A Morte Das Areias do Saara

131 Aquela que Refresca e Purifica


Notas iniciais
mais um cap saindo pq sim kk depois eu sou justa e atualizo a outra fic 2x kk na imagem de hoje, uma cidade com várias casas claramente de níveis de riquezas diferentes, um templo ao fundo e as montanhas no horizonte.

Uma oferta real de todas as suas insígnias, em todos os seus lugares! Seu cetro em forma de lótus está na cabeça dos vivos, seu cajado está na cabeça dos espíritos, como Anubis Khentimentiu, como Andjti na cabeça dos nomos ocidentais.

~ Fragmento de “Texto da Pirâmide do Faraó Unas”

Em silêncio mas com o coração pulando de ansiedade, Anúbis entrou no Salão do Julgamento. Claramente estavam só esperando por ele para começar os julgamentos, mas tinha estado ocupado com muito bom motivo comemorando com Anput as recém descobertas. Agora, no entanto, era hora de contar as novidades aos demais. O submundo não era um lugar de uma vida que se formava, assim, Anúbis foi sozinho, e sozinho ele parou diante de Osíris e Ísis.

— Já estava me perguntando se algo aconteceu. — disse Osíris ao ver o jovem deus diante de si — Mal havia chegado e foi embora novamente.

— Sim… ahm… Sobre isso… — disse Anúbis respirando fundo para tentar controlar a vontade de sorrir para as paredes — Anput me chamou. Ela está… grávida.

— Como!? — exclamou Ísis repentinamente, quando a bomba caiu do nada pelos lábios de Anúbis — Anput está grávida?

— Está… — disse Anúbis deixando um sorriso escapar.

Ísis nem deu tempo de Anúbis respirar um segundo mais, prontamente abraçou-o fortemente enquanto ela sentia os olhos encherem de lágrimas. Osíris, por outro lado, ficou completamente congelado, com olhos arregalados, sobrancelhas erguidas e a boca meio aberta.

— NÃO! SÉRIO? — exclamou Osíris incrédulo por mais alguns segundos.

— Sério… — disse Anúbis, afirmando brevemente com a cabeça, enquanto era esmagado por Ísis.

Ísis ria sem parar, abraçando Anúbis cada vez mais forte, e logo Osíris se juntou no que logo virou um abraço em grupo com Anúbis no meio de tudo, o que o deixou bem vermelho. E no meio de tanta comoção, não tinha como os outros deuses ao redor não começarem a se interessar pelo o que acontecia ali.

— Sabia! Sabia que logo ia dar certo! — dizia Ísis — Ah, meu menininho… Virando papai…

— Eu ouvi direito? — questionou Seshat, com os olhos brilhando, logo ali perto — Anput está grávida?

— Foi o que eu entendi. Ihy quem vai gostar disso… — respondeu Hórus, que também pôde ouvir a comoção, mencionando o caçula com um sorriso no rosto.

— Ele vai ter alguém pra brincar, né? — perguntou Seshat rindo e limpando uma lágrima que escorreu.

Osíris se afastou um pouco e agora, menos sufocado por um abraço, Anúbis notou, para sua surpresa, que até o poderoso deus estava chorando. Antes de Anúbis ter a oportunidade de perguntar qualquer coisa para Osíris colocou a mão sobre a cabeça de Anúbis e bagunçou seus cabelos com uma óbvia expressão de orgulho.

— Desculpe por demorar tanto… — comentou Anúbis, ainda sendo esmagado por Ísis.

— Isso não é coisa que se peça desculpa… — disse Osíris imediatamente fechando o rosto — Escolheram seu tempo e não o dos demais. Estou feliz e orgulhoso e assim ficaria, não importa em que século isso acontecesse.

— Onde está Anput? — perguntou Ísis soltando-se do abraço e segurando o rosto de Anúbis gentilmente — Sei que ela não pode mais vir aqui por enquanto, o que significa que temos que arrumar um lugar para ela ficar por um tempo.

— DEMOROU EIM, CHACAL!? — gritou Sobek dando uma leve risada.

— Mais um… — resmungou Shu — Estou realmente ficando velho.

— Deixe de resmungar! — pediu Tefnut — Isso é tão bom! Um momento feliz! Faz tanto tempo que não nasce assim algum entre nós, especialmente de nossa família próxima.

— O que aconteceu? — perguntou Hathor, chegando atrasada.

— Anput está grávida. — respondeu Hórus.

Hathor travou no lugar completamente chocada enquanto lágrimas começaram a encher seus olhos também. Apesar de tudo, realmente considerava Anput como uma filha tal como Ísis considerava Anúbis como um filho.

— Ela está numa praia, no extremo sul da Península do Sinai. — respondeu Anúbis.

— Acabaram de descobrir? — perguntou Hator.

— Ela acabou de me contar… — respondeu Anúbis.

— Vamos lá imediatamente. — declarou Ísis — Os julgamentos podem esperar.

— Sim, senhora. — concordou Osíris rindo, ainda sentido a ficha terminar de cair.

Carregando Anúbis junto, Ísis, Hathor e Seshat foram imediatamente para onde ele disse que Anput estava. Ao chegarem lá, encontraram Anput com os pés na água. As leves ondas do mar molhavam a barra de seu vestido enquanto ela simplesmente admirava a bela vista do mar azul e a brisa do mar.

Hathor nem esperou, desatou a correr e tomou Anput imediatamente nos braços, sendo a primeira a alcançá-la. Isso fez com que as lágrimas voltassem a se acumular nos olhos de Anput enquanto logo as outras deusas tenham feito o mesmo, acabando por formar uma fila para abraçar a nova mamãe.

— Sabia que era só esperar um pouco e vocês iam aparecer. — disse Anput, deixando as lágrimas escaparem.

— Como se a gente não fosse vir… — disse Hathor — Era mais do que óbvio. Parabéns… aos dois…

— Obrigada. — respondeu Anput.

— Onde vai ficar agora que terá que ficar uns meses no submundo? — perguntou Hathor — Não está pensando em antecipar magicamente a gravidez, espero. Eu não recomendaria. Apressar o natural não é muito agradável ou recomendável.

— Não não… não se preocupe. — disse Anput enquanto Hathor a soltava — Vou esperar direitinho os nove meses mas… quanto a onde ficar…

— Pode ficar comigo se quiser. — disse Seshat ao abrir os braços para um abraço, que logo foi correspondido.

— Ou comigo. — disse Hathor.

— Por favor, não comecem a brigar por isso. — pediu Anput rindo — Não quero incomodar nenhuma das duas.

— Não seria incômodo algum! — reclamou Hathor.

— Hathor, sua casa já é bem movimentada… tem tantos filhos… — disse Anput.

— São todos grandes já, com exceção de Ihy. Os mais velhos nem contam. — disse Hathor — Sinto falta de quando eles eram bebês.

— Se de fato não for perturbar-lhe, é minha primeira opção. — disse Anput rindo e limpando as lágrimas e então soltando Seshat e logo sendo recebida por um abraço de Ísis.

— Não irá perturbar. Já disse. — enfatizou Hathor — Obviamente, quero ver Anúbis lá também no todo dia aproveitando quando não estiver julgando almas.

— Claro. — garantiu Anúbis.

— Meus parabéns, minha cara… apesar de que ainda sinto que isso tudo é um sonho. — disse Ísis — Ainda me lembro de como meu peito pulou de felicidade quando finalmente consegui ficar grávida.

— Estou muito feliz… e nervosa… — admitiu Anput — e com medo.

— Vai dar tudo certo. — garantiu Ísis soltando-a — Acho que pode notar que não está sozinha.

— Sim… obrigada… — disse Anput.

Ísis soltou-a e logo voltou-se para Anúbis. Os olhos da deusa ainda estavam vermelhos e uma lágrima fugitiva forçou-a a limpar o rosto apressadamente no meio dos poucos passos que a separavam de Anúbis. Ela então colocou a mão no ombro dele e, com toda a seriedade que o seu olhar de choro conseguia passar, ela disse:

— Tem que contar para Néftis. — disse Ísis e logo Anúbis revirou os olhos e bufou levemente.

— Tenho mesmo? — perguntou ele — Ela já deve ter ouvido a esse ponto. Quem estava lá no Salão do Julgamento ouviu. Logo vai se espalhar.

— Dê uma chance para ela. — pediu Ísis — Ela ainda é a sua mãe.

— Eu sei… eu sei… — resmungou ele — É que… sei lá… geralmente fica estranho e desconfortável qualquer coisa com ela. Dá pra sentir a culpa dela de longe… ou ela me comparando com Set.

— Pelo menos a culpa existe. — disse Ísis — Então vá falar com ela, por favor.

— Tá… — resmungou Anúbis.

— Vá logo antes que a notícia fique velha demais e pareça que você esqueceu dela. — alertou Ísis.

— Tá… — resmungou Anúbis mais uma vez.

Hathor ficou olhando para Ísis e Anúbis enquanto Seshat e Anput começavam alegremente a conversar. Anúbis então desapareceu dali para contar para Néftis as novidades e Hathor aproximou-se de Ísis, sabendo bem o que a amiga estava pensando.

— Meio novos, apesar de tudo, não acha? — perguntou Hathor em voz baixa.

— Com certeza. — respondeu Ísis no mesmo tom de voz — O que é estranho de se pensar considerando a idade literal e comparando aos mortais, mas… São de fato jovens e o comportamento não nega.

Continuando o seu vai-e-vem, Anúbis chegou mais uma vez no Salão do Julgamento. Seus olhos nem tiveram tempo de percorrer muito o salão, logo encontrou Néftis conversando com Osíris. Assim, começou a caminhar em direção a ela, apesar de ela já estar o olhando. Ignorou também um grito de “FINALMENTE” soltado por Khonsu e parou diante de Néftis.

— Já deve ter ouvido mas… Anput está grávida. — disse Anúbis.

— De fato ouvi. — respondeu Néftis com um sorriso pequeno, mas sincero, aproximando-se para um abraço — Meus parabéns.

— Obrigado. — respondeu ele abraçando-a de volta.

— Você sempre se deu muito bem com crianças. — disse Osíris se juntando ao momento carinhoso — Tenho certeza que será um bom pai. Mas não se esqueça nunca que é muita responsabilidade, mesmo com um bebê imortal.

— Não vou. — prometeu Anúbis.

A descoberta da gravidez era, no entanto, apenas o começo. Sem querer agilizar o processo, Anput decidiu passar por cada mês que o bebê precisava. Por mais que a ansiedade em conhecer o bebê fosse igual a das mães mortais, assim como cada milímetro ganhado pela barriga era muito especial, por outro lado, era uma gestação bem mais fácil.

Anput não precisava dormir, então não tinha que se preocupar com todos os problemas de uma noite mal dormida e desconfortos de deitar na cama com uma barriga que não parava de crescer. Também passaram bem longe dela todos os enjoos, mas sentia cada chute, e com o passar do tempo, começava, mesmo que tardiamente, a sentir alguns desconfortos por estar constantemente carregando um peso extra.

Caminhando para o quinto mês, a barriga de Anput, mesmo que ainda não muito grande, era bem óbvia. A estadia no palácio, escondido dos mortais, que Hathor dividia com Hórus e alguns dos filhos estava indo muito bem, mesmo considerando a maior quantidade de tempo que Anúbis e Hórus tinham que passar a menos de 1 km um do outro sem o trabalho para distrair as vontades de um implicar com o outro.

Hórus e Anúbis estavam se dando tão bem, que estavam até juntos no mesmo cômodo no palácio de Hórus, elegantemente decorado com o teto no centro aberto no formato de quadrado trazendo iluminação do sol para um espelho d’água que tentava, desesperadamente, aumentar a humidade e o frescor do lugar.

Anput sentava-se no centro de um dos sofás e, de um lado dela, estava Anúbis e do outro, Hathor. Hórus estava logo ao lado da esposa, de pé e com os braços cruzados. Enquanto isso, atrás de Hathor, grudado ao seu vestido, estava o pequeno Ihy, um jovem deus musical eternamente criança. Todos, com muita curiosidade e tensão, assistiam a segunda tentativa de Hathor de descobrir o gênero do bebê, deixando a mão gentilmente pousada sobre a barriga.

— Não garanto conseguir… — disse Hathor — Quando Ísis estava grávida de Hórus, não consegui. Com deusas é mais complicado. Podia pedir para Tawaret, talvez ela consiga…

— Queria pedir para você primeiro. — justificou-se Anput.

— Pois bem… — disse Hathor respirando fundo e fechando os olhos para se concentrar.

— Chegou a fazer os testes mundanos? — perguntou Hórus.

— No teste das sementes, o trigo cresceu e não a cevada. — disse Anput — O que indica uma menina...

— Mas sabe que esses testes dos mortais não são grande coisa. — disse Anúbis — Hathor, Tawaret e Ísis, por outro lado, nunca erram.

— Isso é verdade. — concordou Hórus.

— Espero que seja menino para eu poder brincar. — disse Ihy — Mas vou brincar se for menina também.

Um sorriso cruzou os lábios de Hathor e ele podia muito bem ser devido a graciosidade e fofura de seu amado filho. No entanto, o real motivo logo provou ser outro, quando Hathor falou:

— Espero que brinque mesmo, pois é uma menina.

— Sério!? — exclamaram Anput e Anúbis ao mesmo tempo.

— Conseguiu ver?! — perguntou Anput, com os olhos enchendo de lágrimas sabendo que sua pergunta era inútil.

— Uma bela menina. — confirmou Hathor mais uma vez.

Anput e Anúbis se abraçaram e se beijaram alegremente ignorando os sorrisos que Hórus, Hathor e Ihy deram para eles. Por um momento, Hathor e Hórus até se entreolharam, uma pergunta silenciosa estava estampada no rosto de Hathor, para o qual Hórus apenas respondeu com um leve sorriso:

— Chega de filho, por favor. — pediu Hórus.

— Certeza? — perguntou Hathor rindo.

— Muita certeza. — respondeu Hórus.

— Temos que pensar num nome… — declarou Anput após interromper o beijo e juntando a sua testa com a de Anúbis.

— O que deve ser feito com muita calma. — concordou Anúbis.

— Eu posso ajudar a escolher o nome? — perguntou Ihy aos cochichos no ouvido da mãe.

— É o momento deles Ihy… Melhor não. — respondeu Hathor aos cochichos passando a mão carinhosamente na cabeça do filho.

Anúbis e Anput até podiam ouvir Ihy, mas estavam tão presos em seu mundinho que o pedido do garoto passou despercebido. Os dois estavam cada um com a mão sobre a barriga, sonhando já com os nomes que poderiam dar para a bebê que ali crescia.

— Não ache graça, por favor, mas alguma coisa me diz que o nome deveria ter algo com água. — disse Anput.

Com certeza Anúbis não acharia graça de alguma coisa dizer isso para Anput, esses pressentimentos inexplicáveis não deveriam ser subestimados. Na verdade, ele até abria a boca para concordar com a ideia, mas o comentário foi completamente esquecido quando ambos sentiram a pequena chutar.

Cansado dali, Ihy saiu correndo para brincar num lugar mais interessante com seus brinquedos. Não aguentava mais esperar por sua provável nova parceira de brincadeiras. Hórus seguiu o filho com o olhar, deu um passo ameaçando seguir a deixa do menino, mas acabou escolhendo ficar ali, especialmente depois de ver a felicidade contagiante do casal.

— Ela claramente concorda. — disse Anúbis fazendo Anput começar a rir.

— Outro motivo para pensarmos num bom nome. — disse Anput — Será que vamos ser bons pais?

— Eu… espero que sim… — respondeu Anúbis, tenso.

— É claro que vão. — disse Hathor — Não é um trabalho fácil e geralmente mais não sabemos o que fazemos do que sabemos, infelizmente. Mas é uma experiência incrível, feliz, realizadora… por mais que também possa ser estressante e cansativa. O primeiro passo vocês já conseguiram dar, esperaram estar prontos.

— Só não se inspire no Set. — lembrou Hórus.

— Essa parte estava óbvia já. — respondeu Anúbis.

— Ai se eu soubesse que hoje Hathor ia conseguir ver que era uma menina… — disse Anput, limpando as lágrimas do rosto — Não estou com estrutura emocional para ser Perséfone e as outras agora. Mas nós combinamos… e estou muito curiosa para entender essa história do sequestro que você me contou.

— Vá encontrar-se com elas. — disse Anúbis — Está passando muito tempo só. Se distraia, eu termino algumas coisas lá no submundo enquanto isso, e então passamos um tempo só nós dois.

— Não vai ficar chateado de eu passar um tempo com ela? — perguntou Anput enquanto Anúbis se levantava e logo esticava a mão para ajudá-la a se levantar, mesmo que a barriga ainda estivesse pequena demais para qualquer ajuda ser realmente relevante.

Como uma dama, ela pegou a mão dele e se levantou, sempre exibindo um doce sorriso corado no rosto. Ambos haviam sorrido tanto nos últimos dias que era incrível as bochechas não doerem. Para deixar ela ainda mais corada, Anúbis deu um beijo no dorso da mão da amada antes que ela dali tirasse.

— Claro que não. — disse ele — Vá se divertir.

Anput mordeu o lábio inferior, achando a proposta tentadora, e nesse meio tempo, Anúbis se agachou em sua frente e deu um leve beijo em sua barriga.

— Cuida da mamãe, tá? — disse ele.

— Não deveria ser o oposto? — perguntou Anput rindo enquanto Anúbis se levantava.

— Uma cuida da outra. — corrigiu ele.

— Agora sim. — disse ela dando um rápido beijo na bochecha dele e então indo embora.

Sem Anput, Anúbis respirou profundamente, claramente ansioso, apesar do sorriso no rosto. Isso fez com que Hórus prontamente preparasse um copo de vinho com mel e oferecesse ao primo.

— Então… uma menina… — disse Hórus estendendo a taça.

— Uma menina.. — concordou Anúbis segurando a taça com as duas mãos, mas não tocando nela.

— Deve ser bem melhor do que ter um bando de homem, que foi o que aconteceu comigo. — disse Hórus preparando mais taças, uma para si e outra para Hathor.

— Sempre tem a chance de tentar uma menina… — sugeriu Hathor, mas logo acrescentou — Brincadeira.

— Só espero que eu consiga cuidar dela mesmo. — admitiu Anúbis começando a tomar o vinho — Não estava tão nervoso assim antes, quando era só uma ideia, nem quando era só uma novidade. Agora está começando a parecer mais real.

— Vai se sair bem. — disse Hórus.

— Estou pensando em preparar alguma coisa para a bebê, para quando Anput voltar… — pensou Anúbis — Talvez encontrar uma boneca?

— Viu? Já está se saindo bem. — disse Hórus.

Foi aí que Anúbis subitamente pareceu ter se lembrado de algo.

— Eu tenho uma boneca… — disse ele meio surpreso.

— Como? — perguntou Hórus, totalmente perdido.

— Eu tenho uma boneca. — repetiu Anúbis.

Rapidamente, Anúbis bebeu de uma vez todo o vinho que havia sido oferecido para ele, deixou a taça numa pequena mesa ao lado do sofá e sumiu dali depois de dizer um rápido “obrigado”. Depois de deixar para trás os dois deuses extremamente confusos, Anúbis reapareceu em sua sala de múmias. Antes, era a intenção dele terminar a última múmia que o esperava, mas, ao invés disso, ele andou rapidamente para uma prateleira abarrotada de coisas, pedindo por uma arrumação, que ficava num canto.

Lá, abriu um pequeno baú, um tanto um tanto ignorado num canto, mas nunca esquecido. Ele apoiou o baú em uma das mesas de mumificação, já que a prateleira estava abarrotada demais de coisas para ele ameaçar abrir o baú ali mesmo, e abriu o baú. Tal como esperava, dentro do baú havia de fato uma boneca de pano. A mesma boneca que, séculos atrás, havia ganhado como oferenda da pequena Merti, cujo pai havia morrido numa travessia pelo deserto ao tentar fugir da seca causada por Apófis.

Felizmente havia jogado uma magia na boneca, então ela havia sobrevivido aos males do tempo. Se ela aguentou viver alguns séculos como se nada tivesse acontecido, talvez pudesse aguentar ser companhia de um bebê. Ou talvez era muito arriscado? Ele não sabia dizer. Tentaria proteger aquela boneca. Parecia arriscado, mas, ao mesmo tempo, parecia especial. Merti, a dona original, havia ido para o Aaru havia muitos séculos e já bem mais velha do que quando ela havia oferecido ao deus sua boneca favorita. Mas, ainda assim, foi cuidando de Merti que Anúbis teve certeza que queria uma filha.

Enquanto isso, em uma das ilhas pertencentes ao território dos micênicos, três deusas faziam um pequeno piquenique no topo de um morro, embaixo de uma grande árvore. A vista era linda e verde, o mar era azulado e o horizonte era preenchido por outros morros e uma segunda ilha mais além. Essas três deusas, eram Anput, Perséfone e Lelwani.

— Uma pena que Ereshkigal não pôde vir… — disse Perséfone — Não tive a chance de falar com ela direito ainda.

— Na verdade, as chances de ela vir eram bem remotas. — admitiu Anput — Mas você queria conhecê-la então… tentei…

— Mas olha, sinceramente… — disse Lelwani colocando a mão sobre os olhos — Deveriam ter escolhido um lugar com menos… dia.

— Da próxima vez pode até ser a noite. — disse Perséfone — Me desculpe. Achei que fosse gostar.

— Só não estou acostumada. — admitiu Lelwani pegando uma uva dentro de um prato de bronze que estava entre elas — Mas sobreviverei. E também, não sabemos quando vamos poder ter outra chance dessa de novo… com nós e os egípcios e brigando cada vez mais.

— Os mortais, pelo menos… Não queria que tivesse mais guerras. — disse Anput suspirando cansadamente colocando a mão na barriga, já pensando no futuro da filha.

— Eu tão pouco. — admitiu Lelwani — É só mais trabalho. Por isso, por favor, vamos falar de algo que já não me deixe com preguiça do serviço extra que virá.

— Já que é assim… tem algo que queria perguntar para você, Perséfone. — disse Anput.

— O quê? — perguntou Perséfone.

— É verdade essa história de que Hades teve que te sequestrar para ficarem juntos? — perguntou Anput.

— COMO?! — exclamou Lelwani — Você por acaso está precisando que a gente te resgate? Se precisar… só avisar.

— Não.. não… — disse Perséfone suspirando pesadamente — No começo, sim, mas… eventualmente acabei me apaixonando por ele.

Lelwani e Anput se entreolharam por um segundo, o olhar de duas já mostrava que estavam questionando a sanidade de Perséfone. Felizmente, ou infelizmente, Perséfone não viu o olhar que as duas deusas trocaram, pois estava com um olhar de paixão estampado na cara enquanto, distraidamente, pegava um pedaço de pão e sua taça de vinho.

— O que ele fez para compensar o sequestro? — perguntou Lelwani, com certo medo da resposta.

— Fez um jardim para mim… — contou Perséfone, claramente maravilhada — Tão lindo.

— Tadinho do homem que tentasse comprar meu perdão me dando um jardim… — resmungou Lelwani abafando a voz com uma taça de vinho nos lábios.

Arrumar uma boneca foi só a primeira etapa do longo processo de receber a nova filha. Lentamente, num novo cômodo no submundo, criado magicamente por Osíris, um quarto começava a nascer. Era certamente complicado fazer um quarto parecer arejado e ensolarado no meio do submundo, mas os deuses claramente tentavam, e cada um tentava um pouco.

Uma pequena cama de madeira folheada em ouro e a boneca de Merti sentada sobre estava num dos cantos do quarto cujas paredes, magicamente, imitavam o mundo mortal. Magicamente, era como se um projetor estivesse passando nas paredes, imitando hora as árvores nas margens do Nilo, hora as belas praias do Mar Vermelho ou a imensidão do deserto. Às vezes, as paredes não tinham nada, apenas tinta branca com delicadas flores de lótus pintadas, ou apenas uma das paredes imitava o lado de fora.

No quarto também havia um baú, já entupido de brinquedos, uma estante com livros e mais brinquedos e um cantinho, perto da cama, com um amontoado de travesseiros e tapetes cujo padrão do tecido dedurava virem de vários cantos da Europa Mediterrânea, Norte da África e Oriente Médio. Alguns eram presentes, mas muitos eram aquisições da própria Anput em suas viagens. Deuses, no geral, não precisavam dormir. Mas o sono era de fato uma realidade para um tão pequeno, um recém-nascido, ainda desconhecido para os mortais.

A cada novo acréscimo ao aconchegante quarto, mais semanas e meses se passavam. Certamente tudo havia passado como um piscar de olhos. Tutancâmon fazia 12 anos e descobria, como presente, uma bela e estranha adaga que pertenceu a seu pai; a situação egípcia e hitita só piorava; Cérbero se ajustava cada vez mais em seu novo cargo; a barriga de Anput só crescia e Tutancâmon começava a virar um fantoche nas mãos do antigo conselheiro de seu pai, Ay e, peitando Ay, estava o mais importante membro do exército, Horemheb.

Com tantos acontecimentos, a última coisa que faltava logo chegou. Com a barriga enorme e quase explodindo, Anput entrou em trabalho de parto na mansão de Hathor. Anput respirava profundamente, tentando encontrar seu ritmo em meio às contrações, enquanto já estava de cócoras, só esperando sua filha. Tawaret, Hathor, Ísis e, claro, Anúbis, estavam lá com ela. Enquanto isso, do lado de fora, escutando por trás da porta os grito da deusa, estavam Hórus, Hapi, Ihy, Duamutef, Imsety e Qebehsenuef.

Tendo passado alguns meses com Anput como a convidada da casa, era impossível os filhos de Hórus não terem se afeiçoado ao menos um pouco a deusa. Assim, ficaram ali acompanhando o parto, ansiosos para conhecer a bebê.

— Já estou vendo a cabeça. Está indo bem. — declarou Tawaret.

— Chegamos atrasados? — perguntou Seshat, do lado de fora, ao lado de Hórus e seus filhos, chegando junto com Bes e Thoth.

— Não. — respondeu Qebehsenuef — O bebê claramente está indo no próprio ritmo.

— O bom é ter a certeza de que vai tudo ficar bem. — disse Bes — É tão complicado ver como os mortais ficam tensos e com medo de mãe e bebê não sobreviverem.

— Por favor nem fale nisso. — resmungou Hapi.

— Elas são imortais, Hapi. — lembrou Thoth.

Dentro do cômodo, certamente os ânimos estavam bem mais calmos do que se fosse um parto normal. Qualquer ansiedade e tensão, eram decorrentes quase que unicamente da expectativa de conhecer a deusa recém-nascida. A grande quantidade de deuses presentes lá dentro eram mais por pura companhia, carinho a Anput e o desenho de um parto confortável, do que a preocupação das deusas parteiras ou da maternidade em alguma das duas não suportar.

De todos os ângulos possíveis, era um parto fácil. Mas a menor dificuldade não diminuiu a alegria quando Tawaret pegou em suas mãos uma pequena recém-nascida, cujo choro logo ocupou cada pedaço do cômodo.

Anput e Anúbis olharam boquiabertos para aquela pequena garota, tão minúscula e frágil, apesar do poderoso choro, como se tivessem acabado de descobrir o milagre da vida. Tawaret prontamente entregou a pequena para Anput, que a apertou contra o peito, segurando com cuidado a cabeça. Anúbis se aproximou, com olhos vermelhos e lágrimas escorrendo, se aproximou de Anput, que estava bem pior, e passou o braço ao redor dela.

Ela estava suada, descabelada e ambos choravam olhando para a pequena criança chorosa, com um fino e ralo cabelo negro, tão escasso que era quase transparente, um nariz como um botao e mãos pequenas e delicadas que combinavam com os pés graciosos.

— Bem vinda, Kebechet. — disse Anput com um enorme sorriso choroso no rosto.

— Olá, Kebechet… — disse Anúbis.

Em plenos pulmões, a pequena Kebechet chorava, mas ela lentamente ia se acalmando ao sentir o toque quente do corpo da mãe e ao ouvir a voz tranquila da mãe tentando acalmá-la. O leve toque, em sua cabeça, de um tímido par de dedos de Anúbis lhe fazendo carinho na cabeça também ajudou o choro a ir diminuindo lentamente.

Os dois estavam tão focados na recém-nascida, que ignoraram os sons de alegria que vinham do lado de fora do cômodo produzidos em resposta ao choro de Kebechet, assim como também parcialmente ignoraram os passos de finalização do parto que Tawaret ajudava a fazer.

Ísis e Hathor se aproximaram mais, curiosas para ver Kebechet de perto. Contudo, teriam que entrar na fila para pegar a bebê no colo, pois só quando Tawaret habilmente lidou com o cordão umbilical, facilitando então afastar Kebechet de tão perto de Anput. Obviamente, o próximo a pegar a pequena no colo foi Anúbis.

A menina não mais chorava, então confortavelmente se moldou aos braços de Anúbis. Era tão pequena, com mãos e pés tão diminutos, que era difícil não pensar que talvez fosse uma boneca hiper-realista. Suas mão eram tão meigas e delicadas, que Anúbis não resistiu colocar um dedo na palma da mão da filha, que automaticamente se fechou, segurando o dedo do pai.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** ITI MALIA GENTIII Enfim, apresento-lhes, finalmente, Kebechet, pela mitologia, a filha de Anúbis e Anput! ITI MALIAAAAA Na verdade um pouco da vida da escritora aqui kkk foi porque na mitologia o Anúbis tem uma menina que lá no arco de Apófis, a criança que precisou dele foi uma menina também kkk e sim, foi só pra ele dar a boneca pra filha que a Merti deu uma boneca pra ele kk TUDO SE CONECTA! MUAHAHAHA! **** REFERÊNCIAS **** Texto pirâmide de Unas - https://www.pyramidtextsonline.com/translation.html Ihy - https://en.wikipedia.org/wiki/Ihy Testes de gênero - https://www.smithsonianmag.com/smart-news/egyptian-papyrus-reveals-old-wives-tale-very-very-old-indeed-180970066/#:~:text=To%20find%20out%2C%20the%20woman,which%20grain%20signifies%20which%20sex. Gravidez no Egito Antigo - https://www.nationalgeographic.com/culture/article/ancient-egypt-pregnant-woman-burial-archaeology#:~:text=In%20ancient%20Egypt%2C%20pregnant%20women,and%20boosted%20their%20social%20status.