A Morte Do Sol

2 A Mansão dos Blackwood


Enquanto o automóvel alugado cortava o caminho sinuoso em direção à mansão Blackwood, meu coração acelerava com uma mistura de nervosismo e antecipação. As árvores pareciam se curvar em direção à estrada, como se tentassem bloquear minha passagem, enquanto nuvens escuras pairavam ameaçadoramente no céu, prometendo uma tempestade iminente.

A mansão Blackwood se erguia majestosa sobre uma colina isolada, protegendo-a do mundo exterior e ocultando seus segredos das vistas curiosas de Ravenwood.

Ravenwood é uma cidade antiga e sombria, situada nas profundezas de uma floresta densa e misteriosa. Suas ruas estreitas são ladeadas por edifícios de pedra escura, com telhados inclinados e janelas adornadas com trepadeiras. O ar é impregnado com o cheiro de musgo e decadência, enquanto uma aura de mistério paira sobre a cidade, alimentada pelas lendas sombrias que cercam a mansão Blackwood.

Esta é uma cidade onde o sol raramente aparece. É como se estivesse permanentemente envolvida por uma escuridão densa, alimentando as lendas antigas que sussurram sobre os Blackwood e sua misteriosa ligação com A Morte Do Sol.

Diziam que os Blackwood eram envoltos pela lenda sombria, A Morte Do Sol, uma maldição que pairava sobre a família, sussurrada de geração em geração. As histórias falavam de mortes misteriosas, desaparecimentos inexplicáveis e uma aura de desespero que parecia seguir os membros da família onde quer que fossem. Era como se a própria escuridão estivesse entrelaçada com seus destinos, perpetuando um ciclo interminável de tragédia e horror. Cada novo relato apenas reforçava a ideia de que algo terrível residia na história dos Blackwood, uma força sinistra que continuava a assombrar aqueles que se atreviam a se aproximar demais.

Ao atravessar os portões enferrujados, pude sentir o peso da história que impregnava aquele lugar. O carro seguiu pela alameda ladeada por árvores antigas, cujos galhos retorcidos pareciam braços esqueléticos tentando alcançar quem passava. Quando o automóvel parou em frente à entrada principal, desci e fiquei momentaneamente parada, absorvendo a grandiosidade sombria da construção.

O jardim, que parecia ter sido grandioso em tempos passados, estava agora tomado por ervas daninhas e flores murchas, criando um cenário de abandono e tristeza. As estátuas de pedra que ladeavam o caminho, cobertas de musgo, pareciam vigias silenciosos de um passado sombrio.

Avancei em direção à porta de madeira maciça, cada passo meu ecoando sinistramente. Toquei a aldrava de ferro, sentindo o frio do metal contra minha pele. O som grave reverberou pelo interior da mansão, como um aviso ancestral. A porta rangeu ao se abrir, revelando um saguão escuro e frio.

Uma mulher de aparência austera apareceu no vão da porta. Seus olhos, sombreados pela luz fraca, estudavam-me com uma intensidade que me fez estremecer. Seu semblante era severo, mas havia uma gentileza velada em sua expressão.

“Você deve ser a nova historiadora,” disse ela com uma voz baixa e firme. “Bem-vinda à mansão Blackwood. Entre, por favor.”

A mulher fechou a porta atrás de mim, o som ecoando pelo saguão vazio. Ela me conduziu por um corredor sombrio, onde quadros antigos e tapeçarias desbotadas adornavam as paredes. Cada passo ressoava no silêncio, e eu não pude deixar de sentir que a própria mansão estava nos observando.

“Desculpe, como você sabia que eu era uma historiadora?” perguntei.

“Aqui na mansão, recebemos poucos visitantes. A maioria são historiadores como você, vindo catalogar nossa biblioteca ou pesquisar a história da família Blackwood,” respondeu a mulher.

Fui conduzida por um caminho sinuoso até uma sala de estar ricamente decorada, com móveis antigos e uma lareira crepitante. Era um ambiente que misturava elegância com um toque de decadência, como se o tempo tivesse parado ali.

“Por favor, aguarde aqui um momento,” disse ela, antes de sair da sala com passos rápidos.

Poucos minutos se passaram antes que eu ouvisse passos suaves se aproximando. A porta se abriu novamente, revelando uma figura imponente e majestosa: Lady Morgana Blackwood. Seus cabelos grisalhos, perfeitamente arrumados, captavam os reflexos da luz da lareira, adicionando um brilho sutil ao seu olhar penetrante de olhos azuis. Lembrei das anotações no diário de meu pai, onde ele descrevia a beleza austera de Lady Morgana, uma mulher cuja presença era notável mesmo nos relatos escritos.

Ela estava vestida com um elegante vestido longo em tom escuro, um profundo azul-marinho. O tecido fluía graciosamente ao redor dela. Detalhes discretos, como um leve bordado nos punhos, adicionavam uma elegância serena à sua vestimenta. Lady Morgana complementava seu traje com joias sofisticadas e maduras: um colar de pérolas clássico, sem exageros, e brincos de ouro que complementavam seu estilo sem dominá-lo.

“Eliza Bennett, como tem passado desde nossa última conversa?” Lady Morgana ajustou elegantemente o leque de renda negra que segurava, um gesto que era tanto um adorno quanto uma ferramenta para manter sua compostura impecável.

Durante nossas trocas de cartas, eu havia usado o nome falso de Eliza Bennett. Não queria me apresentar com meu verdadeiro sobrenome, pois isso daria indícios de minha ligação com meu pai que fora morto na mansão. Sabia que Lady Morgana poderia suspeitar imediatamente se soubesse minha verdadeira identidade. Minha intenção era me aproximar dela sem levantar suspeitas, mostrando um interesse genuíno nas histórias da família.

Agora, estando diante dela pela primeira vez, eu me perguntei se ela suspeitava de algo. O nome “Eliza Bennett” soava estranho até para mim, mas era necessário para proteger minha verdadeira identidade até que eu soubesse mais sobre ela e sobre a família Blackwood.