso foi aberto em seu rosto, não sabia quem era. Contudo Neturne parecia ter se esquecido que a lua era o astro mais luminoso, e se ela fosse mesmo a lua, jamais pararia de brilhar.

(...)

“Querida, Lua.

Sei que pode parecer loucura, mas se você está aqui significa que recebeu uma segunda chance, por favor, seja inteligente para usa-la sem fazer nenhuma bagunça, não tente descobrir o que está acontecendo, porque você não vai. Se tentar vai machucar pessoas, muitas pessoas, e eu sei que você não quer isso. Você teve uma outra vida antes disso, uma bem agitada, porém essa é sua nova vida, e você jamais será capaz de recuperar a antiga, pode, mas não vai conseguir, ninguém jamais consegue.

Chamamos esse lugar de X, porque X significa desconhecido, e ninguém sabe como vieram parar aqui, somente eu sei como você veio parar aqui, mas não irá tirar isso de minha boca tão cedo, então é melhor que fique quieta. Também não há nenhuma maneira de sair daqui, nenhuma.

Aqui todos os dias se repetem. Todos tem um roteiro. Você deve tomar café sorrindo, depois descerá as escadas sorrindo, depois você vai ler alguns livros na biblioteca, depois você e a criança com cauda de macaco vão conversar, como se fossem velhas amigas, por fim você vai almoçar, passar o dia tirando carne do freezer, quando terminar coloque-as lá novamente, é apenas para fazer você perder tempo. Depois vai lanchar, subira para o quarto e não sairá até o dia seguinte. Encontrará alguma comida sobre sua cama, se fizer tudo direito, mas se não fizer tema um castigo maior do que morrer de fome.

Quando chegou aqui me pediu respostas, não posso responder todas as suas perguntas, mas tem uma coisa que eu posso dizer: você é aquela merda de lua que deveria está brilhando no céu, parece que quebrou um pouco as regras e veio parar aqui, pelo amor dos deuses, não tente sair.

O garoto loiro, eu não quero você nunca mais olhando para ele, pensando nele, e se eu vir você falando com ele você vai se machucar, machucar as pessoas, machuca-lo. Não tente fazer isso pelas minhas costas, nunca, eu sou Neturne, aquela que tudo vê. Então você vai querer ficar bem longe desse garoto.

Todos aqui tem os seus pecados, o seu foi amar. Parece que seu amante não era o adequado, o que acabou formando um amor nojento. Eu sei que todas as formas de amor são validas, mas pobre Lua, parece que sua forma de amar foi uma enorme exceção. Você transformou uma coisa doce como um amor em um pecado, puxa, pensei que somente humanos fossem capazes de uma burrice dessas. Agora, o seu nome, é meu, e com ele levo todas as suas memórias lua.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.