A Morte Das Areias do Saara
81 Consequências de um problema ignorado
Notas iniciais

Enquanto a barcaça real navegava suavemente rio abaixo, o garotinho Merab saiu correndo da sombra do toldo e se inclinou para o lado, observando a água. E o poder de Ra o atraiu, de modo que ele caiu no rio e se afogou. Quando ele caiu, todos os marinheiros da barcaça real e todas as pessoas que caminhavam na margem do rio deram um grande grito, mas não puderam salvá-lo. Nefer-ka-ptah saiu da cabine e leu um feitiço mágico sobre a água, e o corpo de Merab veio à superfície e eles o trouxeram a bordo da barcaça real. Então Nefer-ka-ptah leu outro feitiço, e tão grande era seu poder que a criança falecida falou e contou a Nefer-ka-ptah tudo o que acontecera entre os deuses, que Thoth estava buscando vingança e que Rá havia concedido seu desejo sobre o ladrão de seu livro.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
O que começou como sendo um dia aparentemente sem grandes acontecimentos além do sepultamento de Khufu, logo se tornou um dia de preocupações graças ao portal do Aaru. O comportamento indiscutivelmente anômalo do portal do Aaru logo atraiu a atenção dos deuses presentes. Logo um pequeno semicírculo se formou na frente do portal com deuses como Anput, Hathor, Ísis, Imsety e Thoth. Só Osíris e Anúbis ficaram fora do semicírculo ficando dentro dele logo em frente ao portal tentando entender o que acontecia ali.
Como não estavam em momento de julgamento, não havia tantos deuses presentes para testemunhar aquele acontecimento estranho que todos tentavam entender. Osíris olhava para o portal com uma expressão de profundo pensamento ao mesmo tempo que Anúbis fitava apreensivo segurando seu cetro na mão caso fosse necessário tomar alguma ação mais drástica repentinamente.
— Acha que seria sensato você tentar entrar lá? — perguntou Osíris olhando com o canto do olho para Anúbis.
— Não. — respondeu Anúbis — Mas seja lá o que está tentando sair, não falta muito pra descobrirmos.
E de fato, não demorou muito para a membrana dourada explodir em milhares de pequenos brilhinhos que caíram delicados e lentos como folhas que se desprenderam de árvores. As pequenas centelhas de luz caíram sobre Imhotep que estava caído de joelhos no chão. O falecido arquiteto ergueu o olhar assustado e perdido e a primeira coisa que ele viu foi a ponta do cetro de Anúbis bem em frente ao seu rosto.
— O que está fazendo aqui? — perguntou Osíris estranhando.
— Porque foge do Aaru? — perguntou Thoth sem entender o que levaria alguém a fugir do que seria a melhor versão possível de uma vida.
— E-Eu não sei… E-Eu não fiz nada! — defende-se Imhotep — E-Eu estava lá… como todo dia… e de repente e-estava... sendo puxado! Eu não sei o que aconteceu!
Durante toda a breve discussão, Anúbis não tirava os olhos dos olhos de Imhotep atento a qualquer sinal de mentira, qualquer desvio de olhar. Imhotep, com medo, não ousava desviar o olhar também, embora preferisse mil vezes estar fitando o chão. Nunca o arquiteto havia se sentido tão perdido e temeroso. Não podia temer pela vida, afinal estava morto, mas podia ver com o canto dos olhos que Ammit, mesmo sentada sobre uma pequena pilha de almofadas, parecia muito interessada na cena.
Enquanto Anúbis observava atentamente cada mínima mudança na expressão de Imhotep, ele também notou que, por um breve segundo, a pele levemente transparente de Imhotep mudava. Estando Imhotep morto, era normal a leve transparência que permitia ao deus ver, através do corpo do arquiteto, o chão sobre o qual Imhotep estava jogado. Todavia, por um breve segundo, Imhotep não parecia mais transparente e seu corpo parecia irradiar uma luz pura e branca com leves toques de dourado.
— Eu acho que ele diz a verdade. — disse Anúbis fazendo desaparecer o cetro — Tem algo acontecendo aqui e não acho que ele tenha algo haver.
— Não sei… — disse Thoth — Pode até ser, mas prefiro ter certeza. Façamos um teste. Dê a ele a pena da verdade para segurar.
— Olhe bem para ele. — disse Anúbis — Não vê que uma luz fraca o envolve rapidamente e logo some? Como ele poderia conseguir fazer algo do tipo no Aaru? Em qualquer lugar!
Motivado pela fala de Anúbis, Thoth chegou mais perto de Imhotep como se ele fosse um espécime a ser analisado. Com a mão sob o queixo, Thoth nem piscava enquanto fitava Imhotep, que se encolhia diante da súbita aproximação.
— Aha! — exclamou Thoth quando a luz surgiu e logo desapareceu — Ela até me lembra… Oh..
A expressão de vitória de Thoth logo foi trocada por uma de assombro. O deus da sabedoria se virou e trocou esse olhar com Anúbis e com os demais que, apesar de longe, viram essa mesma luz e logo foram chegando à mesma conclusão que Thoth. Todos começaram a se entreolhar perguntando como lidar com aquilo e porquê aquilo estava acontecendo.
— Não pode ser possível, pode? — perguntou Hathor — É impossível algo assim acontecer com um mortal.
— O que, mamãe? — perguntou Imsety sem entender o que acontecia ali.
— "impossível" é uma palavra muito forte. — disse Thoth dando as costas para Imhotep enquanto conversava com os outros deuses — É a primeira coisa que isso parece. Essa luz… pode não ser mais do que um pequeno fragmento. Algo ainda fraco em comparação à real. Mas temos que concordar que ela é uma energia bem característica que apenas nós, os deuses, podemos emitir assim.
Enquanto todos digiriam a informação por alguns segundos, eis que Hórus aparece no Salão do Julgamento. Ele parecia empolgado, feliz até, depois de seu combate amistoso contra Ninurta. Ainda ignorante do problema que começava a surgir no Salão do Julgamento, Hórus se aproximava dos demais aparentando estar bem relaxado graças à luta.
— Ninurta já voltou para Suméria e de burro não teve nada. Apesar de não ser uma luta real, não pegou leve de jeito nenhum. Só ia no meu ponto cego! — falou Hórus em alta voz para que todos ouvissem enquanto apontava para o único olho cego.
A expressão de Hórus logo mudou ao ver que não era o centro das atenções e que todos pareciam reunidos ao redor de uma alma logo em frente do Aaru. A expressão de relaxamento do falcão logo desapareceu e foi substituída pela seriedade de um líder que está prestes a enfrentar um problema.
— O que aconteceu? — perguntou Hórus.
— Algo sem precedentes. — disse Ísis.
Hórus rapidamente estava ao lado de Osíris e com uma expressão de estranhamento no rosto ao identificar Imhotep. Ele olhou ao redor para os outros deuses esperando explicações mais detalhadas, mas todos pareciam com certo receio de dizer em voz alta exatamente o que acontecia.
— Porque Imhotep está fora do Aaru? — perguntou Hórus olhando para Anúbis sem usar tom acusatório. Apesar de tudo, Hórus sabia que Anúbis nunca faria algo como tirar uma alma do Aaru.
— Ele foi puxado de lá provavelmente pelo próprio Aaru. — explicou Anúbis dando de ombros.
— Imsety — disse Hathor baixinho logo atrás olhando carinhosamente para o filho que retornou o olhar da mãe ao ouvir o próprio nome — Chame Ptah, ele vai querer acompanhar isso.
— Porque o Aaru o expulsou de lá? — Perguntou Hórus enquanto o filho ia atrás de Ptah.
— Imhotep parece estar virando um deus. — disse Anúbis sério olhando para Hórus.
Hórus parecia não acreditar nos próprios ouvidos mas, pela expressão séria no rosto de Anúbis, Hórus teve certeza que não tinha ouvido errado e que aquilo também não era uma brincadeira. Quanto a Anúbis, ele só pensava em como tudo aquilo não era uma coincidência. De tantos dias para acontecer, acontecera logo no sepultamento de Khufu. Por alguns segundos Hórus e Anúbis se encararam ao mesmo tempo que Imhotep, de olhar arregalado, tentava fazer aquela informação descer por sua garganta.
— EU TÔ O QUE?! — exclamou Imhotep completamente chocado.
— E o corpo dele? — perguntou Hórus claramente ignorando Imhotep e olhando para Anúbis.
— Creio que deve estar na tumba dele ainda. — opinou Anúbis — Sem nada ter acontecido.
— Quero checar isso. — disse Hórus — Para entender o problema o melhor possível. Porquê só agora depois de ao menos 12 anos que ouvimos que estavam rezando para Imhotep? Me leve para a tumba dele e abra o sarcófago.
Anúbis olhou para Hórus como se ele estivesse louco ao fazer tal pedido. Tanto que levou alguns segundos para processar a informação para ter certeza que não tinha ouvido errado. Anúbis era o protetor das tumbas, afinal de contas. Lugares sagrados que não deveriam ser profanados. Não estava disposto a ajudar alguém, mesmo que esse alguém seja Hórus, a entrar na tumba de alguém e abrir o seu sarcófago.
— Não pode fazer isso. — respondeu Anúbis com um tom de voz frio de quem claramente não gostava da ideia e isso forçou Anput a tocar-lhe gentilmente o ombro e se aproximar para impedir que aquela conversa acabasse indo por caminhos piores.
— Sei que tem suas reclamações quanto ao pedido e não lhes tiro os méritos. — disse Hórus — Se é assim, pergunte ao próprio Imhotep se podemos entrar na tumba dele e abrir seu sarcófago. Se ele não ver problema, acho que está tudo bem, não?
Naquele ponto, ambos os deuses olharam para Imhotep que, ainda de joelhos no chão, engoliu em seco enquanto pensava em qual seria sua resposta. Não gostava da ideia de invadirem sua tumba, mas ao menos seriam dois deuses a fazer isso e que provavelmente não iriam roubar nada. Sem falar que queria saber também se seu corpo estava lá. Estava tão perdido no meio de tudo que acontecia que não conseguia nem opinar quanto ao estado de seu corpo.
— Eu… Me incomoda um pouco a ideia de alguém entrando em minha tumba. — disse Imhotep — Mas… Se ela ficar tal como estava antes e se isso ajudar a entender melhor o que está acontecendo comigo. Não me importo de irem até lá e abrirem o sarcófago.
— Então está decidido. — disse Hórus olhando para Anúbis já esperando que ele os levasse para a tumba de Imhotep.
Revirando os olhos, Anúbis bufou levemente e então, sem qualquer dificuldade ou demora, os dois estavam envoltos na completa escuridão que era o interior da tumba de Imhotep. A escuridão então finalmente deu um trégua quando cada um deles acendeu uma pequena chamas flutuante que trouxe luz para a escuridão. Com a chegada da luz, a tumba rapidamente tomou forma.
Uma tumba egípcia intocada com o passar dos aproximadamente 77 anos que separavam a morte de Imhotep daquele dia que os dois deuses entravam ali. A tumba brilhava com o tanto de ouro espalhado no formato de joias, moedas e móveis adornados com ouro. Tanto ouro era acompanhado por pilhas e mais pilhas de pergaminhos e alguns vasos ricamente decorados com padrões comuns da época. Mas, o que mais atraia a atenção ali era talvez as pinturas nas paredes. Longos textos meticulosamente registrados de como havia sido a vida de Imhotep e como ele queria que fosse o seu pós-vida.
Apesar de cheia de artefatos históricos, ainda era a tumba de um sacerdote, não de um faraó. Assim, havia apenas dois cômodos principais. A luz das chamas invocadas pelos deuses também revelou a enorme caixa feita de granito diante dos deuses e que guardava o sarcófago de Imhotep.
O silêncio mórbido da tumba foi quebrado quando, com uma simples magia, Anúbis começou a levantar no ar a pesada pedra que tampava o local de descanso eterno do corpo de Imhotep.
— Imagino que não esteja gostando de fazer isso… — disse Hórus para Anúbis, notando que a expressão do primo não parecia muito feliz.
De fato, Anúbis não estava feliz. Fazer aquilo estava revirando o estômago dele. Mas conhecia o primo bem, ia ficar irritando-o até que pudesse ver o corpo de Imhotep com os próprios olhos. Já que era assim, era melhor fazer isso com a certeza de que tudo será deixado como estava antes e que nada de errado acontecerá com a tumba.
Ignorando Hórus e de expressão amarrada, Anúbis abriu o sarcófago magicamente fazendo cada tampa flutuar uma a uma até chegarem perto do teto meticulosamente decorado da tumba. Quando a tampa do sarcófago final se abriu, a múmia de Imhotep foi revelada. 77 anos não era nada para o que as técnicas de preservação de corpos dos egípcios podiam encarar. A múmia dele parecia quase ter sido enrolada em linhos na semana anterior.
— Viu? Está aí. — disse Anúbis atestando o óbvio com um tom desafiador.
— Hum… — resmungou Hórus começando a teorizar sobre tudo que parecia acontecer com Imhotep mas não chegava a afetar o corpo dele.
— Acho que tem relação com a tumba de Khufu… — disse Anúbis soltando um suspiro ao revelar parte de sua teoria sobre os acontecimentos — Ela acabou de ficar pronta afinal de contas.
— O primeiro dos prováveis vários problemas que surgirão por causa dessa tumba gigante desnecessária. — resmungou Hórus suspirando pesadamente concordando com a opinião — Admito uma coisa, primo… Eu não sei o que fazer quanto a essa situação…
— Nunca um mortal, ao menos no Egito, virou um deus. — disse Anúbis — Bem, ao menos ele não parece um deus completamente ainda de fato.
— Vamos voltar… As coisas já podem ter mudado de cenário até chegarmos — disse Hórus suspirando novamente e passando a mão pela cabeça careca já pensando no problema.
Com a mesma facilidade que eles deixaram o Salão do Julgamento, eles também deixaram a tumba de Imhotep. Mas não sem antes Anúbis fechar novamente, tampa a tampa, cada barreira física que protegia o corpo de Imhotep e também apagar as chamas flutuantes que traziam-lhes luz.
Devido ao passar do tempo mais rápido do Salão do Julgamento, as coisas já haviam se movimentado bastante por lá. Outros deuses haviam se juntado e a luz que irradiava ocasionalmente do corpo de Imhotep parecia mais forte e mais frequentemente. E pior, ela parecia estar causando dor ao arquiteto que se contorcia e se encolhia a cada vez que ela aparecia. Mas, enquanto a maioria dos deuses conversavam entre si sobre o problema ignorando a dor de Imhotep, Nefertem estava logo ao lado dele tentando aconselhar o meio-irmão tocando-lhe no ombro de forma tranquilizadora.
— Respire. — dizia Nefertem ajoelhado ao lado de Imhotep — Tem que controlar esse poder.
— É muito fácil. — disse Qebui logo ao lado de pé de braços cruzados — Até um deus recém nascido já nasce sabendo. É como respirar.
— Bem me lembro do arquiteto do túmulo de Khufu dizendo que estavam rezando para Imhotep. — disse Anput no meio da pequena reunião que se formou com os outros deuses mas olhando constantemente com preocupação para Imhotep.
— Porquê estariam rezando para ele? — perguntou Ptah claramente desatualizado e tentando entender porquê seu filho mortal estava repentinamente virando imortal.
— Os mortais estavam o tratando como um deus. — disse Osíris para explicar melhor tanto para Ptah, que estava diante de si, como também para Imhotep, mas especialmente para Imhotep — A construção do túmulo do faraó Khufu era uma obra ambiciosa demais. Uma pirâmide com mais que o dobro da altura da pirâmide de Djoser. Um feito que eles não acreditavam que conseguiriam fazer sem ajuda divina.
— Então começaram a rezar para Imhotep. — disse Ptah chegando à conclusão esperada e afirmando com a cabeça ao notar a validez dela.
Osíris então viu, com o canto do olho, o retorno de Hórus e Anúbis e, com isso, a conversa entre os deuses rapidamente parou por alguns segundos já que todos estavam curiosos por saber se o corpo de Imhotep estava normal ou não. A única coisa que não foi interrompida pelo retorno dos dois deuses, foi a tentativa de Nefertem e Qebui de ajudar Imhotep.
— E então? — perguntou Osíris olhando de Hórus para Anúbis.
— O corpo dele está lá. — disse Anúbis — Nada de extraordinário. Estamos achando que isso é uma consequência do término da construção do túmulo de Khufu.
— Compartilho da mesma opinião.- disse Osíris — É muita coincidência isso acontecer logo hoje, no sepultamento de Khufu. Afinal, quem melhor que o criador dos túmulos em pirâmide e arquiteto de várias delas para ajudar na criação da mais ambiciosa pirâmide?
— M-Mas…. — gaguejou Imhotep brilhando mais uma vez, parando alguns segundos para fechar as mãos, a boca e os olhos em pura dor até esta desaparecer eventualmente juntamente com a luz — Eles...Eles... conseguiram? Fazer a.. pirâmide? Eu não fiz nada! Fiz?
— Conseguiram. Mas não tem muito o que você possa fazer estando dentro do Aaru. — explicou Anúbis — Eles construíram o túmulo de Khufu completamente com seus próprios esforços. Mas, apesar de tudo, devem estar agradecendo-lhe pela conclusão.
— Em breve ele deve começar a ouvir as rezas dos mortais… — lembrou Anput olhando para Anúbis e ele afirmou com a cabeça.
— O que faremos? — perguntou Ptah — Vamos mesmo deixar um mortal se tornar um deus?
— Se quer temos alguma opção? — perguntou Ísis sem saber a resposta para a própria pergunta.
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