A Morte Das Areias do Saara
46 Teste de paternidade
Notas iniciais

Eis que chegamos em paz, nossa terra aonde chegamos.
Ouça-me, ó mestre, estou livre do excesso.
Lave-se, dê água às suas mãos,
para que você possa responder ao rei quando for dirigido
e possa falar com o rei de maneira sensata
e possa responder sem gaguejar ao contar essa história.
A boca de um homem resgata ele.
Ele fala e faz com que alguém demonstre indulgência.
~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”
A única coisa que fazia o calor infernal que estava presente, não só no sol, como também no ar pesado e abafado que estava em todo lugar, era a leve brisa que balançava as folhas das palmeiras quase impercetivelmente. Uma brisa sem dúvida muito bem vinda quando Anúbis e Anput se aproximavam da sacada do palácio do faraó acompanhados de Thoth já que haviam ido até ali desde da pirâmide de Djoser.
O burburinho da cidade já parecia distante quando os deuses começaram a se reunir no palácio usando aquela entrada escondida da sacada para evitar chamar qualquer atenção dos mortais que viviam e trabalhavam no palácio.
—O problema, é que ainda não pensei num jeito de que funcione durante a noite. — dizia Thoth explicando mais detalhes sobre sua mais recente invenção — Mas de dia, funciona uma maravilha. O sol faz uma sombra no chão que, dependendo de onde o sol está no céu, estará num lugar diferente.
—Faz sentido…. — comentava Anput — É que nem a sombra que ele faz nas árvores então?
—Sim. Só que estou usando um obelisco para isso. Tem menos coisas na ponta, sabe? — continuou Thoth — E com uns riscos no chão, é possível marcar em que parte do dia estamos de acordo com a posição da sombra.
—Hórus já sabe dessa invenção? — perguntou Anúbis.
—Não. Marquei com ele de mostrá-lo amanhã quando o sol estiver no ponto mais alto. — disse Thoth — Gosto de pensar nisso em algo como "metade do dia" ou "meio-dia". Algo assim.
Enquanto adentravam mais no palácio, no entanto, Anúbis parou de andar e segurou o pulso de Anput gentilmente para que ela fizesse o mesmo. Um olhar de confusão passou por Anput tentando entender o que ele queria, e esse olhar logo se repetiu em Thoth quando ele notou que os dois não estavam mais o acompanhando.
—Pode ir, nós já vamos. — disse Anúbis para Thoth.
Thoth deu de ombros e então continuou a andar despreocupadamente enquanto sua mente só pensava em suas várias invenções e pesquisas. Era complicado pois ele queria, às vezes, fazer tudo ao mesmo tempo ou focar em mais de uma coisa. Eram tantas ideias e questionamentos em sua cabeça, que ele mal conseguia escolher no que trabalhar em seguida.
—O que foi? — perguntou Anput curiosa.
— Só… uma preocupação que passou pela minha mente. — disse Anúbis — Está tudo bem? Você pareceu triste por um momento lá do lado da tumba de Djoser?
—Oh, aquilo… — disse Anput desviando o olhar brevemente, segurando um suspiro e então abrindo um sorriso meio falso para ele — Não era nada. Sério.
— Mesmo? — perguntou Anubis desconfiado inclinando sua cabeça levemente na diagonal, uma pequena mania, ao sinal de suas dúvidas e estranhamentos.
— Mesmo. — disse Anput afirmando com a cabeça — Só umas besteiras que passaram pela minha mente.
Qualquer tentativa de Anúbis se seguir aquela conversa em particular foi frustrada quando uma voz feminina de aproximou chamando pelo nome de Anput. Os dois olharam para a direção da qual vinha a voz e viram Sodpet, a deusa da estrela Sírius, se aproximando.
—Sabia que tinha reconhecido sua voz, Anput. — disse Sodpet colocando cada uma das suas mãos sobre um dos ombros de Anput — Vieram para a reunião chata com Hórus?
— Sim. Que nem todo mundo, não? — perguntou Anput.
— Eu não. — disse Sodpet dando de ombros — Não tem muito sentido ou razão para os deuses menores irem. Só ficamos ouvindo sem serventia alguma. Toda a discussão chata fica com os deuses chatos…. Sem ofensa, Anúbis.
— Tudo bem. — respondeu ele dando de ombros — A maioria lá é bem chata mesmo.
— Se não veio para a reunião, para o que veio então? — perguntou Anput.
— Relaxar. — disse Sodpet fazendo uma expressão de confusão aparecer tanto no rosto de Anput como no de Anúbis — Vem comigo, eu te mostro. É muito bom e o Nefertem e o Qebui estão lá também. Não vai pra essa reunião chata não.
Anput olhou para Anúbis em busca de uma segunda opinião e, considerando que ele ainda estava preocupado com o que se passava na mente de Anput, ele abriu um pequeno sorriso e incentivou ela a passar um tempo com uma amiga, como Sodpet. Talvez assim, pensou ele, ela pudesse conversar com alguém sobre o que sentia já que ele não parecia ser a pessoa certa para conversar sobre o que quer que Anput estivesse pensando.
— Vá. — incentivou ele — Não deve ter nada de importante na reunião. E eu te conto tudo o que aconteceu depois.
— Consegue ficar lá em mim? — perguntou ela zombando um pouco com um sorriso no rosto.
— Prometo tentar não começar a brigar com o Hórus dessa vez. — respondeu ele revirando os olhos com um pequeno sorriso.
— Só tentar? — perguntou Anput.
— Só tentar. — confirmou Anúbis.
Anput revirou os olhos e então deixou Sodpet a puxar para longe ao mesmo tempo em que Bes se aproximava deles seguido de Nefertem e Qebui.
—Nefertem, Qebui, estão indo para a reunião? — perguntou Sodpet confusa — Achei que fossem me fazer companhia.
— Bem que eu queria fazer companhia tanto a você como a Anput. — reclamou Nefertem suspirando.
—Ah não. Fui pessoalmente arrastar esses dois, e você também, para a reunião. — disse Bes indicando Anúbis com a ponta de seu nariz — Hórus falou que nenhum deus, deusa ou deus-menor pode tentar escapar da reunião de hoje.
—Nek, — reclamou Sodpet — minha sessão de massagem já era.
—Não, não, pode ir para a sua massagem. — disse Bes meio sem graça — Essa exigência foi só quanto aos homens deuses e deuses-menores e as deusas.
—Oh! — exclamaram Sodpet e Anput ao mesmo tempo com surpresa no olhar e se entreolhando brevemente.
—Desde quando Hórus é tão idiota?- perguntou Sodpet.
— Cuidado com o que diz garota. — alertou Bes.
—Por mais que eu não discorde quanto ao fato de Hórus ser idiota, — disse Anúbis — creio que essa restrição aos deuses homens sejam porque ele quer descobrir quem é o pai de Imhotep hoje.
—Descartaram a mãe então? — perguntou Qebui.
—Falei para ele que a parteira de Imhotep morreu. — explicou Anúbis — Pude checar suas memórias e ficou claro que a mãe de Imhotep era uma mortal.
—Sendo assim, — disse Sodpet — vamos para nossa massagem, Anput.
—Não sei… — disse Anput -bem queria ver a reviravolta dessa paternidade misteriosa.
—Não… Vai ser mais divertido acabar com o estoque de óleos do palácio. — implorou Sodpet dando uma piscadela para Anput — Enquanto Hórus estiver fundido com o Faraó Djoser, ele estará os usando, certo? Assim podemos ter uma pequenina vingança por ele não dar valor à nós. Sem falar que várias vezes tentaram descobrir já quem era o pai ou mãe do Imhotep. Agora não será diferente.
Por alguns segundos, Anput considerou aquela proposta e o singelo sorriso que abriu em seu rosto foi suficiente para que Sodpet a puxasse à passos apressados para longe dali. Apenas a leve risada das garotas foi deixada para trás enquanto Bes cruzava os braços e soltava um suspiro.
— Sabe que Hórus não iria gostar de ouvir elas falando assim dele né? — disse Bes.
— Com certeza não. — concordou Qebui.
— E você também, garoto. — disse Bes olhando para Anúbis enquanto eles começavam a andar — Por quantos séculos mais vai ficar implicando com Hórus.
— Por mais que dizer isso não soe muito bem, — disse Anúbis — sabe que não sou só eu que provoco ele.
— Sei. — disse Bes — Mas ele é o faraó.
Alheias às discussões e preocupações das conversas deles, as duas garotas logo foram na direção oposta da reunião entrando logo no cômodo onde, até alguns segundos antes, Nefertem e Qebui também estavam. Nesse cômodo, bem arejado por causa da presença de grandes janelas e um portal para uma varanda, haviam vários jarros de flores, algumas cadeiras de madeira sem encostos, um grande baú ricamente detalhado e quatro mulheres que não se surpreenderam.
— Eu avisei que voltaria quando ouvi sua voz no corredor. — disse Sodpet sentando-se em uma das cadeiras.
— Por acaso é aqui então que você passa o tempo nas reuniões que tem? — perguntou Anput sentando-se na outra cadeira enquanto duas das mulheres abriam o baú e pegavam de dentro dele um pequeno jarro de cerâmica com óleo corporal com cheiro de flores.
— Talvez. — disse Sodpet dando uma leve risada — É viciante. Porque é muito bom. Tinha mesmo que ter sido o Nefertem pra ter inventado essa maravilha.
— Imagino que ele venha direto aqui também então? — perguntou Anput enquanto Sodpet se aconchegava melhor na cadeira e, não querendo sujar o top que usava de óleo, o retirou e deixou largado na cadeira logo ao seu lado.
— Não sei. Talvez não aqui exatamente. Aposto que ele tem seu próprio cantinho para receber uma boa massagem com esses óleos maravilhosos. — disse Sodpet enquanto uma das mulheres, com as mãos cheias de óleo, começava a fazer uma lenta massagem em seus ombros enquanto outra apoiava seus pés sobre um pequeno banquinho e fazia o mesmo com eles.
— Provavelmente. Ele com certeza iria querer ter algo assim só para ele também. — disse Anput ainda tentando se soltar enquanto subia um pouco de sua saia para que uma das mulheres colocasse delicadamente seus pés sobre o banquinho e começava a massagear com o óleo.
— Recomendo abaixar as alças do vestido também, senhorita. — disse a última mulher com uma voz doce e delicada — Para a massagem nos ombros.
Como Sodpet havia feito o mesmo, Anput achou que seria mesmo o melhor a fazer. Recebendo então a massagem, foi simplesmente impossível não relaxar e se aconchegar. A massagem era tão boa e o cheiro dos óleos eram tão doces e puros que qualquer preocupação parecia desaparecer no mesmo segundo fazendo as duas deusas lentamente fecharem os olhos.
— Então… — disse Sodpet — Não quero parecer como uma bisbilhoteira, mas o que exatamente aconteceu no tumba de Djoser que deixou o Lorde da Terra Sagrada preocupado com sua dama?
— Parece que escutou mais do que só minha voz. — disse Anput deixando escapar um suspiro.
— Creio não precisar salientar isso, mas eu também me preocupo com você. — disse Sodpet abrindo um olho para espiar a amiga — Estou aqui para ouvir se precisar falar, embora ache incrível que não tenha contado nem para ele.
— Eu não contei para ele, pois tenho medo que ele se sinta culpado. — disse Anput abrindo os olhos e encarando o teto do cômodo enfeitado com símbolos e pessoas meticulosamente pintadas que retratavam cenas bobas do dia a dia em meio à flores exóticas e pássaros coloridos.
— Isso só me deixa ainda mais curiosa. — disse Sodpet.
— É que… — disse Anput tentando começar a explicar e deixando outro suspiro escapar por seus lábios — Sabe… é complicado. Você… o Nefertem… o Qebui… é… diferente. Cada um tem seus deveres, suas responsabilidades. Deusa da estrela Sírius, deus dos perfumes, do vento do norte… mas eu… eu sou de parte das coisas que Anúbis também é. Só que ele é um deus atolado de coisas para fazer, e eu sou só uma deusa menor. É quase como se eu tivesse nascido pra ser secretária dele e isso…
— É uma merda. — completou Sodpet e Anput concordou.
— Sim. — disse Anput — Tem muita coisa que eu ajudo ele, e muita coisa não tem para onde fugir, tem que ser ele a fazer. Mas não essa sensação de eu ser uma mera ajudante. Queria algo só para mim fazer, sabe? Antes eu ficava bastante tempo com a Shadya e até tentei arrumar outras amigas mas… não demora muito pros mesmos problemas voltarem. Mortais também têm coisas para fazer e então morrem. Também passei um tempo treinando com a Bastet e até com a Sekhmet, adestrando a Ammit, viajando por aí, até passei uns anos aprimorando magia e essas coisas para conseguir deixar o Salão do Julgamento mais aconchegante, principalmente para Osíris, que fica preso por lá. Mas…
— Não é a mesma coisa. — chutou Sodpet — Já tentou… sei lá?... pegar totalmente para você alguma das funções do Anúbis? Até onde sei, ele faz um monte de coisa, não?
— Ainda não é o mesmo. — disse Anput — Já teve algumas vezes que fiz parte das coisas dele. Ele realmente não liga. Óbvio que se fosse outro deus ele não gostaria, mas comigo ele não liga. Por isso já fiz parte dos serviços dele algumas poucas vezes. Menos julgar os mortos, isso ele não tem como escapar. O pior é que os mortos não param de chegar agora. Enquanto conversamos a fila vai só aumentando. O tempo passar diferente no Duat não ajuda tanto assim mais. Isso tudo antes nem me incomodava muito mas… depois de tantos séculos, é difícil não ficar incomodada ou com inveja de toda essa importância que ele conseguiu como deus e não só… um deus-menor.
Enquanto Anput, com uma expressão um pouco triste, tentava aproveitar a massagem, Sodpet a olhava preocupadamente. Sodpet então deixou escapar um suspiro e tentou tirar uns minutos para pensar em algo mas, a verdade era que não era muito fácil.
— Pode até soar uma ideia tosca mas… — disse Sodpet com cautela — Já pensou num bebê? Já fazem mais de 400 anos que casaram. Já mais do que passou da hora não?
— Vai se juntar aos vários que ficam irritando a gente por isso? — reclamou Anput revirando o olhar e trocando rapidamente sua tristeza por um certo desgosto.
— Não. Não vou cobrar. Desculpe por mencionar… foi só uma ideia. — disse Sodpet tentando se defender.
Enquanto isso, em outra parte do palácio, c uma postura altiva e de respeito, caminhava o faraó Djoser. Mais alto do que boa parte de seus servos, Djoser tinha um rosto que passava toda a inteligência necessária para estar no trono por tantos anos. Seu rosto, sério e pensativo, era marcado por grandes lábios e nariz. Seus olhos, marcados pela tinta negra do Kajal, eram até pequenos em comparação ao conjunto. Seu corpo negro era marcado por músculos e pequenos cortes comuns na vida de qualquer governante que, assim como ele, expandiu as fronteiras de seu império militarmente.
Djoser caminhava em direção ao amplo salão que guardava o seu trono. Contudo, antes de fato entrar lá, ele parou. Perto do salão principal, não parecia haver ninguém além dele. Ou melhor, ninguém mais além dele e Hórus pois, como um fantasma, Hórus saiu de dentro de Djoser e os dois se encararam por alguns segundos.
— Tem certeza que é uma boa ideia fazer sua reunião aqui? — perguntou Djoser para Hórus que, apesar de estar com centenas de anos, não parecia também 1 dia sequer mais velho do que parecia aos 18.
— É mais prático. — disse Hórus — Ninguém vai ver ou ouvir nada. Estaremos aqui mas ninguém notará.
— Humm… — disse Djoser cruzando os braços — Não se esqueça de…
— Eu sei. — disse Hórus cortando Djoser — Não preciso que me lembre.
Hórus deu as costas para Djoser e seguiu para o salão onde ficava o trono de Djoser. Lá, com o auxílio de muita magia, era como se a realidade tivesse outra camada. Pois, qualquer humano poderia entrar e passar de um lado para o outro do salão e não veria nada demais. Contudo, ali também estavam reunidos dezenas de deuses que esperavam a chegada de Hórus.
Os deuses presentes ali conversavam com vozes baixas enquanto Hórus entrava sem falar com ninguém e ia em direção ao trono que, embora fosse pequeno, era quase que completamente feito de ouro. Mais no centro do salão, estavam os deuses mais importantes como Bastet, Sekhmet, Isis, Thoth, Sobek, Khnum, Bes, Shu, Serqet, Nekhbet, Tawaret, Khonsu, Tefnut, Hathor. Ainda não tendo se juntado ao centro do salão, estavam Anúbis e Néftis. Anúbis, que estava encostado contra uma coluna de braços cruzados perto de Nefertem e Qebui, deixou um suspiro meio cansado escapar de seus lábios ao ver que Hórus tinha chegado.
— Acho que agora vai finalmente começar. — disse Anúbis enquanto se descolava da coluna.
— Será que finalmente vamos descobrir quem é o pai de Imhotep? — questionou Nefertem.
— Enquanto Hórus não for mais enfático tentando descobrir essa informação, acho difícil. — disse Qebui.
— Vamos… — disse Néftis se aproximando dos três e olhando para Anúbis — Sabe que temos que ficar lá no meio.
— Eu sei. Eu sei. — disse Anúbis.
Enquanto Néftis e Anúbis se aproximavam do centro, Hórus olhou para os vários deuses ali presentes anotando mentalmente quais, dentre os principais, estavam faltando. Rá, que raramente aparecia. Geb e Nut, que eram, para toda a eternidade, responsáveis por ser a terra e o céu. E Set, que, por suas próprias razões, simplesmente não quis ir, mas isso Hórus resolveria depois quando, com o cair do sol, eles começassem a brigar de novo, tal como acontecia eventualmente.
O olhar de Hórus também se demorou um pouco mais em Serqet, a deusa escorpião de pele pálida, praticamente cinzenta, com cabelos lisos e negros como seus olhos frios e até um pouco cruéis que não combinavam com o olhar feliz, talvez até feliz demais, que a criança ao seu lado exibia. A criança, de cabelos verdes e pele azul, era Hapi. O jovem deus não parecia ter mais de 7 anos e parecia extremamente curioso com o que Hórus tinha para dizer.
— Bem, creio que muitos já tem ideia de qual o motivo que nos levou a nos unirmos aqui hoje novamente. — disse Hórus — Contudo, antes de chegarmos nesse assunto, gostaria de tratar de algo. O Egito está muito grande e cresceu muito. Tanto em território quanto em população. Djoser deu a ideia de dividirmos entre nós os nomos para que cada deus fique responsável por alguma parte.
— Dividir entre nós? — perguntou Sekhmet — Vejo a utilidade disso, mas que garantia teria de que o Nomo seria bem cuidado? Sabes bem que cada um de nós temos ideologias bem diferentes.
— Não pretendo deixar todas elas com apenas um deus responsável. — disse Hórus — Embora algumas possam sim ter apenas um deus responsável, dependendo do histórico dele ou dela, claro.
— Diga o que quiser, mas ainda quero continuar responsável por todo o Alto Egito. — reclamou Nekhbet.
— Pode considerar-se como responsável pelo Alto Egito junto com aqueles que ficarem responsáveis pelos seus Nomos. — disse Hórus — Podemos conversar os detalhes com mais calma.
Por muito tempo os deuses tentaram dividir os nomos entre si, o que com certeza não era fácil. Alguns ficavam com mais de um nomo e alguns Nomos ficavam com mais de um deus.
— Então… estão de acordo em dividir o 13º nomo do Baixo Egito, Heqat, entre si? — perguntou Hórus eventualmente — Anúbis, Néftis, Ptah, Hesat e… Rá… bem… apesar de Rá não estar aqui para opinar.
— Eu não me importo, mas realmente não posso dar muita atenção para ela. — disse Ptah — Prefiro deixar meu foco com o 1º nomo do Baixo Egito, Ineb Hedj, por mais que ainda o divida com muitos outros.
— Seu culto é majoritariamente lá, é compreensível. — disse Néftis.
— Mesmo assim, são assim só duas regiões para você. E divididas com outros deuses. — disse Anúbis — Hórus, já estou com três regiões. Não me importo em dividir com os outros mas, juntar cuidar de Heqat, Atef-Khent e Anpu e os meus deveres de sempre… isso tudo pode ser um pouco pesado. Ainda mais que estou sozinho com Atef-Khent e Anpu. Não poderia dar alguma para Anput? Ela não ficou com nada.
— Nem está presente. — disse Hórus dando de ombros.
— Rá também não está. — disse Qebui tentando ajudar a dar alguma região para a amiga embora ele também não tivesse nada.
— Rá é Rá. — disse Hórus — Heqat é dividido entre muitos ocupados. Atef-Khent, o 13º nomo do Alto Egito, é o centro de seu culto. Acho que as tumbas de cachorros por lá são provas disso. Quanto ao 17º nomo do Alto Egito, Anpu… ele tem seu nome, primo! Os mortais assim o nomearam. Duvido que aceitarão outro deus por lá.
— Um hieróglifo a mais no final e vira o nome da Anput. — disse Anúbis revirando os olhos.
— Divida-o com ela então. — disse Hórus — Não ligo. Mas não pretendo dar alguma região para que ela cuide sozinha. Não passa de uma deusa menor no final das contas.
— Fala isso mas, mesmo assim, deu várias regiões para Nemty! — reclamou Anúbis ficando com raiva.
— Nemty pode não ser um deus importante como nós, mas é um deus antigo e está presente hoje. — disse Hórus sério já cansado daquela conversa — Mais antigo do que eu ou você.
— Essa é a razão de você dar tantas regiões para ele e para Anput não, ou o fato de ele ser um falcão como você? — questionou Anúbis — Ou talvez não queira dar espaço algum para Anput por outro motivo. Afinal, deu regiões para Heryshef, que também é um deus menor. Deu para Osíris que nem do Duat pode sair. Deu para Sopdu, embora o filho de Sodpet não tenha nem um século. Deu para Set inclusive, seu pior inimigo!
— Osíris e Set são importantes e tenho que alcançar algum equilíbrio com Set para que os conflitos de antes não recomecem. — disse Hórus irritado se erguendo de seu trono — Tirando eles, todos os outros estão presentes. Contudo, não vejo sua esposa aqui. Esse assunto está encerrado!
Irritado, sem sequer conseguir engolir direito a raiva que estava sentindo no momento, Anúbis não pode fazer muito enquanto Hórus mudava de assunto. Contudo, numa última tentativa de talvez ter uma carta na manga, ele não precisou fazer muito para, discretamente, invocar um chacal feito de sombras e mandar ele atrás de Anput.
Na esperança de que talvez conseguiria algo para ela no final, de uma forma ou de outra, Anúbis deixou a reunião seguir. Não sabia bem o que a deixou chateada quando estavam ao lado da tumba de Djoser, mas notava como, recentemente, ela parecia mais desanimada no Duat. Esperava que seu chute de como ajudar estivesse certo, pois, se não, teria que descobrir com mais certeza o que a incomodava.
—Agora… — dizia Hórus depois de terminada as divisões dos nomos — temos que tratar do último assunto do dia. Imhotep.
Olhares foram trocados ante a menção do nome do semideus. Alguns deuses pareciam que pegariam até um um balde de pipoca para acompanhar o momento caso esta já tivesse sido inventada.
Na falta de baldes de pipoca, os olhares curiosos e os cochichos foram suficientes para mostrar como quase todos pareciam extremamente curiosos para descobrir qual deus havia ajudado a gerar Imhotep.
—Fui informado de que a parteira de Imhotep morreu recentemente. — disse Hórus olhando para Anúbis.
—A parteira? Em que isso nos ajuda tanto a ponto de outra reunião com essa conversa como objetivo ter sido organizada? — questionou Ptah.
—Ela ainda não foi julgada mas, ao notar que a mulher veio a falecer e, considerando todo esse mistério em que estamos, resolvi ir até sua alma e checar ao menos parte de suas memórias. — explicou Anúbis — A mulher pode não ter vínculo sanguíneo algum com Imhotep, mas, pelas memórias dela, foi possível notar que a mãe de Imhotep é realmente, sem dúvida, uma mortal. Ele não foi adotado. A mulher não estava sob efeito de nenhuma magia grande ou complexa. Ela também não estava hospedando nenhum deus.
— Homens… — disse Bastet revirando os olhos.
— Se pela parteira ter morrido você conseguiu descobrir isso, — disse Sobek — Por que só não matamos a mãe de Imhotep e descobrimos com quem ela andou trepando?
— Já disse que sou contra esse tipo de assassinato de mortais. — ralhou Hórus seriamente.
— Nem mesmo se for um semideus? — arriscou Sekhmet.
— Nem mesmo um semideus! — ralhou Thoth — Nem pensem em tocar um dedo sequer em Imhotep. Ele com certeza vai causar grande impacto no mundo mortal. Não vê o tamanho que está ficando a tumba de Djoser? Nunca nenhum mortal fez nada daquele tamanho!
— Defendendo ele assim, e considerando toda a inteligência de Imhotep… — disse Khnum — Você bem deve ser o pai dele, Thoth.
— Eu nunca trairia Ma’at dessa maneira! — exclamou Thoth — Não ouse me acusar assim. Todos nós sabemos que você já traiu Heqet algumas vezes!
— Não precisa também me expor assim! — reclamou Heqet envergonhada e com raiva.
— Imhotep é um sacerdote de Rá, não quero dizer isso mas… — começou Khonsu — Será que não seria Rá o pai?
— Duvido muito que ele tenha tempo para conseguir se divertir com uma mortal no meio de sua rotina de guiar o sol e ainda manter Apófis sob controle — disse Ísis.
— E Set? — perguntou Ptah — Ele nem está aqui… isso pode ser o sinal…
— Não acho que Set possa gerar mais filho algum. — disse Bes e algumas pequenas e abafadas risadas apareceram entre alguns dos deuses.
— Tal comportamento baixo então deve ser de algum deus menor. — disse Shu revirando o olhar — Engravidar mortais.
— Acha mesmo que vocês são perfeitos? A maioria dos problemas que acontecem são consequências do que vocês fizeram. — ousou Qebui de forma impertinente.
— Como ousa? — reclamou Shu — Imhotep pode muito bem então ser um filho adotado seu então, Qebui. Seu homem, pelo o que me lembre, também gosta de mulheres, não?
— Já ouviu falar em ser fiel, Shu? — perguntou Nefertem tentando esconder o fato de estar morrendo de medo de enfrentar Shu assim — Posso até me interessar por mulheres também, mas sou fiel ao Qebui.
— Se está tão desesperado para sair acusando os outros, Imhotep pode muito bem ser seu filho então, Shu. — disse Anúbis.
— E você? Qual sua desculpa, Anúbis? — perguntou Sobek — 400 anos já se passaram e nenhum filho. Não é como Qebui e Nefertem, está casado com uma mulher. Que provas temos de que não ficou entediado e transtornado com o fato de que Anput ainda não te deu um herdeiro?
— Quando eu acho que não pode sair mais coisa sem sentido de sua boca, Sobek, você me surpreende novamente. — rebateu Anúbis — Imagino que seja difícil para você, que não conseguiu ainda achar ninguém que te ature, entender como é realmente gostar de alguém e lhe ser fiel.
— Pronto. — disse Bes — Será que não foi em seu momento de solidão que resolveu se engraçar com uma mortal, Sobek?
— Chega. — disse Hórus firmemente — Ficarmos nos acusando, novamente, não vai nos levar à lugar algum. Pretendo apenas terminar essa reunião depois que descobrirmos quem, de fato, é o pai de Imhotep. Considerando que conseguimos reduzir bastante nossas opções tirando as mulheres de nossa lista, creio que podemos hoje tomar uma medida mais decisiva hoje.
— Espero que seja de fato efetiva essa sua medida decisiva. — resmungou Sekhmet.
— Creio que será. — disse Hórus olhando então para Anúbis — Primo, será que poderia nos emprestar a pena da verdade?
Olhares surpresos então apareceram nos rostos dos deuses. Esses olhares eram direcionados para Hórus ou para Anúbis. Tais olhares eram consequências do pedaço de informação que os presentes ali tinham. Todos sabiam que, embora a pena da verdade fosse muito importante na pesagem do coração, ela tinha outros poderes mágicos muito úteis. Dentre os poderes úteis da pena da verdade, estava o fato de ela fazer qualquer um que a segure e conte uma mentira, pegar fogo. O que não costuma ser muito agradável.
Entendendo que era exatamente a parte de detectar uma mentira que Hórus estava interessado, Anúbis não viu problemas em simplesmente estender a mão e fazer aparecer, flutuando e brilhando levemente, a pena da verdade.
— Considerando todas as acusações e preocupações dos presentes, — disse Hórus andando até Anúbis — acho que nada mais justo do que sermos os primeiro a usar a pena, Anúbis. Todos os homens vão ter a sua vez até acharmos o pa de Imhotep.
— Eu preciso também, pai? — perguntou o pequeno Hapi ao lado de Serqet.
— N-Não, Hapi. — respondeu Hórus escondendo que, assim como alguns outros deuses, haviam achado a pergunta engraçada — Você é muito novo.
— Mas eu quero segurar a pena também! — pediu Hapi.
— Isso não é um brinquedo, Hapi. — disse Anúbis encarando Hórus.
O olhar de leve raiva com o qual Anúbis olhou para Hórus não era por causa de toda a situação com Imhotep ou por causa das acusações, mas sim por causa de toda a situação antes com Anput. Contudo, foi com total calma e confiança de sua inocência que, mesmo com a pena na mão, Anúbis simplesmente disse.
— Eu não sou o pai de Imhotep. — disse Anúbis.
Por alguns segundos os deuses esperaram algo acontecer e, como nada aconteceu, Hórus tomou a pena para si e repetiu:
— Eu não sou o pai de Imhotep.
Novamente, nada aconteceu. Então, carregando a pena que flutuava em sua mão, Hórus começou a ir em cada um dos deuses esperando que aquela simples fala fosse dita enquanto eles seguravam a pena. Enquanto ele passava por todos os deuses, Anput chegou se aproximando de Anúbis o mais discretamente que pode.
— Oi. — sussurrou ela de trás de Anúbis se esticando para o ouvido dele enquanto olhava para Hórus — Aconteceu alguma coisa importante?
— Acho que essa não foi uma reunião muito boa para você ter evitado. — sussurrou Anúbis de volta enquanto, sob olhares extremamente atentos, Thoth repetia a frase enquanto segurava a pena da verdade — Ele separou os Nomos para vários deuses. Não sei bem se era do seu interesse, mas tentei pegar algum para você.
— E? — perguntou Anput curiosa enquanto Thoth devolvia a pena para Hórus depois dela não ter apontado mentira alguma.
— Não consegui. — disse Anúbis — Hórus reclamou que você não estava aqui, então não merecia Nomo algum.
— Ah… — disse Anput decepcionada soltando um suspiro — Podemos tentar depois que… que… o que ele tá fazendo entregando a pena da verdade pro Khonsu?
— Tentando achar o pai do Imhotep. — explicou Anúbis.
— Oh. — disse Anput surpresa com a técnica diferente que estava sendo usada por Hórus.
Depois que a pena não mostrou mentira alguma na mão de Khonsu, foi a vez de Ptah. Ele segurou a pena e a encarou por alguns segundos e depois deixou o olhar focar em Hórus. Ptah podia sentir o olhar de todos sobre si, olhares que pareciam ficar cada vez mais pesados a cada segundo que se passava sem que Ptah dissesse nada.
— Ptah? — disse Hórus.
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