A Morte Das Areias do Saara

33 O falcão e o vinho de romã


Notas iniciais
faaaaaaala galera! não resisti e escrevi logo esse cap novo o/ acho que vão gostar. eu gostei :3 se eu fosse outra, o nome desse cap ia ser Testosterona

Ouvir sua voz é vinho de romã para mim:

Eu recupero vida ao ouvi-la.

Pudesse eu ver-te a cada relance,

Seria melhor para mim

Do que comer ou beber.

~ A Canção da Flor (Trecho)

Desde a visita até a casa de Shadya, Ahmen e Iset, algumas poucas semanas tinham se passado. Poucos, mas o suficiente para eventos importantes acontecerem, embora sem que todos tivessem plena consciência de sua maioria. Sem ter mais Sobek como aliado, Seth começava a ficar com cada vez mais raiva e com planos que não agradavam a todos os seus aliados. Dentre os piores, estava secar completamente o Nilo para fazer os humanos reconhecerem ainda mais o valor dos deuses ao ter que depender de um rio que não trazia tantas dádivas assim e de eventuais oásis. Felizmente, o plano dificilmente saía do papel já que Seth não tinha qualquer aliado nessa ideia já que os outros deuses se preocupavam com a vida de alguns poucos seres. Sekhmet, por exemplo, se preocupava com seus leões. Quanto a Anúbis, ele não havia visitado os amigos humanos novamente, pois ele e os outros jovens deuses sabiam como poderiam acabar atrapalhando todo o meticuloso processo de plantio e colheita que a família humana realizava durante boa parte do dia. Mas isso não significava que não tinham aproveitado para conversar bastante naquele singelo dia que foram visitá-los para conhecer User.

Em uma casa simples e relativamente grande construída no Delta, mas com certo charme que se evidenciava principalmente nas flores multicoloridas presentes em sua entrada, vários deuses se reuniam. Anúbis e Anput mal haviam chegado depois de ouvir a notícia que começava a se espalhar. A notícia também atraiu outros deuses como Ptah, Nefertem, Qebui, Bes, Hathor, Bastet, Néftis e Tawaret. O motivo de tamanha curiosidade estava presente no quarto principal da residência onde, sentada sobre um longo e rústico sofá de assento esticado para colocar as pernas em cima, Ísis segurava um bebê recém nascido que chorava fortemente.

Com olhos curiosos, os deuses olhavam para aquele pequenino ser que Ísis, com um doce sorriso no rosto, tentava acalmar em seus braços. Um suspiro aliviado escapou dos lábios de Anúbis e também de Anput ao notar que a criança era realmente um menino. Apenas Nefertem notou esse pequeno suspiro, e não pode deixar de soltar uma pequena risada. Não havia sido fácil, foram muitos anos de espera, muitas lutas envolvidas, mas Ísis finalmente tinha conseguido ter o filho de Osíris.

— Ele é tão pequeninho — disse Anput.

— Mas com certeza está destinado a ser grande. — disse Ptah.

— Hunf. Tendo Lorde Osíris como pai. Isso não poderia ser diferente. — comentou Bes.

— Não acha melhor irmos avisar Lorde Osíris desse belo momento? — perguntou Qebui.

— Thoth esteve presente no nascimento. — explicou Tawaret — Já deve ter ido até o Duat para informar Lorde Osíris desse momento de felicidade.

Já tendo parado de chorar, o pequeno bebê se aconchegou no colo da mãe. De cabelos negros quase inexistentes e pele cor de amêndoa, o bebê olhava para a mãe com espertos e sérios olhos dourados. Ísis respirou fundo e olhou para os deuses diante de si. Não iria perguntar para nenhum se queriam segurar seu precioso bebê, havia batalhado muito por aquela criança e não estava muito disposta a tirá-la de seus braços ainda.

— Espalhem por todo o Egito a notícia. — disse Ísis — O herdeiro de Osíris nasceu. O novo faraó por direito nasceu e seu nome é Hórus. Que os deuses se reúnam para celebrar a chegada de meu filho que nos unificará uma vez mais e vingará a morte do pai.

Apesar de todos olharem com alegria para o bebê e já pensarem com expectativa na festa que aparentemente viria, foi difícil para Anúbis notar a felicidade irradiante do rosto de Ísis que delicadamente passava a mão na cabeça da criança. Anúbis tinha que admitir que sentia um pouco de inveja. Tal inveja provavelmente havia chegado até os olhos dele, pois Néftis o fitava com o olhar de culpa imaginando bem o que ele sentia, a inveja de nascer numa família que realmente o queria e ser acalentado no colo da mãe.

Gradualmente um a um os deuses foram indo embora do recinto. Não só para espalhar a notícia, como também porque Ísis queria claramente aproveitar um tempo sozinha com seu bebê mesmo depois de apresentar o pequeno Hórus para todos os presentes. Apesar do desejo por privacidade, eles não podiam deixar a casa sem vigias. Assim, enquanto a novidade se espalhava, Bastet e Ptah ficaram de guarda na casa. Olhando para o horizonte, Bastet se certificava de que nada chegaria perto demais do herdeiro de Osíris e, embora também fizesse isso, Ptah parou um momento para pegar uma delicada margarida que crescia por perto. Ele a girou em seus dedos atraindo então o olhar curioso de Bastet. Como resposta, ele se aproximou da deusa e lentamente colocou a pequena flor sobre sua orelha e dentre seus cabelos fazendo a deusa gata corar levemente.

— Achei parecida contigo. — disse Ptah.

— Parecida comigo? — perguntou Bastet corada.

— Bela, elegante e radiante. — disse Ptah sorrindo brevemente.

Enquanto o rubor do rosto de Bastet aumentava e o sol deixava o seu ponto mais alto anunciando a lenta e gradual chegada da noite, Anput encarava a sua imagem refletida em uma superfície circular de bronze e um cabo de marfim. De forma meticulosa e concentrada, a jovem se preparava para a festa que começaria no por do sol. Ao redor dos olhos, tal como um lápis de olho, passou o famoso kajal. Mas, ao invés de usar a cor preta padrão, a jovem resolveu que aquela noite seria diferente e passou o kajal verde feito de malaquita que estava guardado em um belo e extremamente adornado recipiente. O contorno e a delicada ponta que se formava na extremidade de cada um dos olhos pareciam ressaltar a beleza de suas íris negras como a noite.

Anput encarou seu kit de beleza pensando qual dos elegantes compartimentos cujos design seriam usados para guardar maquiagem mesmo em milhares de anos no futuro, iria abrir para implementar seu visual. Acabou decidindo por um creme para a pele e, em seguida, usou um pó também feito de malaquita para colocar sombra em seus olhos, pó feito de flores para realçar levemente a cor de seus lábios, pó de ocre vermelho para as bochechas e um perfume feito de mirra, canela e outros. Por fim, analisou seu reflexo no cobre e então abriu um sorriso satisfeita. Uma maquiagem leve mas bela que caía muito bem com o vestido esbelto e relativamente justo que caía sobre seu corpo. O vestido era de linho, um material que, quanto mais bem feito, mais costumava ser fino e transparente. Exatamente por isso que o vestido tinha duas camadas de tecido, já que a de cima, além de mais esvoaçante, era tão fina que era transparente.

As adições finais no visual foram o colar de ouro puro, rubi e lápis-lazuli, o par de brincos feito do mesmo material, uma larga pulseira de ouro em ambos os braços e as sandálias de couro.

Com o vestido esvoaçando-se levemente com o vento, Anput e Hathor andaram em direção ao local da festa onde um palácio havia sido magicamente criado. Ao se aproximarem, a dupla, que alegremente conversava, notava que não eram as primeiras a chegar. O primeiro deus que podia considerar seu amigo que Anput viu, foi Nefertem. Nefertem estava logo no enorme portal de entrada do palácio de dois andares que tanto se parecia com o mesmo palácio no qual Osíris foi fatiado só que ligeiramente menor. Apesar da proximidade, Nefertem não notou Anput chegando. Afinal, ele parecia estar tendo uma conversa um tanto sugestiva com a deusa Sopdet, a deusa da estrela Sírius que, como se para honrar o que significava, trajava colares, brincos e enfeites de cabelo com formato de estrelas.

Ao atravessar o portal e entrar no salão principal do palácio, Anput logo viu duas coisas. A primeira foi Ísis com Hórus no colo rodeada de outros deuses. A segunda foi Anúbis que conversava com Qebui e Thoth.

— Tinham outras pessoas lá e o tal de talgu que Nefertem e Bastet disseram que já viram caindo do céu. — dizia Qebui para Thoth.

— Sim sim. — disse Thoth — Já fui tão ao sul assim. Uma vez. Não achei nada de tão interessante então não retornei outra vez.

Anput foi se aproximando da conversa e abriu um sorriso radiante ao ver os olhos de Anúbis encontrarem os seus. Ambos coraram rapidamente e o rápido olhar de Anúbis que escapou dos olhos dela por um segundo falavam o suficiente, ela estava deslumbrante.

— Olá! — disse Anput ao se afastar de Hathor e se juntar ao grupo — Não imaginava que era tão viajado, Thoth.

— Ah sim, sim. Já viajei bastante — disse Thoth — Contudo, o povo mais interessante que encontrei foi seguindo onde Rá começa seu curso pelo céu. Lá vive um povo que fala uma outra língua, já escreve e, já tem seus próprios deuses!

— Tem certeza? — perguntou Anúbis.

— Tenho sim. — disse Thoth — Passei pouco mais de dois anos lá. Aprendendo. Possuem muitos conhecimentos interessantes e são bem mais avançados do que nossos vizinhos ao sul. Diria até que estamos quase do mesmo nível.

— Não acha que devemos nos preocupar então? — perguntou Qebui.

— Provavelmente. — disse Thoth dando de ombros — Quero torcer com a possibilidade de começarmos como parceiros de comércio. Mas não devemos descartar a possibilidade de guerra. Em ambas as hipóteses, recomendo o aprendizado de sumério apesar de não ser uma língua tão bela quanto o egípcio.

— Lorde Osíris sabe disso? — perguntou Anúbis.

— Ah sim. Sabe. — disse Thoth olhando para Anúbis- Ah! Antes que eu esqueça! Fui verificar aqueles esqueletos que encontrou no deserto.

— E? — perguntou Anúbis — O que acha deles?

— Não são de demônios, isso é certeza. Não há nenhuma energia maligna por perto. — disse Thoth — É algum animal. Bem grande, claramente.

— Que esqueletos são esses de que falam? — perguntou Qebui.

— Quando procurávamos pelos pedaços de Lorde Osíris, encontrei um ponto no deserto com vários esqueletos enormes. — explicou Anúbis — Não parecia nenhum animal que eu conhecesse.

— De fato. — disse Thoth — É muito grande e longo, chuto que deveria ser algum animal bem pesado. Seus membros, no entanto, são minúsculos comparado com o tamanho e só tem os da frente.

— Todos os esqueletos eram assim? Porque… se não… pode ter perdido as patas de trás em alguma briga ou algo do tipo. — sugeriu Anput.

— Todos eram assim. — disse Thoth — Na verdade,pela anatomia no geral, eu ousaria dizer que era um animal aquático.

— Aquático?! — exclamou Anput — No meio do deserto?!

— Sei bem que parece loucura. — disse Thoth dando de ombros — Mas não esqueçam que o mundo surgiu das águas sem vida do caos.

— Você falou uma palavra que já te contradiz Thoth, ou melhor, duas. — disse Qebui — “Sem vida”. Um animal, por mais diferente que seja, não contaria como vida?

— Sei disso. — disse Thoth suspirando — Mas é difícil traçar eventos de tempos tão longes. Teria que conversar um pouco com Nu e Naunet. Só eles eram vivos nessa época.

— Infelizmente, a última está tentando nos matar. Lembra? Ela está do lado de Seth — completou Anput.

— Pelo menos é Naunet e não Nu. — disse Anúbis — Ele seria bem mais preocupante.

— Claro. — disse Qebui — É o primeiro de todos os deuses. Aposto que nem Rá teria qualquer chance.

— E não é exatamente fácil encontrá-lo para conversar… — disse Thoth desviando o olhar quando alguma coisa chamou sua atenção — Agora, com licença garotos, mas meu interesse acaba de mudar para outro lugar.

O trio viu Thoth se distanciar passando no meio do caminho pelos músicos, meros mortais cegados propositalmente por alguns terem a crença de que meros mortais não eram dignos de olharem diretamente para os deuses, que tocavam enormes liras. O objetivo de Thoth foi uma outra deusa, chamada Seshat.

Anúbis, Anput e Qebui sabiam que boa parte dos outros deuses estavam preocupados em conseguir aliados para o lado de Hórus, especialmente considerando que muitos dos que se mantiveram neutros no conflito contra Seth resolveram aparecer, e que outros queriam era paparicar o pequeno bebê de olhos dourados, outros queriam admirar as dançarinas que usavam vestidos totalmente transparentes. Mas para os três era suficiente ficarem sentados no andar de cima sobre um sofá meio escondido com uma cesta cheia de um pouco dos vários pães diferentes que eram servidos, uma jarra de vinho sobre uma mesinha de madeira e copos para cada. Especialmente considerando que tinham ficado tanto tempo separados.

— Sabe o que eu acho? — dizia Qebui, que estava sentado sobre a pequena mesinha, apontando para Anúbis com o copo cheio de vinho — Que você está com inveja do Hórus.

— Não estou. — disse Anúbis embora sabia que fosse mentira — E você está bêbado.

— E? — disse Qebui soltando um soluço.

O vinho egípcio era forte o suficiente para, em um ou um pouco mais de copos, deixar qualquer humano bêbado. Mas Qebui já tinha perdido a conta de quantos copos tinha bebido.

— E… que você daqui a pouco estará caindo por aí. E não iremos te carregar. — disse Anput que estava sentada no sofá grudadinha com Anúbis que passava o braço ao redor dela enquanto ela deitava a cabeça no ombro dele.

— Pff — resmungou Qebui pegando o jarro para encher mais seu copo, mas notando com leve tristeza que estava vazio — Tsc. Vou pegar mais.

Enquanto Qebui saía, Anput virou seu copo acabando com os últimos dois dedinhos de vinho que restava. Em seguida, ela deixou o copo vazio dela ao lado do de Anúbis que, com apenas um dedinho restante, esperava no chão ao lado do pé da pequena mesa cujo espaço era quase completamente tomado pelo jarro que antes estava ali. O rosto corado de ambos eram as provas de que eles estavam registrando que estavam sozinhos.

— Acho que agora estamos sozinhos o suficiente para eu dizer que você está muito bonita. — disse Anúbis olhando para ela com um doce sorriso.

— T-Teve que esperar ficarmos sozinhos para dizer isso? — perguntou Anput com um sorriso bobo no rosto enrolando uma das dezenas de trancinhas no seu dedo mostrando-se estar completamente sem graça.

— Parece mais especial assim. — disse Anúbis com um simples e doce sorriso.

Talvez ele estivesse mostrando mais confiança do que realmente tinha naquele momento, pois sentia o coração bater forte e rápido em seu peito. Ele se via facilmente perdido nos olhos dela e, quando tentava desgrudar-se do olhar magnetizante, seus olhos achocolatados se perdiam nas bochechas levemente rosadas salpicadas de algumas sardas douradas como o sol. Como em câmera lenta, ele admirou o sorriso dela nascer em seu rosto como que correspondendo ao olhar carinhoso que usava para fitá-la.

Distraídos da música que mesmo dali era ouvida, os dois se aproximaram lentamente num beijo doce e carinhoso. Com os olhos fechados, Anput tocou o rosto de Anúbis com uma de suas mãos enquanto uma das mãos dele ia até a cintura curvilínea dela. Cada leve toque a mais de uma pele na outra fazia a urgência do beijo aumentar assim como o ritmo das batidas do coração. Mesmo com o ardente beijo que acontecia, eventualmente eles se separaram apesar de manterem o rosto tão próximos que os narizes roçavam um no outro.

— Qebui não vai demorar para voltar… — disse Anúbis num mero sussurro.

— Não vai. — disse Anput com a voz igualmente baixa.

— O… O que você acha de… — disse ele logo ficando extremamente vermelho — Ir para outro lugar… um lugar que ninguém vai perturbar e…

— E-E? — perguntou Anput num leve gaguejo ficando também extremamente corada.

— E.. dar um bom uso para esse sofá. — completou Anúbis passando o dedão de sua mão delicadamente pela bochecha de Anput — Se quiser, claro.

Ao invés de falar uma resposta, Anput deu um beijo breve nele e, em seguida, ao se afastar, afirmou com a cabeça exibindo também um sorriso tímido no rosto. Anúbis sorriu de volta pela resposta e rapidamente abraçava Anput junto a si recomeçando o beijo ardente que tinham compartilhado poucos minutos antes. Seus braços se entrelaçaram em abraços apertados que seguiam o mesmo ritmo de urgência dos beijos enquanto uma névoa negra lentamente envolvia a ambos e ao sofá. A mão de Anúbis subia pela coxa de Anput por dentro do vestido quando a névoa terminou de envolver tudo e, num piscar de olhos, nem eles e nem o sofá estavam mais ali.

Notas finais
E CORTA! XD foi mal, mas eu n tô afim de escrever sexo kkk mas vcs entenderam ;D #### REFERÊNCIAS #### A canção da flor - https://www.love-poetry-of-the-world.com/Egyptian-Love-Poetry-Poem2.html Horus - https://riordan.fandom.com/wiki/Horus#Appearance Olho de Hórus - https://pt.wikipedia.org/wiki/Olho_de_H%C3%B3rus Hórus - https://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%B3rus Parto - http://www.touregypt.net/featurestories/mothers.htm Bastet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Bastet Flores - http://www.reshafim.org.il/ad/egypt/botany/flowers.htm Espelho - https://www.furniturelibrary.com/mirror-glass-darkly/ Maquiagem - https://en.wikipedia.org/wiki/Beauty_and_cosmetics_in_ancient_Egypt Maquiagem 2 - https://www.ancient.eu/article/1061/cosmetics-perfume--hygiene-in-ancient-egypt/ Maquiagem 3 - https://makeup.lovetoknow.com/History_of_Makeup_in_Egypt Sopdet - https://en.wikipedia.org/wiki/Sopdet Sumérios - https://pt.wikipedia.org/wiki/Sum%C3%A9ria Festas - http://www.touregypt.net/featurestories/partytime.htm Mitos de criação do mundo - https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Egyptian_creation_myths Nu - https://en.wikipedia.org/wiki/Nu_(mythology)