A Morte Das Areias do Saara
7 O hóspede nas almofadas e a patrona de Nekheb
Notas iniciais

Homenagem a ti, ó tu que habitas no teu barco, que derrubarás Hapi, o Nilo, da sua caverna, cujo corpo é a luz e quem habita em Nekhen. Concede-me um caminho para onde eu possa passar em paz , pois eu sou justo e verdadeiro; Não falei falsamente com a falsidade, nem fiz nada com engano.
~ Fragmento do Livro dos Mortos
O pequeno chacal já parecia tranquilo e bem. Logo, Anúbis pegou o pequeno animalzinho no colo e se levantou com o filhote de chacal nos braços como o carinho de uma criança que ganhava um novo amigo. Ísis olhava não só para ele, mas para a cena que havia se criado ao redor do grupo. Perguntava-se quais seriam todos os detalhes do que havia acontecido ali. Um pequeno chacal anteriormente bem machucado, três crianças que indiscutivelmente tinham poderes ou teriam poderes, e uma pilha de ossos e poeira que anteriormente fora um humano.
O filhote de chacal, de pelagem de cor arenosa, mas preta nas costas e no rabo, se aconchegava no colo da criança aparentemente se sentindo bem e seguro. Prova dessa segurança, foi que ele chegou a fechar os olhos como se quisesse começar uma boa e gostosa soneca.
— Posso ficar com ele né? Osíris disse que eu podia ter um bichinho. – perguntou Anúbis.
— Ele deveria voltar para a família dele. Não acha? – perguntou Ísis de joelhos na areia ficando da altura da criança fitando o pequeno animal em seus braços. Embora achasse a cena fofa, ela não conseguia parar de lembrar-se do dia em que havia achado Anúbis, recém-nascido, no meio do deserto, cercado daqueles mesmos animais.
— Mas ele não tem família. – disse Anúbis cabisbaixo, mas com um tom que demonstrava que tinha certeza do que estava falando – Eles morreram numa briga contra um bando de hienas.
— Como sabe disso? – perguntou Qebui ao se aproximar do amigo e fazer carinho na cabeça do chacal.
— Ele disse – respondeu Anúbis.
— Ele disse? – perguntou Ísis sem exatamente se surpreender muito com a afirmação, apenas parando para processa-la um pouco mais. – Tudo bem. Acho que pode ficar então com ele visto que ele parece gostar de você e que ele não tem ninguém. – completou ela com um doce sorriso.
— Dua Netjer en etj[1] – respondeu Anúbis com um sorriso já começando a pensar em qual seria o nome de seu novo bichinho. Ísis sorriu e afirmou com a cabeça, mas logo soltou um suspiro, preocupada.
— Então, quem vai me explicar o que aconteceu aqui? – perguntou a mulher.
Anput e Qebui se entreolharam enquanto Anúbis ficou cabisbaixo. Os três não sabiam como começar já que sabiam e entendiam o que tinha acontecido ali. Ísis esperou e ficou olhando de uma criança para a outra esperando alguma resposta até que Anput deu dois pequenos passos para frente e começou a explicar.
— Três garotos humanos estavam sendo maus com o chacalzinho. Jogavam pedras nele, machucavam ele, achavam divertido. Aí.... – disse Anput, mas parou olhando com o canto do olho para Anúbis.
Ísis, entendendo mais ou menos a situação, botou a mão delicadamente no ombro de Anput.
— Tudo bem querida. Depois falamos mais nisso. – disse a deusa antes de se levantar.
Ela olhou para as três crianças por um tempo e, depois de pensar por uns segundos, falou:
— Porque não voltamos para o palácio? Podemos arrumar um cantinho para o chacal dormir. Já decidiu um nome para ele, Anúbis?
— Estava pensando em Neby. – disse a criança olhando para o animal perguntando-se se ele tinha cara de Neby.
Ísis então se levantou e os quatro começaram a andar de volta para o palácio. As três crianças ficaram admirando o pequeno e fofo animal que pareceu ter dormido no colo de Anúbis. Enquanto isso, Ísis ficava se perguntando qual dos três havia feito aquilo com o humano. O comportamento dos três parecia indicar que era Anúbis. O que até faria sentido, segundo a concepção de Ísis. Já era bem sabido que Qebui era o deus do vento do norte, e aquilo não parecia ser coisa que magias de vento fariam. Não. Anput ou Anúbis devem ter descoberto mais sobre si mesmos e sobre suas magias. E, julgando por como Anput e Anúbis se comportaram diante a pergunta de Ísis, a deusa chutava que aquilo tinha sido obra de Anúbis.
Enquanto Ísis pensava que deveria conversar com Osíris e Thoth sobre isso, a pequena Anput deu alguns passos apressados para ficar lado a lado com a deusa deixando assim os dois meninos para trás.
— Ah! Lady Ísis, não sei se isso ainda é importante, – disse Anput enquanto os quatro iam andando de volta para o palácio – mas ontem na festa antes do pronunciamento de Lorde Osíris, vimos Set conversando coisas estranhas com Néftis.
— E ele estava com uma espada estranha também – completou Qebui ouvindo a conversa – Toda dourada.
— Mesmo? – perguntou Ísis mostrando interesse e também preocupação.
— Ele machucou ela – disse Anúbis pensativo e cabisbaixo agarrado ao seu novo amigo enquanto andava.
— Set... – disse Ísis com um toque de raiva suspirando pensando no que fazer e no que aquilo deveria significar. Será que o anúncio de Osíris fez quaisquer planos que Set tivesse mudarem? Aquilo não parecia coisa boa. – Lembram-se de o que ele disse? Ele viu vocês?
— Não, estávamos escondidos. — respondeu Qebui.
— Bom. Muito bom – disse a mulher já mais aliviada.
— Mas ela disse algo sobre ele só “ter o gostinho da batalha”. O que será que isso quer dizer Lady Ísis? – perguntou Anput.
— Tenho a sensação de que muito em breve descobriremos mais sobre isso. Quer queiramos ou não.
Em alguns minutos eles chegaram ao palácio e o grupo foi para o quarto de Anúbis e rapidamente começaram a arrumar um cantinho para o chacal que se chamaria oficialmente Neby.
O quarto de Anúbis passava a sensação de ser bem confortável. Nele, havia uma varanda com vista para os jardins do palácio e então para o deserto mais além. Ao lado da entrada para a varanda, havia um jarro de flores de cada lado. Uma cama encostava sua cabeceira em uma das paredes e, ao lado da cama, as crianças arrumavam um pequeno amontoado de cobertores e almofadas para Neby dormir. Do lado oposto da cama, havia uma escrivaninha com algumas tábuas escritas e outras em branco, uma cadeira e, ao lado da escrivaninha, um baú ricamente trabalhado com desenhos que pareciam contar uma história em cada uma das faces desse baú. Alguém poderia acreditar que teriam joias preciosas no baú, mas não, ele estava abarrotado de brinquedos. No encontro entre duas paredes, ao lado da entrada para a varanda, havia outro baú, maior do que o primeiro, que continha as roupas, calçados, joias e coisas do tipo. Quando a pessoa entrava no quarto, podia logo ver a cama com a cabeceira encostada na parede à direita, a escrivaninha à esquerda e a varanda em frente. No entanto, além disso, na parede que continha a porta de entrada, estava encostado um sofá cujos braços se curvavam na extremidade.
Anúbis colocou o pequeno animal sobre uma almofada e ele rodou entre os panos andando de um lado para o outro e então se jogando de costas com a barriga para cima logo se esfregando todo entre os panos. Neby começou a brincar com os panos se enfiado embaixo de uns e ficando com a cara escondida em um dos panos arrancando risadas de Qebui e um mero sorriso de Anúbis. Anput, no entanto, não presenciou a cena, pois Ísis alguns minutos antes havia tocado levemente em seu ombro e falado baixinho com a garota.
— Anput, posso falar com você ali no corredor? – sussurrou a deusa e logo a criança afirmou com a cabeça diante a pergunta.
As duas foram para o corredor e, ao atravessar a porta, Ísis olhou para trás e abriu um singelo sorriso ao ver a diversão que Anúbis e Qebui já começavam com o pequeno Neby.
— Anput, preciso perguntar-lhe uma coisa e eu quero que você me fale a verdade, certo? – perguntou Ísis se ajoelhando na altura de Anput e falando baixinho para que aquela conversa ficasse só entre ela e a criança.
— Certo.
— Aquele monte de poeira e ossos, era um humano? Um dos que machucavam Neby? – perguntou a deusa sempre com voz calma.
— Sim... – disse a garota ficando cabisbaixa.
— Por acaso aquilo foi obra do Anúbis?
— Não vai brigar com ele se eu falar que foi né?! – exclamou Anput preocupada olhando para Ísis com os olhos saltados.
— Claro que não querida. – disse Ísis já tendo a resposta de sua pergunta enquanto passava a mão direita na cabeça de Anput – Vá lá brincar com Neby e os meninos, certo? Está tudo bem.
Enquanto as três crianças se divertiam com o novo amigo, Ísis não pensou em outra coisa, foi direto para Osíris contar tudo o que tinha acontecido.
Alguns quilômetros mais ao sul, uma tempestade de areia engolia um grupo de figuras. Uma delas nem parecia ligar para a areia, as outras três se enrolavam em panos para proteger principalmente o rosto. Quando essa mesma tempestade de areia ia diminuindo, o grupo pode ver a cidade de Nekhen surgindo no horizonte. Chamar de cidade, considerando os padrões atuais de cidade, seria demais. No entanto, para os padrões da época, era um aglomerado considerável de pessoas com direito a várias casas feitas de tijolos de barro, um zoológico, templos e até um palácio. Na beira do Nilo, depois de alguns séculos ou milênios, a cidade de Nekhen não teria mais do que ruinas para mostrar para aqueles que a visitassem.
— Tem certeza disso? – perguntou Néftis levantando um pouco o pano que cobria seus olhos protegendo-os da areia e então olhando para o marido. Ela, Set, Sobek e Khonsu eram o grupo que se aproximavam da cidade de Nekhen.
— Tenho. Acredite no meu plano e não atrapalhe, mulher. – respondeu Set entrando na cidade.
O grupo não era acostumado a andar entre os humanos, preferindo manterem-se separados destes. Os humanos, no entanto, sentiram que havia algo de divino no grupo que entrava em sua cidade. Os deuses não estavam em suas formas mais conhecidas, geralmente com a cabeça de seu respectivo animal, e tão pouco estavam anunciando aos quatro ventos quem eles realmente eram, mas só a presença que eles impunham era o suficiente para fazer os simples humanos sentirem que eles eram algo mais. Dessa forma, ninguém ousou ficar no caminho dos quatro deuses. Os humanos abriram caminho formando um corredor por onde o pequeno grupo passava. Alguns os olhavam com olhos esbugalhados, outros se curvavam um pouco enquanto outros chegavam até o chão ao se curvarem.
Eles deixaram a cidade de Nekhen para trás, o que fez Néftis ficar em dúvida quanto aos objetivos do marido. Ela acreditava que ele ia em direção ao faraó humano do alto Egito que morava na cidade. Mas não, Set continuou a andar e foi em direção a cidade que ficava logo ao lado de Nekhen, Nekheb.
O caminho do grupo era em direção a um dos templos de Nekheb, o templo de Nekhbet. Durante o caminho todo, a cena com os humanos abrindo espaço se repetia até que eles entraram no templo de pedra branca repleta de desenhos de abutres e da deusa cujo animal era o símbolo. Não era um templo demasiadamente grande. Tinha um pátio de entrada delimitado por muros de pedra e colunas. A leste do templo, havia um lago sagrado e o templo em si não possuía mais do que duas salas. Na última das salas, estavam duas pessoas que conversavam, um alto-sacerdote que estava de costas para eles e uma mulher que aparentava ter aproximadamente 60 anos.
— Ora. Ora. – disse a mulher olhando para o grupo.
— Quem ousa entrar a- — disse o sacerdote se virando ao notar que mais alguém estava ali.
Se achar de tamanha importância em comparação a quem entrava, foi um erro para o sacerdote. Em um segundo ele perguntava quem ousava entrar, no outro, Set esticava a palma de sua mão para o rosto do sacerdote e no segundo seguinte o rosto do homem estava cercado de fogo.
O homem saiu gritando desesperado pedindo por ajuda e esbarrando em tudo enquanto Set encarava a mulher que havia diante de si.
— Vejo que resolveu tomar as rédeas da situação do trono. – disse a mulher.
A pele ao redor do rosto, pescoço e lóbulos das orelhas da mulher caiam e seu corpo estava curvado provavelmente pela idade. Uma peruca feita de cabelos negros verdadeiros trançados em dezenas de tranças grossas ia quase até a altura de seus ombros e escondia sua quase careca. Ela usava também um vestido preto exuberante feito inteiramente de penas.
— Acho que já sabia que eu eventualmente faria isso, Nekhbet. – disse Set.
— Ah não, não. Evito ficar fazendo muitas previsões. Estraga a diversão. Surpresas são boas. – respondeu ela.
— Será que estaria disposta então a fazer uma previsão para mim?
— Entra em minha cidade, a cidade cujo sou patrona, sem ser previamente anunciado ou convidado, ataca meu alto-sacerdote e já me pede favores?
— Não parece ter se importado muito pelo velho. – mencionou Khonsu encostado no portal de entrada da sala de braços cruzados.
— De fato. Estava já se provando um molenga incompetente desde quando sua esposa emprenhou. – respondeu a mulher bufando e revirando os olhos.
— E então? – perguntou Set novamente.
— Depende do que tem a me oferecer. – disse Nekhbet cruzando os braços.
— O que tem em mente?
— Quero ser a patrona do Alto Egito caso unifique as duas terras. – disse ela sem rodeios como se pedisse para ele ir até a praça de comércio e comprasse pão.
— O QUÊ?! ESTÁ DOIDA. – exclamou Set.
— Não ouse chamar-me de doida. Está em meu templo e em minha cidade, vindo pedir a mim um favor! – disse a mulher apontando para a cara de Set – Não o temo, ao contrário da maioria dos outros deuses.
— Patrona do 3º Nome do Alto Egito [2] – tentou Set negociar.
— Do Alto Egito, ou nada feito. – disse Nekhbet olhando as unhas de sua mão direita fazendo pouco caso da oferta do deus.
Set rangeu, fechou os punhos em completo ódio e encarou a deusa com cara de mais puro desprezo. Ela, no entanto, estava calma e relaxada esperando a resposta do deus de braços cruzados e um sorriso esperto e zombeteiro no rosto.
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