A Modern Myth

1 Capítulo único


Todos sabiam que aquele era o fim do mundo. Não havia outra forma de chamar aquilo.

Yao imaginou aquele momento muitas vezes. Como ele seria, quando aconteceria. Ele imaginava que eles seriam estúpidos o suficiente para destruir uns aos outros em alguma última Guerra Mundial. Sim, eles provavelmente fariam isso. Eles tentaram isso várias vezes ao longo da história, não tentaram?

Mas não. Eles iriam conhecer seu fim de outra forma. Uma punição dos céus, provavelmente. Alguns chamariam aquilo de Apocalipse, mas ele não acreditava num Deus para destruir sua própria criação. Era apenas a Terra em si morrendo, como qualquer outra criatura viva. E eles iriam morrer com ela.

Os relatos indicavam que uma onda enorme iria atingir a costa em questão de minutos. Ele nunca seria capaz de evacuar todas as cidades, e mesmo se pudesse, os terremotos e tempestades estavam acontecendo em todo lugar, sem nenhum tipo de explicação racional. Era apenas questão de tempo. Semanas, talvez meses, mas em breve todos desapareceriam também.

Era apenas justo desaparecer com seu povo, pelo menos.

Ele olhou para o mar. Grandes ondas se chocavam com a praia, sem piedade. O vento estava frio, muito frio. Iria doer quando a maior delas o atingisse? Seria rápido? Ele teria, pelo menos, a dádiva de morrer sem dor? Era um tipo de anti-clímax, terminar daquela forma.

Depois de tantas coisas... depois de séculos e séculos de história. Lutas, e descobertas, momentos de dor e alegria... estaria ele pronto para deixar tudo para trás?

"Não seja tolo, Yao", ele sorriu para si mesmo. "Não importa se você está pronto ou não."

Ele não esperava que ninguém estivesse lá. Quem seria louco o bastante de correr para a tempestade, de qualquer forma? E ele jamais esperaria ouvir passos atrás de si. Alguém estava correndo em sua direção, e ele se virou para ver.

Ivan.

Por que ele estava lá? Por que ele não estava com o seu próprio povo? Yao não conseguiu dizer nada, mas no momento seguinte, Ivan estava puxando-o pela mão.

"Precisamos achar um lugar seguro, Yao!", ele disse, com pânico na voz. "Por que você ainda está aqui? Só temos alguns minutos antes do impacto!"

"Yiwan, não!", ele puxou a mão. "Eu não vou a lugar algum. O que eu não consigo entender é por que diabos você está aqui, ao invés de tomar conta do seu próprio país!"

Ele olhou para o rosto de Ivan. Ele parecia devastado. Yao sabia que havia muitas tempestades e terremotos acontecendo na Rússia também. Ele estava pálido, e parecia completamente exausto.

E então, ele entendeu aquele olhar.

Ele também sabia que não havia mais nenhuma esperança.

"Por favor... vá", ele disse, numa voz baixa, evitando os olhos de Ivan. "Deve haver algum lugar para você se esconder. Mas eu devo ficar aqui. Vá para casa. Seu povo precisa de você, talvez você possa salvá-los."

"Eu não posso voltar", ele murmurou. "Eu fiz tudo o que podia. Mas eu sei, e você sabe, que isso não vai ajudar em nada. Estamos apenas fingindo que podemos salvá-los quando na verdade não podemos."

"Se você sabe, por que está aqui?!", ele se virou para encarar o outro, subitamente irritado. "Por que? Você poderia ter pelo menos a decência de morrer ao lado do seu povo, como uma nação deveria fazer!"

Por um momento, Ivan abriu a boca, como se fosse dizer algo. E então, ele sorriu, quebrando as defesas de Yao com um único golpe.

"Eu não acho que isso importe ainda. Não somos diferentes deles. Se você pudesse escolher, você não preferiria partir ao lado de alguém importante para você?"

Ele não conseguiu responder àquela pergunta.

Olhando para o mar, ele notou as ondas crescendo mais e mais. Começou a chover também. Eles não tinham mais muito tempo.

"Que forma patética de terminar, não é?", ele deu uma risadinha amarga. "Pensávamos que poderíamos destruir uns aos outros, e então a Mãe Natureza vem e nos coloca nos nossos lugares. É irônico."

"Acho que é a ordem natural das coisas." Ivan soava calmo, como se já tivesse aceitado aquilo. "Mas eu devo dizer que nunca imaginei que veria o fim do mundo. Se você pensar a respeito, é um momento muito solene."

"...você acha?", Yao sorriu quase conta a vontade. "Isso é inesperado."

"É claro. Os outros que vieram antes de nós não puderam presenciar isso. Nós veremos o mundo mudando de uma forma que ninguém mais viu."

Yao não disse nada por um momento, enquanto pensava nas palavras de Ivan. Ele certamente tinha um ponto ali. Mas... era tão fácil assim para ele aceitar tudo aquilo?

Não. Não era. E ele descobriria isso no instante seguinte.

"Yao, precisamos sair daqui". A voz dele mudou. "Venha comigo, precisamos nos esconder."

"Eu já disse que não vou a lugar algum. É inútil."

"Não, não é!"

"O que é isso agora? Você parecia aceitar isso muito bem alguns segundos atrás!"

"Você nunca entenderia!"

"Então por que você não tenta me explicar?"

Quando ele se deu conta, ele estava gritando com Ivan. Droga. O mundo caindo aos pedaços e ele estava gritando com a outra nação por um motivo estúpido. Que patético. Ele desviou o olhar, sentindo vergonha do próprio comportamento, mas as palavras que Ivan disse o fizeram encará-lo em completo choque.

"Eu não quero te ver morrer, é por isso!"

"Você se preocupa comigo? Droga, Braginsky, onde estão suas prioridades?!"

"Eu só não quero mais continuar essa luta inútil!", Ivan começou a gritar também, com desespero na voz. "Estou aqui pela mesma razão que você, a diferença é que eu não sou tão egoísta a ponto de ignorar todos ao meu redor!"

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, porém, Ivan olhou para o mar. Ele estava recuando. A onda estava vindo. Yao olhou na mesma direção, mas Ivan simplesmente o puxou pelo braço e começou a correr outra vez.

Aquilo era inútil. O lugar seguro mais próximo estava a pelo menos três milhas de distância. Mas, mesmo assim, Ivan estava correndo. Havia um mirante numa colina. Frágil demais, sem paredes, apenas um telhado de madeira. Ivan não pensou nisso, e continuou correndo, ainda puxando Yao pela mão.

...por que eles ainda estavam correndo?

Por que eles ainda estavam lutando e se agarrando àqueles momentos finais?

Eles finalmente chegaram ao mirante. Um espetáculo terrível, mas ainda assim belíssimo, podia ser visto daquele ponto. A fúria do mar e do vento eram assustadoras. Yao se sentiu menor do que nunca. Mesmo ele, a mais sábia das nações, teve que se curvar ante aquele cenário. Por instinto, ele se agarrou a Ivan, escondendo o rosto no peito dele.

Ele estava assustado. Apavorado. Ele não queria que tudo terminasse. Não... ainda.

E, a julgar pela forma como Ivan o abraçou, ele sentia o mesmo.

"Me diga que vai tudo ficar bem", ele sussurrou. "Por favor. Minta para mim. Eu só quero ouvir alguém me dizer que vai ficar tudo bem..."

Ivan ficou em silêncio por um momento, antes de responder:

"Está tudo bem. Eu estou aqui. Eu vou te proteger." Aquela não era a resposta que ele esperava. "Eu vou te proteger..."

"Idiota", ele murmurou, com um sorriso triste. "Tem um limite para o quanto você mentiria para mim."

"Bem, você não me disse nada antes, bobalhão", Ivan riu também. "E... não é uma mentira. Eu vou te proteger. Nesta vida e na próxima."

"Uma próxima vida...? Você acredita nisso?"

"Eu estou tentando ao máximo acreditar nisso agora."

"E...", Yao olhou para a praia outra vez. A onda estava se formando, ainda distante mas crescendo mais e mais a cada segundo. "Você acha que merecemos isso?"

"Acho que sim." A voz dele baixou. "Quer dizer... depois de tudo, seria o mais justo."

"Depois de tudo." Aquelas palavras ressoaram na mente de Yao. Tudo. Toda ação, decisão, escolha, desilusão. E tudo culminou naquele momento específico. Valia a pena?

Como uma nação, a resposta era óbvia. Sua história e seu povo falavam por si mesmos. Mas agora, ele não era mais uma nação. Naqueles poucos momentos finais, ele podia chamar a si mesmo de humano.

E para aquele humano... valia a pena?

Naquele momento, ele percebeu que não tinha mais medo. E nem Ivan tinha.

Ele olhou nos olhos do russo por um moment, e então a onda, e então os olhos dele outra vez. E ele percebeu que jamais seria capaz de enfrentar aquilo sozinho. Ivan sorriu — o mesmo sorriso de sempre, gentil mas com algo difícil de descrever, algo mais profundo.

"Estou feliz de você estar aqui", ele murmurou. "Muito obrigado."

"Não é nada de mais", Ivan respondeu. "Você é importante para mim, eu já disse."

"Está com medo?"

"Não mais. Você está aqui comigo. Significa que você vai me proteger também."

"Eu vou. Nesta vida e na próxima."

Eles já podiam ouvir a onda se aproximando, mas não olhariam para ele. Eles estavam perdidos nos olhos um do outro, seus corpos ainda unidos num último e desesperado abraço. O som foi ficando mais e mais alto, e eles apenas fecharam os olhos, escondendo os rostos um no ombro do outro.

E quando a onda os atingiu, não houve dor. Realmente era uma bênção.

Seus corpos nunca seriam encontrados, mesmo se alguém tentasse procurar por eles. Não haveria muitas pessoas para sair e procurá-los, de qualquer forma. Mas, como nações, eles não deixariam um corpo para trás. Eles simplesmente desapareceram na onda, se tornando parte dela, parte do mundo deles.

Uma parte que seguiria em frente, de alguma forma. Uma parte que permitiria ao mundo renascer, depois do fim.

Eles tinham uma promessa a manter.

E uma próxima vida a cumpri-la.

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