A Morte Do Sol

15 A Alucinação Hereditária


“E… que parte seria essa?” perguntei, mesmo sem ter certeza se queria saber a resposta.

Ele desviou o olhar para a janela, onde a luz cinzenta da manhã mal atravessava as cortinas pesadas. Um leve sorriso surgiu em seus lábios, mas não havia alegria nele — apenas uma espécie de ironia contida.

“A memória, senhorita” respondeu.

Meu estômago se revirou. Havia algo quase cerimonial em sua presença, como se ele não apenas guardasse o passado da mansão — mas fosse parte dele.

“Não costumo ver ninguém por aqui” arrisquei, tentando quebrar a tensão que crescia como uma névoa ao meu redor.

“Porque costumo chegar antes que os olhos estejam abertos” ele disse calmamente, voltando a me encarar. “E sair quando a mansão volta a fingir que é apenas uma mansão.”

Fiquei sem palavras. A maneira como ele falava, com aquela serenidade quase teatral, fazia parecer que cada frase carregava mais do que um significado simples.

Me aproximei devagar, olhando para os papéis sobre a mesa. Havia nomes familiares — datas, anotações manuscritas, símbolos que eu não reconhecia. Tudo aquilo parecia parte de uma engrenagem que se movia abaixo da superfície, longe do conhecimento comum.

“E você é…?” perguntou, com calma, mas com um tom que beirava a desconfiança cortês.

Engoli em seco.

“Eliza Bennett” respondi, com firmeza suave.

A expressão dele não mudou. Apenas inclinou levemente a cabeça, como se analisasse o nome, tentando colocá-lo em algum lugar. Mas não reagiu. Nenhum sinal de reconhecimento — o que, por algum motivo, me tranquilizou… ou deveria ter tranquilizado.

“Não achei que a biblioteca tivesse se tornado um espaço tão convidativo” disse ele, com um leve toque irônico.

“Gosto de lugares silenciosos” respondi.

“Então está no lugar certo.”

Não respondi. Apenas avancei devagar pela sala, o som dos meus passos abafado pelo tapete antigo.

Aproximei-me de uma das estantes, passando os dedos pela lombada dos volumes alinhados, sentindo a textura gasta das capas antigas. Mesmo sem vê-lo, eu sabia que ele ainda me observava. Havia algo na presença de Thomas Whitaker que preenchia o ambiente, mesmo em silêncio. Era como se sua atenção me seguisse, densa, calculada — quase inquisitiva.

“Costuma visitar bibliotecas antigas, senhorita Bennett?” perguntou ele, com aquele mesmo tom tranquilo demais, como quem tenta colher mais do que a pergunta entrega.

Deslizei a mão para outro livro antes de responder, sem me virar totalmente.

“Sempre que posso. Trabalho com arquivos, documentos… Sou historiadora.”

Um leve som de reconhecimento escapou de seus lábios, algo entre um “ah” e um sorriso contido.

“Então veio pelo fascínio de quem escuta sussurros do passado?”

Virei-me lentamente. — Algo assim.

Ele inclinou a cabeça levemente, ainda parado perto da escrivaninha, as mãos cruzadas atrás das costas.

— E o que exatamente trouxe uma historiadora até a mansão dos Blackwood?

A pergunta era simples, mas havia uma lâmina por trás do tom. Não era mera curiosidade. Ele sabia que eu não estava ali só por livros antigos.

Meu coração acelerou, mas meu rosto permaneceu sereno.

— O nome Blackwood tem ecos demais na história. E… algumas histórias são difíceis de ignorar.

Thomas não disse nada de imediato. Mas seus olhos, tão escuros quanto a madeira ao redor, pareciam vasculhar algo além da minha resposta.

— Histórias — repetiu, como se saboreasse a palavra. — Às vezes são as que escolhem quem vai contá-las.

Fiquei em silêncio. Não por falta de resposta, mas porque havia algo na forma como ele dissera aquilo — como se já soubesse de algo que eu ainda estava para descobrir. Como se, de algum modo, eu tivesse sido puxada para aquele lugar por uma força maior do que minha própria vontade.

Thomas virou-se de leve, ajeitando com cuidado alguns papéis sobre a mesa, como se aquela ação fosse mais importante do que qualquer troca de palavras. O som do papel seco sendo tocado preenchia o silêncio entre nós como um sussurro antigo, quase ritualístico.

Ele não me olhava, mas sua presença parecia ocupar o ambiente todo.

"Está aqui há quanto tempo?" arrisquei, tentando aliviar o peso no ar.

Ele ergueu os olhos, mas não diretamente para mim — e sim para algum ponto sobre o meu ombro, como se enxergasse uma sombra que eu não via.

"O suficiente para entender que tempo é um conceito... instável, entre essas paredes" respondeu, com um leve sorriso que não chegou aos olhos. "As histórias que moram aqui não seguem calendários."

Minha pele se arrepiou.

Ele voltou aos papéis.

Os dedos longos e meticulosos percorreram um maço de folhas envelhecidas, quase com reverência. O silêncio parecia confortável para ele, como se se alimentasse dele. Eu, por outro lado, sentia o peso de cada segundo passar.

"Os registros desta mansão não seguem uma ordem fácil" disse, sem erguer o olhar.

Dei um passo mais próximo da estante, fingindo interesse em um volume encadernado em tecido azul escuro, mas meus olhos o seguiam de relance.

"Isso acontece com muitas famílias antigas" respondi, num tom neutro.

"Nem todas" ele replicou com suavidade, como se provasse um ponto oculto. "Mas aqui… o que falta costuma dizer mais que o que se pode ler."

Ele empurrou uma pasta de couro gasta para o canto da mesa. Não falou mais por um tempo. Apenas continuou a folhear com a mesma lentidão hipnótica.

— Quantos dias você está hospedada aqui? — perguntou de forma quase casual, como se falasse do tempo.

— Vai fazer uma semana — respondi, sem muita firmeza.

— Hum — murmurou, como se confirmasse uma nota mental. — Dias suficientes para perceber que nesta mansão... tudo tem ritmo próprio. As pessoas também.

Deixei escapar um leve sorriso nervoso.

— Os modos da família Blackwood não são exatamente comuns — comentei.

Ele soltou um som baixo, entre o riso e o suspiro.

— Que bom que percebeu. A maioria dos hóspedes leva mais tempo — disse, virando um papel e o analisando com atenção.

Aproveitei o momento de silêncio, observando o leve ranger das páginas, e perguntei com naturalidade:

— E Lady Morgana… já a viu hoje?

Thomas não respondeu de imediato. Seus olhos continuaram fixos no papel, como se decidissem se valia a pena dividir a resposta. Quando finalmente falou, foi com uma voz baixa, quase confidencial:

— Morgana troca o dia pela noite.

Virei lentamente o rosto para ele, tentando esconder o espanto. Mas percebi, pela maneira como ele ergueu o olhar e arqueou uma sobrancelha quase imperceptivelmente, que havia notado.

— Já deve ter percebido — continuou ele, com um leve sorriso. — Ela não costuma aparecer pela manhã. No máximo, a partir do meio da tarde. Às vezes, nem isso. O máximo que se pode ver antes desse horário é a menina… — disse ele, como se medisse as palavras — e, às vezes, o outro filho de Morgana.

— Julian… — sussurrei, mais para mim mesma do que para ele.

Mas Thomas ouviu.

Virou levemente o rosto em minha direção, uma expressão pensativa nos olhos.

— Já o conheceu? — perguntou, como se a resposta importasse mais do que aparentava.

— Já o vi. Aqui na biblioteca — respondi, com um leve aceno de cabeça.

Por um momento, ele apenas me observou. Depois seus olhos vagaram pelas estantes e se fixaram em algum ponto invisível, perdido entre as sombras dos livros.

— É o lugar favorito dele — disse, por fim, com a voz baixa, quase nostálgica.

— Ele está doente — comentei em voz baixa, quase sem perceber que havia dito.

Thomas não respondeu de imediato. Apenas desviou o olhar para o nada, como se buscasse algo no ar ao redor — ou dentro de si mesmo. Quando finalmente falou, sua voz veio mais baixa, pensativa:

— Notei algo estranho no rosto de Mary quando cheguei. Um certo cuidado nas palavras… uma tensão nos gestos. Como se tentasse proteger alguém... ou esconder algo.

Seu olhar pousou de novo em mim, afiado e atento.

— É algo diferente que ele tem? — perguntou, com calma demais.

Pisquei devagar, hesitando. A pergunta parecia simples, mas o que havia por trás dela não era. Então escolhi responder do jeito mais direto que pude — e mais provocativo também:

— É a mesma coisa que você também sabe, Sr. Whitaker.

Por um instante, o silêncio se adensou entre nós, como se as paredes tivessem se aproximado. Ele me encarou, e por trás da calma, notei um lampejo de interesse. Não surpresa. Interesse.

Ele inclinou levemente a cabeça, como quem reconhece o valor de uma peça num tabuleiro.

— Delírios — disse, enfim. — São bem comuns nesta família. O que Julian tem, digamos, corre nas veias dos Blackwood. Uma herança silenciosa. Uma herança... incômoda.

Minha respiração falhou por um instante. Um desconforto percorreu minha pele, como se o ar tivesse ficado mais pesado de repente. Ele notou.

— A tia dele era igual — completou, com um leve mover dos olhos em minha direção, como quem atira uma verdade esperando observar o impacto.

A sensação foi imediata. Como se as palavras dele tivessem empurrado algo dentro de mim — um pressentimento antigo que agora se confirmava. Meus dedos apertaram o livro que ainda segurava, e uma vertigem me subiu à cabeça, como se eu estivesse prestes a ver algo que nunca mais poderia desver.

— Eleanor — disse ele, com voz baixa, quase reverente. — A irmã de Lady Morgana.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.