A Morte Do Sol

10 O Enigma da Ceia


Passei horas no quarto, folheando o diário de meu pai. As páginas amareladas e a caligrafia firme me transportavam para os pensamentos dele, como se, de alguma forma, ele ainda estivesse comigo, guiando-me em cada descoberta. A cada nova página, sua voz parecia ecoar nas linhas, descrevendo com riqueza de detalhes suas investigações sobre a família Blackwood.

Em um dos trechos, ele mencionava a primeira vez que viu Lady Morgana. A descrição era tão vívida que senti um arrepio percorrer minha espinha. Não era apenas minha impressão — meu pai também notou algo inquietante nela. Ele escreveu sobre como seus olhos pareciam carregar uma escuridão oculta, uma presença forte que o deixou desconfortável, mas ao mesmo tempo curioso. Era como se Morgana fosse tanto guardiã quanto prisioneira dos segredos da mansão.

O diário continuava, revelando suas conversas com alguns moradores do vilarejo, suas idas e vindas pela biblioteca, e como, ao longo dos anos, ele começou a perceber que havia mais sob a superfície daquela mansão. Os segredos não estavam apenas nas histórias antigas, mas nas próprias pessoas que a habitavam. Ele chegou a mencionar o quão estranho era nunca ver certos membros da família, como Flora, exceto em raras ocasiões.

Ao terminar um dos parágrafos, fechei os olhos e respirei fundo. Era quase como se eu pudesse sentir o peso da presença dele ali comigo, me incentivando a seguir em frente. O mesmo mistério que o atraía agora também me prendia.

Perdida nos meus pensamentos, concentrada nas palavras de meu pai, fui subitamente arrancada daquele transe por um estrondo seco. A porta do quarto bateu com força, e meu coração disparou. No reflexo, escondi o diário debaixo do travesseiro, já antecipando a figura de Lady Morgana surgindo à minha frente.

Levantei-me da cama, tentando manter a compostura, mas a tensão se acumulava no peito a cada passo em direção à porta. Girei a maçaneta com cautela, meu corpo ainda rígido pela expectativa. Quando a porta se abriu, senti uma onda de alívio percorrer meu corpo ao ver Mary parada ali.

Ela me olhou com seus olhos gentis, alheia ao meu alarme. Meu coração, que batia tão forte até poucos instantes atrás, finalmente começou a se acalmar. “Ah, Mary”, murmurei, quase sem fôlego.

Tentei sorrir, mas percebi o olhar dela fixo em mim, como se tivesse notado meu nervosismo. Seu rosto, geralmente sereno, se contraiu em uma expressão leve de desconfiança. Ela ficou em silêncio por um momento antes de dizer calmamente: “O jantar já está pronto.”

Eu, ainda tentando me recompor, perguntei quase distraída: “Já são quatro horas?”

“Sim, já são quatro”, respondeu Mary, mantendo os olhos em mim, como se analisasse cada movimento.

Hesitei por um instante, absorvendo o fato de que havia perdido a noção do tempo enquanto folheava o diário do meu pai. Não queria parecer desconfortável, então disse: “Eu... não pretendo jantar agora. Vou deixar para mais tarde.”

Mary, sempre cuidadosa, rapidamente se adiantou: “Posso trazer sua refeição aqui no quarto, se preferir.”

Antes que ela pudesse se comprometer com o gesto, ergui a mão suavemente e a interrompi: “Não, não precisa. Eu prefiro jantar mais tarde... na sala de jantar.”

Por um momento, Mary me olhou de forma diferente, quase como se estivesse tentando entender o motivo de minha recusa. Seus olhos encontraram os meus de maneira direta, sem a suavidade habitual. Uma tensão sutil pairou no ar, e por um segundo, fiquei me perguntando o que ela pensaria de minha escolha repentina.

Enquanto Mary mantinha aquele olhar direto, uma pergunta começou novamente a pulsar na minha mente: por que todos naquela casa se recolhiam às quatro horas da tarde? Era um ritual estranho, como se fosse uma regra implícita que ninguém ousava quebrar. A casa parecia mergulhar em um silêncio quase religioso a partir daquele horário. Eu precisava descobrir o motivo.

Mary fez um gesto rápido com a cabeça, quase como se estivesse dando um pequeno aceno de concordância, como se dissesse “sim” sem palavras. Foi um gesto tão sutil que poderia ter passado despercebido, mas não para mim, que já estava alerta a cada detalhe.

“Há algum problema em eu jantar na sala de jantar?” perguntei, tentando disfarçar minha curiosidade com um tom casual. Eu queria ver se, ao fazer uma pergunta aparentemente inocente, Mary revelaria alguma coisa, alguma pista sobre aquela estranha rotina.

Ela apenas balançou a cabeça, sem demonstrar qualquer surpresa ou desconforto. “Não, senhorita. Deixarei algo pronto para quando desejar”, respondeu de forma simples, mantendo o tom neutro.

Eu observei-a enquanto ela saía do quarto, sem deixar transparecer nada além de sua habitual postura discreta.

Sendo assim, permaneci no quarto, aguardando o cair da noite. Não faria sentido descer para o jantar naquele momento, não com aquela atmosfera pesada pairando pela casa. Mary deixara algo pronto, mas havia algo no jeito dela, naquela resposta simples demais, que me fez hesitar em descer tão cedo.

Eu precisava entender o que acontecia entre aquelas paredes, e cada minuto parecia crucial para desvendar o mistério. O comportamento de todos naquela casa, o recolhimento às quatro horas, a maneira como Mary evitava detalhes... Não era natural. Algo parecia estar sendo escondido de mim, e eu não gostava da sensação de estar sendo mantida no escuro.

Fiquei vagando pelo quarto, com meus pensamentos indo e voltando. Será que Julian tinha alguma coisa a ver com isso? Ou seria Lady Morgana? E a garota, Flora? Eu já estava começando a achar que tudo girava em torno dela de alguma maneira, como se fosse o centro de um segredo que ninguém ousava mencionar. Mas por quê?

Enquanto o tempo passava, uma ideia me ocorreu: e se o verdadeiro motivo para todos se recolherem tão cedo fosse algum tipo de medo ou precaução? Uma tradição antiga? Ou quem sabe algo que acontecia apenas durante a noite? Havia tantas lendas e histórias sobre os Blackwood que eu já não sabia o que era real e o que era invenção. O que quer que fosse, eu estava decidida a descobrir.

Olhei para fora da janela no quarto, ainda faltava tempo para o cair completo da noite. Cada segundo parecia se arrastar. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar essas perguntas e começar a buscar respostas ativamente. E essa busca, ao que parecia, começaria com o jantar.

O quarto havia escurecido antes que eu percebesse, e a única luz que permanecia era a lamparina ao lado da cama, cuja chama tremeluzia, lançando sombras compridas e distorcidas pelas paredes. Aquele quarto, que já me parecia pesado durante o dia, agora assumia uma aparência quase ameaçadora. As sombras se moviam como se tivessem vida própria, e eu sabia que não poderia ficar mais tempo ali. Era hora de agir.

Levantei-me da cama, meus pés parecendo mais pesados a cada passo. A mansão parecia ter um coração próprio, e ele batia, lentamente, com um ritmo que eu não conseguia ignorar. O silêncio era denso. Provavelmente, não haveria ninguém circulando pelos corredores. Abri a porta do quarto devagar, com cuidado para que a madeira antiga não rangesse. O corredor estava imerso em escuridão, interrompido apenas por pequenas luzes de velas que tremeluziam fracas em intervalos. Uma penumbra sufocante preenchia o espaço, e o ar estava carregado de uma quietude que não era reconfortante, mas opressiva. Cada sombra parecia me observar enquanto eu caminhava.

Avancei pelo corredor, guiada pelas luzes vacilantes das velas. O silêncio era tão absoluto que meus próprios passos soavam como trovões abafados. A sensação de estar sendo observada crescia, tornando cada passo mais tenso do que o anterior. Meus sentidos estavam alertas, captando qualquer som, qualquer movimento que pudesse trair a presença de alguém — ou de algo.

Logo, desci as escadas com passos leves, cada degrau rangendo sob meu peso, como se as escadas fossem antigas e cansadas de suportar séculos de segredos. O corrimão de madeira era frio ao toque, e o eco de meus passos ressoava de forma inquietante pelos corredores vazios da mansão. Quando cheguei ao último degrau, o silêncio foi absoluto, quase palpável, como se o próprio ar tivesse parado. O corredor à frente estendia-se na penumbra, mal iluminado pelas poucas velas que lançavam uma luz fraca e trêmula sobre as paredes escuras.

A sala de jantar ficava além, visível por um corredor lateral que dava acesso direto. A luz das velas mal iluminava o espaço. Ao passar pela entrada da sala, vi a longa mesa de jantar, vazia, exceto por um vaso no centro, onde repousavam flores mortas, murchas e descoloridas, como se estivessem ali há muito tempo. O cheiro adocicado e podre da decomposição dessas flores permeava o ar, sutil, mas perceptível. Eram flores que não deveriam estar ali — ou pelo menos, não mais.

A visão das flores velhas sobre a mesa, em contraste com a imensidão vazia da sala, me deu um calafrio. Havia algo perturbador naquele espaço, algo que se recusava a ser ignorado.

Com a respiração contida, aproximei-me da mesa. O vaso com as flores mortas continuava a lançar sua presença incômoda, mas foi o prato tampado à sua frente que prendeu minha atenção. Era o prato que Mary provavelmente havia deixado para mim, silenciosa como sempre. Um silêncio que, naquele momento, pesava ainda mais. A sala estava escura, com apenas as velas a iluminar fracamente o ambiente, suas chamas vacilando, como se também hesitassem em permanecer acesas. Senti um arrepio percorrer minha espinha ao notar que, no corredor ao lado, as velas pareciam se apagar, uma a uma, deixando o local envolto em sombras cada vez mais profundas.

Sentei-me lentamente, o rangido da cadeira ecoando pela sala deserta. Meus olhos fixaram-se no prato. Com hesitação, retirei o tampão. O cheiro que se desprendeu era estranho, uma mistura de ervas desconhecidas e algo levemente ácido. O que estava diante de mim era uma sopa de tonalidade esverdeada, seu líquido espesso e quase opaco. Minha mente imediatamente rejeitou a ideia de comer aquilo, mas algo me impelia a continuar, talvez uma combinação de fome e curiosidade.

Olhei ao redor, como se esperando que alguém aparecesse e dissesse que aquilo era algum tipo de piada de mau gosto, mas a mansão continuava mergulhada no mesmo silêncio sombrio. Peguei a colher com dedos trêmulos e mergulhei-a na sopa, que parecia densa, grudando-se nas laterais do prato de forma inquietante. Quando levei a primeira colherada à boca, senti o gosto amargo invadir minha língua, a textura era espessa, quase sufocante, e uma leve sensação de calor se espalhou pelo meu corpo.

Eu hesitei, tentando entender o que estava comendo. Cada gole parecia aumentar a estranheza, como se algo no fundo daquela sopa estivesse... errado.

Eu continuei comendo a sopa, mas a cada colherada sentia minha mente se fixando em detalhes ao meu redor, como se uma parte de mim estivesse sempre alerta, esperando... algo. Uma sensação inquietante se instalava em mim, uma certeza incômoda de que eu não estava sozinha. Tentei me convencer de que eram apenas meus pensamentos, que a atmosfera da casa estava me afetando mais do que eu imaginava. Mas, vez ou outra, meus olhos se desviavam do prato, indo para o corredor escuro ou para os móveis em volta. Aquele silêncio absoluto parecia criar vida própria, como se as sombras estivessem à espreita, observando.

Eu vasculhava a estante em frente com os olhos, fixando tanto nos objetos que, por um instante, tive a nítida impressão de que eles se mexiam sutilmente. Era a minha mente pregando peças, claro. Estava forçando demais o controle, tentando sufocar o medo crescente. Ainda assim, algo estava errado. Cada detalhe na sala parecia carregado de uma estranha energia, um peso invisível que eu não conseguia ignorar. A sopa escorregava pela minha garganta sem gosto, sem vontade, e me dei conta de que a estava comendo apenas por hábito, como se algo em mim estivesse distraído, preocupado com outra coisa. Havia... algo naquela sala. Algo que não podia ser visto com os olhos, mas estava lá, presente. Eu podia senti-lo.

A tensão aumentava a cada minuto. Os móveis pareciam se inclinar nas sombras, e o ar parecia mais denso, mais sufocante. Minhas mãos tremiam levemente, e eu forçava meu olhar a voltar para o prato, tentando me concentrar no som abafado da colher raspando contra a porcelana. Mas, de repente, um ruído quebrou o silêncio — algo vindo de uma parte próxima da mansão, talvez da sala de estar no outro corredor. Um som baixo, quase imperceptível, mas o suficiente para fazer meu coração disparar. Eu me levantei de súbito, o medo tomando o controle antes que eu pudesse racionalizar.

O ruído ecoou novamente, distante, mas claro. A respiração ficou mais pesada, e o suor frio escorreu pela minha nuca. Segurei firme a borda da mesa, tentando não perder completamente o controle. Mas então, ouvi outro som. Passos. Passos lentos, ritmados, como se alguém estivesse se aproximando, devagar, sem pressa. O silêncio, antes absoluto, agora se tornava opressivo, cada passo reverberando no vazio da casa.

Minhas pernas quase falharam, e meu corpo todo estava tenso, os sentidos aguçados como nunca. Olhei para o corredor escuro, incapaz de ver o que se aproximava. O medo crescia dentro de mim, cada vez mais forte, até que tudo o que eu conseguia ouvir eram os passos, mais perto... cada vez mais perto.

Eu saí da sala de jantar em um impulso, tentando me afastar dos passos que agora ressoavam com uma intensidade que fazia meu coração bater na garganta. A escuridão parecia se fechar ao meu redor, tornando cada passo meu mais apressado e incerto. O corredor era longo demais, e o silêncio entre os ecos dos meus pés e aqueles passos que vinham logo atrás de mim deixava o ar insuportável. As sombras dançavam pelas paredes, criadas pela luz vacilante das velas que pareciam querer apagar-se a cada segundo. E mesmo enquanto me distanciava, eu ainda podia ouvir — os mesmos passos, sempre atrás de mim.

Cheguei ao saguão e, sem hesitar, comecei a subir as escadas, meus pés mal tocando cada degrau. O medo agora pulsava em minha mente como um tambor descontrolado. Sabia que tinha de sair dali, que precisava me esconder. Mas mesmo após ter subido, os passos continuavam, persistentes, acompanhando meus movimentos, mais próximos do que eu queria admitir. O peso do medo era esmagador.

Chegando ao corredor, acelerei. As velas ao longo do caminho tremulavam violentamente enquanto eu passava, o ar frio quase as apagando pela rapidez com que eu corria. Minha respiração estava descompassada, meus olhos procurando desesperadamente a porta do quarto. A cada novo som de passos atrás de mim, sentia o chão se afundar mais, como se algo estivesse prestes a me alcançar.

Entrei no quarto em um rompante, fechando a porta com rapidez e pressa, tentando não fazer barulho, mas o rangido parecia ecoar como um trovão na quietude. Encostei-me na porta, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. Eu sabia que precisava me controlar, mas minha respiração era alta demais, desordenada demais. Tremendo, levei o punho à boca, mordendo-o para abafar o som desesperado da minha respiração. Tentei ouvir algo além do pulsar do meu coração. E então, lá estavam eles de novo. Os passos. Lentos, firmes, aproximando-se do quarto.

Meu corpo inteiro estava rígido de terror, como se cada músculo estivesse à beira do colapso. Ouvi claramente quando os passos pararam. Exatamente do outro lado da porta. Eles estavam lá. Alguém, ou algo, estava ali. Um instante que pareceu uma eternidade se passou, o silêncio voltando, impenetrável.

E então, os passos começaram a se afastar, dessa vez vagarosamente, até desaparecerem por completo. O alívio que senti ao ouvi-los se desvanecer foi quase tão forte quanto o medo que os precedera, mas ainda não ousava me mover. Fiquei parada, ainda mordendo o punho, com a respiração pesada, tentando entender o que acabara de acontecer.

Foi alguém da família? A pergunta ecoava na minha mente, sombria e desconfiada. Havia mais alguém acordado àquela hora, ou estava sendo vigiada por algo que eu ainda não compreendia?