A Morte Das Areias do Saara
24 O peixe que devora
Notas iniciais

Tu és o Senhor a quem os louvores são atribuídos no nome de Ati, tu és o Príncipe da comida divina em Anu. Tu és o Senhor que é comemorado em Maati, a Alma Oculta, o Senhor de Qerrt (Elefantina), o Governante supremo em Parede Branca (Mênfis). Tu és a alma de Rá, o teu próprio corpo e tens o teu lugar de descanso em Henensu (Herakleopolis).
~Fragmento do Livro dos Mortos
A lua que lentamente aparecia no céu alterando sua cor trazia um leve brilho a noite do Saara. Sua luz era refletida nas águas do rio cujo qual todo um povo tirava seu sustento. Em uma vila às margens do Nilo, uma família se preparava para dormir enquanto se deitavam em seus colchões de palha e apagavam a solitária vela que iluminava a casa inteira. Shadya, Ahmen, Iset e seus pais se arrumavam para dormir. A única cama da casa ficou para Shadya cuja enorme e inchada barriga marcava quanto tempo se passou desde quando deixaram Mênfis para trás.
Não muito longe dali, as buscas continuavam pelos pedaços de Osíris embora já fizessem vários e vários dias que nenhum dos deuses achava nenhum pedaço novo. Seguindo em sua busca, Anúbis acabou se aproximando de Mênfis na esperança de achar alguma coisa. Dos arredores da cidade, era possível notar como ela havia mudado. Lembrava de como ela parecia tão vívida anos antes, mas agora parecia haver uma tensão espalhada no ar. O jovem deus andou pela cidade sem ligar para o toque de recolher trago pelo pôr do sol. O toque de recolher, contudo, era mais uma tradição do que uma regra. Era um medo de o que podia se esconder na escuridão da noite. Mais do que simples bandidos usavam a escuridão como sua morava. Monstros, demônios e muitos outros seres e até deuses.
Apesar da visita que fez até a cidade, ele torcia para que não tivesse nenhum pedaço de Osíris por ali. Afinal, era um lugar provável para Set estar. Contudo, algo chamou sua atenção, um cheiro familiar. Desaparecendo envolto em pura névoa, Anúbis reapareceu sentado no teto de o que era claramente uma taverna. Um dos poucos estabelecimentos à ficar aberto até tarde a noite. Ele ficou sentado sobre o portal de entrada do lugar até que um homem saiu de dentro da taverna cambaleando levemente devido ao efeito da bebida. A leve iluminação no rosto do homem causada por uma vela da taverna, confirmou a identidade do homem. Anúbis não sabia o seu nome, mas lembrava-se bem do soldado inimigo que havia invadido a casa da família de Chenzira e roubado seus pertences enquanto o amigo tentava estuprar a mãe de Chenzira.
Não foi necessário pensar duas vezes. Ele deixou que o homem se afastasse um pouco da taverna, para se afastar um pouco mais de olhares curiosos, e então, surgiu na frente dele sentado no topo de uma casa à sua direita.
— Iiti.- disse calmamente Anúbis cumprimentando o homem.
Mesmo bêbado, quando o homem subiu o olhar para onde Anúbis estava e pôde reconhecer quem tinha aparecido. A perda de cor no rosto do soldado confirmou que ele havia reconhecido Anúbis. Isso, e o fato de ter virado para correr na direção contrária. Entretanto, pouco conseguiu fazer pois, sem qualquer dificuldade, Anúbis o prendeu usando faixas de linho mas só o enrolando um pouco. Com as pernas amarradas, o homem caiu no chão duro e arenoso machucando provavelmente o braço que serviu de amortecimento para a queda. Em seguida, ele e Anúbis foram envoltos por uma névoa negra enquanto o jovem deus os levava para um lugar longe das casas da cidade onde o povo dormia.
— P-Por favor… Não me mate! Por favor! Pelos deuses, não me mate. — chorou o homem quando ambos reapareceram nas margens de Mênfis.
— Sua fala soa um tanto irônica. Embora você não deva imaginar o motivo. — perguntou Anúbis se aproximando do homem.
— I-Irônica? — repetiu o homem.
— Sim. Entendo que ainda não tenho nenhum título ou dever como meu pai, ou tio ou até como Qebui. — disse Anúbis se agachando — Mas acho que deva estar perto de descobrir.
— Q-Quê? — disse o homem um tanto perdido.
— Prazer, eu sou Anúbis. Deus de alguma coisa que não sei ainda. — disse ele dando de ombros — Embora eu ache que não vai ser de nada muito simpático como os perfumes de Nefertem ou útil como a sabedoria de Thoth. Dos esqueletos? Do pano? Da putrefação? Dos chacais? O complicado é que pode tanto ser de tudo isso ou de algo que ligue tudo isso…
O homem não teve motivos para duvidar. Os poderes que viu no outro dia e agora foram o suficiente como provas. O medo se instaurou no mortal cujo lábio inferior começou a tremer enquanto o jovem deus falava com uma expressão pensativa.
— O-o q-que v-vai fazer c-comigo…… S-Senhor Anúbis? — gaguejou o homem amedrontado.
— Sinceramente? Ainda não sei… — disse Anúbis — Você pode não ter tentado estuprar a mãe do Chenzira, mas não fez nada para impedir seu amigo nojento e ainda roubou. Provavelmente ainda o ajudou a arrombar a casa. Quem sabe o que pode ter feito que eu não saiba?
— Por favor, não. Não. — chorava o homem.
Anúbis estava de fato pensativo. Não só quanto ao o que faria com o homem, mas também quanto a outras coisas. Sim, pensava em Anput. Queria que a situação toda em que eles estavam fosse mais simples para poderem perder tempo na companhia um do outro. Infelizmente, não era o caso. E, assim, sua mente se distanciava para outro problema, os pedaços de Osíris. Fazia algum tempo que eles não achavam mais nenhum embora o corpo estivesse claramente quase pronto. Ele devia estar procurando, sabia disso, contudo, sentia dentro de si uma necessidade de julgar os erros daquele pobre mortal.
— Por favor! Não precisa fazer nada! Irei me comportar. — chorava o homem — Já basta o deus Set infernizando nossas vidas!
— Espera… — disse Anúbis saindo de seus pensamentos ao ouvir o nome do pai — Você disse Set?
— ...N-Não…. — gaguejou o homem e Anúbis revirou os olhos.
— Você não é bom em mentir.
— O-O senhor ouviu errado… — disse o homem — Estava falando do meu primo, Sheneh.
— Uhum… — disse Anúbis.
Era óbvio que Anúbis não tinha acreditado nele, mas seus olhos se desviaram para o céu por onde um pássaro branco grande e de bico levemente curvado voava, um Íbis. Ele sabia que aquilo não era simplesmente um pássaro aproveitando a brisa noturna, era uma mensagem de Thoth. Não poderia demorar muito mais ali, mas a menção do nome de Set daquela forma parecia ter algo mais envolvido.
— Aconselho que me conte o que sabe — disse Anúbis.
— N-Não… N-Não… — gaguejou o homem.
Com uma tranquilidade fria, Anúbis juntou seu dedo indicador e médio e simplesmente tocou no cotovelo do homem. Ou melhor, parecia ter simplesmente tocado no cotovelo do homem. O grito de dor que rompeu a noite era a prova que foi muito mais do que isso.
— O Faraó Narmer parece estar com o deus Set habitando seu corpo! — exclamou o homem em meio a lágrimas depois de conseguir fôlego o suficiente para falar — Ele tem se comportado de uma forma estranha. Está mais cruel que o normal.
— Ele está em Mênfis?
— Sim! — choramingou o homem já que o braço não parava de doer- Ele quer fazer de Mênfis a capital do Egito unificado.
— Tem alguém mais ao lado dele? — perguntou Anúbis.
— N-Não sei ao certo. M-Mas dizem que ele tem reuniões e-estranhas à noite.
— Viu? Não foi tão difícil assim — Anúbis disse — Boa sorte com o braço. Aconselho amputar o quanto antes. Putrefação costuma se espalhar.
O homem choramingou. Enrolado como estava nas faixas de linho, ele não conseguia ver que no exato ponto onde os dedos de Anúbis tocaram, apenas um pedaço de pele negro como carvão e fino como papiro protegia seu osso. Ao redor desse ponto, a pele estava negra e, quanto mais se distanciava deste ponto, a pele ia mudando para um tom de cinza e então para o tom da pele do homem. Entretanto, logo o homem iria ver pois as faixas de linho o soltaram lentamente. Contudo, ao primeiro movimento que ele fez, Anúbis segurou com firmeza no pulso do braço que ainda estava saudável.
— E isso, é pela família do Chenzira — disse Anúbis.
Os gritos do homem encheram a noite mais uma vez enquanto, diante dos seus olhos, ele viu a sua mão escurecendo lentamente da palma até o cotovelo. Os dedos ficaram com os ossos expostos quando Anúbis soltou a mão do homem e então simplesmente desapareceu envolto pela névoa sem se preocupar em como ele iria fazer para amputar dois braços antes que a putrefação se espalhasse ainda mais.
Num piscar de olhos Anúbis estava diante da pequena casa onde ele e os outros deuses se reuniam para juntar os pedaços de Osíris. Ao chegar, ele notou que Anput estava logo na porta de entrada ao lado de Bes e Hathor.
— Achei que ia chegar mais rápido — disse Anput.
— Estava ocupado — disse Anúbis — Qual o motivo de Thoth ter nos chamado?
— Ele disse que vai revelar quando todos chegarem. Ainda falta Lady Ísis — disse Bastet enquanto saía da cabana junto com Ptah.
Anúbis e Anput entraram na cabana e lá dentro encontraram Néftis, Thoth e Nefertem. Bas, Hathor, Bastet e Ptah ficaram do lado de fora vigiando enquanto esperavam por Ísis.
— Está tudo bem? — perguntou Anúbis para Thoth por ele estar com uma expressão extremamente pensativa.
— É o que vamos descobrir. Mas prefiro esperar que todos estejam aqui — disse Thoth.
— Espero que sejam boas notícias — disse Nefertem.
— Falando em boas notícias…. — disse Anput olhando para Anúbis — A gravidez de Shadya parece está indo bem. Ela está enorme!
— Bom saber — disse Hathor com um doce sorriso.
— Eu pedi em nome de vocês para Tawaret cuidar dessa mortal. Assim como vocês pediram. — disse Bes.
— Ela já sabe se é menino ou menina? — perguntou Anúbis.
— A cevada brotou. Provavelmente um menino. — disse Anput sorrindo empolgada e quase dando pulinhos no lugar.
Anúbis não pode deixar de abrir um sorriso com a empolgação dela. Era bom ver coisas boas acontecendo no meio de todas as coisas ruins que estavam os cercando ultimamente.
— Quer dizer que vocês realmente estão amigos de alguns mortais, tal como os boatos vão — disse Nefertem.
— Não sabia que isso tinha virado boato já — disse Anúbis.
— No meio de tanta coisa acontecendo, acho que boatos menos atrativos perderam a força. — disse Nefertem — Adoraria conhecer os mortais também.
— Sério? — perguntou Anput.
— Não vejo porquê não — disse Nefertem dando de ombros — Talvez depois que tudo isso acabar.
— Aliás… — disse Anput aparentando agora estar mais pensativa — Eu estava pensando numa coisa enquanto estava vendo-a de longe.
— O que? — perguntou Anúbis.
— Eles parecem… mudados. — disse Anput — É coisa pouca, verdade, mas eles parecem mais velhos. Mesmo que levemente. E… não sei… pode ser só impressão minha por ser algo muito sutil ainda e que talvez possa variar de pessoa para pessoa mas… eu não sinto que mudamos tanto assim.
— Você está querendo dizer que… — disse Anúbis.
— Acho que estamos parando de envelhecer. — disse Anput.
— Não é um pouco cedo? — perguntou Néftis.
— Um pouco cedo, mas é possível — disse Thoth entrando na conversa.
— Eu também parei um tanto cedo — disse Nefertem pensando um pouco.
— Mas você definitivamente parece mais velho do que eles mesmo assim — disse Thoth — Ainda é um mistério para mim o que define quando paramos de envelhecer. Provavelmente tem vários fatores possíveis.
Contudo, a conversa foi interrompida quando os passos apressados de Ísis foram ouvidos do lado de fora da cabana. Apressada e um pouco descabelada, Ísis se juntou ao grupo. Em seu rosto estava a constante expressão da preocupação que dominava seu coração desde que Osíris foi despedaçado. Com todos presentes, a atenção se voltou para Thoth no interior da cabana. Parte deles ficaram do lado de fora prestando atenção pela porta já que a pequena casa de barro não tinha tanto espaço para tanta gente.
— Porquê me chamaram com tanta urgência? — questionou Ísis — Achei que tínhamos concordado que isso só aconteceria em emergências e quando meu amado irmão e marido estivesse terminado.
— O que ainda falta de seu corpo? — perguntou Néftis.
— A parte mais importante para todo homem — disse Nefertem.
— Oh… — disse Néftis abaixando o olhar para o corpo enrolado em faixas de Osíris especificamente para entre as pernas dele.
— Não encontramos partes novas a muito tempo e, por isso, achei que um novo método se torna necessário. — disse Thoth — Passei os últimos dias desenvolvendo um avançado feitiço para localizar o que falta independente de quão longe esteja.
— O que está esperando para fazer então? — perguntou Ísis.
— O feitiço pode atrair a atenção dos aliados de Set — disse Thoth — Achei melhor todos estarem presentes para nos dividirmos entre os que vão recuperar o que falta e os que vão proteger o corpo de nosso faraó.
A discussão em como eles se dividiriam não foi tão complicada assim. Para trás protegendo o corpo ficariam Anput, Hathor, Nefertem, Néftis e Ptah enquanto Thoth, Ísis e Anúbis iriam atrás do que faltava. As palavras do feitiço foram proferidas por Thoth, o corpo de Osíris começou a brilhar até que essa luz fugiu do corpo de Osíris indicando o caminho. Thoth, Ísis e Anúbis não perderam tempo. Seguiram a luz o mais rápido que podiam. Por vários minutos eles andaram, correram e voaram até que a luz entrou no rio. Anúbis pulou no rio de imediato e, ainda seguiu a luz, estranhou quando ela tomou conta de um peixe que despreocupadamente nadava. Mesmo assim, ele pegou o grande peixe em suas mãos e saiu da água exibindo o peixe para Thoth.
— Certeza que o feitiço funcionou? — perguntou Anúbis — Parou nesse peixe.
— Tenho certeza absoluta — disse Thoth com uma expressão séria.
Preocupada, Ísis colocou a mão sobre o peixe, fechou os olhos e proferiu com seus lábios mais uma magia. O peixe que, nas mãos do jovem deus, implorava para voltar para a água, mostrou tudo que aconteceu para Ísis através de imagens graças ao feitiço dela. A deusa abriu os olhos que já lacrimejavam ao entender o que tinha acontecido.
— N-Não pode ser… m-mas não é possível! — disse Ísis começando a chorar.
— O que? — perguntou Anúbis preocupado.
— Esse peixe desgraçado engoliu o que falta do meu marido! — esbravejou Ísis se perdendo em meio às lágrimas.
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