A Morte Das Areias do Saara
6 Tem uma primeira vez pra tudo
Notas iniciais

Ó primeiro, grande Deus, que veio a ser do seu próprio consentimento, Isis e Néftis saudaram-te, elas cantam para ti cânticos de alegria ao teu levantar-se no barco, estendem-se as mãos para ti. As almas do leste seguem-te, e as almas do oeste te louvam. Você é o governante de todos os deuses. Tu, no teu santuário, tem alegria, pois o Serpente-demônio Nak foi julgado pelo fogo, e o teu coração se alegrará para sempre.
~Fragmento do Livro dos mortos
A ideia de Set causou mais alvoroço entre os deuses do que a proposta de Osíris. Pode até ser que parte do coração de cada membro da família real e também das três crianças que a tudo assistiam, torce-se para que nenhum outro deus desse ouvidos à Set. No entanto, não foi isso que aconteceu. Quando Set deixou o palácio, levou consigo vários deuses que o apoiavam. Entre eles, Sekhmet, Naunet, Sobek e sua mãe Neith, Khonsu, Néftis que não teve muito direito de escolha, mas olhou para trás preocupada com os irmãos e o filho antes de ir embora, e outros.
Aquela situação obviamente acabou toda a animação de quem ficou. Todos falavam ao mesmo tempo e perguntavam dezenas de coisas a Osíris. O deus, no entanto, moveu a palma das mãos para baixo tentando acalmar os outros deuses que gradualmente foram parando de falar.
— Um pouco de calma. Sim? – disse Osíris – Thoth, sua opinião me é muito importante. O que acha?
— Essa situação não me parece muito boa... – comentou Thoth – Sei que houve outras vezes em que conflitos entre deuses existiram. No entanto, dificilmente eles terminam bem.
— Não mesmo. – concordou Bastet.
— Acho que só nos resta nos prepararmos para o eminente conflito e tentar pensar mais rápido do que Set. – disse Ísis.
— O que não vai ser uma coisa fácil – comentou Hathor.
— Já brigamos muitas vezes e percebo que os planos de meu irmão tem um padrão – comentou Osíris.
— Chamar simplesmente de “brigar” é subestimar a problemática. – comentou Ísis.
— Set sabe formas de matar um deus – disse Khnum – e bem sei que ele já tentou usar algumas delas no senhor, Lorde Osíris. E também em Lady Ísis.
Osíris suspirou. A situação com Set era complicada, mas ele ainda era família. Osíris não sabia muito bem o que fazer. Os deuses ficaram lá conversando enquanto o tempo passava até que as crianças ficaram cansadas da conversa alguns minutos depois de não mais conseguirem acompanha-la.
Antes que as crianças notassem, já estavam indo para casa (no caso de Anput e Qebui) e então indo dormir.
No dia seguinte, Anúbis acordou e levantou-se de sua cama. A cama, apesar de um pouco baixa, estava dentro de todos os entendimentos modernos e ocidentais de uma cama. De madeira e com a cabeceira enfeitada com detalhes de outro, a cama também tinha os pés enfeitados com o formato de pequenas cabeças de leão. A mente da criança ainda estava pensativa quanto aos acontecimentos do dia seguinte. Anúbis foi andando pelos corredores até que parou quando ouviu a voz de Osíris.
— O que acha? – perguntava Osíris para alguém dentro da sala que ele estava.
Anúbis não ousou tentar ver com quem o tio falava e, assim, se escondeu atrás do vaso de flores que tinha logo atrás do portal de entrada da sala.
— Creio que seja uma boa ideia... – disse Thoth — divulgar a escrita a alguns humanos. Posso fazer isso.
— Sabia que poderia contar com você. – disse Osíris.
— Qual a graça de produzir conhecimento e não o compartilhar ao menos com alguns? – perguntou Thoth.
— Falando em “produzir conhecimento”, está trabalhando em algo recentemente?
— Sim. Bem interessante, para falar a verdade – disse Thoth com a voz sonhadora – Uma forma de podermos escrever sem ter que depender das tábuas de madeira ou pedra. Algo mais prático!
Osíris parou por uns segundos, provavelmente pensando na ideia e então disse com a voz lenta e pensativa.
— Não consigo nem imaginar o que quer.
— Verás! Assim que conseguir, mostrar-lhe-ei.
Não interessado em conversas no momento, Anúbis virou-se e tornou a andar. Decidiu então sair do palácio, ver se Anput ou Qebui já tinham acordado. Talvez pudessem sair para brincar. Não demorou muito para que as três crianças estivessem logo reunidas. Juntos, deixaram para trás a área onde os deuses viviam. Nenhum humano sabia onde ficava. O máximo que os humanos sabiam da existência era o templo no qual Anúbis, Qebui e Anput tinham aulas com Thoth. No entanto, naquele dia não teriam aula.
— Vamos tomar banho no Nilo. Está muito quente hoje – sugeriu Anput botando a mão na testa protegendo os olhos do brilho forte do sol.
Antes de chegarem ao Nilo, no entanto, viram uma cena que machucou (e muito) o coração das três crianças, especialmente de Anúbis. Um pequeno animal, claramente filhote, de olhos grandes e pretos, orelhas levemente pontudas e pelagem da cor da areia do deserto estava tentando fugir de três adolescentes humanos que jogavam pedras no pequeno filhote, um filhote de chacal.
Os adolescentes riam se divertindo com a situação enquanto o pequeno chacal usava toda a força que ainda tinha para fugir. Infelizmente, uma pedra do tamanho de uma moeda que bateu em sua cabeça foi aparentemente a gota final, pois a pequena criatura caiu no chão imóvel. Os três jovens, no entanto, não haviam se cansado. O fato de eles estarem andando em direção ao animal provavelmente indicava que eles queriam fazer algum outro mal à pobre criatura.
As pernas do pequeno Anúbis se moveram antes que ele pudesse pensar. Com um andar decidido e um olhar de ódio tão profundo, o garoto não só estava parecendo com seu pai como nunca antes, como também parecia ter a mesma aura ameaçadora do deus do caos.
— Anúbis! Pera! – gritou Qebui sem sair do lugar. Anput, todavia, correu atrás do garoto e quase lhe tocou o ombro para dizer algo. Contudo, sua mão parou no ar antes de tocar em Anúbis como se tivesse sentido uma aura de perigo.
Devido à voz de Qebui e o som dos passos de Anput, os adolescentes desviaram a atenção do pequeno animal e olharam para as crianças.
— O que querem, baixinhos? – disse um deles.
— Deixe esse chacal em paz! – pediu Anput com a voz chorosa olhando para o pequeno animal preocupada.
— E o que pirralhos como vocês podem fazer? – perguntou o segundo jovem.
— Bem... – disse Qebui, mas Anput colocou o dedo indicador na frente da boca antes que ele falasse alguma coisa.
— Oh. As crianças tem um segredo? – perguntou o terceiro jovem.
— E você o quer? Quer comprar briga baixinho? – perguntou novamente o segundo jovem que olhava para Anúbis que agora parava exatamente em sua frente.
Anúbis não sabia bem o que ele queria também. Não era bom de briga. Não que tivesse brigado muitas vezes também. Com os punhos fechados com força, Anúbis se virou para pegar o filhotinho de chacal.
— Ah não. Não vai não – reclamou o segundo jovem.
A mão do rapaz estava indo para segurar o braço de Anúbis e impedir sua aproximação, mas Anúbis pegou o pulso dele antes. Foi como instinto. Com uma pegada firme, Anúbis prendeu o braço do rapaz enquanto o olhava com o mais puro ódio. Até que algo novo aconteceu. Anúbis não sabia explicar como, não ainda pelo menos. Mas diante dos seus olhos a aparência do adolescente mudou. Primeiro foi como se o jovem tivesse engasgado com a própria saliva ou não conseguisse mais respirar. Depois, sua pele começou a secar e se ressacar como se ele tivesse perdido vários quilos em segundo e ficado tomando sol por semanas a fio. O rosto cadavérico fez os pelos da nuca de todos se arrepiarem enquanto os olhos caiam, as unhas pareciam crescer enquanto a pele ao seu redor secava e os pedaços de pele que se desprendiam caiam no chão ou eram carregados pelo vento. A pele do adolescente foi caindo até expor a carne vermelha que ia ficando podre ao se enegrecer. As pernas dele tremiam já sem forças de sustentar o próprio peso, se é que ainda tinha alguém ali. O cheiro de gente morta emanava fortemente do corpo fazendo com que todos tapassem o nariz e a boca em completo terror enquanto Anúbis finalmente soltava a mão do rapaz. No entanto, o processo não parou. A carne caía preta no chão junto com os fragmentos de pele até que só sobraram os ossos que caíram com um barulho seco no chão. O adolescente tinha necrosado e necrosado em questão de segundos.
Os dois adolescentes restantes não tiveram dúvidas de o que fazer em seguida. De olhos arregalados, eles gritaram e saíram correndo ao passo que Anúbis mantinha uma expressão assustada com os olhos arregalados fitando a pilha de ossos que ele sabia que ele mesmo havia criado.
Tremendo, Anúbis levantou a mão que antes tocara o adolescente e a fitou enquanto o vento carregava dela e da pilha de ossos aos seus pés, fragmentos que até uns minutos atrás eram uma pessoa, um ser humano. Anput e Qebui olhavam para Anúbis quase com o mesmo terror e assombro.
— Anput... Pera... – sussurrou Qebui quando a garota foi se aproximando de Anúbis.
Encolhida, segurando uma mão na outra sobre o peito. A garota foi se aproximando com delicadeza.
— Anúbis? – perguntou ela gentilmente ao chegar perto do garoto e, ao olhar pelo rosto dele, viu que ele estava paralisado, mas que logo ia voltando a se mexer enquanto lágrimas escorriam pelo rosto do garoto e ele logo começava a soluçar levemente.
A garota esperou mais alguns segundos, pensando, antes de falar mais uma vez:
— Anúbis?
Ela tentou tocar-lhe o ombro, mas, antes que fizesse isso, o menino se agachou rapidamente no chão abraçando os próprios joelhos.
— Não me toque! – reclamou ele.
A garota o olhou com um olhar de pena e preocupação. Pensando no que fazer, ela olhou para o pequeno animal que jazia no chão e olhou para ele. Ao se ajoelhar ao seu lado, pode ver que o peito dele subia e descia fracamente. Estava respirando.
— Gente! Olha! Ele tá vivo! – disse ela com completa felicidade enquanto lágrimas de felicidade rolavam pelo seu rosto.
Isso chamou a atenção de Anúbis que, deu uma leve fungada no nariz e, com o canto do olho, olhou para o pequeno chacal. Qebui não pensou duas vezes antes de dizer:
— Vou chamar Ísis! – disse Qebui antes de sair correndo o mais rápido que podia. E o mais rápido dele, era bem rápido. O menino parecia ser praticamente um com o vento. Claro, era o deus do vento do norte.
Quietinho, Anúbis se aproximou um pouco do pequeno chacal, mas manteve distância ao se ajoelhar ao lado dele. Viu que o pequeno animal o olhava fracamente e estava com vários ferimentos que sangravam. Anúbis respondeu ao olhar dele sussurrando:
— Vai ficar tudo bem.
— Anúbis... – disse Anput que também olhava para o pequeno chacal, mas logo olhou para o amigo lentamente – Você está bem?
Anúbis não respondeu. Ficou apenas olhando o pequeno animal com um semblante triste enquanto seu coração sentia o peso da culpa.
Alguns minutos depois, Qebui voltou correndo com Ísis correndo atrás dele. A deusa tentou digerir a cena toda. Uma pequena pilha de ossos, Anput e Anúbis com cara de choro sentados de pernas cruzadas perto de um chacal bem machucado. Ísis conseguia ter alguma ideia de o que havia acontecido embora não conseguisse imaginar a situação como um todo.
— O que aconteceu aqui? – perguntou Ísis não com tom de raiva, mas sim de preocupação e curiosidade.
— Rápido, tia Í-... Quer dizer... Lady Ísis – disse Anput correndo até a mulher e a puxando pelo braço para perto do animalzinho – Faça aquelas suas magias! Não deixe esse chacalzinho morrer.
— Por favor... – foi tudo que Anúbis disse ao olhar para a tia com uma expressão deprimida.
A deusa nada falou, apenas se ajoelhou perto do pequeno animal, estendeu a mão para ele sem o tocar e então pronunciou a fórmula mágica. Uma luz dourada começou a irradiar das mãos da deusa e gradualmente as feridas daquele pequeno ser iam se curando. Ela recolheu as mãos quando notou que não havia mais nada a fazer e abriu um sorriso quando o pequeno animal se levantou. Aliás, todos ficaram felizes e abriram um sorriso.
— YEY! Ele tá bem! – exclamou Anput sacudindo Qebui que também sorria.
Anúbis abriu um autêntico sorriso de alívio e felicidade, mas ainda estava meio cabisbaixo e choroso. Forte e saudável como se nada tivesse acontecido, o pequeno chacal olhou para Anúbis nos olhos e virou a cabeça levemente para o lado.
— Que bom que você está bem né? – disse Anúbis para o animal.
O pequeno chacal se aproximou de Anúbis que se retraiu sem querer tocar naquele pequeno ser. O animal parou ao notar que Anúbis se retraiu e voltou a o olhar. Ísis fitou esse olhar com calma, foi como se Anúbis e o chacalzinho estivessem tendo uma conversa silenciosa apenas com uma troca de olhar. O pequeno animal se aproximou mais uma vez e, ao contrário da anterior, Anúbis não se mexeu. Quando chegou perto o suficiente, o chacal usou sua diminuta língua para lamber a mão de Anúbis.
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