A Morte Das Areias do Saara
102 Por Tempos Mais Pacíficos
Notas iniciais

Muitos dias depois disso, enquanto eles estavam engajados em suas ocupações diárias, o jovem cavalgou até eles. Eles receberam o jovem em sua casa, o lavaram, deram forragem para o cavalo dele, fizeram todo tipo de coisa para o jovem. Eles o alojaram, calçaram seus pés, trouxeram-no para casa ... disseram-lhe no meio da conversa: "Donde vens, bom jovem?" Ele disse-lhes: "Sou filho de um dos cavaleiros da terra do Egito. Minha mãe morreu, e meu pai tomou outra esposa, uma madrasta. Então ela me odiou e eu fugi de diante dela." Ele estava silencio. Eles o beijaram. Ele disse aos jovens: "O que devo fazer?" (falam-lhe sobre a filha do rei da Mesopotâmia).
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Num amplo espaço aberto para o céu com enormes paredes e grossas pilastras adornadas de belos padrões coloridos que lembravam as margens do Nilo, estava Hatshepsut. O Ano Novo já havia ficado para trás há pouco mais de três semanas e, embora aquela sala se parecesse um pouco com a sala de céu aberto onde ela vira Anúbis sentado na beirada na virada do ano, aquela sala era outra, não a mesma.
A sala onde Hatshepsut estava no momento tinha uma diferença que ia além do fato de ela ser mais confortável. Enquanto a sala das festividades de Wepet Renpet tinha o chão decorado de forma que desse a impressão de haver um espelho d’água ali, aquela sala de fato tinha um grande espelho d’água com escadas que ajudavam as pessoas à chegarem no ponto mais fundo onde a água chegaria até a cintura da baixa rainha. Aquela sala, fechada para olhos de curiosos e com espreguiçadeiras, cadeiras e vários serviçais carregando grandes jarros elegantes, era a área de banhos do palácio.
Hatshepsut, apesar do olhar ainda pensativo, já havia acabado seu banho. Um longuíssimo banho onde ficou apenas pensando sobre várias coisas enquanto uma de suas servas particulares a limpava seus cabelos. Já vestida e perfumada com óleos aromáticos, mas com o cabelo displicentemente solto de suas várias trancinhas caindo em ondas graciosas por suas costas, a rainha estava sentada enquanto a criada penteava seus belos cabelos. Poucas coisas eram mais prova de um alto status social como ter de fato cabelos, algo muito difícil de manter devido a constantes problemas de piolhos que forçava muitos à raspar e usar perucas.
— Como gostaria do cabelo hoje, minha rainha? — perguntou a criada.
— De qualquer jeito... — respondeu Hatshepsut visivelmente com a cabeça em outro lugar — Só faça algo breve, por favor.
A serviçal afirmou brevemente com a cabeça com um sorriso contido e, com dedos hábeis, começou a trançar o cabelo da rainha não em dezenas de diminutas tranças, mas sim em tranças mais grossas e robustas. Seis tranças foram suficientes para prender todo o cabelo da rainha cuja mente estava ainda na conversa que tivera com Anúbis e Anput na noite do Wepet Renpet. Antes mesmo da criada colocar o toque final, um delicado diadema de ouro puro, Hatshepsut já tinha decidido que queria testar uma impressão que tinha sobre as estranhezas sobre si. A de que iam mais além do que só perceber onde havia algum deus por perto.
Como estava ansiosa para tirar a prova de suas suspeitas, assim que a criada anunciou que o penteado estava pronto, e que Hatshepsut estava linda como uma rainha deveria ser, Hatshepsut se levantou com certa dificuldade devido a enorme barriga e andou a passos apressados pelo palácio em busca do irmão.
Enquanto isso, bem longe de Tebas, na grama alta bem verde, salpicada de pequenos botões de flores amarelos e brancos, que crescia alguns quilômetros ao norte de onde um dia seria a divisa do Líbano e da Síria, Anúbis andava pouco além da fronteira final do Império Egípcio, que atualmente cobria boa parte do Levante. Acompanhado de Anput, os dois subiam um morro de uma maneira bem normal, com o esforço dos pés, coxas e panturrilhas, algo que às vezes eles paravam para notar como era raro de acontecer já que podiam simplesmente aparecer onde queriam. Mas ali não era recomendado aparecer mágicamente daquele jeito.
Alguns povos nômades viviam ali, mas nenhum grande e bélico império havia reivindicado aquele pedaço de terra ainda. Contudo, isso não significava que era uma área sem tensões. Afinal, aquela faixa de terra era a única coisa que separava a fronteira egípcia da fronteira do Império Mitanni mais ao norte. Os Mitanni e, seus vizinhos Hititas, já estavam muito alertas, e desgostosos, com o avanço da fronteira egípcia. Toda cautela era necessária. Por isso, simplesmente andar, sem truques, nem esconderijos, nem magia, saindo de sua fronteira rumo ao destino tentando provar que não faria nada de questionável ou sigiloso.
Era a primeira vez desde do ano novo, já três semanas e meia para trás, que Anúbis saía por mais do que alguns poucos minutos do submundo. Depois das comemorações de ano novo, tinha voltado para o Salão do Julgamento, onde seguiu julgando as almas e mumificando corpos nos intervalos entre um grupo de julgamentos e outro . Achou ainda tempo para checar como estavam as coisas no Aaru e fazer uma ronda pelas entradas do submundo junto com Néftis para certificar-se que estava tudo sob controle. O tempo passar mais devagar no Salão do Julgamento tornava possível lidar com todas as almas recém falecidas que chegavam, mas também tornava o processo aparentemente infinito, então alternar entre os deveres era muito bom.
— Tem certeza que isso é uma boa ideia? — perguntou Anput enquanto subiam o morro.
— Falou a pessoa que sai por aí visitando outros impérios sem avisar ninguém de lá antes. — respondeu Anúbis.
— Isso é diferente! — defendeu-se Anput — Nós não estávamos à um fio de uma guerra com os impérios que visitei! Se continuarmos andando assim vamos parar em Aleppo!
— Não viemos fazer nada de mal intencionado. — disse Anúbis enquanto parava de andar brevemente para olhar o belo vale de morros ondulantes que havia se formado atrás deles — Sem falar que Aleppo, e a fronteira Mitanni, estão muito longe ainda.
Anput notou o que ele fazia e parou de andar também para admirar a vista, deixando o vento balançar seus cabelos e carregar até eles o leve aroma das flores. Era impossível imaginar o que aquele terreno intocável viraria um dia no futuro.
Não tinha como eles imaginarem os pequenos e simples prédios ou casas de cimento que formariam uma pequena aldeia nas partes mais fundas e planas do vale. Tão pouco havia formas de eles imaginarem que um dia, no topo daquele mesmo morro onde eles estavam, haveria sacolas e garrafas de plástico, vazias, largadas no chão por pessoas mal-educadas, ou que seria erguida uma pequena igreja para um deus, que eles nunca haviam ouvido falar, mas que exibiria orgulhosamente a imagem de uma mulher que havia dado a luz ainda virgem. Mas tanto a igreja como as casas ou o lixo eram coisas bem mais simples de imaginar e entender do que a antena de satélite que seria erguida ao lado da igreja, ou que as bombas e mísseis que explodiriam em Aleppo, atual cidade Mitanni, futura cidade Síria.
Sem horrores de guerras explosivas, lixo, deuses desconhecidos e tecnologias que chegavam até o espaço, os dois só admiraram por alguns segundos a tranquilidade e beleza da natureza. Ali havia uma serenidade tão grande que era fácil esquecer dos problemas, incluindo o fato de que estavam perto de território hostil.
— Quero ver falar para os Mitanni que não teve nada de mal intencionado em vir até aqui... — disse Anput.
— Eles ainda estão bem longe e acho que estão mais preocupados com os Hititas do que com nós. Relaxe. — pediu Anúbis recomeçando a andar — E também, aqui estamos mais para o nosso lado do que para o deles. E foi você quem quis vir comigo.
— Para impedir que você faça algo precipitado. — declarou ela.
Ao ouvir isso, ele não se conteve em parar de andar e olhar para ela de forma incrédula e confusa. A confusão fez com que ele, em sua mania automática, inclinasse um pouco a cabeça quando encarou-a.
— E desde quando eu faço coisas precipitadas? — perguntou ele.
— Está fazendo uma agora.
— Não é precipitado. — respondeu ele recomeçando a andar — É pensado.
Eles continuaram a andar um pouco mais até que avistaram uma árvore no horizonte, o destino deles. Nessa árvore, encostado contra o nodoso tronco, estava um homem já sem vida. O sangue havia escorrido pelo canto de sua boca e pelo grotesco ferimento no ombro. Ao lado dele, deitado reto como um defunto, havia outro homem cujo corte que parecia indicar a causa da morte estava na perna esquerda.
Além do fato de estarem ambos mortos, havia outras coisas em comum entre os dois homens. Ambos carregavam armas e armaduras que deduram que eram soldados. Além disso, o estilo das armas e das vestimentas também provavam que eles eram egípcios. Dois soldados egípcios mortos e largados fora da fronteira do Egito e, consequentemente, fora da área de atuação de seus deuses.
Anput abaixou o olhar ao chão numa forma silenciosa e solene de luto enquanto Anúbis agachou-se diante dos dois homens olhando bem para a expressão do que estava sentado. Também havia tristeza e luto no olhar de Anúbis, principalmente quando seu olhar rumou para a mão do homem sentado que, de uma forma frouxa e fraca, parecia ter tentado tocar qualquer parte do corpo que fosse do homem deitado no chão.
— Vamos levá-los de volta para o Egito... — disse Anúbis e Anput confirmou com a cabeça tristemente deixando um suspiro escapar de seus lábios.
Com um mero gesto de mão por parte de Anúbis, uma névoa negra surgiu e engoliu os dois corpos levando-os direto para a sala de mumificação de Anúbis. Assim, não havia mais ninguém ali além dos dois e do silêncio quando Anput se ajoelhou ao lado de Anúbis e olhou-o carinhosamente com um pequeno e acolhedor sorriso no rosto.
— Vai mumificar eles? — perguntou ela.
— Sim. — respondeu ele — É melhor. Já está um pouco atrasado para começar uma mumificação normal. Ainda é possível mas… é melhor eu fazer do que algum outro embalsamador. Os órgãos já estão começando a ficar podres. Uma mumificação normal dificilmente daria certo tão atrasadamente.
— Pelo menos lá embaixo não precisa se preocupar tanto com esses detalhes. E também, tenho certeza que eles e a família deles vão ficar felizes de saber que terão a chance de tentar ir para o Aaru. — disse Anput — Mas acho incrível como você sempre consegue achar um momento para tantas funções extras.
— Não são funções extras. — respondeu ele, não mais agachado, mas sim deixando-se cair na grama de pernas cruzadas — E tão pouco consigo achar momento para resolver tudo. Se conseguisse, não teriam tumbas saqueadas, outros mortos, fora da fronteira, que não consegui levar de volta ou órfãos sem teto andando por Tebas ou Mênfis. Mas… já me contentei que não dá para cuidar de tudo e… como os outros dizem, nem deveria. Afinal eles tem que se virar sozinhos também, por mais cruel e injusto que possa ser…
— Hórus sabe que você está pegando os corpos dos mortos fora da fronteira? — perguntou ela.
— Tenho certeza que sabe mas finge que não vê. — respondeu ele com uma leve risada se levantando e se esticando brevemente — Já que ninguém vai ficar mais putrefado lá embaixo, quer … não sei… nadar um pouco? Em alguma praia que seja nossa e tudo mais. Nada de sair chegando perto do território dos outros.
Anput se levantou num pulo e olhou chocada para o convite repentino. Por um segundo, Anúbis até achou que tinha falado algo errado e por isso olhou para ela preocupado.
— Que foi?
— Tem certeza que pode? — perguntou ela preocupada — Não está ocupado demais?
— Sempre é possível achar mais coisa para fazer mas... — disse Anúbis dando de ombros — Com ao menos as batalhas e rebeliões diminuindo, os mortos também estão diminuindo então… mais tempo livre ao menos quanto a julgar os mortos.
— Devo agradecer à Tutmósis II então? — perguntou ela.
— Você realmente acha que é Tutmósis II quem está conseguindo fazer até os Núbios, que quase nunca nos demos bem, ficarem mais pacíficos? — questionou ele com um sorriso de quem duvidava disso — Ainda tem umas brigas e tensões mas… Quando foi a última vez que tivemos tão poucas brigas com vizinhos ou nômades ou ladrões e mercenários?
Anput deixou uma risada escapar por seus lábios e logo envolveu ele num abraço ao redor do pescoço. Eles lentamente se aproximaram num beijo breve, pois logo Anput se afastou com um sorriso que chegava até seu olhar.
— Obrigada Hatshepsut por colocar as coisas em ordem por trás do irmão e consequentemente me deixar ter uns minutos aproveitando meu marido super ocupado. — comemorou Anput — Sei de uma praia maravilhosa perto de um vilarejo fenício no Mediterrâneo que… bem… conta como Egito.
— Sou todo seu.
Um Império engloba as variedades de vários povos de culturas e até religiões diferentes. Com a expansão do Egito, ele havia incluído em suas fronteiras mais do que apenas os Núbios, e alguns povos nômades do Saara e do Levante, os Fenícios também se juntaram ao crescente Império moldado principalmente pelo já falecido Tutmósis I. Tentando continuar e proteger o legado de Tutmósis I, Tutmósis II estava em uma pequena reunião combinando mais detalhes da construção, em execução, um enorme portal de entrada no templo de Karnak.
Cada portal de Karnak era adornado com textos imortalizando feitos dos faraós que os construíram. Assim, obviamente, Tutmósis II também queria deixar sua marca ali. Ele, no momento, estava falando justamente com o aprendiz do arquiteto real, Senenmut.
— Nosso pai queria que governassemos juntos… — dizia Tutmósis II — Por isso aparecemos lado a lado nos relevos. Mas sinceramente acho que ela merecia uma parte só dela.
— Posso providenciar isso, Vossa Majestade. — disse Senenmut rapidamente fazendo uma anotação disso no papiro que carregava apoiado sobre uma prancheta de madeira — Mas… exatamente o que gostaria de escrever quanto a Vossa Majestade, a rainha?
Foi nesse momento que, recém vinda de um banho, Hatshepsut entrou no cômodo. Esperava encontrar o irmão sozinha mas, se surpreendeu levemente ao encontrar logo Senenmut ali também. Inclusive, Senenmut ficou ainda mais surpreso, e constrangido, com a súbita aparição da rainha ali. Senenmut não podia tirar da mente os olhares que haviam acontecido no Wepet Renpet. Considerando que Hatshepsut era casada e justamente com uma pessoa que poderia ordenar a execução de Senenmut por qualquer coisa pequena que fosse sem nenhuma consequência, o arquiteto aprendiz tentou disfarçar quaisquer emoções e reações que dedurariam algo estranho.
Perceptiva como sempre, Hatshepsut notou o constrangimento que tomou conta de Senenmut por alguns segundos antes de ele escondê-lo. Não faria diferença, ao contrário do que o arquiteto pensava, o faraó notar isso ou não, mas Tutmósis II de toda forma nada notou.
— Irmã, esse é Senenmut. — explicou Tutmósis II — O novo arquiteto aprendiz de Ineni.
— Ouvi falar. — respondeu ela — Ineni sem dúvida precisa de um aprendiz para já considerar como sucessor. Está ficando velho. Você já é o terceiro faraó para qual ele trabalha.
— De fato. — concordou Tutmósis II — E Aproveite bem o conhecimento de Ineni. Ele é bom.
— Aproveitarei sim, Vossa Majestade. — respondeu Senenmut — Contudo, se me permite dizer, tenho dificuldade em acreditar que um dia Ineni irá se aposentar. Ele claramente tem prazer, honra e orgulho em fazer os projetos de Vossa Majestade. Contudo, mesmo que seja apenas para ajudá-lo, é uma grande honra para mim também.
— Sobre quais projetos estão discutindo hoje? — perguntou Hatshepsut.
— Terminando as decorações de um dos portais em Karnak. — explicou Tutmósis II — Estava pedindo para que fosse feito um trecho apenas para você e seus feitos.
— Um… o quê?! — exclamou Hatshepsut surpresa sem entender e, essa reação, tão espontânea, abriu um sorriso em Senenmut.
— Um trecho apenas para você e seus feitos. — repetiu Tutmósis II gostando da surpresa da irmã — Afinal a maioria das ideias geniais são suas mas… espero que me perdoe se meu orgulho não me deixa revelar todas para o povo ainda. É muito boa em lidar especialmente com a política externa e os povos estrangeiros em solo egípcio apesar de claramente fugir de batalhas e conflitos…
— Não fujo de batalhas e conflitos. — respondeu Hatshepsut enquanto Senenmut só ouvir a conversa sem ousar interromper — Apenas não gosto deles e de toda a morte desnecessária que trazem. Muitos problemas podem ser resolvidos sem uma gota de sangue.
— Gosto como acha que vai lidar com todos, dentro e fora do Egito, sem conflito. — disse Tutmósis II.
— Ainda não, pois nosso pai fez muita guerra e deixou muitos descontentes. — respondeu Hatshepsut fechando um pouco a cara ao notar o irmão duvidando dela — Mas, eventualmente, é possível. Assim como estamos resolvendo a situação com a Núbia e povos estrangeiros que se rebelavam e que, devo lembrar-lhe, já causaram muitos problemas e quase fizeram o Egito cair no tempo de nosso pai. Matar líderes e exércitos traz mágoa e sede por vingança. Por outro lado, um povo satisfeito e feliz, não se rebela.
Não gostando muito dos rumos daquela conversa, Hatshepsut desistiu de compartilhar com o irmão suas suspeitas e teorias sobre o que havia tão especial em si. Agradeceu também, silenciosamente, nunca ter compartilhado com o irmão nada sobre esses acontecimentos praticamente mágicos que tinha. A única coisa que Tutmósis II sabia era quem era Anúbis, algo que de toda forma ele descobriria cedo ou tarde já que também planejava e construía seu túmulo.
Deixando um suspiro escapar por seus lábios, ela se sentou em um dos luxuosos sofás ali escondendo não só a irritação, como também o desconforto causado pela pressão levemente dolorida que sentia na base da coluna. Encostando-se em uma das almofadas, ela olhou para o irmão e para o arquiteto, que claramente evitava olhar diretamente para os dois, e teve uma ideia.
— Bem, já que continua a insistir em sua guerra… — disse Hatshepsut — Vá treinar um pouco, sei que tem dificuldade em achar um momento que esteja bem o suficiente para isso e desocupado. Irei ficar aqui e discutir reformas de alguns templos com Senenmut.
— Ahm… — resmungou Tutmósis II incerto.
Era fato que constantemente falava que queria arranjar um momento propício para treinar mas, como frequentemente se sentia fraco demais para isso, só estar desocupado não era o suficiente. Mas não podia, não queria, admitir isso em voz alta ali ao lado de um mero aprendiz de arquiteto que, apesar de exercer um cargo que não necessitava de músculos, parecia mais saudável do que o faraó. Faraó esse que havia acordado naquele dia desesperado ao notar que algumas das marcas de sua pele estavam começando a se transformar em feridas que ameaçavam sangrar.
Tutmósis II havia visitado o médico logo bem cedo, mas os deveres logo o chamaram apesar de ele ainda sentir necessidade de pedir mais ajudas e conselhos tanto dos mais diversos médicos, como dos sacerdotes. Alguém tinha que saber como curar aquela maldição que ficava cada vez mais difícil de esconder. Hatshepsut sabia dos problemas de pele do irmão, mas não sabia que haviam piorado.
— ...Obrigado… irmã… — disse Tutmósis II praticamente se sentindo obrigado a dizer tais palavras, mas também vendo ali uma chance de ir atrás de mais ajuda para seus problemas — Ainda bem que posso contar com você.
Tutmósis II saiu do recinto sob o olhar pensativo da irmã que ponderava se aquela facilidade em aceitar os pedidos dela eram uma característica do irmão ou algo a mais. Afinal, se parasse para pensar, o acordo de Tutmósis II não gerar outro herdeiro com outra mulher enquanto o filho de Hatshepsut não nascia e não reclamar de Hatshepsut conseguir um amante, não tinha nada de ganho para Tutmósis II. O único ganho que ele um dia teve do acordo foi a mentira de ambas as partes de que fizeram sexo um com o outro na noite de núpcias, algo que não era verdade na época, mas era agora que ela estava grávida dele. Com a mentira se tornando verdade, Tutmósis II não ganhava mais nada de um acordo que sempre foi mais favorável para ela do que para ele, que podia ter quantas amantes e esposas quisesse sem nenhuma consequência.
Considerar isso durante o banho mais cedo fez ela repassar todos os acordos feitos não só com Tutmósis II, como também os poucos redigidos pela própria mão, mas com o selo de Tutmósis II, para líderes estrangeiros ou rebeldes. Havia ali uma maior facilidade em ela conseguir o que ela queria ou era apenas impressão dela?
Por enquanto, contudo, ela iria dividir o foco para outra questão, aquele arquiteto diante de si que abaixava os olhos para o chão com medo de que olhar diretamente para a rainha fosse lhe render um lugar reservado no estômago de Ammit.
— Você pode olhar para mim. — disse Hatshepsut de forma calma e doce — Não precisa de tudo isso.
Apesar de hesitante por um momento, Senenmut levantou o olhar e não conseguiu conter o rubor ao fitar a rainha tão de perto e ainda com ela lhe sorrindo docemente como se o incentivasse à se soltar mais.
— É melhor de conversar assim, não? — perguntou ela — De onde é, Senenmut? Daqui de Tebas mesmo?
— Não, Vossa Majestade. — respondeu ele — Sou de Iuny. Fica um pouco mais ao sul. Menos de meio dia de viagem a pé até aqui. Mas agora moro em Tebas mesmo apesar de minha família ter ficado lá.
— Sua família é de arquitetos ou escribas também?
— Também não. O único mérito deles nesse sentido é saberem escrever, conhecimento este que passaram para mim quando ainda era pequeno e que se provou muito útil.
— Devem estar bem orgulhosos de você então. — disse ela se remexendo desconfortável no sofá atraindo um olhar preocupado por parte dele.
— Está se sentindo bem, Vossa Majestade? — perguntou ele preocupado — Posso chamar um médico…
— Não… tudo bem. Estou bem. É só um desconforto chato. — respondeu ela calmamente enquanto apenas encontrava uma posição mais confortável no sofá — Mas bem, vamos falar sobre os templos que precisam de uma reforma. Ineni lhe passou as cartas dos sumo-sacerdotes enviadas com esses pedidos?
— Sim. — respondeu Senenmut enquanto Hatshepsut passava a mão carinhosamente na barriga — Vim só para tratar sobre o portal de Karnak mas ele achou melhor trazer mais coisas caso o assunto surgisse. Ele estava aqui mais cedo. Forçou-se a vir mesmo em meio a dor que sente desde quando acordou pela manhã, mas o faraó insistiu que ele voltasse para casa ou visitasse um médico.
— E aqui está você… trabalhando sozinho pelo dia de hoje. — disse ela — Nervoso?
— Um pouco… — admitiu Senenmut sentindo que, de alguma força, deveria ser sincero e nada além de sincero com qualquer pergunta que ela lhe fizesse.
Não tendo que lidar com nenhuma reforma de templo e nem nada de importante no momento, Anúbis e Anput surgiram no alto de uma alta falésia. As pedras cor de areia desta seguiam, com alguns tímidos matos incrustados em sua superfície, para o Mar Mediterrâneo que se estendia diante deles. Essa falésia continuava por ambas as direções por alguns quilômetros mais até começar a ficar menor e então suas pedras se esticarem para tocar o mar.
Atrás deles, alguns quilômetros além, uma pequena cidade fenícia se erguia próximo à uma parte do solo bem mais baixa e perto do nível do mar, num lugar que eles acharam perfeito para construir um porto. Estava muito longe para que qualquer pessoa do vilarejo os visse, e ninguém estava interessado naquela parte tão mortal caso alguém caísse, mas os dois conseguiam ver muito bem a crescente Beirute.
— Quando você falou praia… — disse Anúbis se esticando um pouco para ver a altura da falésia que caía por mais vários metros antes de alcançar o mar revolto — Eu imaginava uma praia com areia ocupando um espaço bem grande e tudo mais… não uma praia que as ondas parecem determinadas em derrubar uma parede.
— Calma… essa não é a melhor parte. — falou Anput — Ao menos segundo Seshat não é.
— Primeira vez sua aqui também então? — perguntou ele.
— Sim. Vem.- respondeu ela antes de magicamente retirar as sandálias, se afastar um pouco da beirada e então sair correndo em direção à ela novamente.
Anput pulou para o mar azulado vários metros abaixo de si ignorando qualquer perigo que ele pudesse esconder. Não tão surpreendido assim pelo repentino pulo dela, afinal já a conhecia bem, Anúbis logo a imitou, tirou as sandálias e pulou atrás dela. A água refrescante engoliu-o por inteiro sem muita demora, mas logo ele subiu para a superfície, onde encontrou Anput aparentemente procurando alguma coisa pelas falésias com o olhar.
— O que está procurando? — perguntou Anúbis.
— Seshat disse que tinha um bur...ALI! — exclamou Anput apontando para um buraco que o mar revolto quase tampava completamente.
Mergulhando para poder nadar por baixo das ondas, eles foram até o buraco que Anput encontrou nas falésias e lá entraram. A rocha continuava formando ali uma caverna a qual a água ajudou a moldar. Embora a água do lado de fora cobrisse quase a entrada inteira, lá dentro o teto era mais alto. Assim, com apenas a pouca luz do que restava não submergido da entrada iluminando aquela caverna, os dois emergiram no que se provou como uma caverna de tamanho médio que continuava para dentro da falésia por alguns metros mais criando um lugar totalmente diferente do que eles estavam acostumados com estalactites com gotas d’água pingando e relevos estranhos causados pela ação da água.
As ondas batiam nas paredes insistentes em moldar aquele esconderijo para os próximos milênios que viriam, mas uma parte da caverna era mais seca pois nem a força das ondas, nem o nível normal da água, chegavam até lá. Contudo, a luz também mal chegava e, apesar de tudo, não deixava de ser apenas uma caverna semi-preenchida de água.
— Hum… Do jeito que Seshat falou, parecia mais incrível. Será que eu confundi? — questionou Anput indo até a parte mais rasa da caverna para não ter que ficar constantemente nadando — Acho que era no Mar Vermelho… Ela falou toda empolgada de mais de uma caverna, devo ter confundido.
— Bem, ao menos não dá para dizer que não é de certa forma confortável. — disse ele sendo-se do lado dela — Esse escuro parcial e o barulho das ondas são uma combinação até legal.
— Até que é verdade… — admitiu Anput — Mas queria algo mais incrível como o que ela descreveu. Mas posso pedir para ela mostrar para nós da próxima vez e é uma ótima chance para você tentar voltar a falar com ela…
— Hum… talvez… — disse ele muito incerto — Mas… aproveitando que estamos aqui sozinhos e aqui é relaxante de um jeito diferente… acho que é minha vez de te deixar preocupada falando que precisamos conversar.
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