A Morte Das Areias do Saara
58 Ouvindo o inacreditável
Notas iniciais

Depois de me esticar na barriga, toquei o chão em sua presença.
Eu disse a ele:
“Eu falarei de você, relacionarei seu poder com o rei, farei com que ele conheça sua grandeza.
Farei com que seja trazido a você óleo de láudano heknu, yudenbu, tempero hesayt, incenso de grandes templos que agradam a todos os deuses nele.
Vou relatar o que aconteceu comigo, o que vi de seu poder.
Alguém te louvará na cidade diante dos magistrados de toda a terra.
Eu matarei por vocês touros como sacrifícios.
Vou oferecer a você aves.
Farei com que sejam enviados navios carregados com as provisões de todas as cidades do Egito, como é feito para um deus que ama um povo em uma terra distante que o povo não conhece. ”
~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”
Cansados pela longa viagem, os todos estavam felizes em estarem de volta para as terras do Egito. Perto da periferia da cidade de Mênfis, marujos e soldados entravam em suas casas depois de tantos dias no mar e abraçavam sua família que os recebia de braços abertos. Contudo, para alguns, a recepção tão calorosa e íntima da família deveria esperar um pouco mais. Dentre esses, estava Imhotep.
O lendário arquiteto passava pela enorme porta que levava até o salão principal do palácio ricamente adornado que já lhe era bem conhecido. Ele foi recebido por aquele que até sentiria-se mais a vontade de chamar de amigo se não fosse o status social tão extremamente elevado do homem que estava à sua frente.
— Imhotep! — exclamou Djoser sorridente abrindo os braços com um sorriso no rosto para receber Imhotep — De volta de sua longa viagem. Deve estar cansado. Nada urgente à informar antes de uma calorosa boas-vindas, espero.
— Meu faraó. — disse Imhotep botando a mão fechada sobre o coração e abaixando a cabeça levemente — Foi uma honra executar essa viagem em seu nome. Não. Tudo pode esperar alguns momentos. Espero que esteja tudo bem ainda com a rainha.
— Ah… sim… — disse Djoser com o sorriso aumentando — Falando em Hetephernebti, tem alguém que você precisa conhecer, caso tenha energia para isso no momento.
— N-Não não… estou bem. Nasceu então? — perguntou Imhotep com os olhos brilhando em curiosidade enquanto o feliz faraó começou a andar para fora da sala do trono.
Em silêncio Djoser guiou o caminho por corredores, jardins, escadas e cômodos até o cômodo por onde puderam ouvir uma doce conversa se desenrolando entre três mulheres. Mesmo a conversa estando em voz baixa, a falta de uma porta deixava a conversa fluir pelas paredes coloridas do palácio. Ao entrar no cômodo, os olhos dos dois homens brilharam com o reflexo do milagre da vida pois, sentada num elegante sofá, estava Hetephernebti segurando uma pequena e frágil figura enquanto conversava com duas outras mulheres.
— Perdeu por um dia o nascimento de Inetkawes. — disse Djoser.
Hetephernebti olhou com um sorriso tranquilo para o marido embora em seus olhos estivesse escondido o enorme cansaço que o parto havia lhe causado. Djoser e Imhotep se aproximaram tanto para que a pequena Inetkawes fosse apresentada para o arquiteto, como também para que Djoser pudesse perguntar pela milésima vez naquele dia se Hetephernebti se sentia bem.
O cômodo onde tão doce reunião acontecia continha uma varanda e, por ela, era possível ver o teto de um templo que havia sido construído no complexo do palácio que, assim como lugares para dormir, descansar e trabalhar, também deveria ter lugares para adorar. No momento, um olho mortal qualquer não veria nada demais além do teto pintado do mais puro branco. Só alguém extremamente versátil em magia veria que no teto do templo se reuniam cinco deuses. Eram Hórus, Thoth, Anúbis, Anput e Seshat.
Hórus andava preocupado de um lado para outro sob os olhos aflitos de Seshat, Thoth e Anput embora Anput desviasse o olhar algumas vezes tentando ver mais da princesa recém nascida. Quanto a Anúbis, ele já tinha cansado à essa altura do sermão de Hórus e se contentava em procurar com o olhar alguma coisa para distrair sua atenção.
— Era algo simples! — ralhava Hórus — Ficar de olho em Imhotep e negociar com Ereshkigal e Enlil!
— Não simplifique as coisas. — rebateu Anúbis — “Ficar de olho” não envolvia proteger ele de ladrões e afins. Envolvia ele proteger de deuses que estavam unidos e em seu território. Não diminua as coisas.
— Se tivesse que proteger de perigos mortais, deveriam o fazer também! — pedia Hórus.
— Uma hora quer que interfiramos diretamente nos assuntos mortais, na outra não. Decida-se! — reclamou Anúbis — Você muda as regras que você mesmo estipula de jeito que elas fiquem boas para você quando bem entende.
— E-e deu tudo certo no final… — completou Anput tentando mudar o assunto para que Hórus desse menos atenção à afronta que estava acontecendo ali, mas ela não conseguiu evitar o olhar de raiva que crescia no rosto do deus.
— Sim… — concordava Thoth tentando o mesmo que Anput — E um pouco mais de calma faria bem à essa discussão. Podemos levar ela para que Lorde Osíris possa participar também.
Irritado com a proposta, por mais que cordial de Thoth, Hórus apontou irritado para o rosto do deus de maneira acusatória.
— Não tente minha paciência. — alertou Hórus — Ainda tenho que resolver coisas com você e esse livro que inventou de escrever.
— Que livro? — perguntou Seshat sem entender as coisas.
— B-Bem… — disse Thoth inseguro tentando achar as palavras certas para explicar sobre seu novo livro.
— Esqueça o assunto do livro, Seshat. — disse Hórus soltando um pesado suspiro — Agora não é hora para isso.
Apesar das tentativas de Hórus de deixar o assunto do misterioso livro de Thoth para outra hora, provavelmente um momento que estivesse à sós com Thoth, a semente da curiosidade já havia sido plantada na mente dos outros deuses. Contudo, a única prova visual disso foi o olhar de dúvida que Anúbis e Anput trocaram entre si enquanto Hórus soltava um pesado suspiro ao passar a mão na cabeça raspada.
— Teremos que ter outras conversas com Enlil e os demais. — disse Hórus — Não podemos deixar uma afronta dessas sem punições. Não posso simplesmente contar com a palavra dele de que os responsáveis serão penalizados.
— Ele também não parecia interessado também em criar uma guerra. — disse Anúbis.
— Não podemos confiar assim nos estrangeiros. — disse Hórus fazendo pouco caso com um gesto de mão — Seguem costumes diferentes do nosso, ideais e regras diferentes das nossas. Não estaríamos tendo essa discussão se não tivessem se ausentado para passear pela cidade como meros mortais.
— Quero ver se você iria ficar lá grudado no Imhotep durante o dia inteiro se estivesse lá. — desafiou Anúbis com seriedade na voz — Eu só precisava falar com Ereshkigal em nome de Lorde Osíris. Coisa que poderia ser resolvida em um dia facilmente. Mas não, queria porque queria que fôssemos até juntos com o barco fazendo com que percamos vários e vários dias. Você tem alguma ideia de quantas pessoas morrem por dia?
Hórus parou e diminuiu a distância que ainda o separava de Anúbis andando até ficar cara a cara com o primo. Os dois trocaram olhares frios, ambos de braços cruzados e expressões irritadas. Por alguns segundos, nada aconteceu e nada foi dito. O primeiro a fazer algo foi Hórus que simplesmente deu de ombros.
— Independente de quantas pessoas morrem por dia, tenho certeza que consegue tirar o atraso logo. — disse Hórus — Afinal o tempo no Duat passa mais devagar do que aqui.
Por mais que o que Hórus disse fosse verdade, isso não significava que Anúbis havia gostado de ouvir ou que tivesse colocado fim à discussão. Tentando influenciar o rumo da conversa de um jeito mais educado e delicado, Anput se aproximou lentamente botando a mão sobre o ombro de Anúbis como um silencioso sinal para que ficasse calmo.
— O que queremos dizer… — disse Anput delicadamente para Hórus — É que saímos de nossas funções, gastamos dias e energia em coisas que não eram nossa responsabilidade para atender um pedido seu que ia contra coisas que você havia falado antes. Quantos mortais receberam a escolta de qualquer deus assim? Quando somos nós que estamos muito perto dos assuntos dos humanos, você reclama. Mas quando era você que precisava, não pensou duas vezes antes de pedir, e nós fomos. Ao menos um “obrigado” seria interessante, sabe?
— Não foi um “pedido”, foi uma “ordem”. — corrigiu Hórus — Caso tenham dificuldade em lembrar, ainda sou seu faraó.
— Que incrível é ser faraó. — disse Anúbis ainda de braços cruzados — Poder mandar os outros fazerem coisas que os proibiu de fazer para satisfazer as próprias vontades.
— Ter certeza que Imhotep conseguia realizar suas tarefas e voltar era de extrema importância. — disse Hórus — Mesmo que tenhamos que ignorar a regra de não nos metermos nos assuntos mortais.
— “Extrema importância”... — repetiu Anúbis — Ou “extremo medo”?
O rumo da conversa fez todos os outros deuses ficarem completamente quietos olhando para os dois primos discutindo sem alterar as vozes mas com olhares perigosos. Era até mesmo possível sentir a tensão no ar. Cedo ou tarde aquilo poderia facilmente ir para os piores caminhos e resultados possíveis.
Hórus, apesar de certa demora, soltou uma leve bufada e revirou os olhos mantendo a pose de que não tinha medo de nada. Afinal, tinha um Império em ascensão à seus pés, súditos e fiéis, do que poderia ter medo? Mas no fundo, ele sabia que aquilo não passava de uma máscara quando falou:
— De que eu teria medo? — perguntou ele.
— Dos Sumérios. — completou Anúbis dando de ombros.
— Porque teria medo deles? — perguntou Hórus abrindo um pequeno sorriso que não chegava aos olhos.
— Por serem mais velhos do que nós. — explicou Anúbis — Quase todos os deuses sumérios já tem mais de 1000 anos de idade, pelo menos metade tem mais de 2000. Olhe para nós… cinco deuses reunidos aleatoriamente aqui nesse telhado e apenas Thoth passa de 1000. Olhe a cidade ao seu redor! Mênfis pode ser enorme e crescer sem parar, mas ela ainda engatinhava quando Ur já completava mais de 2 mil anos de vida. É fácil se achar o mais poderoso quando é um império que cresce, esmaga e conquista todos os vizinhos ao redor, mas têm medo do que pode acontecer se tiver que enfrentar os sumérios. Não sabemos qual é mais forte. Independente se for uma luta entre deuses ou mortais. Podemos ter alcançado eles em algumas coisas, ultrapassado em outras, mas também estamos para trás em algumas mais. Eles estão do outro lado do Mar Vermelho e do deserto além dele. É longe demais para brigas no momento mas é perto o suficiente para qualquer humano fazer a viagem em alguns dias, mesmo se for um exército inteiro. Então sim, está com medo dos sumérios e por isso aceitou quebrar regras que você mesmo tinha colocado.
A expressão fechada de Hórus foi resposta o suficiente. Anúbis havia acertado em cheio. Contudo, não seria Hórus aquele à confirmar a teoria do primo em voz alta. Os segundos de silêncio criados foram gastos em Hórus tentando controlar o temperamento enquanto os demais trocavam olhares de preocupações. Tinham medo do que poderia acontecer mas também tinham medo de interromper os dois.
Juntando toda a coragem que havia ainda dentro de si, Seshat respirou fundo e abrir a boca para falar algo na tentativa de parar a briga educadamente de uma vez por todas. Todavia, Hórus foi mais rápido na resposta.
— Fala de regras mas as quebra conforme bel prazer também. — rebateu Hórus — Não passa de um jovem irresponsável. Talvez por isso não aparente um adulto direito. Se comporta e pensa com a idade que aparenta que, em anos mortais, não deve passar de 16 ou 17. Quer ser tratado como adulto mas mal é um. Até eu te ultrapassei. Não passa de um garoto rebelde que tem que se esconder numa cabeça de chacal para ser levado à sério na pesagem na alma.
Qualquer esperança de Seshat de interromper a briga morreu ali mesmo. Por outro lado, Thoth suspirou pesadamente revirando os olhos pensando em como queria puxar a orelha tanto de Hórus como de Anúbis que ainda se encaravam em silêncio. A tensão no ar parecia que ia explodir naquele momento mas, num piscar de olhos Anúbis simplesmente sumiu deixando alguns resquícios de fumaça para trás.
O silêncio terrivelmente pesado só diminuiu quando o suspiro de Thoth o quebrou. A tensão havia atingido um nível tão alto que aquele pequeno e breve suspiro pareceu quase o anúncio de uma tempestade de areia que fez com que Seshat e Anput olhassem para Thoth preocupadíssimas.
— Fala isso mas ambos acabaram de parecer duas crianças brigando. — disse Thoth — Tudo deu certo e por hoje é o que importa. Continuemos essa discussão outro dia, com os ânimos mais calmos e no Duat.
— Não podemos deixar simplesmente para outro dia. — disse Hórus.
— Também não podemos continuar sem Anúbis e não deveríamos sequer ter começado sem Lorde Osíris. — disse Anput calmamente.
— E não vamos ganhar nada brigando entre nós… — lembrou Seshat timidamente com medo de discussões começarem de novo.
Por alguns segundos Hórus parou pesando as palavras ditas pelos outros três e, sem responder nada, apenas virou uma águia e saiu voando pelo céu para longe. Thoth suspirou tentando buscar paciência enquanto as duas deusas suspiravam com um misto de alívio e preocupação.
— Sabe onde eles podem ter ido? — perguntou Seshat olhando para Thoth e para Anput com curiosidade sobre para onde Hórus e Anúbis foram.
— Hórus… tenho alguns chutes… mas nenhuma certeza. — admitiu Thoth olhando para Anput — E você? Sabe de Anúbis?
— Conhecendo ele… — disse Anput — ...ou ele foi para o Lugar de Purificação onde ficam as múmias que ele prepara ou foi para o Aaru. Vou checar a primeira opção já que não consigo ir na segunda.
— E… que livro é esse que ele falou, Thoth? — perguntou Seshat olhando para o deus que desviou o olhar.
— Nossa… olha só… o sol já está se pondo. Melhor eu ir indo. — disse Thoth apressadamente se transformando num íbis e então saindo voando apressadamente tal como Hórus havia feito antes.
— Homens… — suspirou Anput vendo a figura de Thoth se distanciar.
— Vai atrás do seu já? — perguntou Seshat — Não quer ter um restinho do dia só de garotas?
— Amanhã ou depois. — disse Anput apertando brevemente a mão de Seshat com um pequeno sorrisinho do rosto antes de ir embora também.
Por mais que Anput estivesse determinada em encontrar Anúbis e conversar com ele, ele tinha ido para o único lugar que ela não poderia acompanhar. Ele se sentava no meio das plantas douradas de junco do Aaru. Não estava muito afim de socializar no momento e um cantinho escondido no paraíso egípcio era geralmente a melhor opção.
Sentado como estava, as altas plantas douradas o escondiam completamente nos campos aparentemente infinitos. Eventualmente, ele se deitou e fechou os olhos apenas aproveitando o barulho leve e suave do vento balançando os juncos. Alguns minutos depois, Neby se aproximou correndo feliz com a língua para fora ao ter sentido o cheiro da visita que havia chegado até ali. Apesar de não estar se sentindo muito sociável no momento, Anúbis recebeu o amigo com um sorriso no rosto assim como os cachorros e chacais que chegaram depois.
Por alguns minutos ele ficou apenas lá preguiçosamente vendo os animais brincarem ou pedirem um bom cafuné na barriga. Apesar do silêncio, a mente dele passava por vários assuntos, a maioria não tão importante assim.
Quando sua mente já estava mais calma, ele foi para o Lugar de Purificação, a sala cheia de mesas onde ele deixava os corpos nos quais estava dedicando parte de sua atenção para fazer o processo de mumificação. Ao entrar lá, não se surpreendeu de ver Anput sentada sobre uma das mesas vazia com as pernas balançando no ar.
— Espero que tenha limpado antes de sentar… — disse Anúbis quando ela olhou para ele com um sorriso preocupado.
— Claro. Um pouco de mágica aqui e ali. — disse Anput — Não quero correr o risco de sujar meu vestido com sei lá que coisas nojentas ficam em cima dessas mesas.
Com Anput ainda sentada sobre a mesa, Anúbis ficou diante dela e a abraçou ao redor da cintura pousando então sua cabeça em seu ombro. Anput retribuiu o abraço prontamente com um dos braços enquanto o outro ficava brincando com o cabelo negro de Anúbis.
— Tudo bem com você? — perguntou ela passando os dedos pelos cabelos dele.
— Melhor agora. — admitiu Anúbis — Aquele babaca me tira do sério.
— Não deixa ele ouvir você chamando ele assim. — alertou Anput.
— Não ligo. — disse ele.
— Bem, eu ligo. — disse ela — Prefiro os dois sem terem que lutar. Por isso… podemos bem ignorar a existência dele o resto do dia, mesmo que não reste mais muito… O que acha?
— Não poderia sugerir ideia melhor. — disse Anúbis levantando a cabeça do ombro dela e então depositando um suave beijo sobre seus lábios.
E, assim como Anput sugeriu, eles fizeram. Passaram o que restava do dia sem se preocupar com nada de importante. Simplesmente ficaram aproveitando a companhia um do outro, seja jogando Senet ou aproveitando a luz do luar em um oásis esquecido no meio do deserto.
As movimentações do dia seguinte começaram bem cedo mas isso não significava que Anúbis fosse já começar ele julgando a fila de almas que haviam se acumulado. Naquela manhã que mal havia começado, ele podia ser encontrado no Lugar de Purificação dando uso para a sala. Deitado na mesa diante de si, estava o corpo de uma velha senhora cuja fragilidade do corpo provavelmente existia desde quando era viva.
Concentrado no grotesco processo de enfiar um gancho pelo nariz da falecida para puxar-lhe o cérebro, Anúbis demorou para notar quem era a visita que entrara no Lugar de Purificação. Os passos ecoaram secos pela sala sem vida até que Anúbis levantou o olhar e notou com certa surpresa que era Hórus.
— O que raios fez com sua roupa? — perguntou Hórus notando com extrema surpresa que as roupas de Anúbis não estavam mais perfeitamente brancas, como sempre costumavam ser, mas perfeitamente negras.
— Pintei. — disse Anúbis simplesmente enquanto continuava a puxar o cérebro — Estava ficando incomodado de tanto branco.
— Pintou. — disse Hórus fechando a cara não gostando da resposta — Ficou ridículo, sabe bem que o branco representa a pureza e omnipotência. Vê como digo que é apenas um garoto rebe…
A frase de Hórus se perdeu quando ele interrompeu a si mesmo e, com olhos frios, Anúbis terminou de puxar o cérebro da senhora morta diante de si. O órgão ficou inerte em suas mãos enquanto ele encarou Hórus por alguns segundos e logo deu de ombros guardando o órgão em um jarro reservado para isso.
— Você não é minha mãe e nem ela liga tanto assim pra mim. — disse Anúbis.
A breve frase fez com que todo o rumo de conversa que havia se formado na cabeça de Hórus mudasse completamente. A prova disso foi o olhar de dúvida e desentendimento que surgiu no rosto do deus.
— Achei que você e Néftis estivessem se dando bem agora. — disse Hórus.
— Depende do século. — explicou Anúbis com olhos pesados encarando apenas o cadáver diante de si — Século sim… século não.. depende de se ela consegue olhar para mim sem pensar em Set e quando fui concebido…
O olhar pesado que preencheu o rosto de Hórus dizia que talvez ele entendia parte dos sentimentos de Néftis. Afinal, ele não precisava ir muito fundo nas suas memórias para encontrar de novo aquele dia horrível novamente.
— Porquê tira o cérebro dela manualmente ao invés de com mágica? — perguntou Hórus mudando de assunto.
— Porque com mágica às vezes é rápido demais. Num piscar de olhos está pronta. — disse Anúbis — Você não entenderia o tanto que dá para aprender sobre a vida da pessoa e pensar quando se faz uma múmia.
— Se você diz… — disse Hórus dando de ombros e cruzando os braços.
— Mas você não veio aqui pra questionar como mumifico alguém. — disse Anúbis olhando para Hórus como se desafiasse ele à reclamar de como o deus da mumificação faz suas múmias. — Ao menos espero que não.
— Não. — disse Hórus com uma simples palavra evitando o começo de outra briga — Vim… erm… pedir desculpas.
Anúbis parou tudo que fazia e olhou para o primo chocado sem acreditar nos seus ouvidos. Porém, lá estava ele. Hórus com olhar desviado e remoendo as palavras que tinham acabado de sair de sua boca.
— Acho que ouvi errado… — disse Anúbis surpreso.
— Ouviu certo e sabe disso. — resmungou Hórus.
— Pelo o que exatamente está se desculpando e o que motivou tal mudança? — questionou Anúbis.
— Hathor me fez ver que talvez eu tenha exagerado fazendo você se sentir uma criança malcriada. — admitiu Hórus — E sim, vocês seguiram o que eu pedi, que ia contra regras que eu mesmo estipulei… e tudo ficou bem no final apesar do grande… ”empecilho”... de Imhotep ter sido sequestrado… e realmente seria algo demasiado esperar que Imhotep seja vigiado o dia inteiro por algum deus. Não só por ser algo que ninguém gostaria de fazer, como também porque ele, no final de tudo, é um mero mortal. Mesmo que seja filho de Ptah.
O choque de Anúbis só aumentava à cada palavra dita por Hórus. E, mesmo assim, não deixou de notar o nome de quem havia começado toda a grande fala, Hathor. Não só a menção à deusa fez ele lembrar o que Anput tinha lhe dito quando tinham acabado de zarpar para a Suméria, como também teve que reconhecer os esforços da deusa em fazer Hórus engolir seu orgulho e dizer tudo aquilo.
— Então… o que está dizendo é um pedido de desculpas e um agradecimento por tudo? — perguntou Anúbis querendo confirmar que não estava mesmo imaginando coisas.
— Sim. — afirmou Hórus — Desculpe pelas palavras injustas e obrigado por ter feito o que não lhe cabia mas era necessário.
— De nada. — disse Anúbis tentando não deixar óbvio que estava se divertindo com a situação — Imagino que não deva ouvir isso ser dito de novo, né?
— Provavelmente não. — disse Hórus se virando para ir embora.
— Espere… antes de ir… — disse Anúbis fazendo com que Hórus parasse de andar e virasse novamente para ele — Só… uma curiosidade que possa virar um provável aviso... O que está acontecendo entre você e Hathor?
Ao ouvir a pergunta, Hórus imediatamente virou o rosto querendo esconder qualquer tipo de reação ou sentimento que sua expressão pudesse dedurar. Entretanto, Anúbis podia jurar que por um segundo viu o primo ficar com as bochechas vermelhas. E isso, tal como o pedido de desculpas e o agradecimento, deixou Anúbis chocado.
— Esse assunto não lhe diz respeito! — disse Hórus ameaçando continuar a andar querendo sair dali o mais rápido possível.
— Você… por acaso está gostando dela? — perguntou Anúbis sem esconder a surpresa na voz — Não está traindo Serqet com ela né? Se eu fosse você, não gostaria de entrar no lado negro da Serqet.
— Eu não… Eu não estou traindo a Serqet. Anput lhe falou que me viu quando fui a ver não é? — disse Hórus soltando um suspiro pesado e voltando a se virar para Anúbis — Só estou conversando com a Hathor. Nada mais. Por mais arranjado que seja o casamento com Serqet, ela não merece isso.
— Vai casar com Hathor também então? — perguntou Anúbis tentando entender a situação e aproveitando a chance de poder ter uma conversa com Hórus sem ninguém pular na garganta de ninguém.
— Não sei… — admitiu Hórus — O mais provável é que acabe me divorciando de Serqet. As coisas não vão muito bem e já tenho o herdeiro que todos me enchiam tanto para ter. Era terrivelmente irritante. Aposto que logo vão começar a te perturbar ainda mais do que já perturbam também. Thoth, Khnum, Osíris, Ísis, Tawaret, Shu... Eu fui pior por ter o trono e realmente precisar de um herdeiro. Falta pouco para você fazer 500 anos né?
— Só mais 54 anos… — disse Anúbis depois de fazer uma pequena matemática na cabeça.
— Meio milênio… — disse Hórus pensativo — Aposto que vão ficar mais irritantes depois disso. Escute minhas palavras.
— Problema deles. — disse Anúbis revirando o olhar.
— E depois quer que eu não chame de garoto rebelde… — disse Hórus arqueando as sobrancelhas.
— Eu sei bem a idade que aparento e como me comporto. Não preciso de você para ficar me rebaixando por isso. — respondeu Anúbis.
— Justo… — disse Hórus soltando um pesado suspiro resolvendo não insistir muito no assunto — Vai julgar alguém hoje?
— Não. — respondeu Anúbis voltando sua atenção para o cadáver diante de si — Não estou com paciência e humor suficiente para ser imparcial no momento. E isso é uma parte importante do trabalho.
Sem dizer mais nada, Hórus saiu do Lugar de Purificação deixando Anúbis sozinho com seus cadáveres e pensamentos. Mas, lá no fundo, Hórus também sabia que tinha muitas coisas sobre o que pensar. E, ao perceber isso, notou que talvez tivesse um pouco de medo de sua esposa também. No final das contas, talvez não fosse alguém tão sem medo como gostaria de parecer.
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