Notas iniciais
Cheguei com capítulo novo pra vcs!!! Desculpa a demora e tal, mas como a ultima atualização foi dupla, acho que eu merecia um tempinho a mais. O capítulo de hoje é mais levinho e fofinho, mas não se acostumem tá? kkkk mini dicionário de egípcio do dia: Dua Netjer en etj = obrigado divirtam-se

Salve, Doce das Duas Terras!

Salve, morador na comida tchefa!

Salve, morador no lápis-lazúli!

Vigiai sobre aquele que está em seu berço, o Menino, quando ele vem a você.

~ Fragmento do livro dos mortos

Vários pares de olhares curiosos encaram o singelo portal de pedra que levava à um mundo pós-vida da mais completa felicidade pelo qual apenas um deus podia passar. Osíris, Thoth, Anput e Néftis encaravam o único acesso para o Aaru enquanto se perguntavam se Anúbis estava bem. Osíris e Thoth tinham explicado para as duas mulheres o quão apressado ele pareceu para entrar lá e, considerando que agora os quatro sabiam que eles haviam acabado de enterrar Neby, também sabiam qual era a alma que ele esperava encontrar lá dentro.

Os outros, como Qebui e Nefertem, tinham ficado para trás querendo dar um pouco de espaço não só para Anúbis, como também para Anput e Néftis. Afinal, Néftis era a mãe de Anúbis e ainda tentava se encaixar no papel, enquanto Anput tinha claramente uma importância diferente e uma intimidade mais aliada a sentimentos profundos do coração.

Com um olhar triste, Néftis soltou um suspiro e abaixou o olhar para o chão de pedra enquanto seus pensamentos caminhavam por vários lugares. A deusa se sentia envergonhada de não conhecer o suficiente o próprio filho para ter adivinhado de primeira que ele teria ido até ali, exatamente o que Anput tinha feito. Anput não havia pensado duas vezes ao falar pouco tempo atrás que Anúbis teria ido até o Duat em busca da alma de Neby. Quando as duas chegaram no Salão do Julgamento, as suspeitas se provaram verdadeiras.

— Que mãe terrível eu sou… — disse Néftis em voz baixa para Anput — Primeiro abandonei meu filho a própria sorte e agora, mesmo ele tendo voltado a falar comigo, mal consigo falar com ele e nem o conheço tanto quanto você.

— Bem… — disse Anput soltando um suspiro sem tirar os olhos do portal para o Aaru — Vocês não tiveram um começo muito bom, isso é verdade. Mas isso não quer dizer que não possam continuar tentando.

— Quando foi que vocês começaram a se falar? — perguntou Osíris um tanto desatualizado.

— Quando estávamos tentando recuperar as partes de seu corpo, irmão. — disse Néftis olhando para Osíris e então gradualmente corando conforme ele se aproximava e depositava a mão forte em seu ombro.

— Não vou dizer que você não errou quando ele nasceu. — disse Osíris — Era uma situação complicada, entendo, podia ter pedido melhor e mais diretamente nossa ajuda, mas pelo menos está tentando recompensar esse tempo perdido.

— Terão muitos séculos para isso. — disse Thoth — Ele nem completou duas décadas ainda. Para um humano, isso já é praticamente metade da vida. Mas para nós…

— Eu sei… — disse Néftis.

— E também, — disse Anput — Conversamos e passamos tempo juntos desde quando ainda aprendiamos a ler. Vocês mal começaram a se falar. É normal eu conhecer ele melhor.

Néftis afirmou brevemente com a cabeça e voltou a olhar para o portal para o Aaru. Enquanto isso, a tranquilidade reinava no Aaru quando Anúbis se afastou indo embora e deixando Neby para trás depois de passar um bom tempo em sua companhia. Doía nele ter que deixar o pobre animal sozinho, mas pelo menos sabia que ali ele estaria bem pois o Aaru não reconhecia nem recebia qualquer tipo de infelicidade e problema. Foi com uma promessa de que não deixaria Neby sozinho que Anúbis deixou o Aaru e voltou para o Salão do Julgamento. Cabisbaixo, mas com o coração mais leve, ele foi recebido por vários pares de olhares curiosos. Os quatro deuses o olhavam com curiosidade e preocupação.

Thoth e Osíris se entreolharam brevemente se perguntando de forma silenciosa quem deveria ir falar com ele primeiro. Entretanto, esse papel foi logo cumprido por Anput quando ela se aproximou de Anúbis com um sorriso gentil e aconchegante no rosto e então segurou-lhe cada uma das mãos de forma carinhosa.

— Deu certo? — perguntou Anput.

— Deu. — disse Anúbis afirmando a cabeça com um leve sorriso — Neby está no Aaru.

O sorriso de Anput se ampliou em seu rosto enquanto ela abraçava ele fortemente ao redor do pescoço. A garota imediatamente sentiu o coração mais leve com a notícia e, tal como um prêmio, deu um leve beijo na bochecha de Anúbis.

— Sabia que conseguiria — disse Anput.

— Primeira alma processada… — sussurrou Thoth para si mesmo sentando-se no chão e então começando a anotar as informações de Neby num papiro apoiado numa tábua de madeira.

Com as mãos ao redor da cintura curvilínea de Anput, Anúbis correspondeu ao abraço que fez a magia de apaziguar ainda mais a dor em seu coração. Inconsciente da importância que seu abraço teve naquele momento, Anput lentamente se separou do abraço embora mantivesse um gentil sorriso no rosto e no olhar. Guiado apenas por suas emoções, Anúbis puxou-a delicadamente pela cintura e levou uma mão até o rosto dela. As maçãs do rosto de Anput coraram-se rapidamente no breve segundo que se decorreu até que os lábios de Anúbis tocassem nos seus em um doce e leve beijo.

Ambos fecharam os olhos aproveitando o toque dos corpos e principalmente dos lábios enquanto os outros deuses ali presentes fingiam que nada viam. A mão direita de Anput subiu até o rosto de Anúbis enquanto a esquerda decidiu que o peitoral nu dele era um bom lugar para repousar.

Quando se separaram lentamente do beijo, ficaram apenas olhando dentro dos olhos do outro com as testas juntas. No olhar de Anput não havia mais preocupação, pois sem qualquer palavra, ele havia respondido a pergunta silenciosa que guardava dentro de si.

— Acho que não preciso perguntar se você está melhor depois de… tudo isso… — disse Anput.

— Sem dúvida melhor. — disse Anúbis se separando dela e então suspirando — Não adianta o quanto eu já imaginasse que uma hora Neby iria morrer, ainda doeu muito. Mas agora estou decididamente melhor.

— Poder visitar ele com frequência sem dúvida melhora tudo. — disse Osíris com um gentil sorriso.

— Sim. Mas… — disse Anúbis — Estava pensando… não acho que seja tão bom para as almas lá dentro do Aaru ficar criando cada vez mais conexões com o mundo dos vivos. Vou visitá-lo, isso é inquestionável, mas não pretendo passar tanto tempo lá dentro. Especialmente depois que ele tiver boa companhia.

Timidamente, Néftis se aproximou do filho. Os outros deuses, ao ver a aproximação dela, deram discretamente alguns poucos passos para trás em uma pequena tentativa de deixar mais espaço para ela tentar interagir com o rapaz. Anúbis olhou-a se aproximando e viu ela abrir e fechar a boca duas vezes em busca das palavras certas.

— Eu.... — tentou Néftis — Eu tenho certeza que, apesar de breve, a vida de Neby foi muito boa. Afinal, ele teve um ótimo amigo ao seu lado.

Anúbis deixou aquelas palavras entrarem em si e, sem achar palavras para responder a mãe, simplesmente afirmou com a cabeça. Achando que, apesar de tudo, tinha que dar alguma resposta para a mulher, ele tentou se esforçar mais em achar alguma palavra. Afinal, via como ela timidamente estava tentando vencer a barreira invisível que fora criada entre eles de certa forma por ela mesma e também por toda a situação que os envolveu. Sendo assim, achou que ela merecia um pouco mais de esforço de sua parte.

Dua Netjer en etj… — disse Anúbis agradecendo — Mew

A última palavra morreu em seus lábios antes de que terminasse de proferi-la. Ainda não parecia certo chamar Néftis dessa forma e, por isso, ele não terminou de dizê-la. Um sorriso meio triste e compreensível de Néftis indicava que ela sabia que palavra era aquela e entendia que ele não conseguia chamá-la daquela palavra tão doce ainda. Mas de uma coisa ela tinha certeza, ia fazer de tudo para que, um dia, mesmo que dentro de vários séculos, ele conseguisse chamá-la de mãe.

Pouco mais os cinco deuses conversaram. Entre a conversa, Osíris garantiu que em breve iria chamar Anúbis ao Duat para que pudessem finalmente botar o Salão do Julgamento para funcionar. Mas, até lá, ele e Anput estavam livres para aproveitar os dias como bem entendessem. E foi o que os dois fizeram quando, no dia seguinte, decidiram visitar Shadya e Ahmen para conhecer o bebê deles.

— Mal posso esperar para conhecer esses humanos de quem tanto falam. — dizia Nefertem que havia insistido muito para ir também.

— Não achava que fosse ficar tão empolgado com isso. — refletiu Anput.

— Sempre estamos tão longe, de certa forma. — explicou Nefertem — Distantes cuidando de nossos deveres divinos e às vezes fornecendo uma pequena ajuda aqui e ali. Ou uma punição, dependendo do deus. Mas realmente interagir com um mortal? E ainda mais sem ser um dos sacerdotes?!

— Está mesmo bem empolgado — disse Anúbis vendo o sorriso que Nefertem exibia.

— Sim! — disse Nefertem satisfeito sem tentar esconder a animação.

— Achei que Qebui iria querer vir conosco… — disse Anput soltando um pesado suspiro.

— Ele nunca realmente se deu bem com eles... — disse Anúbis.

— Mas sabe o que eu acho? — perguntou Nefertem — Acho que ele, lá no fundo, bem no fundo mesmo, gosta também desses seus amigos humanos. Mas se fecha com medo de se machucar.

— Machucar?! — perguntou Anput surpresa por Nefertem do nada conhecer Qebui tão bem para sugerir coisas do tipo.

— Sim. — disse Nefertem — Não machucar no sentido físico da palavra, mas no sentido sentimental. Afinal, a vida dos humanos é passageira. Curta. Breve. Mesmo se levar uma vida cheia de comida, água e saúde. Um dia, eles perecerão.

Os três sabiam muito bem um bom exemplo de um bom amigo que tinha partido recentemente por causa da idade, mas acharam melhor não dizer o nome dele temendo abrir alguma ferida que não havia se cicatrizado completamente. Não demorou muito para que o trio chegasse na casa de Shadya, Ahmen, Iset e sua grande família. Pouco havia mudado na singela casa desde a última visita dos deuses, na verdade, a única mudança era em que estado do ciclo de plantação se encontrava o pequeno campo não muito longe dali do qual a família tirava seu sustento.

Haviam escolhido visitar a família no final do dia, para que não atrapalhassem o trabalho deles com o campo. Assim, quando se aproximaram da casa, foram recebidos pelo olhar de mais pura surpresa do pai de Shadya e Iset que comia um figo enquanto olhava a janela.

— Acho que viram-nos... — disse Anput enquanto seguia com o olhar o homem entrando na casa.

— “Acha”? — questionou Anúbis.

Logo depois de ele falar isso, Iset passou pelo portal de entrada da casa abrindo um grande sorriso após lançar um olhar rápido de curiosidade e questionamento para Nefertem que a olhava com certo fascínio.

— Estava já me perguntando quanto tempo iriam demorar para nos visitar novamente. — disse Iset.

— Muita coisa estava acontecendo… — desculpou-se Anput.

— Vieram ver o bebê, imagino. — disse Iset.

— Acertou. — disse Anúbis.

— Seu pai está com algum problema com a gente? — perguntou Anput.

— Bem… — disse Iset suspirando — Meus pais e os pais do Ahmen estão meio… receosos. Nas palavras deles, não se acham dignos de estarem na presença de vocês.

— A-Ah… — disse Anput um tanto chocada.

Era uma coisa que eles deveriam ter esperado cedo ou tarde. Afinal, não era estranha a ideia de que boa parte dos humanos não era digno o suficiente nem para olhar ou falar com os deuses. Notando que o clima não havia ficado mais tão confortável, Iset rapidamente achou uma saída para a situação ao mudar de assunto.

— E… ahm… quem é esse? — perguntou Iset olhando para Nefertem.

— Ah! Lamento! — disse Nefertem — Fiquei distraído com sua beleza e esqueci de me apresentar. Sou Nefertem, deus dos perfumes.

Enquanto Iset ficava num misto de surpresa e vergonha ao encarar boquiaberta e com bochechas rosadas Nefertem, Anúbis e Anput olhavam para Nefertem com uma leve surpresa. Uma coisa era amizade com humanos mas… flertar com eles daquela maneira era algo completamente diferente e sem precedentes. Não sabendo qual era a intenção de Nefertem, e sendo ele também um amigo, eles resolveram ignorar o flerte.

— Iset! — exclamou a voz de Ahmen do lado de dentro enquanto o rapaz saía da casa seguido de Shadya — Seu pai falou certo? Anput e Anúbis estão…?

A pergunta morreu no ar já que, ao ver os dois amigos, Ahmen teve sua resposta. O rapaz sorriu e já teria ido para as típicas frases de boas vindas e coisas do tipo, se não fosse o enorme suspiro que Anput deu ao ver a bolinha que Shadya segurava em seus braços. Bem, não literalmente uma bola, mas sim um pequenino e indefeso ser humano de cabelo negro bem ralo, pele bronzeada, mãos e bochechas bem gordinhas e olhos de uma cor que eles não podiam ver, pois estavam fechados.

— Por Rá! — disse Anput — Como é fofo!

— Muito fofo né? — perguntou Shadya soltando uma leve risada e admirando o filho com os olhos brilhando — Quer segurar? O nome dele é User.

— Um nome forte. — disse Nefertem já que ‘forte’ era literalmente o significado do nome.

— Claro que quero. — disse Anput se aproximando da amiga.

Delicada e lentamente, Shadya passou seu bebê para os braços de Anput. O bebê soltou um pequeno resmungo, mas logo se moldou aos braços da amiga da mãe enquanto era observado por todos os presentes. Com medo de derrubar tão frágil… e mortal… ser, Anput mal se mexia, apenas aproveitava o momento fitando a fofura do pequenino.

— Quando meu pai falou que tinham vindo com mais alguém, achei que era Qebui. — disse Shadya olhando para Nefertem — Quem…?

— Nefertem. — respondeu Iset, ainda vermelha, no lugar do deus.

— Filho de Ptah e Sekhmet! — exclamou Ahmen.

— Eu mesmo. — respondeu Nefertem com um leve aceno de cabeça enquanto o pequeno User se remexia no colo de Anput não tendo gostado da altura da voz do pai.

— Temos que nos curvar ou….? — perguntou Ahmen, perdido, olhando para os amigos.

— Não. Não precisa. — disse Nefertem rindo — Eu supero não ser reverenciado.

Enquanto eles conversavam com Nefertem, Anúbis se aproximou de User que lentamente abria os pequenos olhos e olhava para Anput. Negros como o céu noturno, tal era a cor dos olhos da pequena criança.

— Quer segurar? — ofereceu Anput para ele.

— Não não não. — respondeu Anúbis prontamente — Melhor não…

A garota não insistiu mais. Afinal, estava gostando muito de ter o bebê em seus braços. Contudo, apesar da recusa em segurar o pequenino, o jovem deus não resistiu a colocar seu dedo indicador na minúscula mão de User que logo se fechou ao redor de seu dedo. A delicadeza de tão simples ato passou pelo olhar brilhante de Anúbis e chegou até seu coração na forma de uma uma vontade, a de, em algum ponto dos séculos vindouros, ter um para si.

Notas finais
REFERÊNCIAS Dicionário - http://karathutmose.tripod.com/dictionary/tjeti.html Nomes - http://www.legendsandchronicles.com/ancient-civilizations/ancient-egypt/ancient-egyptian-names/ maternidade - http://www.touregypt.net/featurestories/mothers.htm Nefertem - https://pt.wikipedia.org/wiki/Nefertum Livro dos mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf ###### eu estou bem ansiosa pelo próximo cap, então é capaz que ele saia bem rapidinho ;)