A Morte Veste Branco
1 One-shot
Faz tempo que estou parada, olhando para o teto, sem conseguir me mover. Saliva me escorre pelo canto da boca, descrevendo um caminho pegajoso até meu queixo, pingando no chão sujo e quase sem cor deste banheiro. A minha frente, a porta do reservado se encontra fechada, causando-me uma sensação desconfortável e claustrofóbica. Eu gostaria de poder abri-la, mas já não tenho forças para levantar meus braços.
Fora dali, é possível ouvir a torneira que pinga continuamente na pia, e os passos de alguém que entra no banheiro ecoam. Lembro-me de como todos os banheiros públicos são iguais: sujos, esquecidos, fedorentos e estranhamente silenciosos. Eu queria poder sair daqui, ver a luz do Sol mais uma vez. Gritar por ajuda, talvez. Mas a minha voz não sai. Não consigo formular nenhuma palavra. E os passos que entraram agora pouco começam a sair. Minha esperança se esvai.
Meu nariz ainda arde. Foi exatamente por isso que vim parar aqui. Se pudesse, nunca teria repetido o feito. Mas a gente não costuma pensar muito nisso quando se é jovem e quer curtir a vida. A gente sempre cai na ilusão de que vamos ser a exceção da regra. Isso nunca vai acontecer comigo, costumamos dizer. Mas acontece.
É, esse é um clichê que teima em aparecer na vida real. Poderia ser qual outro — um beijo na chuva ou num pôr-do-sol na praia, com Brian Adams ou Al Green tocando ao fundo. Mas não; é este.
Meu coração para. Eu sei que chegou minha hora. Eu sei que para mim, não há mais caminho de volta. Eu queria poder dizer qualquer coisa para aqueles que ficaram — para os que me trouxeram para cá. Mas não há mais nada que eu possa fazer.
Diante de mim, a Morte aparece. Para muita gente, ela se veste de preto e carrega uma foice. Para mim, ela veste branco — e se chama Cocaína.
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