A Morte Das Areias do Saara

121 Um Surto de Poder Mortal


Notas iniciais
Já peço desculpas por antecipação. Doeu mais em mim do que vai doer em vocês.

Adore vivendo para todo o sempre, o vivo Aten, o Grande que está no Jubileu, Mestre de tudo o que o Aten circunda, Mestre do Céu, Mestre da Terra, Mestre do Per-aton em Akhet-Ahen; e o Rei do Alto e Baixo Egito, aquele que vive no Maat, Mestre de Regalia, Akhenaton, o que viveu por muito tempo; e a Esposa Principal do Rei, a quem ele amava, a Senhora de Duas Terras, Nefertiti, viva, bem e jovem para todo o sempre.

~ Fragmento de “Hino a Aten”

Anúbis e Anput se entreolharam preocupados com o que tinham presenciado. Não sabiam quem era o deus que surgiu das chamas, mas sentiam que ele não era pouca e o calor intenso da explosão de quando ele saiu do Duat era prova disso. Por mais quente que as chamas do lago de fogo fossem, os deuses sentiam um frio na espinha.

— Isso foi o que acho que foi? — perguntou Osíris do canto até onde ele conseguia ir.

— O deus que Amon-Rá mencionou nascendo? — perguntou Anúbis.

— Exatamente. — disse Osíris com a voz tensa.

O casal olhou para ele mantendo o olhar de preocupação. Silenciosamente, eles se perguntavam o que iria acontecer. Tinham uma sensação horrível arrepiando os pelos da nuca de ambos. Por algum motivo, o futuro não parecia tão promissor.

— Não deve ser coincidência isso acontecer no mesmo momento que Amenhotep IV escolhe qual deus irá governar com ele. — disse Anúbis.

— Será que está tudo bem lá em Karnak? — questionou Anput.

Mais palavras não precisavam ser ditas. Um olhar entre eles foi o suficiente para decidirem que precisavam checar a situação em Karnak. Apreensivos com o que encontrariam, Anúbis e Anput deixaram o Duat e surgiram diante da entrada do cômodo central de Karnak onde sabiam que ocorreria a cerimônia com Amenhotep IV, agora Akhenaton, embora ainda não soubessem desse detalhe.

Ao chegarem lá, Anúbis e Anput mal tiveram tempo para processarem a cena chocante diante de seus olhos. Viram Sobek desmaiado numa poça de sangue ao chão com um braço faltando e várias queimaduras horrendas pelo corpo todo. Os demais deuses presentes também acumulavam suas próprias queimaduras, mas nenhum estava tão ruim quanto Sobek. As paredes sagradas do templo estavam intensamente queimadas e manchadas de preto, mas o fato de tudo ali ser de pedra claramente tinha impedido um desastre maior.

Ao chão, chocado e de joelhos, estava Akhenaton. Contudo, sua posição e situação não duraram muito, pois naquele exato segundo, Khnum, mesmo que cheio de ferimentos de queimaduras, investia na direção do faraó com uma khopesh pegando fogo. Uma luz explodiu do peito de Akhenaton, seguida da mesma explosão de antes. A explosão, novamente, afetou a todos que estavam perto demais dela, incluindo Anúbis e Anput que foram pegos de surpresa mas estavam num lugar melhor para se protegerem. Entretanto, o mais perto da explosão, foi Sobek que, já afetado pela explosão anterior, precisou apenas de mais uma para morrer.

A luz que explodiu do peito de Akhenaton formou, ao redor do faraó, a figura gigante de Aten. Mesmo estando numa forma gigante, a forma de Aten não alcançava o teto de Karnak. Todavia, a diferença de tamanho significou que ele facilmente pegou o braço com a espada de Khnum usando as mãos, mas não teve tempo de repetir o mesmo quando Khonsu invocou seu avatar e lhe deu um poderoso soco no rosto.

O soco queimou a mão de Khonsu e empurrou Aten para trás cortando sua mão na espada de Khnum, ainda em sua mão. Aten caiu, na direção da porta, onde Anúbis e Anput estavam. Eles saíram do caminho no último segundo, enquanto Aten caía para trás esbarrando no portal da porta e fazendo a estrutura de Karnak tremer. Anúbis apressadamente envolveu Aten em faixas de linho na esperança de levar a luta para outro lugar, mas assim que elas tocaram o corpo do deus, elas começaram a queimar, se desfazendo rapidamente.

— Isso não teria acontecido se você pedisse pro Sobek esperar! — reclamava Khonsu.

— Pedi pois queria primeiro conversar com Akhenaton! — justificou-se Hórus — Nem tudo se resolve na luta!

— Horus está certo! — insistiu Thoth — Vamos dialogar!

— O que aconteceu?! — perguntou Anput.

— Akhenaton clamou por um deus não existente que ele diz ser o único. — explicou Tefnut se arrepiando toda com a ideia de um faraó monoteísta.

— Um único deus? Isso não faz nem sentido. — comentou Anput.

Aten preparou com suas mãos uma bola de fogo e lançou na direção de Anúbis e Anput. Os dois simplesmente se desfizeram em névoa e surgiram novamente atrás dele, no mesmo segundo em que Khnum invocava uma grande onda e lançava contra Aten, empurrando-o parcialmente contra uma pilastra que se partiu. Sem a pilastra, parte do teto perdeu seu apoio e começou a cair. Os deuses logo embaixo saíam dali, Aten rolou com um impacto para um pátio em céu aberto e fumaça saía de seu corpo devido ao contato da água com algo muito quente.

— Quem é Akhenaton? — perguntou Anúbis.

— O novo nome que Amenhotep IV se deu. — respondeu Nekhbet.

— Temos que tirá-lo daqui ou ele vai destruir o templo de Karnak inteiro! — reclamou Hathor.

— Simplesmente deixem-me ir que não trarei danos ao seu querido templo. — disse Aten com a voz acompanhada da de Akhenaton enquanto erguia-se.

— Não. Prefiro me livrar de você. — disse Khonsu.

Aproveitando que a água pareceu ter diminuído a temperatura do corpo de Aten, Khonsu partiu para cima de Aten, que criou uma khopesh inteiramente feita de fogo para gladiar contra a khopesh do deus da lua. Era uma luta confusa de se ver pois, em alguns momentos, ela parecia rebobinar por alguns segundos trazendo uma certa vantagem para Khonsu, que não se perdia já que era dele que vinha tal magia.

Nekhbet se transformou num grande abutre e voou alto no céu, onde parou no ar magicamente concentrando toda sua magia para lentamente enfraquecer o espírito de Aten. Um resmungo indicou que Aten sentia a magia de Nekhbet, que conseguiu o distrair o suficiente para Khnum invocar o próprio avatar e, usando magia, criar um enorme punho de pedra que socou Aten enquanto Khonsu desviou por pouco do soco do amigo.

Aten acabou sendo empurrado contra uma enorme pilastra que, devido ao impacto, se inclinou e caiu, derrubando uma seguinte, que derrubou outra, que derrubou outra e mais outra. O dominó da destruição de Karnak dava uma fisgada no coração dos deuses, que logo ficaram extremamente preocupados com a destruição do maior templo do mundo e mais importante templo do Egito.

Fugir de ser vítima da destruição era fácil, por mais que alguns dos deuses tivessem se preocupado ainda com tirar do caminho os sacerdotes que acabaram envolvidos na confusão. Gritos se espalharam por Karnak, nenhum deles vindo dos deuses. A área era ridiculamente grande demais, mas mesmo aqueles ao redor ouviam as enormes e pesadas pedras caírem enquanto Khonsu, Nekhbet e Khnum lutavam contra Aten.

— Temos que tirar ele daqui urgentemente! — declarou Hathor.

— Porque raios você queria conversar com ele? — perguntou Anúbis olhando para Hórus.

— Para dialogar civilizadamente. — justificou Hórus — Não gosto da situação, mas os mortais devem ser livres para adorarem quem quiserem. Já fizeram antes com o Imhotep.

— Mas Imhotep era só “mais um” deus para se juntar a nós. — lembrou Tefnut — Agora é alguém que quer ser o único!

— Sem falar que agora claramente é tarde demais para diálogo. — comentou Thoth — E para deixar ele ir sem consequências. Aqui ainda é o Egito, nossa terra.

— Podemos não gostar, mas temos sempre que deixar a história seguir seu fluxo. — disse Hórus sem parecer concordar totalmente com a própria fala.

— Deixar sempre a história seguir seu fluxo mesmo quando isso pode nos prejudicar? — perguntou Anúbis.

— Bem… — disse Hórus trocando o peso do corpo de um pé para o outro de forma insegura, como se ele mesmo não acreditasse tanto nas palavras que viriam a seguir — Eu pensei em convidá-lo a se juntar ao panteão ao invés de ser “único” como Akhenaton disse.

— Não acho que ele aceitaria isso. — concluiu Tefnut.

— Eu vou chamar Lady Ísis. — declamou Anput sumindo logo em seguida.

— Não… — concordou Hórus — Mas não temos tempo para ficar aqui conversando. Vamos ao menos colocá-lo em seu devido lugar e tirá-lo urgentemente de Karnak, e quem sabe conseguimos conversar desse jeito.

— Não vai ser fácil. Ele me parece estar com um surto de poder por Akhenaton ter o clamado. — explicou Thoth.

Como num flashback, Anúbis lembrou-se de quando aconteceu o mesmo quando ele criou o Aaru. Ele tinha certeza que não conseguiria repetir o feito. Contudo, logo um barulho de explosão de Aten atraiu a atenção dele de volta para a situação. Já ciente de que receber uma daquelas a queima roupa não era muito bom, Khnum se afastou rapidamente e Nekhbet nem chegava perto, mas não deu tanto tempo para Khonsu, que até conseguiu se afastar, mas acabou se queimando ainda, mas não tanto, ainda aguentava lutar.

— Deixar isso sem resolver pode ser pior ainda. — disse Tefnut olhando para Hathor e Anúbis — Me ajudam? Tenho uma ideia.

— Quase todos já estão machucados. Cuidado com a ideia. — pediu Hórus.

Após breves explicações, Hórus se juntou à luta enquanto, logo ao lado de Anúbis, Hathor se transformava em Sekhmet. Hórus, Khonsu e Nekhbet distraíam Aten enquanto Tefnut tirava Khnum da luta e explicava para ele o plano que tinha. Era uma luta delicada e o templo de Karnak sofria. Khonsu e Nekhbet estavam machucados e os ferimentos não se curavam tão rápido assim, então Tefnut tinha que ser rápida.

Anúbis e Sekhmet se prepararam invocando seus avatares e Tefnut, ao lado de Khnum, prestava atenção em cada movimento do combate.

— AGORA! — gritou ela quando a situação lhe pareceu ideal.

Ela e Khnum invocaram, juntos, uma grande e poderosa onda de água bem gelada e lançaram contra Aten. A força em conjunto dos dois derrubou Aten e o esfriou o corpo do deus apesar do sacrifício de mais algumas pilastras de Karnak. No exato segundo seguinte, Sekhmet, com sua poderosa boca de leoa, mordeu o pescoço de Aten fincando suas garras em seus ombros enquanto Anúbis prendeu os braços e pernas do deus com faixas de linho repletas de névoa.

Sekhmet tentou puxar Aten magicamente para outro lugar, longe de Karnak, mas a magia dos dois lutavam entre si como um cabo de guerra. Sentindo a forte resistência não só da magia, como também nas faixas de linho, Anúbis imitou Sekhmet e, com as presas da cabeça de chacal de sua forma gigante, mordeu a lateral do corpo de Aten além de prendê-lo com as mãos também. Thoth, decidindo ajudar, magicamente tentou restringir os movimentos de Aten com uma corda mágica que, pelo deus estar encharcado, felizmente não se queimava ainda.

Dentro do avatar de Aten, Akhenaton sofria. A magia do deus era tudo o protegendo dos golpes pesados que facilmente poderiam causar sua morte. Mas os dois não tiveram escolha, a combinação das forças e magias de Sekhmet e Anúbis conseguiu transportar os três para um lugar melhor para lutar, no meio da imensidão infinita do deserto.

Infelizmente, no segundo seguinte, Aten tentou explodir novamente. Encharcado, a tentativa falhou soltando primeiro um soluço de explosão seguido de uma explosão menor do que as anteriores, mas ainda letal que atingiu, fortemente e de bem perto, Anúbis e Sekhmet. Os dois pegaram a explosão mais de perto do que qualquer um, inclusive Sobek. Assim, foram jogados para longe pela explosão enquanto sentiam o corpo arder e ser ferido. A areia dourada se manchava de sangue divino prateado, e com intensa dor principalmente no rosto e braços dilacerados com horrendos ferimentos excruciantes pelo corpo todo, Anúbis e Sekhmet desmaiaram em suas próprias poças de sangue.

O avatar luminoso que envolvia Anúbis e Sekhmet piscou algumas vezes e então se apagou, deixando apenas o corpo empapado de sangue de ambos jogado na areia. No segundo seguinte, Hórus, Thoth e Tefnut apareceram nos céus, os dois primeiros em seus próprios avatares. Thoth, analítico, já começou usando todo seu arsenal de magias para tentar conter o movimento de Aten e até era a intenção de Hórus fazer o mesmo, mas sua intenção foi desviada por um segundo ao ver a papa de sangue que eram Anúbis e Sekhmet. A última que, apesar de tudo, ainda era Hathor também, sua esposa. Hórus ficou vermelho de raiva e, no fundo, ele sabia, não só por Hathor.

— Thoth! — exclamou Hórus — Cuida dos dois, por favor. Eu lido com esse maldito.

Thoth imediatamente atendeu a ordem indo curar Anúbis e Sekhmet enquanto Aten já preparava uma bola de fogo para a aproximação de um raivoso Hórus. Contudo, ele não notou Tefnut que, quieta atrás de uma duna, usava toda sua magia para invocar a chuva. Hórus desviou do ataque e logo contra atacou da forma mais rápida que conseguia, sem dar tempo para Aten envolvê-lo em suas explosões extremamente perigosas.

Invocando os poderes do céu, Tefnut concentrou toda a chuva que conseguia em um único ponto, o ponto da lua. As nuvens cinzas correram pelo céu lentamente e então rapidamente quando Khnum surgiu e começou a emprestar a deusa sua magia. Nuvens pesadas de chuva que não se via no Egito se concentraram todas no ponto da luta e, num simples piscar de olhos, começou a chover torrencialmente enfraquecendo as chamas de Aten.

Mesmo machucado, Khonsu se juntou ao combate sincronizando seus ataques com o de Hórus e voltando o tempo em alguns segundos quando Aten ousava explodir tudo. Lutando ao mesmo tempo com tantos deuses, Aten riu.

— Seus poderes estão diluídos. Precisam de tantos para lutar contra mim. — disse Aten — Um único deus é a melhor opção.

— Diz isso mas só vi foguinho vindo de você até agora. — respondeu Hórus.

A chuva intensa transformava o deserto num enorme lamaçal, que também atrapalhava a luta. Felizmente, Hórus, sendo um falcão, não era estranho a lutar aproveitando os céus deixando Aten cada vez mais preocupado com a segurança de Akhenaton, preservado dentro do avatar luminoso.

No meio das falas, a luta não parava. A situação já era pessoal demais. Por outro lado, Aten já estava pensando em formas de escapar numa tentativa de preservar a vida do faraó, já que temia o que aconteceria consigo sem seu mais fiel seguidor.

— Vocês estão claramente em desvantagem. — disse Aten — Não querem simplesmente me deixar ir? Livre arbítrio existe, sabiam?

— Achou mesmo que essa ia funcionar? — perguntou Khonsu.

— Eu até tinha a intenção de conversar, mas você já deixou tudo pessoal demais. — disse Hórus.

Aten deu um longo salto para trás, a chuva o acompanhou impedindo que ele saísse de sua zona de alcance. O deus então ergueu as duas mão como em sinal de rendição mesmo que uma delas ainda segurasse a khopesh feita de fogo.

— Vamos conversar então. — disse Aten — Se bem que vocês que começaram.

— Ah sim, porque foi a gente que inventou de criar um “deus único” e ainda matou Sobek. — perguntou Khonsu — De onde surgiu essa de “deus único”?

— Khonsu, deixe comigo. — pediu Hórus dando uma rápida olhada para onde Thoth, Anúbis e Sekhmet estavam pois havia notado movimento lá.

Os ferimentos ainda eram vários, Anúbis e Sekhmet ainda aparentavam estar muito mal, mas ao menos agora estavam num pedaço só e acordados, graças a cura de Thoth. O movimento que Hórus notou, foi Sekhmet testando sua força ao se sentar, e ficou evidente que essa força não era muita.

— Mas Khonsu tem razão. De onde surgiu essa de “deus único”? — perguntou Hórus.

— Nunca ouvi falar de nada tão ridículo. — comentou Khonsu tentando fazer a voz ser ouvida pela chuva ruidosa.

— Khonsu… — reclamou Hórus em voz baixa deixando a chuva abafar sua voz, enquanto ninguém notava a chegada de Nekhbet, que pousou sobre uma duna de areia intacta pela chuva.

— Eu não sei de onde veio a ideia. — admitiu Aten dando de ombros fazendo pouco caso.

— Podemos talvez… pensar em deixar essa briga de lado… — disse Hórus odiando as próprias palavras e falando entre dentes — E pode se juntar ao panteão…

— Panteões com vários deuses aceitam mais um facilmente. — disse Aten — Mas eu quero ser único. Por isso, se tem algo que eu sei, é que eu vou substituir vocês todos.

Qualquer vontade de resolver aquilo pacificamente se acabou nos deuses com aquela frase. A primeira a reagir foi Nekhbet, que ativou sua magia para enfraquecer e quebrar o espírito de Aten. O deus imediatamente sentiu a magia, que achava extremamente incômoda e preocupante, então, com uma explosão meio falha devido ao corpo molhado, Aten sumiu de onde estava e foi para a duna onde Nekhbet estava causando outra explosão.

A deusa, no entanto, previa que isso podia acontecer e voou para os céus no último segundo sentindo o cheiro de pena queimada causado pela ponta de suas penas de abutre queimadas pela explosão que passou perto. A chuva, acompanhando Aten, apagou as pequenas chamas de Nekhbet.

Desaparecendo novamente com uma explosão e reaparecendo com outra, Aten surgiu novamente na frente do caminho de Nekhbet mas logo foi atingido por uma massa incrivelmente densa de névoa negra. A névoa empurrou Aten para fora de sua rota original e, com o contato com a névoa, seu corpo começou a putrefazer lentamente pois, lá do chão, todo machucado, exausto, com dores e sentindo muita vontade de desmaiar, Anúbis controlava aquela névoa com toda a sua concentração e magia.

Preso pela névoa, chuva intensa e Nekhbet quebrando-lhe o espírito, as coisas ficaram complicadas para Aten. Mas o deus não desistia. Ele já estava decidindo, entre Tefnut, Anúbis e Nekhbet, qual era seu alvo mais interessante (ou incômodo), quando sentiu seu corpo magicamente ficar rígido como se estivesse preso por amarras invisíveis.

Aten caiu no chão bruscamente, sujando-se completamente de lama e até engolindo-a, e então ergueu a cabeça com dificuldade. O deus foi recebido pela imagem de Sekhmet, trocando para Hathor, brilhando levemente criando uma bela imagem apesar dos vários machucados que a deusa acumulava. Era claro que era só força de vontade que mantinha a deusa de pé, tal como Anúbis. O que não era óbvio, eram as sete fitas semitransparentes que ligavam Hathor à Aten.

— Não acredito… — murmurou Thoth, logo ao lado de Anúbis e Hathor, chocado e maravilhado com o que via — São essas as Sete Fitas de Hathor?

— Hathor… — murmurou Hórus preocupado, lembrava de quanto Hathor mencionou o feitiço uma vez, uma novidade que gastava uma quantidade absurda de magia.

— O que é isso? — perguntou Aten quase engolindo um punhado de lama.

Aten gritou como se as fitas a queimassem. As fitas começaram a brilhar, o deus gritou de dor e raiva, mas ainda muito consciente. Ele concentrou toda a sua força, juntou tudo de si, pois sentia que era uma situação de agora ou nunca. Aten sentia a chuva em seu rosto e o corpo se putrefazendo, mas tentou lidar com o incômodo e a dor que ambos causavam, para juntar a maior explosão que conseguia.

— Ela precisa de mais tempo… — concluiu Hórus — E temos que distrair ele! Assim ele vai conseguir e-…

Hórus não terminou sua frase, pois a maior explosão de Aten até agora se seguiu. A explosão fez as amarras com as fitas de Hathor se afrouxarem e ele sumiu dali. Determinado a resolver parte de seu problema antes de fugir, Aten reapareceu com outra explosão na frente de Anúbis e Hathor. Fracos e pegos de surpresa, os dois não conseguiram fugir. A explosão pegou eles de perto demais.

Contudo, Aten sentiu como a explosão tinha sido bem mais fraca que as anteriores. Seu surto de poder estava acabando. Por isso, mesmo ele já tendo deixado Anúbis e Hathor extremamente queimados, com os joelhos já começando a cair no chão, Aten, usando o benefício de seu avatar gigante e a falta do mesmo nos dois, agarrou Anúbis e Hathor pela cabeça e explodiu mais uma vez, dessa vez sem trocar de lugar. Queria garantir que eles estavam realmente mortos. Assim se livraria de dois problemas de uma vez só.

Thoth, perto demais dos dois deuses, também foi pego pela explosão e caiu no chão desmaiado. O deus da sabedoria caiu no chão com apenas um suspiro o separando da morte enquanto Aten deixou cair na areia os corpos mortos de Anúbis e Hathor. No mesmo segundo, alguns metros atrás dele, surgiram Anput, Ísis e Set. Aten tinha certeza que era hora de fugir. Com uma explosão menor que a anterior, ele se foi deixando os deuses totalmente destroçados e adicionando Thoth na lista de mortos. Queria ter levado Nekhbet e Tefnut também, mas se contentaria com a lista de mortos que já tinha.

— ANÚBIS! — gritou Anput correndo chorosa desesperada pela lama até a massa negra disforme que tinha virado o marido.

A cena foi repetida por Hórus e Ísis enquanto Tefnut deixava a chuva ir embora e ela e Khnum caíam exaustos de joelhos na areia. Chorosa, tremendo e pálida, Anput caiu de joelhos ao lado de Anúbis, que estava numa situação muito triste e assustadora. Fumaça negra saía lentamente de seu corpo que se desfazia como um frágil carvão e logo lentamente desaparecia como flocos negros de poeira cada vez menor.

— Não… Não… Não não não não não não não! POR FAVOR NÃO! — gritou Anput de olhos arregalados em completo desespero.

Ao lado dela, uma cena muito similar se repetia entre Hórus e Hathor, com a adição de que a chama do mais puro ódio e sede de vingança queimavam no olhar de Hórus. Ísis, logo atrás dos dois, tentava se manter calma, mas a verdade era que estava bem pálida e tremendo enquanto percorria os olhos por Anúbis, Hathor e Thoth. Ela parou o olhar por mais tempo em Anúbis, a quem considerava como um filho do coração, e sentiu lágrimas escorreres pelo rosto.

A elegante deusa respirou fundo lentamente, limpou disfarçadamente as lágrimas, lutou contra a vontade de desabar no chão também, e olhou para o céu por um segundo, combatendo a vontade de chorar, e falou:

— Eles vão voltar. Só temos que esperar.

Se Anput ou Hórus ouviram suas palavras, eles não mostraram. Só ficaram em seu luto, mesmo que temporário, pelos amados até eventualmente trocarem entre si o foco do luto sendo Anúbis e Hathor importante para ambos, mesmo que de formas diferentes.

Cabisbaixos, cansados, machucados e derrotados, os deuses não tinham força de vontade nenhuma para continuar a brigar com Aten no momento. Sobek, Thoth, Anúbis e Hathor na lista de mortos eram muito peso.

— Vou chamar Ptah para arrumarmos Karnak… — comentou Khnum cabisbaixo deixando o lugar para trás.

— Será esse Aten pior do que Apófis? — perguntou Set claramente inatingido pela morte do filho — Ou é apenas porque conhecemos mais Apófis apesar de ele também ter nos surpreendido?

— Sabe, as vezes eu me pergunto se você tem sentimentos. — comentou Tefnut — Seu filho acabou de morrer.

— Ele volta depois… — comentou Set dando de ombros.

Hórus e Anput continuaram ignorando todas as conversas que aconteciam ao redor. Apenas continuaram lá, de joelhos na areia. Anput até tentou, delicadamente apesar dos soluços e das lágrimas que escorriam sem parar, pegar para si o último punhadinho de areia negra que um dia foi Anúbis. Entretanto, esse punhadinho, tal como o resto, logo se desfez e, junto com um punhadinho muito parecido para Hathor, foi carregado como poeira pelo vento misturando-se com a areia do deserto antes de desaparecer.

Uns segundos depois, Hórus e Anput se entreolharam, sem palavras para trocar entre si, e se ergueram. Hórus se transformou num falcão e voou pelos céus para longe enquanto Anput continuou no mesmo lugar. Ela respirou fundo dizendo a si mesma que Anúbis ia sim voltar. Não havia nada de preocupante. Deuses morriam e voltavam. Mas logo a mente dela começou a ir para lugares perigosos e perguntar-se coisas como “E se Akhenaton substituir a todos nós?”. Sem os fiéis, um deus não era nada.

Sentindo que Anput precisava de um ombro amigo, Ísis passou o braço ao redor dela num meio abraço tentando lhe passar força. Anput quase desatou a chorar novamente, mas respirou fundo e se manteve firme.

— O q-que vai acontecer agora? — perguntou Anput.

— Ele vai voltar. Quanto a isso não acho que temos que nos preocupar. — disse Ísis sentindo uma lágrima escorrer teimosamente pelo seu rosto novamente — Mas… de resto… imagino que a situação irá ficar cada vez mais complicada.

Ísis, infelizmente, estava certa. Nos dias que se passaram, depois que Akhenaton magicamente se recuperou da briga que, apesar dos esforços de Aten, acabaram o atingindo, muitas mudanças foram anunciadas. Duas delas foram as mais estranhas, peculiares e preocupantes.

— Tem certeza disso, meu faraó? — perguntou Ay, um dos principais conselheiros de Akhenaton e grande militar.

— Tenho sim, Ay. — respondeu o faraó — E precisarei da ajuda do exército para isso.

— Trocar a capital mais para o norte… — comentou Ay, pensando na ideia — É complicado, mas pode contar comigo.

— Um ponto no meio do caminho entre Tebas e Mênfis. — disse Akhenaton empolgado — Uma cidade inteiramente nova dedicada ao grande Aten. Construída com todas as pompas e, de preferência, o mais rápido possível.

— Teremos que checar com os arquitetos reais. — disse Ay pensando na situação — Mas imagino que queira usar toda a mão de obra disponível.

— Sim. — confirmou Akhenaton — Toda mão de obra disponível e possível! Já comentei com o arquiteto, apesar de que creio que ele ainda não entendeu o quis dizer com “toda mão de obra disponível e possível”. Mas não tem problema. Falarei com ele novamente. Mas, tem outra coisa que preciso de sua ajuda. Ou melhor, da ajuda de seus homens.

— O que seria, meu faraó? — perguntou Ay.

A ideia de uma cidade nova, no entanto, não era tão impopular e assustadora quanto a segunda mudança. Era só mais um dia normal, mulheres rodeavam a escultura de um escaravelho ao lado do lago sagrado de Karnak fazendo pedidos que, naquele lugar, só seriam atendidos às mulheres, quando soldados interromperam a pequena cerimônia.

Por todo o Egito, cenas semelhantes se repetiram em todos os templos por soldados que não gostavam muito da ideia, mas não tinham opção. Eram ordens do faraó. Todos os templos estavam fechados, adorar outros deuses com exceção de Aten era terminantemente proibido. Uma decisão extremamente impopular, mas que nenhum mortal tinha poder de reclamar.

Notas finais
NÃO DESISTAM DE MIM KKK ELE VOLTA SIM TÁ? KKK *************** UM POUCO DE VIDA REAL **************** Akhenaton, marido da famosa Nefertiti, provável primeiro monoteísta da história, fechou templos, proibiu adoração a outros deuses e começou a construção de outra capital em seu nome. Atualmente chamada de Amarna mas na época era chamada de Akhenaton também. Pra não ficar confuso, vamos com Amarna. Ay, seu principal assistente, também existiu. No geral, as religiões antigas politeístas não ligavam muito de se um povo conquistado, por exemplo, adorasse o próprio deus ao invés dos deuses deles desde que seguisse a cultura geral, tbm aceitasse o resto do panteão e blablablabla. Resumindo, meio q era um “q q é um deus da mais se eu já tenho vários?” tanto para a comunidade religiosa como para o povo. Akhenaton… e depois os romanos quando viraram cristãos… foram meio q uns dos primeiros exemplos de conversão forçada e… intolerância religiosa. **** REFERÊNCIAS **** Hino à Aten - https://uh.edu/honors/human-situation/survival-kit/study-aids/Hymn%20to%20the%20Aten.pdf Aliás, eu só coloco aqui as referências de internet kk ainda tem um bando de livro e documentário kk