Notas iniciais
>>>>>>>>>> LEIAM ESSAS NOTAS ATÉ O FINAL! Esse capítulo contém o começo de uma cena extremamente pesada. Tão pesada que não quero nem escrevê-la e por isso ela será pulada e censurada. Mas antes de falar isso, vamos falar sobre o Qebui e o Nefertem. Pra todo deus que aparece, eu dou aquela pesquisada pra ver quem são os pares românticos deles segundo a mitologia e não achei nenhuma informação do tipo nem pro Qebui, nem pro Nefertem. O Qebui, como bem lembram, apareceu ainda pequenininho então, por um bom tempo, eu nem me preocupei se ele ia ter qualquer ship. Mais tarde, quando eu estava procurando algum deus que pudesse ser interessante para se juntar a história, eu achei o Nefertem. Eu li sobre ele e achei o moço bem interessante e decidi colocar ele na história. Quando eu li sobre ele, já tava todo mundo mais jovenzinho então eu me deixei pensar sobre ships e, conforme eu lia sobre o Nefertem, mais o personagem ia nascendo na minha cabeça e, assim, ele já nasceu bi na história. Depois surgiu a ideia de fazer ele fazer um ship com o Qebui e, com isso, declarar o Qebui como gay. Então, comecei a fazer meu dever de casa para descobrir como a homossexualidade era tratada no Egito Antigo. Nisso, eu achei alguns deuses que a mitologia disse serem bis e um me chamou a atenção e fui ler mais sobre. Nessa leitura, a mitologia diz ter acontecido uma cena muito pesada mas que teve consequências e eu pude ver plots e mais plots nascendo por causa unicamente dela. Essa cena, era um estupro. Acho que não preciso dizer que é um ato horrível e abominável, mas o fato de ela acontecer me fez querer ainda mais mostrar a bissexualidade do Nefertem para que ele fosse um exemplo bom e o exemplo ruim não fosse o único. (Acho que todos podemos concordar que ele é um amor de pessoa). Resumindo, acho importante avisar que esse capítulo contém uma cena de estupro. Que não será mostrada até o final. Mal dá pra falar que será mostrada pra falar a verdade. Deixei apenas subentendido. Ela acontece na mitologia e a forma como será aqui tratada NÃO é romantizada e nem é apenas por fazer. Esse terrível momento terá sim uma série de consequências para muitos além de apenas os envolvidos. Se por algum motivo alguém preferir não ler o capítulo por causa desse estupro (que acontece láaaaa bem pro final), pode comentar aí pedindo um resumo ou algo do tipo q eu n vou ficar chateada. Importante frisar, estupro é ERRADO em níveis astronômicos. >>>>>>>>>>>>>>

Eu sou puro. Eu sou puro. Eu sou puro.

Minhas oferendas puras são as ofertas puras daquele grande Benu que habita em Hensu.

Pois eis que eu sou o nariz de Nof-Nefu, que dá sustento a toda a humanidade, no dia do enchimento do Utchat em Anu, no segundo mês da estação Pert, no último dia do mês.

~ Fragmento do Livro dos Mortos

A preocupação estava estampada no rosto de Anput quando Anúbis olhou para ela depois de ouvir a voz de Iset. A expressão dela dizia o bastante, mas mesmo assim ele fez uma pergunta um tanto retórica.

— Você ouviu também? — perguntou ele.

Anput afirmou apressadamente com a cabeça enquanto sua mente já começava a rapidamente trabalhar pensando em onde Hathor e Tawaret estavam. Thoth não estava muito longe dali, podiam ainda vê-lo inclusive e, por mais que o deus da sabedoria não fosse um deus relacionado ao nascimento, como Tawaret ou Hathor, sua ajuda ainda era frequentemente pedida pelos mortais em momentos de parto, talvez por sua grande sabedoria de medicina.

— Vou atrás de Hathor e Tawaret. Você chama Thoth. — disse Anput saindo correndo para ir em busca de uma das duas sabendo que pelo menos uma delas estaria ali no Salão do Julgamento em algum lugar.

— Thoth! — disse Anúbis correndo atrás do deus que olhou para trás e parou de andar enquanto se perguntando o que Anúbis queria.

— Sim? — perguntou Thoth.

— Estou precisando de um favor… Shadya não parece estar bem. — disse Anúbis -Teria como… ir até a casa dela?

— Agora? — perguntou Thoth — A próxima alma já deve estar chegando para ser julgada.

— Depois. — disse Anúbis apressadamente — Vamos parar os julgamentos por enquanto.

Como se correspondesse a voz de Anúbis, o Salão do Julgamento magicamente parou sua atividade e fechou suas portas para as almas que chegavam. Thoth olhou ao redor achando isso bem interessante, mas Anúbis não parou para notar isso, afinal, estava preocupado com Shadya.

Thoth não foi o único que notou que o Salão do Julgamento magicamente tinha parado suas atividades repentinamente por enquanto, Osíris também notou. Não demorou muito para Osíris se aproximar de Anúbis e Thoth enquanto Anput se aproximava correndo puxando Tawaret e Hathor com ela.

— Porque paramos? — perguntou Osíris.

— Shadya está precisando de ajuda no parto. Parece que as coisas não vão nada bem. Principalmente para Iset repentinamente pedir ajuda. — explicou Anput com o coração palpitando de preocupação.

— Vão. — disse Osíris com o rosto sério e afirmando uma vez com a cabeça.

Anúbis e Anput não esperaram nem um segundo a mais sequer. Rapidamente eles deixaram o Duat para trás e, levando Thoth, Hathor e Tawaret consigo, foram para a vila de Shadya. Eles apareceram diante da casa dela sem se preocupar em manter as aparências. Assim, não foi surpreendente o fato de um aldeão ter levado um susto com a repentina aparição deles e ter saído correndo para o lado contrário.

Diante a entrada da casa que muito havia crescido e melhorado com o passar dos anos, um claro reflexo de que o trabalho de Ahmen estava sim dando frutos, estava User abraçado com a irmã mais nova, Hehet, que chorava preocupada com sua querida mãe. Era um tanto estranho ver User, que obviamente havia envelhecido graças ao passar dos anos, estava parecendo estar tão velho quanto Anúbis. Era certamente difícil ver o bebê que um dia User foi ao olhar para aquele jovem de cabelos negros ralos e olhos que se encheram de esperança quando os deuses chegaram. Quanto a Hehet, ela havia crescido até virar uma garota de aparência doce, com o cabelo preso em um par de trancinhas e olhos alegres mas que, naquele momento, estavam cheios de preocupação e tristeza enquanto ela tentava achar um pouco de conforto no abraço do irmão mais velho.

— Senhor Anúbis, Senhora Anput… — disse User desviando o olhar dele, um tanto boquiaberto, para os outros três deuses que estavam atrás de Anúbis e Anput — Esses são…?

A pergunta de User foi interrompida por um longo e sofrido grito que saiu de dentro da casa. Shadya. Desviando de User e Hehet, Hathor e Thoth rapidamente se dirigiram para dentro da casa à passos apressados e Tawaret eventualmente seguiu-os junto com Anput. Não havia tempo para ficar trocando apresentações, eles sabiam disso.

Enquanto isso, no andar de cima da casa, Shadya sofria. Quando Hathor, Tawaret, Thoth e Anput, entraram no cômodo, eles logo viram que havia sangue demais manchando o chão e os pedaços de linho espalhados pelo andar.

Shadya gritava e chorava enquanto se apoiava de cócoras. Uma posição extremamente cansativa, mas que, naquela época, era comum por julgarem que seria melhor para o parto. Felizmente, ela tinha Iset e Ineni, filha de Iset, ajudando-a a se apoiar e encontrar forças com palavras gentis ou de determinação. Tanto Iset como Ineni estavam de joelhos, cada uma de um lado, ajudando Shadya enquanto uma senhorinha conduzia o cansativo parto ajudada por outras duas moças cujo suor escorria pela testa. Preocupadíssimo no canto, estava Ahmen, que não sabia muito o que fazer além de torcer pela esposa.

— Anput… q-quem…? — perguntou Ahmen olhando para os recém chegados já estando com o rosto pálido de tanta preocupação.

A pressa tendia a deixar perguntas sem respostas, mas Anput foi até Ahmen, cujo rosto começava a ficar marcado pela idade e cujo cabelo começava a ter os primeiros fios de cabelo branco, e segurou firmemente seu braço tentando passar para ele um pouco mais de tranquilidade e força.

— Trouxemos ajuda. — disse Anput.

— Com licença, sim? — disse Tawaret educadamente tomando o lugar da senhorinha diante de Shadya.

Com o olhar arregalado e maravilhado, a senhoria se afastou e em seguida deu uma longa e profunda reverência para a deusa. Tão grande que eu nariz pontiagudo tocou o chão que, num piscar de olhos, não estava mais sujo de sangue pois Thoth fazia o favor de limpá-lo magicamente. Mais importante do que isso, no entanto, foi a força extra que Thoth deu para Shadya usando sua magia que também curou o que desse para curar.

A dor e o sofrimento de Shadya eram tantos, que ela mal prestava atenção no que acontecia ao seu redor. Cada grama de dor de Shadya causava também preocupação em Iset que, pelo mesmo motivo, não fez muito alarde com a chegada de praticamente todos os deuses que eram capazes de ajudar em um parto. Talvez tenha sido bom isso, principalmente para Shadya, pois assim ela não viu o olhar de preocupação que Thoth trocou com Hathor quando ela trocou de lugar com Ineni.

— Respire… — disse Hathor com uma doce e calma voz — Você precisa de um pouco mais de ar primeiro antes de fazer força outra vez.

Um tanto trêmula e bastante pálida, Shadya olhou para Hathor. Tendo a atenção dela, Hathor aproveitou para demonstrar o ritmo para Shadya respirar. Sem achar outro modo de ajudar, Anput resolveu preparar o lençol de linho na esperança de que ele receberia a criança viva.

Do lado de fora, Anúbis, User e Hehet olhavam para o andar de cima da casa torcendo para que tudo desse certo. Não queriam entrar para não lotar demais o cômodo. Provavelmente foi pelo mesmo motivo que as duas ajudantes da velhinha saíram da casa com pequenos passos apressados. Anúbis, User e Hehet estavam extremamente preocupados com os acontecimentos e, exatamente por isso, não notaram quando, com olhares brilhantes mas ao mesmo tempo assustados, as duas moças se curvaram brevemente para Anúbis.

Lágrimas sofridas desciam pelo rosto de Shadya enquanto sua irmã segurava firmemente na mão dela tentando passar para a gêmea toda a força que tinha dentro de si. Tawaret, Hathor e Thoth sabiam, não diriam em voz alta, mas sabiam que deveriam ter chegado antes. Com seus poderes, eles ajudavam magicamente o bebê a descer, mas estava tarde demais para resolver aquele que seria o problema número 1.

— Força, você está indo muito bem. Já estou começando a ver o bebê. — disse Tawaret.

Shadya afirmou com a cabeça tentando ignorar toda a dor que a assolava e sem saber que havia algo mais que Tawaret não havia lhe contado. Não era a cabeça do bebê que Tawaret via, eram os pés.

Ahmen sentia suas pernas perdendo a força ao notar esse breve detalhe. Sentia também sua esperança fugindo pelos dedos e chegou a realmente quase cair no chão, mas Anput o segurou. Ahmen repentinamente se viu rezando para os deuses que estavam ali naquele cômodo já, usando seus poderes para conseguir tirar o bebê ainda com vida, algo já extremamente complicado devido a posição do bebê. A dificuldade também era aumentada pelo cordão umbilical que tentava enforcar a criança. Felizmente, um cuidadoso gesto do indicador de Tawaret foi o suficiente para magicamente arrumar essa parte.

O bebê estar ao contrário não era o único problema. Provavelmente Shadya estava já à várias horas tentando dar a luz antes de os deuses chegarem pois, no andar debaixo, Anúbis notou o problema número 2. Ficando rapidamente preocupado e assombrado, Anúbis sentia a vida de Shadya lentamente se esvaindo. A sensação era tal como um longo pedaço de tecido que ia lentamente se rasgando até que cada vez menos linhas unissem as duas metades.

Quanto mais frágil a vida dela parecia, mais desesperado Anúbis ficava. E não só ele, pois Anput sentia isso também e sofria sabendo que seria melhor ficar calada ou dar olhares para Thoth que, ao acenar com a cabeça, entendeu a mensagem passada com o olhar. A fragilidade da vida de Shadya chegou num ponto tão delicado, que Anúbis não aguentou esperar e subiu apressadamente para o andar de cima sendo seguido por User e Hehet que não entendiam bem o motivo dele ter subido do nada. Os três ficaram parados no portal de entrada do quarto com Hehet com as mãos sobre os olhos sem coragem de ver o que acontecia.

— Está quase lá. — disse Tawaret docemente — Vou te dar uma ajudinha, certo?

Tawaret já dava mais do que uma “ajudinha” desde de o começo. Assim como Thoth e Hathor que faziam mais do que dar à Shadya forças para continuar. Os três tentavam um meio de trazer o bebê ao mundo com vinda. Enquanto isso, do portal do cômodo, Anúbis sentia a vida se esvair de Shadya a cada segundo, como se as linhas de um tecido fossem uma a uma rompidas até que apenas uma linha restava. Numa medida desesperada, ele tentou fazer algo que nunca havia tentado antes, envolveu aquela única e frágil linha com seu poder na esperança de fazer ela durar o máximo possível. Afinal, se aquela linha não se rompesse, poderiam curar Shadya para reparar outras. Mas se aquela linha se rompesse… não havia solução.

Com magia, Tawaret de tudo fazia para tirar o bebê enquanto a fraqueza de Shadya era cada vez mais evidente em seu rosto pálido. Quando Tawaret por fim tirou o bebê, que silenciosamente e imóvel, pousou em seus braços, um suspiro de alívio escapou dos lábios de Shadya. Infelizmente, apesar dos esforços de todos, também foi aquele momento que a solitária e frágil força que mantinha a vida de Shadya se acabou.

Contudo, não foi naquele momento que Shadya deu o último suspiro ou que o brilho fugiu de seus olhos, pois ainda havia algo desesperadamente tentando segura-la por ao menos mais uns minutos no mundo dos vivos. Esse algo era Anúbis que, com toda sua concentração, ainda tentava manter aquela linha de vida, já partida, ainda se tocando. Uns minutos mais, a chance de se despedir, era tudo isso que Anúbis queria conseguir para Shadya. Contudo, o que estava acontecendo ali não havia passado despercebido para todos, pois lágrimas já escorriam pelo rosto de Anput enquanto estas também se acumulavam no de Anúbis, Tawaret e Hathor.

Com delicadeza, tentando segurar suas lágrimas, Hathor tocou levemente no peitoral do pequeno recém nascido que, embora ainda quieto, tinha a vida dentro de si. A criança imediatamente começou a chorar ruidosamente como resposta ao toque. O toque mágico de Tawaret também limpou a criança e fez todos os demais procedimentos para que ela ficasse pronta para ser recebida pelo sedoso lençol de linho que Anput segurava. Com uma fungada melancólica, Anput enrolou o bebê, uma garota, conforme pode ver, no tecido de linho e entregou o recém-nascido para a mãe que, pálida, tremia devido a fraqueza.

Ahmen apressadamente se aproximou da esposa e do filho enquanto magicamente toda a sujeira era limpa e, com lentidão e dificuldade, Shadya se sentava com seu pequenino bebê no colo e usando a irmã de apoio pois estava muito fraca para sentar-se sem qualquer encosto.

— Uma bela garotinha. Parece com você, Shadya. — disse Iset com um sorriso trêmulo devido à emoção e ao cansaço enquanto olhava para a pequena criança na qual Shadya passava a ponta de seu dedo trêmulo carinhosamente na bochecha enquanto a segurava no colo.

— C-Com... você também… — disse Shadya com fraqueza tentando fazer uma pequena piada com o fato dela e Iset serem gêmeas, mas ela não teve força alguma para rir.

Ahmen sentou-se ao lado da esposa e envolveu-a com o braço puxando era para mais perto de si enquanto admirava o pequeno bebê que mais lhe parecia um milagre. Ele fungava e chorava e rapidamente User e Hehet se aproximavam para participar do momento em família enquanto apenas uns sabiam do que eventualmente aconteceria.

— Não está pensando em tentar ressuscitar ela não é? — sussurrou Thoth para Anúbis depois de se aproximar dele e segurar firmemente em seu ombro — Você, mais do que qualquer um, deveria saber que isso não é certo.

— Não estou tentando isso. — disse Anúbis sem tempo para olhar para Thoth nem para se emocionar com as cenas que aconteciam pois estava concentrado demais tentando comprar uns minutos mais para Shadya — Só… quero dar um pouco mais de tempo para eles.

Shadya não conseguia desgrudar os olhos da filha recém nascida. Seu olhar era atento e carinhoso, como se quisesse decorar cada pedacinho dela. O mesmo olhar estava presente no rosto dela quando desviou o olhar para fitar todos naquela sala, principalmente aqueles com os quais ela compartilhava sangue ou o matrimônio. Ela não precisava ser deusa nem ter poderes incríveis para sentir o que aconteceria com ela, e era por isso que em seu rosto as lágrimas rolavam.

Trêmula, ela deu um fraco beijo na bochecha de Ahmen que, com um sorriso resultante da ignorância do que eventualmente viria, beijou-a docemente na testa.

— Eu posso escolher o nome? Posso segurar também? — perguntava Hehet.

— Calma, irmã. — disse User dando uma leve risada enquanto se divertia dando o seu dedo indicador para sua pequenina irmã recém-nascida tentar segurar.

— Oh, Ah...men, U-User, Hehet… e n-nossa…. pequenina que…. a-ainda não foi n-nomeada… — disse Shadya com dificuldade começando a soluçar levemente, mas até isso era complicado para ela — Iset, minha i-irmã… I-Ineni… minha sobrinha… pena que… n-não estão… todos aqui mas… q-quero que saibam… que eu a-amo tanto vocês…. m-minha… família.

— Não fale assim… parece uma despedida. — disse Iset com um sorriso torto que escondia o medo de realmente ser um adeus.

— É.. uma despedida… — disse Shadya sentindo os olhos pesarem — não sou tola… j-já notei… o-o favor que m-me faz… A-Anúbis… e… obrigada… a você… Anput… Qebui… e… N-Nefertem… p-pela amizade… e acho que p-posso incluir até certos m-mimos… p-principalmente com… essa ajuda a-aqui pre...presente…. h-hoje…

— C-Como assim.. ajuda que dá? I-Isso… i-isso não…. — gaguejou Ahmen sem conseguir formular uma frase e olhando para Anúbis e Anput em busca de respostas. Ele a encontrou no rosto choroso de Anput que, por um segundo desviou o olhar mas depois voltou a olhar para amiga ao se aproximar dela puxando Anúbis junto.

Todos os presentes desistiram completamente de segurar suas lágrimas e deixaram elas correrem livremente pelo rosto enquanto fitavam Shadya tentando guardá-la no coração. Por mais duas vezes Shadya tentou abrir a boca para falar, mas não mais encontrou forças para isso, nem para mexer a mão e tocar no rosto de um de seus filhos ou de seu marido. Contudo, tal como se tivesse lido a mente dela, User, choroso, segurou na mão dela. Logo em seguida, Hehet fez o mesmo na mesma mão e assim se seguiu até que toda a família estava de mãos dadas enquanto Shadya segurava com o outro braço a pequena recém-nascida.

Eventualmente, Iset teve que segurar o braço da irmã que segurava o bebê, pois bem via que a força estava se esvaindo. Com toda a força que lhe restava, Shadya abriu um pequenino e doce sorriso e afirmou fracamente com a cabeça para Anúbis. Um movimento muito sutil, mas que ele entendeu o que ela queria dizer. Com dor no coração, ele deu para ela mais alguns segundos, para que ela pudesse fixar os olhos na cena ao seu redor repleta de pessoas que ela amava. E, assim, ele simplesmente deixou a vida dela se esvair e a luz deixar seus olhos.

Nos braços daqueles que mais amava, Shadya estava morta.

Qualquer lágrima que ainda restasse foi liberada naquele momento. Nenhum dos presentes no cômodo era exceção. Enquanto o bebê chorava alheia ao fato de que tinha acabado de perder a mãe, os presentes tentavam lavar o luto com as lágrimas e um tempo para respirar.

Vários minutos se passaram e pouco havia acontecido. Thoth havia ido embora, mas os outros deuses continuavam ali. A essa altura, Hathor e Tawaret ficavam mais por respeito, afinal, não tinham conhecido a garota por muito tempo, mas era verdadeiro o pesar de Anúbis e Anput enquanto ela chorava no ombro dele.

Lentamente, a família de Shadya deitou-a delicadamente sobre a cama cobrindo-a com o lençol de linho tal como se ela estivesse dormindo. Iset segurava a bebê recém-nascida que, por causa de todo o pesar da situação, ainda estava sem nome.

Com um pesado suspiro, Ahmen olhou para o corpo da esposa e limpou pela décima terceira vez as lágrimas de seu rosto. Ele respirou profundamente e, mesmo com o rosto avermelhado pelo choro e as mãos trêmulas pela perda, ele andou até onde Anúbis e Anput se apoiavam na parede. Inicialmente, Anúbis e Anput não sabiam o que ele queria, até que Ahmen se ajoelhou no chão tocando-o com sua mão e abaixando a cabeça.

— Sei que não estou na posição de pedir favores. — disse Ahmen tentando se manter o mais firme que conseguia — Afinal, nos ajudaram tanto no decorrer desses anos. Salvaram-nos direta e indiretamente, deram-me uma profissão, trouxeram a presença de todos aqueles deuses dos quais poderíamos pedir ajuda no nascimento de uma criança e tenho certeza que é apenas por isso que minha filha vive. Mas, por favor, me permitam pedir apenas mais um favor.

— Ahmen… sabe que não precisa de tudo isso. — disse Anput.

— Anput está certa, não precisa de tudo isso. — disse Anúbis se agachando até ficar de joelhos também. Só imaginava o surto que alguns deuses, como Set, dariam ao ver aquilo — Se precisa de um favor, é só pedir.

— Não… me sinto abusando… — disse Ahmen — Eu deveria ser capaz de fazer mas…

— Deixe disso, só fale. — disse Anúbis.

— Poderia… cuidar do corpo de Shadya também? — perguntou Ahmen logo perdendo todo o controle e voltando a chorar — Ela é… era… tão doce e gentil. Eu não a merecia. Não a mereço. Pode ser um pedido egoísta de minha parte. Mas, se é para prepará-la para a jornada final, acho que ela merece, no mínimo, que seja o melhor de todos a fazer isso.

— Eu cuidarei dela. Não se preocupe. — respondeu Anúbis.

Um nó que havia se formado no coração de Ahmen se desfez e ele afirmou com a cabeça como agradecimento. Por mais alguns poucos segundos eles ficaram ali, até que passos foram ouvidos da escada até que Nefertem e Qebui surgiram.

— Temos um pr… — começou a dizer Qebui antes de ver a cena que tomava conta do cômodo.

A boca de Nefertem se abriu em surpresa e seus olhos rapidamente começaram a encher de lágrimas enquanto olhava para o corpo de Shadya. Trêmulo, até mesmo Qebui teve que segurar as lágrimas. Mas ao menos ele conseguiu segurar firmemente no ombro de Nefertem tentando consolá-lo enquanto se lembrava que não tinham tempo para ficar de luto, pois um problema muito grande havia surgido.

— D-Desculpe mas… um grande problema acabou de surgir… — disse Qebui olhando para Anput e Anúbis — Hórus sumiu.

Com olhares assustados Hathor, Tawaret, Anúbis e Anput se entreolharam. Os mortais ali presentes podiam até não saber a real profundidade disso, mas sabiam que não parecia mesmo uma boa notícia.

—Voltamos depois — disse Anúbis apressadamente saindo da casa dos amigos seguido dos outros deuses.

Obviamente que, assim que descobriram que Hórus não estava no palácio, todos os deuses entraram em desespero. E Hórus, que havia simplesmente escapulido para dar uma volta nos céus depois de desistir de treinar fazia magia com aquela pena, ainda mais depois que a conversa entre Shu, Tefnut e Khnum o desconcentrou completamente, não estava ligando muito para a preocupação dos outros deuses.

Hórus sentia a liberdade batendo em suas asas tal como o vento que elas cortavam com maestria enquanto aproveitava o céu e via seu reino do alto. As dunas de areia seguiam aparentemente infinitas no horizonte enquanto o jovem faraó deixava para trás a faixa de plantas verdes e terra negra que contornavam as margens do Nilo. Planando em sua forma de falcão, Hórus sentia o peito bater com força e felicidade por estar voando nos céus. Adorava a sensação de liberdade, a vista, o vento e tudo mais envolvido no vôo.

Apesar da felicidade que ardia no peito de Hórus, seu vôo foi interrompido quando outro pássaro tombou-se contra ele. Hórus se debateu tentando se livrar do enorme pássaro negro que não se parecia com nenhum pássaro que realmente existisse. Completamente negro, incluindo o bico fio e as íris dos olhos, a única coisa que não era negra no estranho pássaro eram o branco dos olhos e uma linha que contornava a parte superior dele como uma sobrancelha. Para completar ainda mais a esquisitice do animal, dois conjuntos de penas saíam de sua cabeça formando algo que, de longe, poderia até parecer um par de orelhas de coelho.

Caindo em queda livre, Hórus se debatia tentando se livrar do pássaro que o arranhava. No último segundo, o jovem faraó voltou para sua forma humanoide e conseguiu pousar na areia vermelha do deserto sem grandes problemas enquanto olhava com raiva e confusão o estranho pássaro. Diante de si, o pássaro batia as asas até que também se transformou e foi nesse momento que o coração de Hórus mudou um compasso pois, diante de si, com um sorriso que poderia ser no mínimo descrito como diabólico, estava Set.

— Olha só, vejo que meu sobrinho já cresceu para se tornar um belo homem. Como o tempo passa rápido, não? — disse Set.

Entretanto, Hórus não estava com paciência para conversas. Ele se levantou o mais rápido que pôde pegando a espada que estava em suas costas e correu para atacar Set. O ataque de Hórus foi completamente apagado quando Set mandou contra ele uma forte tempestade de areia que anuviou a visão do faraó que não viu que Set, além disso, havia mudado de lugar se misturando com a areia da tempestade.

Tentando enxergar algo no meio do turbilhão de areia, Hórus não viu que Set estava atrás dele, mas sentiu quando a espada de Set cortou-lhe a parte traseira dos joelhos fazendo com que o faraó caísse no chão. Entretanto, em nenhum momento Hórus deixou de segurar firmemente sua espada, assim como em nenhum momento se deixou desistir, mesmo quando o sangue prateado sujava a areia do deserto. Se enchendo de determinação, querendo aproveitar aquela chance para acabar com Set de uma vez por todas e voltar para o palácio cheio de glórias, Hórus ousou tentar se virar para atacar o tio. Contudo, prevendo isso, Set não só lançou chamas extremamente quentes contra o sobrinho, como também invocou magicamente exatamente seis lanças.

Set não precisou de mais do que um movimento de dedo para que as seis lanças que flutuavam no ar se abaixassem rapidamente perfurando Hórus contra o chão. O grito de dor do faraó dos deuses quebrou o silêncio do deserto. Não importava o quão incrível Hórus fosse em luta, isso não adiantaria de nada se não pudesse nem se mexer para começo de conversa.

— Preste atenção pois é assim que as coisas vão funcionar, Hórus. — disse Set apertando Hórus contra a areia ao apoiar o joelho nas costas dele no mero espaço que havia entre as seis lanças — Não sou tolo em continuar esse conflito dessa forma. Afinal, qualquer dano que eu faça em você, rapidamente será curado. Fica difícil te estraçalhar desse jeito com uma espada tão fraca quanto essa que empunhamos. Oh… espera, está conseguindo prestar atenção com tanta dor?

— C-Como … se v-você… se importasse… — disse Hórus com dificuldade e, à isso, Set respondeu se levantando e enfiando sua espada lentamente na perna de Hórus e girando-a para causar mais dor.

— Nossas armas machucam… — disse Set ignorando o grito de Hórus — mas os ferimentos rapidamente se curam. Não sei se sabe, sendo você tão novinho, mas eu tinha uma arma incrível cujos ferimentos nunca iriam se curar. Uma arma que não posso fazer novamente, já que não temos tal quantidade de caos acumulada mais. Deve ter ouvido a história, eu usei-a para cortar seu papai em pedacinhos.

N-Neket… I-Iadet…. — disse Hórus com dificuldade.

— Que boca suja! — disse Set continuando a cortar Hórus de forma entediada mas profunda e repetitiva, inclusive chegando ao ponto de fazer outra lança aparecer e perfurar o faraó bem no meio da coluna fazendo ele gritar mais uma vez — Pegue minha espada, sobrinho. Para que eu possa deixar você em pedacinhos, tal como seu pai. Ou, caso você confie em suas habilidades tanto, quem sabe não é o oposto que acontece? Vamos acabar isso de uma vez por todas.

Duvidando que Hórus tivesse qualquer possibilidade de sair dali na situação que estava. Set caminho despreocupadamente até onde o rosto de Hórus se apoiava e se sujava com a areia. Um filete de sangue prateado escorria pela boca do deus que, com extrema dor, mal conseguia manter os olhos abertos ou levantar a cabeça para olhar para Set.

— Está doendo não é? — disse Set olhando para Hórus e analisando-o bem — Não se preocupe. Afinal, isso vai se curar eventualmente.

Displicentemente, Set andava ao redor de Hórus mas sempre olhando se as lanças ainda estavam bem firmes e se os ferimentos ainda não tinham se fechado. Mas isso não impediu ele de, tediosamente, cortar a lateral do corpo de Hórus mais duas vezes.

— Isso é o nosso problema com dores físicas né? — disse Set — Podemos infligi-las em nossos inimigos, ao menos dentre nós, seres imortais, mas elas não vão causar danos permanentes nem duradouros. Mas, não acha que a dor psicológica é por vezes demais subestimada?

Parando diante dos pés de Hórus, que tentava achar forças para se livrar das lanças mas acabava era se machucando mais ainda, Set se espreguiçou e abriu um pequeno sorriso.

— Sabe, minha esposa terminou comigo. Ex-esposa, creio eu. — disse Set com um suspiro de fingida tristeza — Estou meio carente.

Da posição que Hórus estava, ele não podia ver o que Set fazia. Mas, de uma coisa ele tinha certeza, boa coisa não era. O jovem faraó já esperava alguma outra lança ou espada para aumentar ainda mais a dor que sentia e quase lhe fazia perder a consciência, mas se tocou que suas preocupações deveriam ser outras quando ouviu o leve barulho do saiote de Set caindo na areia.

Notas finais
E por hoje é isso. Desculpe por ter que ter colocado uma cena tão pesada. Vocês não devem ver mais do que isso mesmo. O próximo capítulo já vai ter pulado o que aconteceu de fato. eu considerei bastante se já deveria postar esse capítulo já que faz pouco tempo que atualizei a fic. decidi já postar pq eu só quero atualizar a Amor Abençoado pelo Nilo uma vez que aconteça uma determinada coisa nessa fic aqui. O que deve acontecer no próximo capítulo ou seguinte. Então, estou correndo pra n deixar a Amor Abençoado pelo Nilo parada por muito tempo. REFERÊNCIAS Thoth - https://en.wikipedia.org/wiki/Thoth Julgamento - https://www.ancient.eu/article/42/the-egyptian-afterlife--the-feather-of-truth/ Parto - https://www.midwiferysupplies.ca/blogs/ancient-midwifery-blog/295322-ancient-egyptian-midwifery-and-childbirth Parto 2 - http://www.touregypt.net/featurestories/mothers.htm Set - https://pt.wikipedia.org/wiki/Seti_(divindade) Livro dos mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf