A Morte Das Areias do Saara
153 Em Busca do Culpado e seus Cúmplices
Notas iniciais

'Teu servo fala e faz com que se saiba que tu és o Filho de Rá que saiu de seu corpo. Ele te deu todas as terras combinadas em um só lugar. Quanto à terra do Egito e à terra de Khatti, são tuas, teus servos, estão sob teus pés. Antes, teu nobre pai os deu a ti. Não prevaleça sobre nós. Veja, teu poder é grande, tua força é pesada sobre a terra de Khatti. É bom que você mate seus servos, seu rosto é selvagem para com eles e não tenha piedade? Veja, você passou ontem matando centenas de milhares. Você veio hoje e não deixou herdeiros. Não seja duro em seus negócios, rei vitorioso. A paz é melhor do que lutar. Dê-nos fôlego.
~ Fragmento de “Registro egípcio oficial da Batalha de Kadesh, Poema do Pentauro”
Perto da entrada do Aaru, Anúbis se sentava dentre as altas plantas do infinito campo de juncos. Ao seu redor, Neby e mais uma dezena de cães ou chacais deitavam no chão ou competiam divertidamente entre si por um pouco de carinho. Neby era um dos que estava com a barriga para cima e língua para fora enquanto Anúbis lhe coçava a barriga. Mas o deus tinha que revezar, já que vários queriam um pouco de carinho.
— Preste atenção, Neby… — disse Anúbis, sem duvidar da atenção que o animal teria apesar da delícia que era ter a barriga coçada — Você vai lá com os outros ver se Hatshepsut está bem… mas só de longe. Tente não deixar ela notar.
O chacal soltou um resmungo canídeo que o deus traduziu como uma afirmação. E apesar de todos ali quererem ficar eternamente recebendo gostosos cafunés na barriga, os animais se levantaram e correram para as profundezas do Aaru em busca de Hatshepsut.
Vendo os animais partirem, Anúbis chegou até a dar um passo na mesma direção, mas parou. Adoraria chegar mais perto e ver como estavam todos que lhe interessava no Aaru. Mas não era uma boa ideia, e o reconhecimento disso foi que fez ele parar de andar após um mero passo. Não podia interromper a merecida paz que aquelas almas ganharam com questionamentos e novidades de como estavam as coisas do lado de fora.
Sozinho, Anúbis logo se jogou no chão. Deitado, repassou tudo o que havia acontecido nas últimas horas. A adrenalina havia abaixado, então o cansaço, principalmente mental, havia lhe alcançado. Ainda não sabiam quem tinha roubado o Livro de Thoth, e, mais importante para Anúbis, quem tinha mandado roubar o sarcófago de Hatshepsut.
Silenciosamente, o deus torceu para Hórus conseguir encontrar alguma pista extra, mas, no momento, se deu o direito de checar com o máximo de certeza possível se o roubo do sarcófago da melhor amiga não havia a afetado de alguma forma no pós vida. Muito embora achasse que não.
Enquanto relaxava e deixava sua mente solta, se perguntou o que poderiam querer com o Livro de Thoth. Ele poderia ter uma quantidade absurda de conhecimento, mas não era nem de longe um livro fácil de se ler. Não porque sua escrita era difícil, apesar de provavelmente o ser para os que não entendem de magia, mas porque o próprio livro agora era como um quebra cabeças mágico. Se o culpado estivesse entre os suspeitos, uma hora ou outra ele ou ela iria pegar o livro para ler. Ou assim os deuses esperavam.
Anúbis logo notou que talvez tenha perdido a conta de quanto havia se passado, pois logo Neby e o resto de seu bando voltavam, correndo alegremente com a língua para fora, informando que a falecida rainha estava bem.
— Bem e feliz ? — perguntou Anúbis e Neby respondeu com um latido enquanto deixava a língua alegremente para fora — Obrigado.
Era suficiente para o deus, embora tivesse ainda vontade de chegar mais perto.
Com a cabeça tão cheia de coisa, ele se permitiu ficar lá mais algum tempo, apenas aproveitando a companhia de Neby e dos outros cachorros e chacais, que se espremiam e se empurravam tentando ganhar carinho. Quando finalmente saiu do Aaru, imediatamente deu de cara com Anput, que sorria de um jeito que ele conhecia bem, como se tivesse algo em mente.
— Que foi? — perguntou ele, fazendo o sorriso dela só aumentar — O que está pensando?
— O sol está quase se pondo… — disse Anput.
— Sim… — concordou ele — É o que ele faz todo dia.
— Besta. — reclamou ela revirando o olhar por um segundo — Vamos lá ver o pôr do sol. Foi um dia longo.
— Preciso mesmo… não consigo parar de pensar em tudo. — admitiu Anúbis — Mas enquanto Hórus e os outros não acham alguma novidade ou não decidem o que fazer agora, só tem como esperar.
— Eles ainda querem revirar a tumba do Minkhaf e o deserto novamente. Acho que agora foram no templo de Thoth que queimou. — disse Anput — E tem também o que restou da casa do joalheiro que você mencionou que morreu uns anos atrás. Querem estar o mais entendidos o possível de tudo que aconteceu antes de ir atrás de qualquer coisa mais perto da nossa lista de suspeitos.
— Considerando tudo isso… aceito o pôr do sol então. — admitiu Anúbis — Onde está Kebechet?
— Está por aí brincando com Ihy. Numa praia no Mar Vermelho. — disse Anput, agarrando a mão dele e entrelaçando seus dedos nos dele — Não se preocupe.
Magicamente então, ela tirou ele dali e, de repente, estavam no meio da imensidão do deserto com nada além de areia e um grande tapete vermelho sobre uma duna, com frutas e vinho sobre o tapete. Ele olhou para o tapete e então para ela, mas ela simplesmente deu de ombros antes de se sentar do seu lado do tapete.
— Estava só esperando você sair do Aaru. — justificou ela.
— Notei. — respondeu Anúbis, também se sentando.
Ele respirou fundo e tirou uns segundos para ver as cores que o sol pintava na areia do deserto junto com o céu. O laranja intenso da areia com a luz do sol emoldurava o céu que lentamente ia deixando o azul claro para trás e abraçando tons mais escuros que combinavam com as sombras que as dunas faziam. Antes que se desse conta, repentinamente Anput estava lhe oferecendo um copo com vinho.
— Foi um longo dia. — disse ela quando ele olhou para o copo.
— Foi. — concordou Anúbis, abrindo um sorriso cansado ao pegar o copo — Obrigado.
— Hatshepsut está bem? — perguntou ela enquanto ele fitava o vinho o copo, e o movia, fazendo o vinho rodar lá dentro.
— Diz Nebi que sim… o que é bom. — respondeu ele — Mas não consigo parar pra pensar quem é que pode ter feito isso. Foi muito preparo e… seja lá quem foi, sabia que eu iria dar prioridade para Hatshepsut independente do que estivesse acontecendo na tumba de Minkhaf.
— Acha que pode ter sido algum dos sacerdotes… ou até mesmo o seu? — perguntou Anput.
— Sinceramente, não sei. — respondeu ele bebericando o vinho antes de continuar — Não nego que os sacerdotes devem estar mesmo com raiva do decaimento de importância de Mênfis mas… a ponto de roubar o livro de Thoth? E Amenemhat nunca me deu muito problema. Espero que não seja ele. Também espero que Set não esteja envolvido também.
— Ficaria problemático demais. — completou Anput, sabendo o que passava pela cabeça dele.
— Sim. E já está problemático o suficiente — concordou Anúbis, tirando uns segundos para beber um pouco de vinho antes de continuar — Qual seu chute de o que podem estar querendo no livro de Thoth?
— Poder? — pensou ela, dando de ombros — Pra destronar Ramsés II ou superá-lo de qualquer forma. O que vamos concordar, não é fácil.
— Acha que Setne é mais provável então… — concluiu Anúbis — Não gosto dele. E pelo fato de não gostar dele, tenho medo de suspeitar demais sem motivo.
— Ah, não me refiro somente a Setne. Os sacerdotes podem estar com raiva de Ramsés II, tal como sugeriram. — disse ela, bebericando um pouco de vinho pra ela também.
— Tudo só parece cada vez mais complicado…. — admitiu Anúbis, suspirando pesadamente e sentindo uma enorme vontade de deitar ali na areia enquanto olhava brevemente para o belo show de cores que o sol, a areia e o céu pintavam na sua frente — Parecem ter planejado tudo isso a uns anos pelo menos… o que é preocupante.
— Vai dar tudo certo… — disse Anput.
— E pensar que tudo isso começou ainda hoje… — acrescentou Anúbis — No meio do dia… e só agora o sol está se pondo. Fico com a sensação de que estamos nos estressando com isso a bem mais tempo.
— Saudade da calmaria que estava em Abu Simbel mais cedo… — disse Anput soltando uma breve risada.
— Também… — concordou Anúbis — Quando isso acalmar, vamos pra algum lugar novamente, já que a viagem não saiu bem como planejamos.
— Sabe bem que aceitarei com todo o prazer. — falou Anput, deixando escapar um sorriso.
— Ainda assim… tudo isso me deixa tenso. — admitiu Anúbis — Sabe-se lá o que querem fazer com o livro de Thoth, e ainda só temos suspeitos e nem sinal do livro. E odeio como Hatshepsut acabou envolvida nisso.
— Vamos esperar pelas novidades que o nascer de um novo dia podem trazer… — disse ela, começando a mexer em uma das mechas do cabelo dele, acabando por atrair o seu olhar — Ninguém parece ter usado o livro ainda.
— Ao menos não que ninguém de nós tenha notado… — completou Anúbis.
— Então por enquanto está tudo bem. — disse Anput, chegando mais perto — Tá, não tudo bem tudo bem. Mas podia estar pior. Não usaram pra ressuscitar os mortos ou nada do tipo, por exemplo.
— Ou se usou, foi pra algo muito pequeno… — disse ele, apesar de que nem conseguia tirar o canto dos olhos do rosto dela e da mão, que repetidamente enrolava e desenrolava um dedo numa mesma mecha de cabelo dele, ou passava os dedos por várias mechas, cada vez mais acabando com toda sua concentração.
— De toda forma… é problema mais de Hórus e Thoth… — disse Anput lentamente, deixando os cabelos dele para trás e começando a traçar com a ponta das elegantes unhas, uma linha descendo pelo pescoço dele, deixando-o todo arrepiado e com o foco cada vez pior.
— Você está fazendo isso pra eu parar de pensar nesse problema todo, né? — perguntou ele enquanto ela chegava mais perto para poder continuar a linha que traçava com as unhas, só que pela clavícula e se aproximando lentamente do peito.
— Ficou tão óbvio assim? — perguntou Anput.
— Ficou. — respondeu ele, despretensiosamente traçando o dedo pela perna dela, agora que ela estava bem mais perto dele — Por isso que Kebechet está brincando com Ihy?
— Talvez. — admitiu ela, rindo — Temos que admitir que desde Kebechet, a frequência diminuiu um pouco. Me parece um bom jeito de extravasar e relaxar depois de hoje…
— E quais seus planos, exatamente? — perguntou ele lentamente, olhando para ela com o rosto bem perto, enquanto os dedos dele exploravam a perna dela, e os dela seu peito — Ignorar o sol e essa comida que trouxe?
— Me diga você… — disse ela lentamente, ainda brincando com o dedo — Podemos sempre deixar a comida pra depois… e o sol tá aí todo dia, como você mesmo disse.
— Hmm… — resmungou Anúbis deixando a taça de lado e pegando gentilmente a mão que Anput usava para lhe provocar e lhe dando um beijo no dorso da mão — Você é mais interessante que o sol.
— A-Ah… B-bem… v-você… — gaguejou Anput já toda sem graça e ficando vermelha enquanto os beijos iam subindo pelo braço dela.
— Eu o quê? — perguntou ele baixinho, lentamente chegando mais perto dela, subindo os beijos até alcançar o pescoço dela.
Ao chegar no pescoço dela, ela se encolheu com cócegas e foi toda a deixa que ele precisava para deitar ela, parte na areia, parte no tapete. Mas logo as cócegas no pescoço viraram beijo quando Anúbis se aproximou mais e acidentalmente derrubou a taça de vinho que estava ao seu lado no processo. A taça derrubada, contudo, foi ignorada.
— Já vi que o sol perdeu então… — disse Anput num mero segundo que encontrou entre dois beijos.
— Não foi uma competição muito justa para ele. — respondeu Anúbis rapidamente antes de voltar a beijá-la enquanto uma de suas mãos começava a tentar encontrar a entrada da barra do vestido dela.
Ela passou a mão pelo pescoço dele, puxando ele mais perto do beijo, que deixou de ser vários selinhos e se tornou profundo e sedento e levantou uma perna para lhe envolver pela cintura. Isso fez com que o vestido lenta e dramaticamente caísse por sua coxa, e ele aproveitou para apertar a coxa dela, agora que tinha o acesso bem mais livre às partes mais interessantes da perna dela.
Mas enquanto uma mão dele segurava a coxa dela com firmeza, levantando um pouco ela do chão, a outra mão ia na surdina no pequeno espaço que conseguia achar entre os dois corpos. Abrindo o caminho entre as pernas dela, a mão dele seguiu e, quando alcançou seu objetivo, um pequeno gemido imediatamente escapou dos lábios de Anput, interrompendo o beijo por um pequeno segundo.
Quando o beijo voltou, Anput voltou mordendo levemente o lábio inferior de Anúbis e preparando uma pequena vingança ao rapidamente encontrar um espaço no encontro dos corpos para explorar também debaixo do saiote dele. Tudo foi acompanhado pelo sol se pondo no horizonte, deixando a noite engolir a cena com as estrelas para testemunhar.
O que aconteceu naquele pedaço do Saara, ficaria só pra eles, a lua e as estrelas. Ainda no meio da noite, eles se viram largados no tapete, tal como vieram ao mundo, simplesmente admirando a bela pintura que as estrelas faziam no céu.
Eles ficaram se olhando por uns segundos e, repentinamente, Anput soltou uma pequena risada.
— No que está pensando? — perguntou ela — Eu conheço essa cara.
— Nada… — mentiu ele.
— Mentiroso. — provocou ela.
— Uma hora você descobre. Mas não hoje. — respondeu ele.
— Vai mesmo me deixar morrendo de curiosidade? — perguntou ela — O que está tramando?
— Vou ter que te deixar na curiosidade porque o que estou tramando ainda está pela metade. — justificou ele.
— Isso significa que vamos ter que voltar já? — perguntou Anput.
— Bem, não sei… — admitiu Anúbis — Me diga você, o que combinou com Kebechet? Ela sabe que a gente pode demorar?
— Sabe sim. Relaxe. — disse Anput — Podemos ficar aqui o resto da noite. Fugindo dos problemas um pouco. Tem deuses demais pra lidar com tudo.
— Realmente até demais. — disse Anúbis.
Aproveitando aquela noite de calmaria, eles resolveram ficar ali o resto da noite. Sentiam que os dias seguintes tinham potencial de trazer reviravoltas demais, a ponto de repetir algo do tipo se tornar difícil.
Quando um novo dia prometeu raiar, eles cumpriram sua promessa atrasada ao sol. Podiam não ter visto com tanta atenção assim ele se pôr, mas compensaram isso acompanhando o nascer do sol. As cores dançavam na areia acompanhando o sol subindo cada vez mais no horizonte e, quando o céu já estava perfeitamente azul e o sol brilhando, os dois voltaram para o Salão do Julgamento. Ao chegarem no Salão, encontraram Osíris e Kebechet tranquilamente jogando Senet.
— Perdemos alguma coisa? — perguntou Anúbis.
— Thoth e Hórus passaram a noite inteira investigando quem pode ter sido responsável pelo incêndio no templo de Thoth. — explicou Osíris.
— HA! ganhei! — declarou Kebechet repentinamente, voltando a atenção de Osíris para o jogo.
— De fato… — disse ele suspirando pesadamente — Agora estamos empatados então.
— Eles conseguiram encontrar alguma coisa? — perguntou Anput, voltando para o assunto anterior.
— Não sei dizer. — admitiu Osíris — Já era pra eles terem voltado. Disseram que iam voltar com o nascer do sol… mas imagino que não seja uma tarefa fácil. Não tem muitas pessoas que viram algo, até onde sei.
— Quer que a gente vá checar? — perguntou Anúbis.
— Por favor. — disse Osíris — E peça para eles voltarem um pouco. Estão sem parar envolvidos nessa situação. Também precisam descansar um pouco. Comecem procurando no templo de Thoth.
— Posso ir? — perguntou Kebechet.
— Pode ser. — respondeu Anúbis.
Com extrema facilidade, a pequena família de três chegou no templo de Thoth e logo viram a tristeza que estava lá. As várias estantes de madeira com papiros que um dia rodeavam as paredes, agora eram meros morros negros no meio do chão. O resto do templo podia ser feito de pedra, mas as chamas haviam manchado de negro as belas pinturas e as pedras do templo. Os três andaram pelos sacerdotes e sacerdotisas, que tentavam, sem esperança no olhar, limpar o estrago que foi feito.
Um ou outro sacerdote ou sacerdotisa chorava num canto, resmungando o nome de alguém que não sobreviveu ao fogo. Era uma cena triste de se ver.
Com tristeza contagiando o coração, os três andaram pelo templo em busca de Hórus e Thoth. Logo os encontraram do lado de fora do templo, ao lado de uma pequena janela num dos muros do templo. Logo ao lado, o resto da cidade se espalhava, com as casas mais ricas mais perto do templo do que as mais pobres, já nos limites das plantações. O mais perceptível, no entanto, foi o corpo queimado que estava logo ao lado da janela, e aos pés de Hórus.
— Ah, bom… queria mesmo falar com você… — disse Hórus ao ver os três se aproximando.
— Morreu muita gente no templo com o incêndio? — perguntou Anúbis, tentando deduzir sobre o que Hórus queria falar.
— Não muito considerando o estrago e o tanto de sacerdotes… — admitiu Hórus.
— Qualquer quantidade é demais. — resmungou Thoth.
— De toda forma, esse corpo me pareceu peculiar. Queria sua opinião. — disse Hórus.
Anúbis se aproximou, sem se importar de Kebechet ver aquele corpo queimado também, sabia que ela já estava bem acostumada com corpos. Assim, tranquilamente Anúbis olhou aquele corpo. Era um rapaz jovem, segundo logo identificou. Inclusive, sabia quem era, Kheti, um mero garoto de 16 anos, filho de comerciantes. Mas, mais que isso, notou que não haviam marcas de fogo entre o templo e o corpo. Era como se o corpo tivesse caído ali rodeado por sua própria fogueira.
O mais curioso, no entendo, era que o corpo estava cortado no pescoço e em outros lugares também, como se tivesse lutado contra alguém antes de perder a vida. A ponto de estar confuso se a causa da morte foi o incêndio ou as feridas.
— Queimado assim do lado de fora do templo… — disse Anúbis olhando mais ao redor, tentando achar qualquer sinal que pudesse indicar que aquele garoto saiu correndo de dentro do templo pegando fogo — E cortado assim… é estranho…
— Também achei. — disse Hórus — O que acha? Sabe quem é?
— Kheti. Um filho de comerciantes de apenas 16 anos. — respondeu Anúbis — Acho estranho se morreu pelo fogo do templo estar aqui largado do lado de fora.
— Exato! — disse Thoth — Mas queremos que diga o que pensamos sem que saiba o que pensamos.
— Os cortes podem ter acabado com ele também… — sugeriu Anput, se agachando ao lado do corpo — E… depois foi queimado…
— Como os dois homens na tumba de Minkhaf. Os cortes me parecem sugerir uma luta. — disse Anúbis — Minha opinião? Ele viu quem incendiou o templo e foi morto por isso.
— Foi o que pensamos também. — disse Thoth, assentindo com a cabeça — Os demais corpos fazem muito mais sentido. Mas esse não está tão queimado como os homens na tumba de Minkhaf… assim, está bem ruim, mas ainda dá pra identificar todas as partes do corpo e parte do rosto. Acha que consegue mumificar ele suficientemente para que sua alma chegue no Salão do Julgamento?
— Não posso garantir. — disse Anúbis depois de pensar um pouco — Depende do estado do coração, e não vai ser fácil abrir um corpo nesse estado.
— Dê seu melhor então, por favor. — disse Hórus, enfatizando o “por favor”, para leve surpresa de Anúbis — Não conseguimos nenhuma outra pista e quero estar o mais preparado possível quando começar a vasculhar as casas dos suspeitos.
— Sabe que todo o processo demora um pouco… — lembrou Anúbis.
— Meses com um mortal fazendo. — disse Hórus — Não você. Sei que não pode fazer com que a alma dele chegue hoje no Salão do Julgamento. Mas qualquer velocidade máxima que conseguir já ajudará bastante.
— Pois bem… sendo assim, tentarei. — prometeu Anúbis, que, com um gesto de mão, fez o corpo sumir dali em direção à sua sala de mumificação — Vão avisar a família dele?
— Não. Melhor não. Ao menos não agora. — disse Hórus — Sei que é cruel, mas, por enquanto, deixe que acham que está desaparecido. Não quero divulgar demais o tanto de informação que conseguimos, como, por exemplo, identificar que esse é Kheti.
— Quando pensa em vasculhar as casas? Dos suspeitos? — perguntou Anput.
— Hoje a noite, quando estiverem dormindo. — prometeu Hórus — Mais cedo do que queria, mas quero ver se encontramos algo. Vasculhar tudo que Ramsés e Setne possam chamar de “casa” vai ser complicado.
— Só Ramsés II já tem mais de uma e espalhadas pelo Egito. — lembrou Thoth — Não esqueça de escritórios também.
— Sim… — concordou Hórus — Mas não queria ter que mandar vários deuses diferentes de novo. Não sabemos se podemos confiar em todos.
— E certamente vai irritar muitos por essa falta de confiança. — disse Thoth.
— Eu sei…. Eu sei… — reclamou Hórus suspirando, finalmente aparentando todo o cansaço de já estar a tantas horas investigando o roubo — Quando estiver mais seguro de quantos e quem pode estar envolvido, vou compensar isso. Só não sei como…
— Boa sorte com isso. — disse Thoth, segurando uma risada — Não é fácil reconquistar confiança perdida.
— Anput… posso contar com você para vasculhar algumas das casas? — perguntou Hórus, ignorando Thoth.
— Claro. — garantiu Anput.
— Hathor também vai. Eu e Thoth também, obviamente. E minha mãe… — disse Hórus, concentrado na sua lista — Quero deixar Anúbis concentrado no corpo… Hapi também pode ajudar… Kebechet e Ihy podem ir juntos com Hathor ou Anput…
— Isso! Eu posso ajudar também! — disse Kebechet.
— Imsety, Hapy, Duamutef and Quebesenuef… — continuava Hórus, claramente já não prestando atenção no que acontecia ao seu redor — Tawaret está tentando pegar algo de Minkhaf e Amon-Rá… Nekhbet e Heka… é… acho que é uma lista boa…
— Bem, vou deixar você decidindo sua lista, e vou cuidar do corpo de Kheti. — disse Anúbis.
Vendo que Hórus mal piscou e nem olhou para ele, Anúbis, Anput e Kebechet foram de fato embora. Anput decidiu que iria tentar ajudar Tawaret durante o dia e, enquanto isso, Kebechet e Anúbis tentaram trabalhar no corpo de Kheti. O estado do corpo não era dos melhores e estava bem frágil. Isso fez Anúbis pensar que claramente não era a mesma pessoa que queimou os homens na tumba de Minkhaf. Lá, tinham garantido que não sobrava muito do corpo. Mas, ali, havia algum potencial de fazer um ritual completo o suficiente para fazer aquela alma chegar ao submundo.
Com muito cuidado e tensão, sob os olhos atentos de Kebechet, Anúbis abriu o peito de Kheti. A expectativa, e, ao mesmo tempo, o medo de deixar o corpo em situação pior, era tanta que, no menor sinal de que era possível ver um pouco mais do interior do corpo pelo corte, os dois se aproximaram para tentar ver mais. Na escuridão, e com o medo de abrir mais o buraco, não era tão fácil assim enxergar o interior do corpo. Kebechet nem ousava abrir a boca para dizer nada. Anúbis acendeu uma chama flutuante para melhor iluminar o ambiente, mas sem deixar escapar a triste ironia daquela chama lhe ajudando com aquele corpo queimado.
No máximo que ousava usar suas ferramentas para ver o interior do corpo, foi com felicidade que Anúbis logo identificou um coração protegido o suficiente do fogo pelo corpo de fora. Não parecia estar 100% inteiro, mas parecia estar bom o suficiente. Um sorriso escapou pelos lábios dele e, ao trocar um olhar com Kebechet, ela sorriu também.
— Talvez dê né? — perguntou ela.
— Talvez… — respondeu ele — Mas vai ter que ser com cuidado…
— Você consegue, papai. Tenho certeza. — disse Kebechet.
Kebechet ficou ali com ele lhe ajudando, sempre com muito cuidado e calma, e abusando da magia quando era mais seguro a usar. Kebechet só deixou a sala de múmias para trás quando Anput chegou para lhe chamar para revirar uma das casas de um dos suspeitos.
Juntas, elas receberam a casa de Panehesy, o sumo-sacerdote líder da Casa da Vida de Mênfis. Era uma casa organizada e, infelizmente, grande. Então elas tinham até medo de não conseguirem revirá-la rápido o suficiente já que tinham que o fazer enquanto o homem estivesse ruidosamente roncando no quarto. Adorariam ter mais ajuda mas, com o tanto de casas que Ramsés II e Setne tinham, não conseguiram ter mais ajudas. Claro, tinham ciência que era difícil encontrar o Livro de Thoth em qualquer lugar muito longe da tumba de Minkhaf, mas nunca se sabe quando alguma pista útil podia surgir.
Assim, enquanto Panehesy dormia, fazendo muito barulho, a ponto de Anput ficar com dó da esposa do homem, as duas vasculharam cada pedaço daquela casa. Como era uma casa grande, e de um estudioso, as duas tinham várias coisas para procurar e muitos papiros também. Anput passou por vários papiros dos mais diversos tipos de conhecimento, principalmente magia, mas nada que lhe chamasse muita atenção.
—Porque os suspeitos não são fazendeiros com casas minúsculas com só um cômodo? — reclamou Anput com um pesado suspiro enquanto olhava, pela janela, para um anexo que a casa de Panehesy tinha.
Dentre papiros, estátuas de deuses, pinturas, roupas, tralhas e jóias, nada parecia muito fora do normal. Mas uma coisa era clara, ele conhecia bastante gente. Anput encontrou vários exercícios registrados em tinta negra no papiro, mas corrigidos por uma letra diferente em tinta vermelha, dando a entender que Panehesy tinha vários alunos.
As duas encontraram também cartas dos filhos de Panehesy, guardadas com muito carinho. Ao menos um deles parecia morar em outras partes do Egito ao invés de Mênfis, mas outros três era certeza que moravam em Mênfis. Ao menos na data que as cartas foram escritas.
O sol já estava ameaçando nascer novamente, e logo acordar o homem, quando Kebechet chegou perto dela.
— Mãe… — disse a garota com algo na mão.
— O que foi? — perguntou ela, curiosa com o que tinha na mão da garota.
Assim que os olhos de Anput atingiram o objeto na mão de Kebechet, a surpresa tomou conta de seu rosto. Sem acreditar no que via, a deusa pegou com cuidado o anel da mão da filha e, com grande facilidade, leu o nome de Ramsés II nele.
— Certamente não era para isso estar aqui… — disse Anput — Onde o encontrou?
— Ali… — disse Kebechet apontando para uma porta meio esquecida num canto — Tem um monte e coisa lá dentro… e poeira… tem uma caixinha também. Estava dentro da caixinha…
— Vamos pegar essa caixinha também então. — disse Anput.
As duas foram até o cômodo, claramente um mero depósito esquecido e cheio de tralha, e pegaram a caixinha que continha o anel. Era uma caixa pequena, como se fosse mesmo uma caixa de jóias, mas dentro dela havia apenas vários talismãs de escaravelho de tamanhos e materiais diferentes.
— Estava embaixo dos escaravelhos… escondido… — disse Kebechet.
— Vamos dizer isso para Hórus. — disse Anput, protegendo a caixa com cuidado num pano esquecido ali daquele mesmo depósito e com o anel dentro.
As duas voltaram para o Salão do Julgamento e, apesar de esperarem encontrar Hórus, encontraram apenas Osíris.
— Já terminaram? — perguntou Osíris surpresos ao as ver — Nenhum dos outros voltou ainda. Imagino que investigar cada pequeno pedaço de uma casa não seja fácil.
— Não vimos tudo mas… Kebechet encontrou algo bem importante e por isso decidimos voltar. — disse Anput, se aproximando a passos apressados de Osíris.
A curiosidade ficou estampada no rosto de Osíris imediatamente. Mas logo a surpresa tomou conta de seu rosto quando Anput tirou o pano de cima da caixa e a abriu, fazendo o belo anel com o nome de Ramsés II reluzir. Osíris olhou para Anput, e então para o anel, agora com uma expressão séria.
Com um gesto de mão, ele invocou a mensagem com a assinatura falsa de Ramsés II carimbada no final. O mero papiro flutuou despretensiosamente ao lado do deus enquanto ele, com cuidado, como se fosse explodir, pegou o anel da caixa. Como um jogo de 7 erros espelhado, Osíris colocou o anel ao lado da assinatura no papiro. O anel podia estar com a imagem espalhada, já que servia como carimbo, mas depois de uma análise minuciosa, o deus conseguiu ver que os dois símbolos eram ou muito iguais, ou os mesmos.
— Chame Hórus, por favor, Kebechet… — disse Osíris — Diga-lhe que encontramos algo importante.
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