A Morte Das Areias do Saara
73 A escolha cheia de consequências
Notas iniciais

E agora Nefer-ka-ptah estava cara a cara com a cobra que nenhum homem poderia matar, e ela se ergueu, pronta para a batalha. Nefer-ka-ptah avançou sobre ela e cortou sua cabeça, e imediatamente a cabeça e o corpo se juntaram, um para o outro, e a cobra que nenhum homem poderia matar estava viva novamente e pronta para a batalha. Novamente Nefer-ka-ptah avançou sobre ela e golpeou com tanta força que a cabeça foi arremessada para longe do corpo, mas imediatamente a cabeça e o corpo se juntaram novamente, um para o outro, e novamente a cobra que nenhum homem poderia matar estava viva e pronto para lutar. Então Nefer-ka-ptah viu que a cobra era imortal e não podia ser morta, mas deveria ser vencida por meios sutis. Novamente ele avançou até ela e cortou-a em dois, e muito rapidamente colocou areia em cada parte, de modo que quando a cabeça e o corpo se juntassem houvesse areia entre eles e eles não pudessem se unir, e a cobra que nenhum homem poderia matar jazia indefesa diante dele.
~ Fragmento de “O Livro de Thoth”
Os olhares dos deuses focaram-se imediatamente no ponto onde até então estava a alma da criança e o estranhamento e preocupação logo apareceram. Hórus, com passos apressados e uma expressão irritada, venceu a pouca distância que ainda o separava de Anúbis enquanto este olhava para a entrada do Salão do Julgamento com a face pálida marcada pela incredulidade.
— O que você fez com a alma da criança?! — questionou Hórus.
— Eu não fiz nada. — defendeu-se calmamente Anúbis sem tirar os olhos da entrada.
Como que controlado por seja lá o que tinha acontecido, a luz, indiscutivelmente mágica, que inundava o Salão do Julgamento como se tão profundamente no Duat o sol brilhasse, falhou por um breve milésimo de segundo.
— Thoth, seu pequeno deslize está sendo o responsável por um grave crime à ordem de Ma’at. — disse Osíris olhando para a entrada também mas então olhando para Anúbis — Sabe quem foi, certo?
— Sim. — respondeu Anúbis.
— Não me diga que está falando de uma das maiores regras de Ma’at. — disse Thoth franzindo as sobrancelhas.
— Infelizmente sim. — respondeu Anúbis soltando um suspiro pesado e irritado ao olhar para Osíris em busca de um posicionamento.
Tudo que Osíris fez foi afirmar com a cabeça e, no segundo seguinte Anúbis já estava longe dali. O destino de Anúbis era o barco que flutuava no Nilo e que até alguns minutos antes havia começado toda aquela confusão.
Ahura gritava desesperada enquanto o soldado que havia pulado na água para salvar a vida de Merab voltava para a superfície com o corpo inerte da criança. Já sem vida, o objetivo da magia havia sido cumprido e o poder de Rá não mais segurava o corpo de Merab no fundo das águas turvas do Nilo. O soldado botou o corpo da criança no chão do barco enquanto a mãe chamava pela criança desesperadamente na vã esperança de ela acordar. As lágrimas que escorriam pelo rosto de Ahura eram tão numerosas que a mulher parecia ter ela mesma pulado no rio para salvar o filho.
Ao redor da cena dolorosa, estavam os soldados e marujos do barco, cabisbaixos e sem esperanças. Devido à dor de Ahura ninguém notou o desespero e a forma frenética que Minkhaf procurava alguma informação no Livro de Thoth. Ele não estava alheio à dor. Apesar de suas tentativas, as lágrimas insistiam em se aglomerar em seus olhos enquanto os dedos percorriam o papiro ansiosamente procurando pelo o que ele acreditava ser a única e mais lógica solução.
Minkhaf passou o pulso esquerdo bruscamente pelo olho evitando que uma lágrima caísse e manchasse o texto do Livro de Thoth e então respirou fundo ao ter encontrado o fragmento de texto que ele achava ser o certo. Sem esperar mais um segundo sequer, Minkhaf começou a proferir o texto mágico antigo, perigoso e secreto. Cada palavra foi dita com calma e intensidade até que todos, menos Ahura, desviaram sua atenção para Minkhaf tentando entender o que estava acontecendo ali.
O texto que Minkhaf lia era grande, complicado. Usava palavras poderosas e antigas de leitura muito complicada. Felizmente, Minkhaf havia recebido toda a educação que o bolso de um faraó como Khufu poderia pagar. E, obviamente, isso significava toda e qualquer educação que o príncipe e seu pai quisessem.
O papiro brilhava reagindo às palavras ditas. Mas não era uma luz dourada, ou mesmo branca, não era pura e confortável. Era vermelha. Perigosa e deixava um gosto amargo na boca a cada palavra dita pelo príncipe.
Lentamente, Minkhaf se aproximava do filho tentando não desviar sua atenção por muito tempo do perigoso texto que lia e parecia sugar sua energia. Foi só aí que Ahura ergueu o rosto choroso e desamparado e olhou para o marido.
— O-O que está fazendo? — perguntou Ahura assustada.
Minkhaf, no entanto, não podia parar de proferir o poderoso feitiço para responder a esposa. Ele estava até com medo de dar algo errado quando teve que abaixar o papiro apoiando-o no chão do barco para que suas mãos, agora brilhando com luz vermelha, pudessem tocar no filho. Uma mão sob o coração, outra na testa.
Com uma respiração profunda, Minkhaf deixou as mãos firmes ali e desviou o olhar para o papiro dizendo então as três palavras finais do feitiço. Quando a última palavra se terminou, houve uma espera dramática de alguns poucos segundos e, repentinamente, o corpo de Merab se move como se acordado por um pesadelo.
O menino senta de vez no colo da mãe e começa a tossir água para fora dos pequenos pulmões.
— MERAB! — exclamou Ahura sem acreditar nos olhos e logo abraçando o filho — OH MEU FILHO! VOCÊ ESTÁ BEM! ESTÁ VIVO!
Aliviado e exausto, Minkhaf caiu de joelhos no chão enquanto todos ao redor olhavam para ele com assombro diante do que tinham presenciado. Não era um mero assombro de quem presenciava algo inexplicável, era o assombro de quem havia presenciado algo proibido que com certeza teria graves consequências.
— Mamãe… o que aconteceu? — perguntou Merab em pura inocência.
— Filho… Merab… filho… — disse Minkhaf apressadamente — ... isso é muito importante. Você lembra onde você estava agora a pouco?
— E-Ela um lugar... b-bonito… — disse Merab se tremendo de frio abraçando a mãe que o abraçava tentando o esquentar — Mas… dava medo...
— Tinha mais alguém lá? — perguntou Minkhaf.
— Tinha. — confirmou Merab — Eles tavam com raiva.
— Eles… eles falaram de… sei lá… vingança? — perguntou Minkhaf e Merab confirmou com a cabeça.
— O que s-significa essa palavra, papai? — perguntou Merab tremendo sem parar sem entender — O que t-tava com mais raiva falou. Vingança e… e… que o Rá pediu. Ordem de rá. Que nem o vovô t-também tem ordem.
— Quem que estava lá? — perguntou Ahura querendo saber — Quantas pessoas?
— Ele tava lá. Era o tio legal que tinha cachorro pra brincar. — disse o menino apontando para fora do círculo que havia se formado ao seu redor.
Todos se viraram em completo assombro e surpresa ao notar que fora do círculo estava mais alguém que com certeza não havia estado ali até então. Com uma expressão claramente irritada e de braços cruzados, Anúbis encarava Minkhaf seriamente. O príncipe engoliu em seco antes de se levantar e ficar entre o deus e a esposa com o filho no colo.
— Eu posso explicar… — disse Minkhaf tentando esconder na voz trêmula o medo que estava sentindo.
— Mamãe… tô com medo… e com frio… — gaguejava a criança — Que lugar ela aquele?
— Ssh… vai ficar tudo bem agora meu pequenino. — dizia Ahura tentando esquentar a criança enquanto olhava para um soldado também tentando esconder o medo que Minkhaf também sentia diante da aparição repentina de Anúbis — Pode por favor pegar um cobertor de peles para esquentar meu menino?
— Sim senhora. — respondeu o soldado.
— Nenhuma explicação que você der vai ser boa o suficiente. — respondeu Anúbis sem desfazer o olhar sério com o qual encarava Minkhaf.
— EU SÓ QUERIA MEU FILHO DE VOLTA! — implorou Minkhaf se ajoelhando diante do deus.
— Mamãe… poquê eu tava na água? — perguntou o menino com um olhar de assombro levando as pequenas mãos até a garganta.
A expressão de terror do menino foi só piorando quando ele, com os olhos sobressaltados, começou desesperadamente a procurar ar sem conseguir fazer nada. A expressão da criança era tão aterrorizante que deixou Ahura imediatamente desesperada.
— Está tudo bem! Está tudo bem Merab! — dizia Ahura desesperadamente tentando abanar o filho com a mão — Só puxar o ar. Devagar! Devagar.
Se Merab deu sinais de ter ouvido a mãe, ele não mostrou. Mas as tentativas dele de puxar ar logo mudaram para um grito alto e agudo de doer os ouvidos de todo mundo. De certa forma, também doía o coração pois era horrível ver uma criança pequena como aquela passando por o que era obviamente uma tremenda dor.
Todavia, tudo se resolveu magicamente quando Anúbis invocou seu cetro, apontou sua ponta para a criança e com um movimento tão sutil que era quase imperceptível, simplesmente tirou a alma do corpo novamente. O corpo da criança caiu flácido nos braços da mãe que soltou mais um grito de desespero de arranhar as partes mais profundas da garganta.
No segundo seguinte, a alma da criança surgiu no colo de Anúbis agarrada ao seu pescoço como se fosse uma bóia salva-vidas. Infelizmente, o olhar do pequeno Merab era vidrado, assustado. O assombro de quem lembrou dos últimos momentos de vida.
— DEVOLVA MEU FILHO! DEVOLVE MEU FILHO! MEU BEBÊ! — gritava Ahura querendo avançar para cima de Anúbis e só não o fez pois um soldado, já pálido pelo o que tinha presenciado, a segurou impedindo que ela cometesse o que era claramente um erro.
Ignorando toda a comoção, Anúbis deu alguns passos em direção à Minkhaf. Os soldados ao redor do príncipe, ao invés de impedirem a aproximação de um estranho até um dos filhos de Khufu, simplesmente abriram espaço. Não precisavam ser muito inteligentes para perceber que ali estava um adversário que seria melhor eles simplesmente deixarem passar.
Em seu colo, Anúbis sentia a criança tremer. O pequeno Merab não parecia mais processar o que acontecia ao seu redor. Estava preso nas memórias de sua morte. Uma sensação que mesmo para um adulto formado poderia ser aterradora. Para uma criança então, era cruel demais. Era isso que deixava Anúbis mais com raiva de Minkhaf. A sensação de total terror que sentia vindo do pequeno Merab que se agarrava nele desesperadamente. Um desespero tão grande que havia conseguido ultrapassar a necessidade da proteção da mãe, algo tão puro e poderoso, e havia implorado inconscientemente pela proteção da morte.
— Eu não ligo para a rixa que tem com Thoth… — disse Anúbis segurando a criança com um braço e apontando ameaçadoramente para Minkhaf com o cetro com o outro braço — Poderia pegar o livro agora mesmo se não fosse o fato de que Rá e Thoth querem te dar uma chance de devolver por conta própria. Você já fez muita coisa errada e questionável até agora que bem sei. Está jogando fora o pouco de chance de rendição que tinha. Não mexa com o que não entende. Sinto muito que seu filho tenha tido que morrer, de verdade… mas não pense que pode sair por aí trazendo os mortos de volta à vida. Você não entende as consequências disso.
Com o alerta dado, Anúbis voltou mais uma vez para o Duat deixando Minkhaf e Ahura mais uma vez envoltos no luto sem perceberem que um pássaro, Thoth, estava observando toda a cena à pouco tempo e havia acompanhado o desfecho dela assim como acompanharia o que viria a acontecer depois que Anúbis foi embora.
Novamente no Salão do Julgamento, a raiva de Anúbis mudou para preocupação com o menino que parecia uma estátua em seu colo. Quando ele chegou, o olhar de preocupação foi compartilhado por Osíris e por Ísis que havia se juntado no tempo que a confusão havia avançado.
— Foi o pai dele mesmo? — perguntou Ísis com a voz doce como sempre.
— Sim. Tentou ressuscitar o filho. Tsc. — resmungou Anúbis — Como que Thoth sabia um feitiço para ressuscitar os mortos?!
— Funcionou direito o feitiço? — perguntou Hórus.
— Não… — respondeu Anúbis olhando com tristeza para o pequeno Merab — Ele entrou em choque ao lembrar da própria morte.
— Merab?... Merab?... — perguntava Ísis gentilmente tentando atrair a atenção do menino com doçura para tirá-lo de seu momento de congelamento.
— Acha que ele vai tentar ressuscitar ele de novo? — perguntou Osíris.
— Se ele tentar… — disse Anúbis — Vai ser por pura teimosia e prepotência de achar que pode ultrapassar o trauma da morte.
— E não podemos julgar a alma do menino ainda para evitar que isso aconteça, pois nenhum rito funerário foi feito. — concluiu Rá com a mão no queixo.
— Sim. — respondeu Anúbis olhando para Ammit que se aproximava curiosa com a pequena alma que estava no colo de Anúbis.
Como se fosse um cachorrinho fofo, Ammit tocou com seu enorme focinho de crocodilo a pontinha do pé de Merab. Esse pequeno ato, tão simples mas feito por um animal tão diferente, foi a primeira coisa que atraiu qualquer atenção de Merab. Os olhos arregalados e assustados do garoto pararam de fitar o nada e passaram a fitar o olhar carinhoso e curioso de Ammit. Um olhar que certamente não se esperava achar num demônio devorador de corações.
— Merab, essa é Ammit. — disse Anúbis torcendo para que o menino estivesse escutando — Ela na verdade é bem legal mas prefere dormir à brincar.
A pequena mãozinha de Merab parecia ficar indecisa entre agarrar-se ao pescoço de Anúbis ou soltá-lo para esticar na direção de Ammit na tentativa de fazer carinho. Notando isso, Anúbis se agachou para que o menino ao menos estivesse numa altura boa para de fato conseguir tocar em Ammit. O olhar assombrado de Merab seguiu a demônia devoradora de corações quando ela se aproximou com seu focinho da bochecha dele acariciando-o gentilmente.
Preocupada com a saúde mental da criança, Ísis se aproximou e ficou observando a cena. Um olhar de preocupação e atenção que ela trocou com Anúbis disse tudo no silêncio. Era melhor ir com calma, mas qualquer coisa ela estava ali.
Gradualmente menos assustado, Merab soltou uma das mãos e esticou até fazer carinho no focinho escamoso de Ammit. Mas nenhum traço de alegria surgiu no rosto da criança.
— O certo seria deixar a alma da criança vagando até que todos os ritos funerários sejam completados. — disse Osíris — Mas não é uma boa ideia. E só para fazer uma múmia leva dias.
— Ainda tem o perigo de eles não fazerem nenhuma cerimônia para ele. — comentou Hórus.
— Acho improvável. — rebateu Anúbis — É o neto de Khufu afinal de contas. Mas, de toda forma, não podemos deixar essa criança vagando por dias no mundo mortal nesse estado. — respondeu Anúbis — O ideal é ela ficar aqui no mundo dos mortos. Ao menos no lugar onde pertence ele pode não… adentrar de vez no trauma…
— Tão pouco pode ficar vagando por aqui sozinho. — disse Hórus — Temos julgamentos para fazer. Assuntos para resolver. E não podemos o julgar enquanto o corpo não ficar pronto.
— Eu cuidarei dele. — prontificou-se Ísis sem pensar duas vezes — Ele precisa de atenção, carinho e tempo. Darei isso à ele. Ele ficará comigo, aqui. Não irá atrapalhar em nada e poderá relaxar e sorrir de novo até que a vez dele de ir para o Aaru chegue.
— Gosto da ideia. — respondeu Rá com um pequeno sorriso.
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